Privilégio? Presente!

Dias atrás, lendo este post do blog Diário de uma Mão Polvo, me vi jogada contra a realidade de mais um privilégio. Não me basta ser branca, jovem, classe média, não ter dificiência, eu também sou mãe… de uma criança que não tem qualquer necessidade especial. Não que a maternagem praticada por mães como a Mariana, a autora do blog, seja melhor ou mais dedicada que a minha. A gente faz o que o filho nos demanda, mas é inegável que as demandas do Leo, filho da Mariana, levam muito mais tempo do que as do meu filho. Assim como é inegável que quase todos os espaços e serviços públicos foram pensados para mães como eu, que podem levar seu filho aos locais no próprio carro, ou de ônibus, sem grande dificuldade; que podem andar com o filho do lado, ou no máximo carregá-lo no colo sem grande sofrimento, enquanto ele ainda não aprendeu a dar seus passinhos; que podem voltar ao trabalho tão logo desejam, contando com a ajuda de uma babá ou de uma creche comum; etc.

E é aí que o privilégio acontece. Pense em quantas crianças, jovens ou adultos com deficiência você conhece e tente se lembrar de quem você vê cuidando dessas pessoas. No meu caso, são sempre mães. Conheci adultos também, cuidados por irmãs. E pense em quantos desses casos, a mãe precisa dedicar-se quase exclusivamente ao cuidado do filho.

Foto de Fernando Freitas, no Flickr, sob licença Creative Commons. Alguns direitos reservados.

 

Isso foi o suficiente para que adquirisse um pouco de perspectiva. Ainda que hoje eu me preocupe com a possibilidade de precisar reservar espaço no meu orçamento para pagar uma creche ou uma babá para o meu filho, e isso me faça atentar novamente para a falta de vagas em creches públicas, uma das grandes demandas das mães pobres, principalmente, que não podem simplesmente deixar de trabalhar, até essa preocupação é um privilégio.

Para muitas dessas mães de crianças com necessidades especiais, não existe tal opção, pois trabalhar significa ter que deixar a criança com uma outra pessoa, que tenha a mesma dedicação e preparo para atender as demandas que a criança oferece. E eu só posso supor que isso custe muito mais caro do que grande parte delas é capaz de pagar.

Uma solução seria o oferecimento de espaços públicos adequados para essas crianças e essas mães, mas nós ainda debatemos a falta de vagas para as crianças que sequer têm alguma necessidade especial, vocês se lembram? Novamente, como mãe privilegiada que sou, só posso supor que o caminho das pedras para as mães que além da vaga, precisam que o filho receba atenção diferenciada, seja muito mais longo e doloroso.

Essas considerações ficaram rodando na minha cabeça e me fizeram lembrar de uma história. Há tempos, uma conhecida veio me contar que uma grávida de seu círculo social estava desesperada pela possibilidade de que seu filho nascesse com Síndrome de Down. O exame de translucência nucal havia indicado um risco maior de que o feto apresentasse a condição, mas ainda não havia sido confirmado. Ao consolarem a futura mãe, as pessoas diziam: “Se a doença se confirmar, você vai tirar o bebê?”

E esta é a sociedade em que vivemos, senhor@s. Que condena ao fogo do inferno aquelas que optam por um aborto por não se sentirem preparadas para a função materna, mas acha justificado quando uma mãe desejosa dessa função, decide interromper a gestação por causa da possibilidade de ter uma criança “diferente das outras.”

Talvez isso explique porque seja tão difícil chegar a uma sociedade realmente inclusiva, que garanta a todos direitos, de acordo com suas demandas. Com espaços acessíveis a todos, com equipamentos públicos disponíveis a todos, de acordo com as suas necessidades. Ainda há quem acredite que a solução definitiva seria simplesmente evitar que essas crianças existam. Quando dessa imposibilidade, invizibilizá-las, trancafiá-las em suas casas, com suas mães, para que não destoem nesse cenário que não foi construído para elas, nem para seus cuidadores. Mas, aí vai uma notícia: os doentes, na verdade, são os que pensam assim.

“Mãe solteira”, um bicho que morde

Na semana passada, o Alex Castro publicou um texto sobre paternidade que, na verdade, evidenciava a fácil paternidade tão comum dos pais que não convivem com seus filhos no dia a dia. Evidenciou muito mais: a falta de noção de muitos pais que insistiam nos comentários a repetir o mesmo comportamento denunciado no texto: “eu sim dou a minha contribuição: fico com meus filhos todos os sábados ímpares do mês”. E ainda alguns indignados com a grave acusação feita de que “não cuidavam” de seus filhos.

