Glee: fórmula nova, velhos preconceitos.

Elenco da 4ª temporada de Glee. FOX/Divulgação.
Elenco da 4ª temporada de Glee. FOX/Divulgação.

**Este texto possui spoilers da quarta temporada de Glee, que ainda não foi lançada no Brasil.

Desde que estreou na TV norte-americana, em 2009, o seriado Glee tem sido elogiado e recebido diversos prêmios por seu caráter tolerante e de respeito às diferenças. A história, sobre um clube de coral recém-reativado no colégio William McKinley High School inovou ao relatar a passagem escolar sob o ponto de vista dos alunos “fracassados” e por isso conquistou o carinho de milhares de adolescentes e jovens adultos que de alguma forma também não se encaixam nesse padrão magro, branco e heterossexual de normalidade.

Sua boa dose de humor, performances musicais que surgem do nada e as atitudes questionáveis dos personagens principais evitam que Glee caia no clichê maniqueísta de coitadinhos injustiçados. É muito comum se pegar odiando a estrela do grupo, que lamenta não ter muitos amigos, mas passaria por cima da própria mãe para conseguir um solo, e ao mesmo tempo simpatizar com a bully que se esconde por trás de uma máscara de agressividade para não ter que lidar com os sentimentos não correspondidos pela melhor amiga.

No entanto, está cada vez mais difícil acreditar que o autor Ryan Murphy e sua trupe têm um real interesse em sensibilizar o telespectador sobre as consequências do bullying e mais óbvio ainda que ele apenas explora as demandas de minorias oprimidas para atrair audiência. Ao longo desses três anos Glee tem se mostrado um show de horrores racista, machista, homofóbico, transfóbico e ofensivo a portadores de necessidades especiais, muitas vezes na forma de “piadas” inconsequentes apenas para quem não está na outra ponta da “brincadeira”.

Alguns problemas encontrados na série:

Tokenismo

Tokenismo é quando você inclui falsamente uma minoria historicamente discriminada para ser usada como troféu de que você é tolerante e sem preconceitos. Exemplo: quando um filme apresenta um único ator negro entre dezenas de atores brancos ou quando uma empresa contrata uma funcionária para trabalhar em um ambiente totalmente masculino.

Glee tem um dos elencos mais diversos da televisão norte-americana, com personagens brancos, negros, latinos, asiáticos, gordos, judeus, católicos, homossexuais, cadeirantes, portadores de síndrome de Down e, mais recentemente, transexuais. Ainda assim as principais histórias, aquelas que mereceram continuidade (já que a série parece sofrer também de TDAH) são as que envolvem personagens brancos, heterossexuais e magros.

Na segunda e terceira temporadas dois casais homossexuais ganharam evidência, mas o primeiro (Kurt e Blaine) é formado por garotos brancos e o segundo (Santana e Brittany) por uma latina e uma branca. Todos eles são lindos, mas cada casal só apareceu se beijando em duas cenas, sendo que no caso das lésbicas, apesar delas namorarem desde o início da terceira temporada e de sabermos que elas ficam desde a primeira, o beijo só aconteceu no episódio 13 da terceira temporada.

As demais minorias, se receberam algum destaque, este não passou de um ou dois episódios que depois foram varridos para debaixo do tapete. Rachel, baixinha, “cheinha” lá no início da série e “nariguda” não é o exemplo de beleza hollywoodiana que se espera de uma protagonista, mas ainda assim é heterossexual, branca e está longe de ser considerada feia.

Lesbofobia

Setores conservadores sempre criticaram Glee por ser imoral e promover uma suposta “agenda gay” e mesmo alguns fãs reclamam constantemente que o programa é “gay demais”. Enquanto tais comentários dizem mais sobre quem os vocaliza, não é segredo que a série é famosa e celebrada por relatar os desafios de ser um jovem homossexual como mais do que um simples pano de fundo.

Quando o ex-bully David Karofsky tentou suicídio, após os alunos de sua nova escola descobriram que ele era gay e lotarem seu Facebook de comentários raivosos, todos se sentiram abalados, acreditando que poderiam ter feito mais pelo garoto e que deveriam ter percebido nas suas atitudes um pedido de ajuda. Então, por que quando o menino de ouro Finn Hudson passou um episódio inteiro importunando a Santana para que ela saísse do armário, depois de ter revelado que ela era lésbica em um corredor cheio de gente, todos agiram como se não fosse nada demais, apenas uma prova do grande amigo que ele é?

