Eu não pensei que o problema era minha cor

Texto de Jenifer Bruna Lucarelli para as Blogueiras Feministas.

Quando você cresce ouvindo que deve se portar feito uma mulher correta e digna, quando os televisores, o rádio, os jornais e a sociedade grita isso no seu ouvido diariamente, fica difícil enxergar que quando se é negra, ser mulher em um âmbito acadêmico, social, amoroso, e familiar torna-se um peso difícil de carregar.

Cresci em um bairro pobre, criada pela minha irmã branca, que trabalhou para me sustentar, e tinha como única preocupação manter –me alimentada e com acesso ao estudo. Fui criada por uma mulher branca, uma mulher guerreira. Não achava que minha cor era diferente dela, estava familiarizada com isso, eu e ela, uma família, mas a gente pegou o transporte público para ir no centro da cidade, e na roleta do ônibus o cobrador fez questão de nos diferenciar, “Você pagou a passagem?”, minha irmã, brava, “ela está comigo, eu dei o dinheiro da passagem de nós duas”. A roleta daquele ônibus mostrou que as pessoas não nos olhavam com a igualdade que eu olhava pra ela.

Ridicularizada, feia, cabelo ruim, gorda, nossa quantos insultos ouvia na escola, as crianças não perdoam, como dizem ainda mais na adolescência, mas será que o preconceito é algo que se ensina? Sim, ninguém nasce preconceituoso, aprende a ser, futuros adultos preconceituosos.

A adolescência sem se envolver, sem beijar, não era adequada, mas na rua quando ia a padaria comprar pão, minhas curvas chamavam a atenção, eu só tinha 13 anos, não eram para me olharem assim. Aos 18, o incrível aconteceu, passei a ser olhada como uma mulher bonita, mas o que fazer com esses olhares? Eu queria um namorado.

Me envolvia, beijava, eu deixava, eu não sabia, achava que iam colocar uma aliança no meu dedo, mas eram só beijos, só, eu suprindo o fetiche deles, afinal, quando tinha 20 anos, a beleza negra estava ainda mais sendo exaltada, eles me olhavam, a mulata linda do cabelo Black Power, mas eu não me via assim.

Quando a gente começa a se amar? Aprendi a responder essa pergunta quando, me beijaram e soltaram a minha mão na frente de terceiros, quando a curva do meu corpo era mais bonita do que meus sonhos, quando dizer não, tornou-se difícil, quando riam do fato de eu querer um namorado, quando eu me via como a única pessoa negra de um lugar, quando eu não queria mais beijar escondido, quando me olhei no espelho e via que era mais que um fetiche, eu era a mulher que ia guiar meu caminho. Eu não queria mais um namorado, queria um diploma, um emprego e o respeito que nunca tive, mas eu não achava que o problema era minha cor. Eu sou a mulher negra que você não apresenta.

Autora

Jenifer Bruna Lucarelli tem 21 anos. Estuda farmácia e reside no interior de São Paulo. É filha adotiva, criada por uma mulher guerreira branca, aprendeu a ver o racismo. “Sou uma mulher negra na universidade buscando seu espaço”.

Créditos da imagem: Obra de Tainá Lima, a Criola. Artivista negra, ilustradora e grafiteira. Instagram: @criola___

O Machista Nutella

Texto de Samaara Souza para as Blogueiras Feministas.

Muito se tem falado sobre FEMINISMO ultimamente, mas, principalmente contra ele, o chamado antifeminismo. Existem páginas, canais no Youtube e blogs empenhados em plantar a ideia de que a mulher não precisa mais do feminismo, que as feministas são “bruxas” que vieram para destruir os valores da sociedade e que já se vive em situação de igualdade, etc. E, eu fico me perguntando: Como ousam os homens da atualidade se posicionarem contra o feminismo?

Esses homens que se posicionam contra os movimentos feministas são, na maioria das vezes, os mesmo que ganharam muito com ele. Que também foram libertados de uma série de hábitos patriarcais nocivos, que oprimiam seus sentimentos e sensibilidade. Os homens da atualidade não são obrigados a conhecer ferramentas, consertar coisas ou a se dedicar a trabalhos braçais, assim como seus avós eram obrigados a fazer por “serem homens”. Também não são obrigados a perder sua virgindade com prostitutas ou animais só para provar sua “masculinidade”. Podem se preocupar com seus corpos, colocar brincos e piercings sem temer terem sua masculinidade questionada… Podem até se manter infantis até os trinta anos de idade, já que não são mais obrigados a ser o único provedor da família. Tudo isso porque as ideias feministas libertaram não somente as mulheres, mas também os homens de um machismo tóxico, que submetia as mulheres e sobrecarregava os ombros masculinos de responsabilidades super-humanas. O feminismo deu espaço para o surgimento de novas mulheres, mas também de novos homens.

Continue lendo “O Machista Nutella”

Sobre descobrir que está grávida e o que você não esperava

Texto de Heloise Alves para as Blogueiras Feministas.

Ser mulher nesse mundão machista e misógino é difícil, cansativo e desgastante. Se você decidiu lutar por uma classe oprimida, como a das mulheres, o julgamento que lhe será imposto, surgirá quinhentas vezes maior. Por isso, tornar-se feminista é como subir num palco e gritar bem alto: “Venham! Estou pronta para julgamentos”.

