BBB, Uniban e meninas interesseiras

Texto de Nessa Guedes.

E então é natal.

(Na próxima sexta, claro, eu sei). E como vocês podem notar, eu sou uma pessoal super legal, e fiz esse post em duas versões: a escrita, e a gravada. Se vocês tiverem preguiça de ler – por causa da ressaca do fim de semana, afinal, hoje é domingo, verão, e todo mundo tá com o 13º no bolso – vocês podem simplesmente assistir o video de míseros 5min para entender a mensagem que quero passar. Se vocês não tem paciência para video, vocês podem ler o post.

E se você for muito meu amigo, se quiser me stalkear para valer, ou descer a lenha do que eu disse, faça os dois: leia o post, e veja o video. Beijos, me liguem.

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Vocês vêem, essa é minha estréia aqui. Eu, menina nova, baladeira, cheia de amor para dar, na maior vibe Dance Queen – vocês lembram? -, com aquela pinta de quem tem o mundo inteiro para tirar proveito,  e os sete mares para desbravar.

E feminista até o osso.

COMO? POR QUÊ!? OH MEU DEUS, QUE DESPERDÍCIO!!! ALGUÉM FAÇA ALGUMA COISA POR ESSA POBRE MOÇA!

É tempo de dar fim aos esterótipos. Estamos no século da aceitação, do respeito, do prazer. Hoje um analista de negócios pode ser fotógrafo nas horas vagas e ter uma exposição numa galeria obscura na cidade, ao mesmo tempo que gosta de pular de asa-delta nas férias. Uma dona de casa pode ser viciada em jogar World of Warcraft. Um médico pode ter dezenas de tatuagens no corpo. E as pessoas não precisam necessariamente desconfiar da índole ou da integridade dos outros só porque sustentam muitas atividades diferentes, e acreditam em coisas que aparentemente não fazem conexão com sua “realidade”. Há uns cinquenta anos atrás era normal ser racista. Hoje é crime. Há vinte anos atrás, uma moça solteira aos 30 anos era considerada “passada”. Hoje o 30 é o novo 21.

Os tempos estão mudando. Meninas beijando outras meninas na rua, e quer doa aos seus olhos ou não, elas vão continuar beijando cada vez mais e mais, não importa o quanto você diga “mas isso não é normal!”. Meninos vão continuar beijando outros meninos na rua quer você espanque-os, ou não. Mulheres continuarão assumindo cargos de chefia e sustentando seus lares, quer você acredite que todas são putas interesseiras ou não. Você continuará passando por ridículo ao falar numa possível ameaça a heterossexualidade (#DouradoBBB10FactsByMachõesDePlantão), e o mundo continuará abrindo espaço para a livre expressão sexual das pessoas, quer você queira ou não. Quem tem que se adaptar ao mundo é VOCÊ. O mundo não gira em torno do seu umbigo conservador e medroso.

E nesses tempos de quebra de esterótipos, o primeiro que devemos tratar de repaginar é o esterótipo da feminista.

Não, eu não tenho bigode. Não, eu não ando com roupas de homens. Não, eu não sou rabugenta – embora tenha todos os motivos do mundo para tanto. Não, eu não sou mal-comida. Não, eu não tenho sovaco cabeludo.

E não, não vou esfregar aqui, na cara de ninguém, os motivos por a+b sobre eu ser feminista. Não.

Na verdade, eu quero convida-los a uma reflexão de final de ano que saia de seus âmbitos pessoais e alcance a comunidade onde vocês vivem.

Que tal trocar o “Oh, esse ano foi bom porque eu fui promovido, porque eu comprei um carro, mas foi ruim porque minha vó morreu, porque eu engordei uns quilos, etc” pelo “Esse ano foi ótimo porque elegemos a primeira presidente do Brasil, mas foi ruim porque teve o caso Uniban e o ‘rodeio de gordas’ na Unesp. O que eu devo concluir sobre a ligação desses três fatos, aparentemente distintos? No que isso influi na minha vida? O que isso significa para o crescimento do país?“… hum?