I Kissed a Girl foi um dos episódios mais ofensivos que Glee já produziu. Quem é Finn Hudson, um homem hetero e popular, para dizer que a Santana tem que sair do armário? Se ele queria apoiá-la, porque não dar um abraço, dizer que estará ao lado dela e, principalmente, pedir desculpas? E onde estava a Brittany, a namorada da Santana, nesse tempo todo? Se Heather Morris teve duas falas foi muito. E como um episódio chamado “Eu beijei uma garota” não tem, sei lá, duas garotas se beijando?

Uma vez eu li que “I Kissed a Girl” não é uma música sobre uma lésbica descobrindo a própria sexualidade, mas sobre uma mulher heterossexual que decide beijar outra garota para que o namorado possa se masturbar imaginando a cena. E é difícil não acreditar que foi exatamente disso que se tratou o episódio, principalmente se repararmos na expressão dos garotos enquanto as meninas cantavam:

Finn durante a performance de I Kissed a Girl. FOX/Divulgação.

Transfobia

Desde a primeira temporada personagens que não se encaixam nos papéis tradicionais de gênero são insultados e ridicularizados. Vemos isso com Shannon Beiste (cujo sobrenome tem a mesma pronúncia de beast, monstro), a técnica do time de futebol americano que é gorda, grande e “masculina” e até mesmo com Sue, que não corresponde ao estereótipo de mulher delicada e cheirosinha.

Enquanto alguns podem dizer que as dúvidas a respeito da sexualidade de Shannon são algo claramente ofensivo e não defendido pela série, os comentários sobre Sue aparecem geralmente na forma de piadas. Em Bad Reputation, na primeira temporada, um vídeo da treinadora dançando a música Physical, da Olivia Newton John, recebeu um comentário afirmando que “O homem nesse vídeo parece a campeã das Cheerios Sue Sylvester”, seguida de um close na expressão risonha do professor inclusivo Will Schuester. Na terceira temporada, quando Sue informa a decisão de engravidar, duas pessoas perguntam “com a vagina de quem?”.

No episódio The Rocky Horror Glee Show, em homenagem à comédia musical Rocky Horror, algumas músicas tiveram seu conteúdo adaptado, já que a peça dos anos 70 é considerada muito sexualizada. A letra de Sweet Transvestite foi censurada de “I’m just a sweet transvestite, from Transsexual, Transylvania” para “I’m Just a sweet transvestite, from Sensational, Transylvania”. No entanto, neste mesmo episódio, o personagem Mike Chang, que iria interpretar o Dr. Frank-N-Furter, avisa que os pais o proibiram de participar da peça porque não acharam legal ele se vestir como uma tranny, termo altamente pejorativo.

Mais tarde, no final da terceira temporada, somos apresentados a um novo personagem. Wade Adams é seu nome de batismo, mas desde o início ela conta que sua verdadeira identidade é feminina. “Desde pequena eu brincava de ser outra pessoa, a pessoa que eu sonhava ser, quem eu sou de verdade. Eu até tinha um nome diferente: Unique”.

Unique procura Kurt e Mercedes para pedir um conselho. Ela quer se apresentar na competição de corais usando vestido e salto, mas não sabe se deve. Kurt e Mercedes afirmam que não é uma boa ideia, já que Ohio é um estado muito conservador, e vão até a competição garantir que Unique – Wade, como eles insistem em chamá-la, não faça isso. Quando Kurt tenta dissuadi-la, dizendo que sim, ele já havia se vestido com muitas roupas ousadas, mas nunca como mulher, Unique é rápida em responder “É porque você se identifica como homem”.

Mesmo assim, todos continuam a tratar Unique apenas como uma personagem, o alter ego de Wade Adams, chegando ao cúmulo de, no episódio Props, duas vezes se referirem a ela pela forma desumanizadora he/she. Ninguém questiona, ninguém diz que é ofensivo, não há um esforço da série em informar que Unique é uma mulher transexual, e que este não é um palavrão a ser evitado para não ferir os ouvidos sensíveis de jovens adolescentes.

Machismo e Misoginia

Assim como vários outros produtos da indústria cultural, Glee está recheado de falas e atitudes sexistas que nem sequer merecem ser transformados em piada, pois são frutos de um machismo estrutural, disfarçados sob o discurso do “é assim que as coisas são” ou do “você está vendo pelo em ovo”.

São pequenos detalhes que isolados talvez não incomodassem tanto, mas que soam um tanto contraditórios em um programa que se vende como progressista. Como exemplo há o fato de que, ao contrário da Santana, ninguém tenha dito para o Puck que ele só conseguirá um emprego como pole dancer ou que, diferente da Brittany, todos tenham se mobilizado quando descobriram que o mesmo Puck estava prestes a reprovar de ano.