Foi interessante verificar como certas pessoas assumem como um insulto gravíssimo ao seu caráter quando mesmo a falta mais óbvia lhes é apontada. Pelos motivos que sejam, um pai que não está presente no dia a dia do filho, obviamente sai ileso das mais cansativas tarefas referentes à criação desse. Se os motivos que obriguem essa separação se justificam, lá é outra conversa. Se o pai faz isso por  comodismo ou por necessidade, somente analisando cada caso em particular será possível saber. Antes de mais nada, um esclarecimento:  disse “pai” e “mãe”, porque me referencio ao texto em questão, que trata dessa composição familiar cissexual e heterossexual.

Mas, o que me traz aqui motivada pelo texto (genial) referenciado acima, na verdade, são as lembranças e as vivências. O que fará desse texto algo altamente confessional, vocês me perdoem de véspera. Como “mãe solteira”, é de se imaginar que eu encare uma porção delas, ao ler um texto assim. Na verdade, o que me traz aqui é o outro lado sobre qual o texto fala, mas não se finca: a mãe. Ou eu. Ou sobre essa letra escarlate marcada no meu peito, que faz com todo mundo tipifique para o resto da vida “mãe solteira”, quando apenas um “mãe” bastaria.

Esta sou eu, este é o Miguel Luiz. Nós dois vamos muito bem, obrigada. Arquivo pessoal.

Pois saibam vocês que até hoje há quem faça cara de pena logo depois de perguntar se o pai do meu filho não quis ficar comigo. E por quê.

Saibam vocês que até hoje, há quem dê uma piscadinha marota, e pergunte jocosamente, se aquele deslize que me levou à gravidez foi um deslize mesmo, e não uma ação proposital.

Saibam vocês que até hoje, há quem denuncie que eu, na verdade, estou namorando apenas para garantir que algum “trouxa” me ajude a criar o meu filho.

Ou saibam vocês que, na verdade, há quem diga que, para mim, ele não precisa nem criar, basta ajudar a bancar.

Saibam vocês que, até hoje, me perguntam aqui ou ali, se agora eu estou me prevenindo corretamente.

E saibam também, que há quem alerte o meu namorado, a respeito da “imensa facilidade” que eu tenho de engravidar. Sabe como é, né. É sempre bom ficar de olho, pra que essa desgraça que é me engravidar não aconteça com ele também.

E vocês devem saber que existem, claro, aqueles que mesmo me conhecendo há um minuto, oferecem os mais sabidos conselhos, quando descobrem que sou uma “mãe sem pai”.

E há, claro, os que não querem dar conselho algum, apenas apontar que qualquer coisa que eu faça está errada.

Pois bem, meus queridos, se a sua condição não basta para que você experimente os dedos apontados do machismo, experimente ser “mãe solteira”. É o modo mais rápido de você se transformar numa caçadora de homem, ou de dinheiro, que não tem controle algum sobre a própria sexualidade, e que anda por todos os cantos precisando desesperadamente de ajuda para criar o rebento. Então, uma dica para os pais/comentaristas inconformados do texto do Alex. Eu não sou “pai solteiro” para entender essa realidade, mas desconfio que até nisso, a posição de vocês seja algo mais agradável.

Os crimes de Denise Leitão Rocha

Denise Leitão Rocha é o nome dela. Enquanto os canais de notícias preferem desumanizá-la, transformá-la em “musa” e “furacão da CPI”, faço questão de começar este texto afirmando que: Denise Leitão Rocha é uma pessoa, uma mulher. E, vejam só, a tal “assessora do senado” tem até nome! Ela se chama Denise Leitão Rocha.

Denise Leitão Rocha é assunto nacional desde que um vídeo amador de sexo, em que ela aparece, “vazou” na internet. Vocês sabem como as coisas funcionam nesse nosso mundinho: poucas horas é tempo mais do que suficiente para que um conteúdo se viralize rede afora.

Denise Leitão Rocha é tão pessoa que fala, apesar de muitos não quererem que ela tenha voz. Ainda que com uma voz que “transparece sofrimento” como afirma a matéria do site Extra, logo em seu início, ela conta que está muito abalada com o “vazamento” do vídeo e, imagino eu, com a enorme repercussão do caso.

Pudera, há quem ligue para o Senado para perguntar quanto custa um programa com as assessoras da Casa. Fotos e mais fotos “sensuais” de Denise foram divulgadas em diversos sites. Jornalistas intrépidos questionam colegas de Denise, se ela realmente trabalhava. E seu chefe, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), já revelou que considera demiti-la, mesmo elogiando sua atuação profissional.

Mas o que Denise Leitão Rocha fez de tão ruim, afinal?

Sexo.

Denise Leitão Rocha, assim como eu, você e boa parte das pessoas adultas do mundo, fez sexo. Porém, infelizmente neste caso, foi filmada ou deixou-se filmar (não vi o tal filme e me recuso a saber detalhes, mas tampouco importa) e alguém achou uma boa ideia divulgar, sem seu consentimento, tal registro na internet.

