Cara Gente Branca: mulheres e personagens transversais

Texto de Isabela Sena para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a série Cara Gente Branca (Dear White People) da Netflix (2017).

Recentemente, a Netflix foi pivô de diversas polêmicas ao lançar a série Cara Gente Branca, produção que se propõe a discutir o racismo em uma universidade de elite norte-americana, expondo as tensões raciais existentes e questionando a crença de que vivemos em uma sociedade pós-racial. A série dá continuidade ao filme homônimo, lançado em 2014, em uma tentativa — um tanto falha — de desenvolver a história e aprofundar os personagens.

É uma série curta — eu assisti inteira em um dia — e acompanha o cotidiano de jovens alunos negros, envolvidos ou não com a política e militância dentro do campus. Como cada episódio é focado em um personagem, ela toca em questões diferentes relacionadas às experiências deles. Assim, a série consegue mostrar, de um jeito bem simples, a heterogeneidade das experiências negras, as formas de pensar, cores de pele, estilos de vida, aspirações e angústias. É uma mudança interessante, em grande parte por causa da falta de representatividade e, ainda mais, devido ao racismo essencialista, é comum que personagens e pessoas negras sejam tratadas como uma massa homogênea, que deve pensar igual, reagir igual e ter as mesmas experiências. O que, obviamente, não condiz com a realidade.

Provavelmente porque minha vida virtual é uma bolha cuidadosamente selecionada, Cara Gente Branca vem sendo um dos principais assuntos das últimas semanas. Apesar disso, diversos textos explicitaram a pouca projeção que a série teve em relação a outras séries que tratam questões sociais importantes e envolvem jovens, como 13 Reasons Why. Falar sobre racismo nunca é tarefa fácil e as pessoas têm uma capacidade inacreditável de ignorar toda e qualquer referência à questão, mesmo entre a militância de esquerda. Nos Estados Unidos, a série causou um rebuliço tão grande que chegou a inspirar uma campanha de boicote por “promover o genocídio branco”.

Sem entrar no mérito do genocídio branco — que em uma sociedade racializada onde o ideal é o da branquitude, chega a ser uma piada de mal gosto — é impressionante como algumas falas assertivas sobre racismo consegue desestabilizar tantas pessoas. Apesar das pessoas reconhecerem a existência do racismo, basta uma pessoa negra falar sobre isso, apontar atitudes individuais ou parar de usar eufemismos, para que a discussão se torne algo bizarro como o “racismo reverso”. Mas o que mais me chama a atenção em relação às reações de boicote é que, para mim, considerando a realidade racial nos Estados Unidos, o discurso veiculado na série nem é violento o suficiente. Para falar a verdade, ela toca em diversos pontos, mas aprofunda muito pouco e propõe menos ainda. É uma série que fala da angústia de ser um jovem negro na universidade, em uma sociedade racista, apenas.

Para quem faz parte da militância, estuda e pesquisa o assunto, a maior parte dos pontos levantados por Cara Gente Branca são lugares comuns. Assuntos bem batidos mesmo. O que dá a impressão de que a série os aborda de forma superficial. Mas acho que é uma boa porta de entrada pra quem ainda não conhece essas questões e quer conhecer, embora seja impossível não ficar um tiquinho ressentida de que seja necessária uma série para atiçar a curiosidade das pessoas, sendo que muitas militantes vem fazendo um trabalho magnífico na produção de materiais sobre o assunto.

Sem tirar o êxito de Cara Gente Branca, tem alguns pontos que me incomodaram muito no decorrer da série. O primeiro é como eles tratam a questão da mulher e feminismo. Se o objetivo da série é questionar a noção de mundo “pós-racial”, que acha que raça não importa mais e que racismo é coisa de gente retrógrada, a série, infelizmente, reforça a ideia de pós-feminismo. Não há questionamento sobre as especificidades da mulher negra além de algumas referências à solidão, e o feminismo aparece de forma bastante caricaturada, como se as mulheres negras não tivessem há décadas promovendo o debate de gênero dentro do movimento negro.