Em Yes/no Sue sugere que Emma peça Will em casamento, mas ao comentar isso com o namorado, este dá uma risada como se a ideia fosse absurda. Em Nationals, após um ano de relacionamento, o casal finalmente tem sua primeira vez, que Emma resume com um “eu só achei que o meu homem é um vencedor e merece ser tratado como tal”, reduzindo a virgindade de uma mulher misofóbica e que sofre de transtorno obsessivo compulsivo a um mero troféu.

Já em Dance With Somebody, Joe Hart tem uma ereção ao ajudar a colega cadeirante Quinn Fabray na fisioterapia. Confuso e em conflito com a moral cristã que recebeu em casa, onde era muito mais fácil resistir à tentação (mas nem um pouco envergonhado de objetificar Quinn) Joe se aconselha com Sam Evans, que, com um discurso bem próximo ao de estupradores, justifica que na época em que a Bíblia foi escrita tudo era mais fácil. “Não existia internet e as garotas não usavam minissaia. Eu sou um bom cristão, mas não tem como um cara resistir”.

No episódio Props, Tina se cansa de ficar dançando ao fundo enquanto todos os solos são entregues a Rachel e decide não participar das Nacionais. A estrela, então, corre atrás dela e começa a discorrer sobre como é exaustivo ser a Rachel, listando uma série de atividades que precisa realizar todos os dias. Lá, entre ter memorizadas as músicas de artistas como Sondheim, Elton John e Katy Perry e ser a capitã de 16 clubes da escola, ela inclui o dever de manter o namorado interessado e fisicamente satisfeito.

Finn pede para Rachel abandonar o sonho de uma vida para que ele possa limpar piscinas, argumentando que mesmo que ela não consiga um emprego, ele poderá sustentá-la. Dois episódios antes, eles haviam discutido porque Finn se ofendeu quando Rachel deu a entender que ele não teria um trabalho quando se mudassem para Nova York. Rachel acaba aceitando esperar até que o namorado decida o que quer da vida, mas ao invés de fazer um mínimo de esforço, ele joga os panfletos das universidades no lixo antes mesmo de ler, embora continue reclamando que não tem planos para depois da graduação. O episódio termina com a Rachel dizendo que Finn é um herói.

Finalmente, quando Sue informa que decidiu engravidar, a técnica do nado sincronizado, Roz Washington, encontra a oportunidade de despejar uma série de comentários misóginos sobre a sua idade, apresentados como algo cômico e até mesmo merecido. “O que você precisa fazer é acordar e cheirar a sua menopausa. Você está ultrapassada como treinadora e todos esses hormônios tailandeses não mudam o fato de que você está ultrapassada como mulher. Você precisa começar a rezar porque você irá dar a luz uma criança que gosta de comer areia, porque isso é tudo que vai sair desses seios velhos e enrugados”.

Há vários outros problemas na série, mas este texto já está ficando grande. Depois de passar duas temporadas praticamente calados, os personagens asiáticos (que além de serem namorados, têm o mesmo sobrenome – embora uma seja coreana e o outro chinês) finalmente ganharam um destaque todo trabalhado no estereótipo, com direito ao pai exigindo que o filho fizesse exames anti-drogas diários porque tirou um A- (ou zero asiático) na prova de química. E não precisa nem mencionar a única personagem negra. Mercedes às vezes reclama quando os solos são dados para a Rachel, mas fora um relacionamento muito mal desenvolvido com Sam Evans, não sabemos mais nada sobre sua vida.

“Você deve estar se perguntando por que a minha voz se parece com a da rainha da Inglaterra”. FOX/ Divulgação

Também foi com um misto de ultraje e vergonha alheia que eu assisti a atriz Hellen Mirren narrando a voz interior de Becky Jackson, uma aluna com síndrome de Down, interpretada por Lauren Potter. Ou que Sue, ao criticar a prova de álgebra da Brittany, tenha usado a nota da Becky como parâmetro, como se ela devesse sentir vergonha por tirar uma nota mais baixa do que alguém com Down. Aliás, apesar de ser a grande bully da escola, Sue consegue sair ilesa da maioria de suas ofensas porque todos “sabem” que no fundo ela é uma boa pessoa, e porque aparentemente nós devemos achar suas falas engraçadas, tanto que Jane Lynch recebeu diversos prêmios como melhor atriz de comédia.