Denise Leitão Rocha, em foto tirada em maio, no Piauí. Foto de Yala Sena / Arquivo Pessoal / G1

Por que tanto alvoroço se Denise Leitão Rocha não fez nada que eu, você ou boa parte das pessoas do mundo faz em seu dia a dia? Porque, Denise Leitão Rocha cometeu o grave crime de ser mulher em um mundo machista. E às mulheres não é reservada solidariedade.

Pouco importa se o verdadeiro criminoso é a pessoa que divulgou, sem o conhecimento de Denise, um vídeo com cenas íntimas dela. A mulher que ousa não ser santa, jamais será vítima. Se Denise fez sexo e deixou-se filmar, certamente foi porque queria que todos vissem. Se não deixou, deveria ser mulher direita, ao invés de sair fazendo sexo com qualquer um por aí, se expondo ao risco de ser filmada.

E para tal crime não há perdão. Como bem lembrou o deputado Domingos Dutra (PT-MA), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara do Deputados, (@ únic@ parlamentar que vi se pronunciar publicamente sobre o caso), é provável que Denise fique marcada por um bom tempo com a marca indelével de uma mulher que sabidamente faz sexo, enfrentando as dificuldades que a nossa sociedade machista impõe para tais mulheres.

Na opinião do parlamentar, Denise pagou o pato pelo machismo que impera na sociedade brasileira.

– Se fosse um homem, será que a reação da sociedade, do senador e da mídia seriam a mesma? Eu acho que não – analisa o deputado.

Para Domingos Dutra, a exoneração da advogada teria sido precipitada, a reboque da repercussão nas redes sociais e na imprensa:

– Não vou entar no mérito que levou o senador a demiti-la, mas foi uma decisão apressada que só reforça o preconceito existente hoje sobre a mulher, que ainda é muito forte no país. Esse caso a marcará para o resto da vida. Certamente, ela terá dificuldades para arranjar um namorado, um emprego, circular em seus meios sociais.

Na mesma matéria do Site Extra, Rogéria Peixinho da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) fala dos preconceitos existentes no Congresso Nacional:

– Esse é mais um sinal de como a nossa sociedade é machista. Se fosse um homem, seria enaltecido como um garanhão. Como é mulher, julgam-na como piranha – critica Rogéria Peixinho, coordenadora regional da Articulação de Mulheres Brasileiras, movimento nacional que luta pelos direitos femininos.

De acordo com ela, o Congresso Nacional atuou como um reflexo desse preconceito tupiniquim:

– Ela foi uma vítima do vazamento desse vídeo e a repercussão chegou a esse ponto porque ela é mulher. O Congresso é muito retrógrado, a ver pela quantidade de mulheres e negros eleitos. Referência: Demissão por conta de video picante é contestada dentro do próprio Congresso Nacional.

Se parece ridículo é porque verdadeiramente é. Se é razoável pensar que grande parte das pessoas adultas fazem sexo, ninguém quer ter a certeza disso. Sexo é assunto de foro privado, exceto para os homens cissexuais e heterossexuais, que podem gritar aos quatro ventos quantas mulheres “comeram” na semana que se passou, sem qualquer julgamento. Ninguém parece estar preocupado em saber quem é o homem que está no vídeo com Denise. Foi aventada a possibilidade de ser um assessor de outro senador, mas os holofotes procuram sempre condenar Denise.

Mulher que fala de sexo é feio. Mulher que gosta muito de sexo é vulgar. Mulher que procura por sexo é piranha. Se é para fazer, minha filha, seja discreta. Não é para deixar todo mundo saber! O crime de Denise foi o de deixar todo mundo saber, mais do que isso, deixar que todo mundo visse, mesmo que Denise não tenha culpa alguma pelo tal “vazamento.”

Pois, saiba você que há um culpado pelo tal “vazamento”, que de vazamento não tem nada. Porém, enquanto tal pessoa não é descoberta e punida, todos os que distribuem e assistem o vídeo de Denise Leitão Rocha também a agridem, continuamente. Afinal de contas, o caso não teria alcançado tamanha proporção, não fosse pelos sites que divulgaram o vídeo e por todas as pessoas que o compartilharam.

Não caia nesta ilusão da internet, de que por ser apenas mais um em milhões, o seu posicionamento não faz diferença. Faz para o bem, e também faz para o mal. Não seja mais um agressor de Denise Leitão Rocha. Não a condene por apenas exercer sua sexualidade. Até porque, o deputado Ciro Nogueira, ao decidir por demitir Denise, ignorando seu desempenho profissional, ao invés de apoiá-la, já está fazendo isso por você.