Além disso, a exposição de Sam pelo então ficante, Gabe — sua foto se vestindo sendo postada no Instagram sem sua permissão — é bem problemática e conversa com diversos casos mais ou menos graves de exposições íntimas de mulheres por seus parceiros. Não há, entretanto, nenhuma palavra sobre isso, apenas questionamentos sobre sua vida sexual e afetiva e um pedido de desculpas feito por ela publicamente no fim do episódio.

A vida sexual e afetiva de Sam é alvo de debate o tempo todo, quase como se fosse pública. Uma amiga, vendo a série, comentou que nunca tinha visto uma boceta tão fiscalizada quanto a dela, o que, infelizmente, não é muito distante do que ocorre com mulheres negras, dentro da militância ou não. Nós somos, frequentemente, definidas por nossa vida sexual/afetiva, e pelo nosso valor como militantes dentro do movimento. É uma pena que essa questão não seja colocada de maneira crítica na série.

Outro ponto é o colorismo. Acho fundamental que toda série que trate de racismo e movimento negro, aborde a questão do colorismo, já que, além de ser algo constantemente discutido, o colorismo evidencia que as experiências negras, mesmo em sociedades racistas, não são iguais nem homogêneas. Em uma sociedade racista cujo o ideal é branco, pessoas negras de pele mais clara e traços mais finos têm uma certa “tolerância” em determinados espaços, até mesmo uma “passabilidade”, isso não significa que ela seja aceita e desfrute dos privilégios brancos, mas, pode evitar que ela passe por algumas violências. Essas pessoas têm sua identidade negada e questionada a todo tempo, e, muitas vezes, demoram para se reconhecerem enquanto negras.

É notório que a maior parte das pessoas que tem sua identidade colocada em dúvida (muitas vezes em situações bizarras e violentas) são mulheres, exatamente o que acontece na série. Não julgo o ressentimento de Coco em relação à amiga mais clara e mais aceita que ela, mas a única personagem que tem sua negritude questionada é Sam, embora haja outro personagem com a pele até mais clara que a dela, mas, obviamente, ele é homem. Inclusive, a única menção que se faz ao fato de que ele é claro é em uma piada feita por ele mesmo para ironizar a vida sexual da Sam. Ou seja, a única vez que essa questão é direcionada a um homem ela é feita de modo a controlar e julgar a vida sexual e afetiva de uma mulher.

Há uma representação extremamente estereotipada dos personagens LGBT. Lionel segue a narrativa de sempre, o menino tímido homossexual que passa a trama apaixonado (e meio obcecado) pelo amigo hétero. Das personagens lésbicas, uma mantém um caso com o aluno mais jovem e as outras duas aparecem rapidamente, são um caso escondido e se importam mais com intrigas entre si do que com a política no campus. A bissexualidade nem existe. O cara do casal que Lionel encontra logo no início da série é, obviamente, um homem gay disfarçando seus desejos com uma namorada, não há nem a dúvida de que ele possa ser bissexual. O mesmo acontece com a professora com quem Trey tem um caso, ela é lésbica, menos quando está na cama com ele. Não houve nenhuma preocupação em discutir o que significa ser negro e ser gay, lésbica, bissexual, uma limitação bem comum da Netflix que, vira e mexe, escorrega na hora de compor personagens transversais.

Autora

Isabela Sena é formada em História. Pesquisa gênero e raça há sete anos. É apaixonada por novelas, programas de TV de qualidade duvidosa e The Sims. Escreve também no blog Forasteras.

Imagem: Elenco da série Cara Gente Branca. Netflix/Divulgação.

+ Sobre o assunto:

[+] Dear White People e o silêncio ensurdecedor da internet. Por Gabriela Moura.

[+] Dear White People, eu só quero que vocês assistam a série. Por Duds Saldanha.

[+] “Dear White People” e a diversidade de pele negra. Por Fábio Kabral.

Sertanejo feminino: machismo para consumo das mulheres?

Texto de Daiany Dantas para as Blogueiras Feministas.