Engraçado mesmo é que na nova temporada, quando os membros do coral fazem piadas maldosas sobre o tamanho da nova funcionária da cantina, isso é visto como um sinal de que a popularidade talvez esteja sendo uma má influência; mas quando Shannon, depois de ter sofrido violência doméstica, diz que não vai se mudar para a casa de Sue, esta responde que arruinou uma barraca fazendo um buraco para o pescoço da “amiga” e que não sabe o que vai fazer com os nove frangos inteiros guardados em sua geladeira. E nós devemos acreditar que é só a Sue sendo ela mesma.

Aliás, embora meu feminismo tenha gostado de vê-los falando sobre violência doméstica, a forma como abordaram o tema foi, na minha opinião, totalmente equivocada. Sue e Roz se unem para desenvolver um exercício com quatro alunas que riram do olho roxo de Shannon. A lição? Cantar músicas empoderadoras, que deixem claro que, se bater uma vez, não vai haver uma segunda. Aparentemente, daria muito trabalho propor uma campanha ensinando os homens a não baterem.

Enfim, pode não parecer, mas eu (ainda) gosto muito de Glee. Baixo os episódios e as músicas, leio fanfictions, acompanho as páginas do Tumblr, e talvez por isso mesmo seus erros me incomodem tanto. Glee não é como Two and a Half Man ou Two Broke Girls, ou mesmo Zorra Total, para ficar em um exemplo brasileiro. Essas séries nunca tiveram o menor compromisso com a diversidade e não estão nem aí se tem alguém sendo humilhado. Mas outro dia estava passando Glee, o filme na TV e nele vários jovens davam depoimentos sobre como a série os ajudou a encarar momentos difíceis e a superar seus problemas de autoestima, como eles aprenderam que não há nada de errado em ser gay, ou nerd, ou mesmo em ter TOC. E me preocupa que as pessoas possam fechar os olhos para esses preconceitos porque, afinal de contas, “É Glee! Veja o tanto de coisas boas que eles promoveram!”.

10 Razões pelas quais o resto do mundo pensa que os EUA são loucos

Tradução do texto “10 Reasons the Rest of the World Thinks the U.S. Is Nuts” por Soraya Chemaly. Publicado no site Huffington Post em 15 de março de 2012.

Nesta semana a assembléia legislativa da Georgia debateu um projeto de lei que tornaria necessário, para algumas mulheres, carregarem fetos mortos ou que estejam morrendo até que elas “naturalmente” entrem em trabalho de parto. Ao argumentar a favor do projeto, o deputado Terry England descreveu a sua empatia por vacas e porcas prenhas na mesma situação.

Soraya Chemaly - @schemaly

Eu tenho uma pergunta para Terry England, Sam Brownback, Rick Santorum, Rick Perry e muitos outros: eu tenho três filhas, duas delas gêmeas. Se uma das minhas gêmeas tivesse morrido no útero os senhores me obrigariam a carregá-la até o parto, colocando em perigo, dessa forma, tanto a outra gêmea quanto a mim? Ou os senhores teriam insistido que o Estado ordenasse uma extração obrigatória do feto da gêmea viva para que eu pudesse continuar carregando o feto morto e possivelmente acabar morrendo também? Minha família está curiosa e, já que os senhores acham que meu útero é propriedade pública, eu também.

Sr. England, ao contrário de bezerros e porcos pelos quais o senhor expressou tanta empatia, eu não sou um burro de carga. Eu sou uma mulher e eu tenho os seguintes direitos humanos:

O direito à vida

O direito à privacidade

O direito à liberdade

O direito à integridade corporal

O direito de decidir quando e como me reproduzir

Sr. England, o senhor e seus amigos não podem negociar esses direitos, enquanto “caçam cachorros e javalis”, em troca das galinhas de um rapaz.

Meus direitos humanos valem mais do que o senhor e o estado corruptamente e cinicamente querem designar para uma massa de células em divisão que irá eventualmente se tornar uma pessoa “natural”. Leis baseadas em personalidade civil para zigotos e legislações relacionadas, como essa da Georgia e centenas de outras, projetos e leis que criminalizam gravidez e aborto e penalizam mulheres por serem mulheres violam meus direitos humanos.

Só porque o senhor não pode engravidar, não quer dizer que eu não possa pensar claramente, eticamente, moralmente, racionalmente sobre o meu corpo, a vida humana ou as consequências dos meus atos. Só porque o senhor não pode engravidar não quer dizer que eu não tenha direitos quando eu estou grávida. Eu tenho responsabilidade, mas não tenho poder. O senhor tem poder, mas é irresponsável com os meus direitos.

Ao não confiar em mim, o senhor me obriga a confiar no senhor. E o SENHOR não é digno de confiança.

