A delícia em se ter uma irmandade travesti

Texto de Ana Flor para as Blogueiras Feministas.

Talvez esse seja um dos melhores textos do qual tive o prazer de escrever. Principalmente por conceber o quão nossas novas gerações de travestis estão empenhadas em ressiginifcar o conceito de irmandade. Algo que me toma de amor. No mais profundo sentido da palavra. Termos o direito de amarmos umas as outras é perceber que estamos sendo humanizadas em um espaço-tempo que nunca desejou esse feito.

Assim sendo, não é preciso muito para identificar que historicamente fomos construídas dentro de uma rivalidade que nos afundou no campo da solidão. Encontrar-se sozinha era sinônimo de travesti. Infelicidade tornou-se, durante décadas, uma rotina. Tesouras e giletes desfilavam em nossos corpos como demarcação de território sagrado e campo minado. Distância tornava uma esquina segura. Mudar o lado era regra. Afinal, perigo. Em outras palavras: desafeto. Construção social do projeto de desumanização do direito de ser e viver travesti.

Aproveito para abrir um parêntese e destacar como não desconsidero que nossas mais velhas traçaram rotas de fugas para permanecer juntas e seguras, mas sim que tento apontar como estamos, hoje, concretizando o que no passado, talvez, fosse uma exceção: o amor. E não apenas o “amor”, mas o amor travesti.

Construir redes de afeto nos possibilita crescer. É absurdamente lindo como Liniker e Linn nos permitem visualizar uma felicidade travesti. Digo isso, pois acredito que as meninas também devem ter recebido o convite compulsório da prostituição, uma vez que estamos no Brasil, o país que se orgulha em nos submeter a essa profissão como se outras não fossem possíveis.

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O estado de sujeição da mulher como um discurso de consentimento para crimes e violência de gênero

Texto de Tamires Marinho para as Blogueiras Feministas.

Ao se examinar as estruturas que fundamentam relações de desigualdade e até de barbáries cometidas contra minorias, sejam, justificadas devido a sua etnia, gênero, classe ou religião, o que se observa é uma tendência de desumanizar o sujeito através de práticas discursivas, como se direitos simples, defendidos desde o contrato social de John Locke não se aplicassem a eles, e, assim sendo, qualquer atitude reguladora seria perfeitamente justificável. Portanto, para compreender como ocorreu o consentimento da sociedade para crimes e violência contra a mulher, é imprescindível o entendimento de certos pressupostos que estruturam as relações de poder e submissão entre o homem e a mulher.

A primeira afirmação importante é que a sociedade é em sua maioria patriarcal. O patriarcado é uma organização familiar que posiciona o pai de modo hierárquico — a mente nuclear. Instalou-se com o advento da propriedade privada acercando-se e se enraizando através de discursivas que o mantiveram até a contemporaneidade. A subjetividade feminina não se tornou um evento singular devido à hierarquia pautada pela condição masculina construída na afirmação de que este sexo era o dominante. As mulheres foram convencidas de que seu lugar social era de subordinação, discursiva fortalecida pelas instituições, tais como, a religião, a família e o próprio estado que serviram de apoio para sua expansão.

Simone Beauvoir sublinha que o estado de sujeição da mulher ocorre exatamente no momento que se passa a ter consciência da propriedade privada, uma vez que, segundo a autora, nas sociedades ditas primitivas conferia-se a mulher o titulo de única progenitora, fato que lhe trazia autonomia diante da natalidade. A mulher exercia atividades de coleta importantes para a manutenção do grupo, o que sublinhava uma igualdade de funções sociais. Para Beauvoir, ocorreu um processo de coisificação, onde a mulher deixa de ser indivíduo e se torna também propriedade do pai ou do marido, assim como a terra, os filhos, os animais e os escravos.

Dentro desta perspectiva, a mulher não é o sujeito ou o sexo feminino, mas sim é o outro sexo. E ser o outro não é uma condição natural. Mas, sim uma construção cultural. No entanto, após um exame minucioso das fontes bibliográficas é possível partir dos pressupostos teóricos de Simone Beauvoir para analisar a construção sociocultural das normas que rodeavam o cotidiano da mulher brasileira. E, perceber como a cultura patriarcal construiu através de sua discursiva, padrões de comportamento, privilegiando o homem. Uma vez que a história foi escrita fundamentalmente por homens, desde filósofos, médicos, políticos, juristas, há pais, maridos e padres. Os homens detinham o saber, e quem tem saber, tem poder (FOUCAULT, 1963, P.43).

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Não precisamos ser inimigas

Texto de Priscila Messias para as Blogueiras Feministas.

Entendo, por experiência própria, que um processo de separação é muito complicado e doloroso, e dependendo das circunstâncias acabamos carregando mágoas por um longo período de tempo, ou, em alguns casos essas mágoas ficam para sempre.

Assim como tenho direito de viver um novo relacionamento, meu ex também vai fazer o mesmo – isso se ele já não o estiver fazendo enquanto estamos juntos como um casal – e, surgirá uma mulher entre eu e meu ex companheiro, caso essa antiga união tenha gerado filhos, será essa nova pessoa que irá se relacionar diretamente com nossos filhos, pois afinal, o pai precisa estar presente na vida dos filhos e a nova namorada estará junto em alguns passeios e momentos, se não em todos.

Desde criança ouvi das mulheres que me cercavam e pela TV que era impossível manter um relacionamento amigável com a mulher atual de um ex-marido.

Quando passei por esse doloroso processo recebi logo a notícia que meu ex cônjuge estava namorando e isso pra mim inicialmente foi um choque, confesso, mas minha maior preocupação mesmo foi como meus filhos reagiriam a essa notícia. E, para minha surpresa, ela logo os conquistou por sua simpatia e carinho com eles. Mas, minha relação com ela não começou bem, e qual seria o motivo? Simples! O indivíduo que fizera parte de longos anos da minha vida e me conhecia como ninguém, fazia de tudo para que eu a odiasse. Dizia coisas que ela fazia (que sabia que me irritaria), falava coisas que ela havia comentado sobre mim mesmo sem me conhecer, e deixava claro como a família dele a amava. E pasmem! Eu acreditava em tudo.

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