Há algum tempo estou intrigada com o sertanejo feito por mulheres. Sabemos que é um meio de hegemonia masculina. Portanto, observar a ascendência de compositoras e intérpretes mulheres torna-se uma obrigação para quem estuda e pesquisa cultura.

Entre diversas músicas que tem como tema principal um relacionamento amoroso, há várias em que a protagonista sofre por um amor perdido. Entretanto, neste meu primeiro contato, o que percebi das letras me fez refletir sobre um fenômeno mais abrangente: o machismo para o consumo das mulheres. Uma certa dose de revanchismo presente em alguns produtos da cultura pop, que surgem também porque há uma consciência dos direitos das mulheres em expansão.

Portanto, são um pouco mais problemáticos do que aparentam.

Percurso da análise: peguei uma carona Mossoró-Natal (280km), num carro cuja lotação era estritamente feminina. A trilha sonora: sertanejo feito por mulheres, super em alta no momento. Eram canções que tratavam de traição, revanche e vingança. Eu digitei trechos das letras enquanto as ouvia, até porque pensei em analisar mais tarde, e havia coisas como “judia, judia, judia que ele liga; pisa, pisa, pisa que ele quer de volta”, ou “se é pra trair, traísse com uma melhor que eu. Merecia um tapa, copo de cerveja no meio da cara”.

Tá, eu sei. Eu sei que seria falsa simetria se eu dissesse que trair é a mesma coisa para um homem que é para uma mulher. Na verdade, há uma intensa ironia nas letras que contrasta com o tipo de moral social que se aplica às mulheres. Discutir sexualidade, por exemplo, ainda é um tabu, já que o corpo das mulheres é dissociado de sua subjetividade e submetido a uma série de códigos de controle. Debater intolerância à infidelidade também pode ser visto como um instrumento de autonomia, já que somos orientadas a entender a infidelidade masculina como compulsória, desde cedo. Afinal, a honra é um código masculino.

Mas, aí é que está. Um dia desses um amigo me marcou em um vídeo de uma garota se ‘vingando’ do namorado infiel quebrando o celular dele. Lá fui eu explicar por duas horas o porquê de eu não concordar com aquilo, mesmo entendendo que a reação é diferente da opressão. Essa intolerância, nas músicas dessa vertente de sertanejo feminino, e em outras reações, são celebradas justamente em torno de um código de violência que apenas reforça o ideal de honra masculina. O mesmo ideal de honra que é o cerne do feminicídio, de que a mulher deve ser socialmente punida quando transgride a ordem de uma relação “romântica” (o casamento/noivado/namoro feito para durar para sempre), extremamente idealizada em nossa cultura.

Entendo que muita gente goste de cantar, especialmente em grupos, porque parece ter esse poder de pagar na mesma moeda, mas acredito que nosso compromisso na luta pelo fim da violência contra a mulher passa pela desconstrução desses valores sociais.

Compete-se pelo homem, tratam-no como troféu, algo que faz uma diferença tão grande na vida de uma mulher que ela é capaz de quebrar coisas e agredir outras pessoas por ele. As agressões, nas letras, são vinganças materiais e morais (como vemos nas letras de “50 reais” e “Infiel”) ou são violência física contra as supostas rivais (“não sei se dou na cara dela ou bato em você”). Ou seja, é o machismo reciclado para parecer inovador. Ninguém está fazendo nada de novo, estamos apenas passando o pano pro status quo.

Quando eu tentei explicar ao meu amigo que não havia sentido nesse tipo de vingança, ele falou: “mas eu não acredito nessa história de que ‘a vida dá o troco’, a pessoa merece sentir na pele”. Minha gente: Nada. NADA. NA-DA restaura um coração partido. Só o tempo. Não existe nada material, moral ou nenhum tipo de agressão que irá desinstalar dentro de nós a dor de não ter sido amada ou amado. Verdade que nós mulheres experimentamos a compreensão desse FATO na prática, porque nunca detivemos pátrio poder que chancelasse a violência como restauração da honra e, ainda falta muito para que sejamos vistas sequer como sujeitos autônomos neste planeta. Entretanto, absorver a lógica do revide não irá influir na dimensão do reconhecimento de nossa subjetividade.