Eu gero humanos, o senhor, não. Eu sei como é estar grávida. O senhor não. Eu sei o que acontece com um feto no ventre. O senhor não. Eu carreguei três fetos até o final. O senhor não. O que eu vivencio quando eu estou grávida não é empatia. É permeabilidade. O feto sou eu. E o estado é o senhor, aparentemente. Mas não importa o que o senhor diga ou faça, eu tenho direitos humanos fundamentais. O que faz você pensar que o senhor, que não pode passar por essa experiência humana, pode me dizer o que quer que seja sobre gestação ou como eu a vivencio? Especialmente quando o senhor compara a minha existência e experiência com a de animais brutos.

O restante do mundo civilizado pensa que este país perdeu a cabeça. Não é de se espantar. Veja esta lista de misoginia descontrolada.

1. Obrigar mulheres a carregarem fetos mortos até o final da gravidez porque vacas e porcas o fazem. Nesta semana, Sr. England, o senhor apoiou um projeto cujo balanço final, em conjunto com outras restrições, resultará em médic@s e mulheres tornarem-se incapazes de tomar decisões privadas e com base médica sobre tratamentos intensivos e algumas mulheres serão efetivamente forçadas a carregarem seus fetos mortos ou que estejam morrendo. Mulheres são diferentes de animais, Sr. England, e esse projeto, exigindo que mulheres carreguem fetos mortos ou que estejam morrendo é desumano e antiético. Ao forçar uma mulher a fazê-lo o senhor está violando o direito dela de não ser submetida à tortura e tratamento desumano. E, sim, carregar um feto humano até o fim involuntariamente, embora não seja tortura para o senhor ou para uma porca, é tortura para uma mulher. É também violação da sua integridade corporal e uma ameaça à sua vida e, dessa forma, viola seu direito à vida.

2. Condenar mulheres à morte para salvar um feto. Abortos salvam vidas de mulheres. Projetos de lei “deixem as mulheres morrerem” estão sendo propostos em todo o país. Não há uma forma simples ou bonita de dizer isso. Todo dia, em todo o mundo, mulheres morrem porque elas não têm acesso a aborto seguro. Ainda assim, aqui estamos nós, voltando à idade das trevas do sacrifício materno. Eu realmente tenho que escrever esta sentença: isso é uma violação do direito fundamental das mulheres à vida.

3. Criminalizar a gravidez e abortos espontâneos e prender, aprisionar e acusar mulheres que sofrem abortos espontâneos por assassinato, como Rennie Gibbs no Mississippi ou pelo menos outros 40 casos similares no Alabama, ou como Bei Bei Shuai, uma mulher que agora está presa, acusada de assassinato por ter tentado o suicídio quando estava grávida. Mulheres grávidas têm se tornado uma classe especial, objeto de leis “especiais” que infringem os direitos fundamentais das mulheres.

4. Forçar mulheres a se submeterem à penetração vaginal involuntária (também conhecido como estupro) com um transdutor de ultrassom de 15 a 20 cm coberto com uma camisinha. A Pennsylvania está atualmente considerando essa opção, junto com outros 11 estados. Ultrassons transvaginais feitos sem o consentimento da mulher é estupro de acordo com a definição legal da palavra. Isso viola a integridade corporal da mulher e é também tortura quando usado, como os estados sugerem, como uma forma de controle e opressão. Mulheres têm o direito de não serem estupradas pelo estado.

5. Causar invalidez em mulheres ou sacrificar as suas vidas ao negar tratamento médico ou forçá-las a se submeterem a procedimentos médicos involuntários. Nós impomos às mulheres uma obrigação desigual de sacrificar sua integridade corporal em nome de outros. Por exemplo, como em Tysiac v. Poland, no qual uma mãe de duas crianças ficou cega porque um médico se recusou a realizar o aborto que ela queria e que teria interrompido o curso de uma doença ocular degenerativa. Se o meu recém-nascido precisar de um rim e o senhor tiver um extra compatível, eu posso decretar uma legislação que diz que o estado pode tirar o seu e dar à criança? Não. Nós não forçamos pessoas a doar seus órgãos para beneficiar outras pessoas, mesmo aquelas que já nasceram. Um dos direitos humanos mais fundamentais é que humanos sejam tratados igualmente perante a lei. Negar esse direito a uma mulher é uma violação do seu igual direito a essa proteção.