Mas não para por aí, quando por decisão ou pelo simples fato de que é algo que acontece (oh my god!), a mulher engravida… Pronto! Todos resolvem julga-lá e fazer com que se sintam pequenas e fragilizadas. O que ninguém pergunta é: Por que somos tão julgadas? Principalmente no período gestacional. Eis que enumerei os fatos, e sim, estão hierarquizados em nossa cultura patriarcal:

1. Se você engravidou porque planejou e tem um marido do lado, PA-RA-BÉNS-! (mas agora é só cuidar do bebê e sem reclamar, tá?);

2. Se você engravidou porque planejou e NÃO está casada. COI-TA-DA-! (prepare-se para ouvir: “quem é o pai”? Pelo menos 500 vezes por semana);

3. Se você engravidou, não planejou e NÃO tem um marido/namorado. CHA-MA-O-SA-MU-!(você será julgada até por ser má influência para outras mulheres e ouvirá mãe solteira por mais de três décadas seguidas, ok?).

Independente de qualquer uma dessas opções para a sociedade o filho é quase que 99% responsabilidade sua. “Engravidou porque quis”, “quem pariu mateus que o embale” e tantas outras frases que esquecem totalmente dos donos de espermatozoides.

A partir do momento que aparecem, os risquinhos num teste de gravidez…Pronto! O mundo da uma volta em 30 segundos até o Alaska e volta. Não é assim? Porém, quando a futura mamãe tem um parceiro colaborativo, essa fase PODE SER um pouco melhor… mesmo que tudo tenha sido muito planejado, ok? Se você for casada e o seu marido encarar a paternidade de frente em todos os sentidos, talvez sua maternidade não será solo. Porém, quando a mamãe não é casada, nem namora o pai do bebê, as coisas pioram em segundos, numa escala de zero a mil. E isso ninguém te conta.

O pai vai questionar a paternidade? SIM! Ele vai fazer com que você se sinta péssima? SIM! Ele vai querer te ajudar nessa fase? DEPENDE. (abre parênteses forte aqui, porque ajudar e aceitar são coisas diferentes). Ele vai continuar saindo por aí? Pras baladenhas no findis? SIM ! E se você mamãe, quiser sair, com neném na barriga… Hum… NÃO PODE! Diversão é só para quem não está grávida. Ele vai poder arrumar outras mil namoradas, com você grávida, sem ser julgado? SIM-SIM-SIM. Agora se você mulher, gestante, solteira, quiser arrumar uma transa com alguém legal que conheceu…Ppode não, viu? Isso é coisa de mulher promíscua, mulheres não podem ter este comportamento. E fica pre-pa-ra-da porque depois que o baby nascer, vai ser muito difícil você arrumar alguém que aceite sua situação. E se aceitar, você não deixa escapar, hein? Mesmo que ele seja um machista, só não pode é ficar sozinha.

Infelizmente isso é bem comum de se ver e ouvir. Tudo isso dói muito, mas uma hora você aprende que levantar a cabeça para o sistema e encarar o mundo, resistindo e existindo, é sim, uma das formas mais lindas e fortes de lutar por uma causa. Mães feministas existem e não são caretas, ultrapassadas ou menos inteligentes. Se informe sobre elas, vocês vão descobrir um beabá de coisas interessantes e muito conhecimento. Estamos cansadas de julgamentos, falta de informação e pura misoginia disfarçada de ódio oculto. Se engravidamos sem planejamento, não foi um erro como muitos dizem, e não merecemos ir pra fogueira em função disso.

Irresponsabilidade por transar sem camisinha? Sim, mas dos dois, homem e mulher. E a pena para isso não pode ser a maternidade obrigatória. A culpa não pode ser dar mulher que poderia ter tomado pílulas e mais pílulas, mas há que risco? Às vezes ela acha pílula um método contraceptivo opressor, e não usa… às vezes ela sempre usou camisinha, mas naquela noite o tesão falou mais alto. Às vezes o parceiro forçou, acontece, viu? Certo dia, ouvi de uma pessoa com HIV, a seguinte frase: “Começo esse discurso com uma pergunta, quantos de vocês nessa público já transaram sem camisinha? Guarde a resposta e apenas não me julguem”. Muitas pessoas transam sem camisinha, sim. E muitas não engravidam, nem descobrem ter alguma doença sexualmente transmissível. Porém, essas pessoas estão sempre prontas para julgar o outro ou a outra. Mas nunca sabemos quando seremos o próximo a ser julgado.

Mulher, sendo mãe ou não, merece o máximo de respeito como qualquer outro ser humano. Precisamos tirar essa conotação errada de que somos frágeis, dependentes, malucas e putas. Se estamos nervosas com o trabalho é TPM. Se brigamos com o namorado(a) é TPM. Se queremos ter voz própria é TPM. Então, assim, quer dizer que ser uma mulher politizada, informada e militante é culpa dos nossos hormônios? E que, para a cultura machista, vivem sempre alterados e fora dos eixos. Nós, mães solos, mães e feministas, não queremos bajulações e tratamentos diferenciados… Nós existimos como tal e queremos visibilidade para nossa causa. A gravidez passa e a força só aumenta.

Autora

Heloise Alves é estudante de letras.

Ilustração: Thaiz Leão/Mãe Solo.