Entendem?

Duas coisas que detesto e uma que necessito

Texto de Luciana Nepomuceno.

A Thayz (do incrível e reflexivo Menina de Sardas) publicou aqui um post intitulado A Ditadura Silenciosa. Ela trata de um tema que me é caro: padrões externos para meu corpo, minha vida, meus critérios, minha alegria. Em dia de muito pensar, até já escrevi um tantinho sobre isso.

São essas idéias que retornam pra serem partilhadas aqui. É que tem duas coisas que detesto. Muito. Muito mesmo. Tanto. Ai, ai ai. Pois é. Duas coisas: quando alguém diz que estou acima do meu peso e quando alguém me diz que pareço ser mais nova, ter menos idade do que realmente tenho.

Se alguém diz algo assim: “ah, mas eu pensei que você tinha X anos” (que é qualquer idade menos do que meus 35), como se fosse um elogio… Não quero, não gosto e acho um desrespeito. Como assim? Ser mais nova é melhor? Em quê? Por quê? Porque se diz isso como se fosse um elogio? Poxa, foram bons anos, todos os 35 (ou pelo menos os que lembro, que tem uma época aí de fraldas e sono e leite e cocô a toda hora que sei não…).

Eu gosto de cada idade que tive e tenho a impressão que gosto mais a cada ano. Viver é uma delícia, porque ter as recordações e marcas disso também não pode ser? Tenho o corpo da vida que levo. Tenho o rosto da vida que levo. E tudo isso é bom e não preciso me sentir mais nova pra me sentir bem. E o que é parecer ter 25 ou 35 ou 45 ou sei lá quantos anos? Qual é o padrão de comparação? É a atriz da Globo de 25 anos, malhada e produzida? É a sertaneja de 25 anos de face curtida do sol? É a sofrida presidiária de 25 anos, pele macilenta e olhos tristes? É a minha vizinha, 25 anos de boa saúde, bem alimentada, pele amorenada e olhos sorridentes cheios de ruguinhas ao redor? Quem parece ter 25 anos pra eu me parecer com ela? Fico doidinha com isso. Não é pessoal, ok, amigas? Só fico ouriçada com o assunto. É tipo uma bandeira.

Outra coisa: eu estou acima do meu peso. Como assim? Eu nunca entendi a lógica dessa frase. Como eu posso ter um peso acima do que ele é de verdade? Meu peso é esse (não escrevo porque não sei, faz anos que não me peso, mas é mais de 60, folgado – e eu tenho enormes 1,60m). Meu peso não pode ser acima do que ele é. Entende o problema? Meu peso pode estar acima de um peso suposto ideal para alguém com algumas características minhas. Mas não pode, na realidade, estar acima dele mesmo.

É uma questão de lógica. Ele é o que é o que é o que é. E, de novo, entram em cena os padrões definidos longe e fora de mim. Como assim meu peso ideal? Ideal pra quem? Alguém perguntou minha opinião? Ideal pra eu não morrer de alguma doença supostamente ligada à minha forma? (Quero dizer que não me pesei, mas faz seis meses que fiz váaarios exames e o meu colesterol, por exemplo, está em um nível ótimo).

Então o peso é ideal para alguém parecido comigo mas que não sou eu. Alguém que não curte comer panelada de manhã no mercado, que não fica horas vendo o mar e tomando cerveja, alguém que não paga um mico por um prato de torresmo, uma pessoa que não sou eu. Outra. Meu peso pode estar acima do peso dela, desta pessoa aí que não quero ser, porque fora uma teimosia e outra, um dengo e outro, um esturro e outro, até que gosto bem muito de ser eu. Assim, desse jeitinho cheio de dentes que sou.