6. Dar direitos de “personalidade civil” para zigotos ao mesmo tempo em que privam sistematicamente as mulheres de seus direitos fundamentais. Há muita coisa a dizer sobre os perigos de ideias de personalidade civil invadindo políticas de saúde para fazê-lo aqui. Mas, pense no que acontece com uma mulher cujo ventre não for considerado o “melhor” ambiente para um feto em gestação em um mundo de legislações de “personalidade civil” para zigotos: quem decide qual é o melhor ambiente – o estado, o plano de saúde, o empregador, o estuprador que decide que quer muito se tornar um pai? Qualquer um, menos a mulher.

7 – Inibir, humilhar e punir mulheres por suas decisões de fazer um aborto por qualquer razão ao cobrar taxas especiais para abortos, incluindo abortos requeridos por vítimas de estupro para terminar sua inseminação involuntária, impor exigências restritivas como um período de 24 horas de espera e autorizar médic@s a mentirem para pacientes mulheres sobre seus fetos a fim de evitar processos. No Arizona, Kansas, Texas, Virginia, Colorado, Arkansas e outros estados em todo o país, projetos de leis que fazem mulheres “pagarem” por suas escolhas são abundantes.

8. Permitir que empregadores invadam a vida pessoal de mulheres e apenas paguem o seguro-saúde quando eles não se opuserem, por razões religiosas, com o método escolhido por elas de controle de natalidade. No Arizona, que implantou uma lei dessas esta semana, isso significa cobrir o pagamento de anticoncepcionais apenas como benefício para mulheres que tenham provado que não irão usá-lo para controlar a própria reprodução (por exemplo: como controle de natalidade). Embora eu esteja muito preocupada com mulheres e famílias no Arizona, eu estou mais preocupada com aquelas no Alabama. Veja só, como revelado recentemente em uma enquete pública no Alabama, evangélicos conservadores que apoiam a “personalidade civil” relacionada à legislação “pró-vida” estão lutando por sua “liberdade religiosa” – 21% pensam que casamento inter-racial deveria ser ilegal. Então, se eles decidirem que um empregado envolvido em um casamento inter-racial não pode, por mandamento divino, reproduzir? Eles invertem e fornecem controle de natalidade para esse empregado? Eles tornam a contracepção um contrato de emprego necessário para pessoas em um casamento inter-racial? Isso viola o direito das mulheres à privacidade. Meu útero é um milhão de vezes mais privado que os seus quartos, senhores.

9. Sacrificar toda a saúde de mulheres e o bem-estar de suas famílias para impedi-las de exercer seu direito fundamental de controlar o próprio corpo e reprodução. O Texas fez exatamente isso quando cortou 35 milhões de dólares de fundos federais, garantindo, dessa forma, que 300.000 texanas de baixa renda e sem seguro tenham nenhum acesso ou acesso reduzido a cuidados básicos de prevenção e reprodução.

Foto de Jason DeCrow/Associated Press

10. Privar as mulheres de sua “habilidade de ganhar a vida” e sustentar a si mesmas e suas famílias. Projetos como esse no Arizona permitem que empregadores demitam mulheres que usem contracepção. Mulheres, como estas aqui, estão sendo demitidas por não usarem.

Os senhores ousam condenar as minhas e as suas filhas a servirem como animais reprodutivos.

Isto é sobre sexo e propriedade, não vida e moralidade. Sexo porque quando mulheres fazem sexo e querem controlar a própria reprodução, isso ameaça estruturas sociais poderosas que se apoiam no controle e acesso patriarcal sobre as mulheres como máquinas reprodutivas. O que nos leva à propriedade: controle da reprodução era vital quando aconteceu a revolução agrícola e nós, como espécie, paramos de viver como nômades atrás de comida. A reprodução e seu controle garantiram que o homem pudesse adquirir e consolidar riqueza — habitação e comida — produzindo terra e depois garantindo que esta não fosse desagregada, transmitindo-a para um filho que ele sabia que era dele — principalmente ao reivindicar a mulher e sua capacidade gestacional como propriedade também.

Isto não é sobre liberdade religiosa. Se fosse, nós permitiríamos, por exemplo, que cientistas cristãos se recusassem a pagar pela cobertura de transfusões de sangue para salvar a vida de empregados. Liberdade religiosa significa que eu posso escolher se eu quero ou não ser religiosa e, caso escolha ser, como. Isso não significa que eu posso impor a minha religião a outras pessoas. Pagar pelo seguro é uma forma como nós compensamos @s empregad@s, mesmo quando eles e elas usam o seguro de formas com as quais nós não concordamos e que estão em contradição com nossas crenças pessoais. Eu penso que é estúpido, perigoso e imoral fumar um cigarro atrás do outro, principalmente perto de crianças cujos pulmões o fumo irreparavelmente prejudica. Mas eu ainda tenho que pagar para que um empregado ou uma empregada tenha acesso a exames de pulmão, adesivos de nicotina e tanques de oxigênio. Eu não posso dizer que minhas crenças religiosas, que incluem manter os corpos os mais saudáveis possíveis, me permitem reter o pagamento do seguro de empregad@s. Cobertura garantida de contracepção e cuidado com saúde reprodutiva têm enormes benefícios para a sociedade, incluindo redução de gravidezes indesejadas e abortos. Ao inserir as suas crenças religiosas tão flagrantemente na legislação governamental e na minha vida, os senhores estão me impondo as suas crenças religiosas. Os senhores não gostam de cobertura de seguro obrigatória para saúde reprodutiva básica para humanos com dois cromossomos X? Eu não gosto de me reproduzir por coerção do estado como os animais da fazenda do Sr. England. Eu tenho uma OBJEÇÃO MORAL a ser tratada como um animal e não um ser humano. Os senhores não têm que usar contracepção, os senhores não têm que usar o controle de natalidade. Mas, isso não significa que os senhores têm o direito de me dizer que eu não posso usar se eu assim o escolher. Este é meu direito.

Propriedade, controle, sexo, reprodução, moralidade, definir o que é humano. Soa muito como assuntos envolvendo escravidão 170 anos atrás. Não é nenhuma surpresa que dos 16 estados que nunca repeliram suas leis anti-miscigenação, mas, ao contrário, as tiveram revogadas pela Suprema Corte em 1967, mais da metade introduziu projetos de “personalidade civil”. Assim como leis anti-miscigenação, leis anti-escolha e projetos que humilham mulheres, que as tratam como animais, que violam sua autonomia corporal, são baseadas em ignorância, direito de posse e arrogância. Essas leis não são sobre “personalidade civil”, mas “humanidade”. Que mulheres negras são massiva e desproporcionalmente afetadas por essas invasões a seus corpos e direitos também não deveria ser surpresa – seus direitos e seus corpos sempre foram os mais vulneráveis a invasões.

Isto é sobre manter os úteros das mulheres públicos e sob o controle de outras pessoas – o exato oposto de privado e sob o controle delas mesmas.

E sim, eu sei o quão complicado são a ética, a bioética e os argumentos legais relacionados a essas decisões. Os senhores, aparentemente, não. Se os senhores estivessem realmente preocupados em salvar vidas e melhorar a sua qualidade ou em proteger crianças inocentes, os senhores começariam tendo compaixão e empatia pelos vivos, pessoas nascidas que requerem e merecem a sua atenção. Os senhores deveriam alimentá-las, educa-las, tirá-las da pobreza e miséria. Os senhores não deveriam misturar esses assuntos da forma que estão fazendo, com interpretações distorcidas da vontade divina. Apenas após fazer isso os senhores terão legitimidade moral para pensar em falar para mim sobre o meu útero e o que eu faço com ele. Até lá, úteros artificiais inteiramente funcionais deverão estar disponíveis e os senhores poderão implantar o seu próprio útero, já que os senhores são tão afeiçoados a analogias com animais, da mesma forma em que foi feito com esse rato macho. O que os senhores estão fazendo é vergonhoso, hipócrita e moralmente corrupto.

E não, eu não estou louca. Eu estou brava.

Sr. Santorum, Sr. England e Sr. Brownback e Sr. Perry, os senhores deveriam considerar não se apegar tão perigosa e perversamente a ideias da revolução agrícola. Controle de natalidade e abortos seguros são tecnologias que salvam vidas. Essas leis e projetos arcaicos, que desperdiçam tempo, dinheiro e vidas, e que obscurecem uma verdade permanente e imutável: planejamento familiar seguro e efetivo é a justiça social transformadora conquistada no século 20. Eles não irão embora. Essa é uma revolução também.

Em um discurso de 1851, no qual argumentou por direitos iguais para as mulheres, Sojourner Truth disse o seguinte: “Os pobres homens parecem estar todos confusos e não sabem o que fazer. Por que, crianças, se vocês têm os direitos das mulheres, deem-nos a elas e irão se sentir melhor. Vocês terão seus próprios direitos e eles não serão um grande problema”.

Os senhores, Terry England, Sam Brownback, Rick Santorum e amigos sequer sabem quem foi Sojourner Truth?

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[+] Vídeo – Republicans, Get In My Vagina!

A tradução deste post contou com a ajuda providencial de Karla Avanço.

Carta para Gina Weasley

Texto de Paula Carvalho.