Mas pra cortar os resmungos, uma coisa que adoro. Gentileza. Poxa, gente, tem coisa mais linda que delicadeza, finesse, bom gosto, gentileza? Não sei se me faço clara, óbvia e evidente como queria. Quando digo gentileza digo aquele gesto de extrema consideração, aquela palavra corretamente colocada, aquela ação cortês. Acho que é isso: cortesia. Sim, um tantinho formal, mas não é isso, é ser espontaneamente polido, fino, meigo. Ai, quanto mais esclareço mais confuso fica. Eu não sei dizer como é. Só sei sentir.

Principalmente sentir falta disso, na época de esbarrões sem o pedido de desculpas, de furar filas, de estacionar em fila dupla, de juntar feminismo e nazismo sem reflexão, de de de. Eu sempre digo que a vida me trata muito bem. Mas isso não é a verdade exata. As pessoas é que me tratam muito bem. Menos as que não tratam, mas porque vou pensar nisso? Gosto de lembrar os pequenos sorrisos, os obrigadas, os pois não, os por favor.

Gostava (como diz um amigo português perfeitamente gentil e cortês que usa o pretérito imperfeito onde eu usaria o futuro de pretérito), gostava de viver num mundo de pequenas gentilezas. Faço o que posso (e as que posso) pra isso. Acho bom fazer o que quero ver. Quantas pessoas podem dizer o mesmo de seus sonhos de mundo melhor?

Meu feminismo e a nossa liberdade

Texto de Danielle Cony.

Percebo que a maioria dos homens se arrepiam quando digo que sou feminista. Ok, alguns são altamente machistas e possuem idéias retrógradas e não vão tentar entender que possuem privilégios. Para eles o mundo é assim. A vida deu todas as oportunidades, então porque iriam lutar por algo que não interessa? Eu diria. Sim, essa luta também te interessa.

Então… O feminismo luta pela a igualdade de direitos. Ele também luta para que você tenha o direito de sensibilizar onde e a hora que você quiser. O feminismo não é opressor como muitas pessoas pessam. O feminismo quer dar voz ao gênero. O machismo é que opressor, impede a mulher de se desenvolver, constrói uma obrigatoriedade de violência e agressividade ao homem. Quem me parece impositivo nessa história? Em outras palavras, os homens deveriam ser feministas porque o machismo também oprime os homens.

Então meu caro colega, passemos a refletir sobre sua tragetória. Lembra-se quando você era criança e seu cachorro querido morreu (ou talvez alguém muito próximo da família)? E você sentindo todas as dores do mundo foi tolhido de chorar porque “aquilo não era coisa de homem”? Quem te frustrou? O machismo ou o feminismo?

E quando você tinha uns 10 anos? E sofreu bullying na escola, porque seu cabelo era comprido ou porque usou uma blusa engraçada (ou por qualquer motivo irrelevante). Quem te frustou? Quem te chamou de “florzinha” foi um amigo seu machista agressivo ou foi uma menina feminista?

E quando você se tornou pai? E percebeu que sua filha sofreria exclusão e violência no dia-a-dia. De que sociedade você questionou essa inserção? De uma sociedade iguálitaria de direitos ou de uma sociadade que oprime o gênero?

E quantas e quantas vezes meninos precisam se explicar? Explicar suas atitudes, os seus gostos, o medo de algum rótulo, alguma brincadeira de mal-gosto e o medo de se tornar “chacota”. Diga-me, você não está cansado disso? Quem criou isso? Foi o feminismo ou o machismo vigente?

Então vamos esclarecer, que ao contrário do que muita gente pensa, as feministas (mesmo as mais radicais) não querem os homens exterminados. Feministas querem liberdade. E entenda de uma vez que a minha liberdade não é a sua prisão. A minha liberdade é a minha autonomia, assim como a sua também. A luta feminista é contra o machismo e não contra o homem.

E agora? Pronto para aderir a nossa luta?