Em novembro do ano passado o Feministig publicou uma carta de amor para a personagem Gina Weasley da série Harry Potter. Tinha me esquecido dela, até que algumas semanas atrás, fiz um teste e me vi decepcionada ao ser comparada com a personagem (sei que é só uma brincadeira). Mas depois fiquei pensando e vi que eu estava confundindo filme com livro e, que a minha decepção vinha mais da forma com que a personagem foi retratada no cinema do que com a Gina Weasley original, o que me fez lembrar da carta.

Gina Weasley, vivida pela atriz Bonnie Wright nos filmes da série Harry Potter.

Gina Weasley é forte, corajosa, excelente atleta, extrovertida, sexualmente liberada e não sente vergonha de seus desejos. Em outras palavras, ela é o exemplo perfeito para as adolescentes que cresceram com a série e puderam ver que o papel da personagem feminina não é apenas fazer par romântico com o herói.

Sou uma fã irremediável da série Harry Potter. Seus livros foram responsáveis por trazer de volta meu gosto pela leitura e marcou boa parte da minha adolescência. Mas esse amor vem misturado com algumas doses de ódio. Adoro a forma com a série traz personagens femininas tão fortes. Até mesmo as mais odiadas, como Belatriz e Rita Skeeter se sobressaem. E, embora tenha o mesmo imaginário de sempre: herói salvador, amigo idiota e garota inteligente; o livro mostra que nem sempre é o Harry Potter quem está com a razão. Quem aqui não perdeu a paciência com o menino-aborrecente-que-sobreviveu do quinto livro? E é ótimo que a principal personagem feminina não esteja lá para ficar com ele no final.

Infelizmente, a série não deixa de passar certos estereótipos de gênero, como o amor incondicional de mãe ou o fato do herói-salvador-da-pátria ser um homem. Não estou dizendo que J.K. Rowling é machista por ter escolhido um homem para seu personagem principal, mas eu gostaria de saber por que ela fez essa escolha. Principalmente se pensarmos que ela é uma mulher independente, que cresceu com o próprio esforço e que começou a escrever a série quando passava por fortes problemas financeiros e com uma filha pequena para criar sozinha. Mas daí eu me pergunto. Teria a série feito o mesmo sucesso se ela se chamasse, sei lá, Harriet Potter?

Não consigo lembrar de muitas obras de aventura que tenham mulheres como heroínas. De cabeça só me vem a mente Nancy Drew e, mesmo assim, ela não chega aos pés de Harry Potter no quesito fama.

Tem outro aspecto que me incomoda bastante na série, mas isso diz mais sobre a sociedade inglesa (e americana e de vários outros países que se dizem avançados) do que do livro em si. É essa mania dos personagens terem somente o sobrenome do pai e, das mulheres não somente adotarem o do marido, como abandonarem o delas quando se casam. Ca-ra-lho que ainda hoje esse tipo de coisa acontece? Nem a Tonks, que em minha opinião é a personagem mais feminista do livro, escapou dessa.

Aliás, tivesse tido maior visibilidade na série, a Tonks seria um modelo tão forte quanto a Gina. Esperta, independente, extrovertida, estabanada, sem papas na língua e em uma profissão majoritariamente masculina. Fico triste de saber que uma personagem tão rica não foi tão bem explorada quanto poderia. E tenho algumas críticas em relação a como ela foi retratada. Me incomoda bastante que ela tenha passado um ano inteiro em depressão porque o cara que ela gostava não queria ficar com ela, ou que ela tenha resolvido ter um filho no meio de uma guerra (e deu no que deu), ou que ela tenha aceitado de volta o cara que a abandonou grávida.

Mas, ao mesmo tempo, não posso deixar de achar ótimo que, em uma sociedade que preza tanto a passividade feminina, ela não tenha tido vergonha de expressar seus sentimentos e de lutar pelo que queria. E de não ter ficado em casa cuidando do filho enquanto o marido ia lutar na guerra (principalmente se formos pensar que a profissional em lidar com bruxos das trevas era ela e, que ele sim tinha uma doença que o deixava debilitado).

Ok, estou me sentindo extremamente fútil falando sobre personagens de um livro como se fossem pessoas reais. Mas, é porque eu realmente acredito que eles podem ter uma grande influência na nossas vidas, principalmente no caso de séries como Harry Potter, destinado a pessoas com a mente ainda em formação.

E vocês, o que acham das personagens da saga? Gina e Tonks são realmente feministas ou eu estou viajando? Quais personagens vocês mais gostam? E quais personagens de outros livros marcaram as suas vidas?