Nessa linha de sertanejo feminino, as letras não são sobre amor e superação. Elas são sobre posse e violência machista. Sobre manipular essas duas coisas para que elas fracassem, quando já não podemos partilhá-las. Quebrar coisas, agredir pessoas não é uma lógica tão distante de desfigurar o rosto de alguém com ácido, agredir ou matar. São impulsos menores apenas porque são subalternizados, por partir de mulheres. Na luta pelo homem, as mulheres, heroínas das letras, não matam, mas agridem e revidam, não para serem sujeitos plenos, mas para demarcarem o valor social de uma mulher acompanhada de um homem. Indiretamente estão reforçando um código de honra masculino. E, não endossam apenas a posse, mas o fato de que nos cabe o lugar de objeto possuído, e, assim, dignificado.

Eu noto que temos vivido, nesses tempos de superexposição da nossa imagem, uma cultura de vingança notória, de exposição do caráter alheio, de regulação da conduta pública pela humilhação. E isso dá uma falsa sensação de poder. Há muita raiva e catarse precisando serem colocadas para fora, já que vivemos numa sociedade que nos agride diariamente. Porém, acredito que essa é uma saciedade por pequenos prazeres de revide que apenas reforçam a lógica machista de nossa sociedade.

Gostaria muito que superássemos esse sentimento de vingança que vem atrelado ao significado de posse e de honra nos relacionamentos. Eu nunca me preocupei em me vingar de Ex. Ao contrário, torço para que eles tenham alguém e se realizem na vida, tenho consciência que minha felicidade perpassa outros eixos bem distantes da felicidade alheia. E que certos “fracassos sociais” associados às mulheres se eliminam combatendo o machismo. Nunca a outras pessoas.

Autora

Daiany Dantas é professora, feminista, entre outras coisas.

Imagem: Portal Piranot/Banco de Imagens.

BBB 2017: relacionamento abusivo como entretenimento televisivo

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Essa é a última semana do programa Big Brother Brasil 2017 (BBB). Nessa atual edição o espetáculo principal é um relacionamento abusivo. Um relacionamento em que há muita violência verbal e psicológica, em que a violência física é relativizada, em que um homem e uma mulher estão completamente atrelados num ciclo de violência constante, mas que tantas pessoas chamam de “amor”.

Assim como a Fernanda Maranha, acredito que Emilly Araújo e todas as mulheres merecem respeito. Independente do que ela faça, é visível nos vídeos exibidos pela Rede Globo que ela é ameaçada, encurralada, imobilizada, agredida. Marcos grita com ela, a acusa de inúmeras coisas, a culpa e depois chora copiosamente dizendo que tudo que quer é salvar o relacionamento deles dois. É algo terrível de ser ver, provavelmente disparam gatilhos em muitas mulheres, mas mais chocante é saber que os fãs do programa estão adorando isso. Marcos e Emilly permanecem como os participantes mais populares.

Sinto uma enorme frustração ao ver esse caso, imagino que qualquer mulher que já teve uma conhecida num relacionamento abusivo sinta isso, pois não sabemos o que fazer e geralmente demoramos a nos posicionar, já que a primeira reação ao alertar uma pessoa num relacionamento abusivo é ela se afastar. Várias mulheres da casa tentaram alertar Emilly. Mas ao mesmo tempo é bem comum culparmos a vítima. Essa é a perversidade de um relacionamento abusivo. Nesse caso sempre que é chamado atenção, Marcos afirma que está errando, que está tentando, chora, mas continua alimentando todo o ciclo, nenhum dos dois muda a dinâmica da situação.

Por que as pessoas romantizam a violência?

Se é tão angustiante assistir isso, qual a razão de tantas pessoas acharem lindo? Primeiro, ensinamos as meninas que o amor tem que ser algo “difícil”. O amor tem que ser permeado de sentimentos inconsequentes, que nos fazem querer viver intensamente o momento sem analisar como estamos sendo tratadas, as trocas que existem nas relações. Não falamos com as crianças e jovens sobre saúde emocional ou consentimento. Emilly e Marcos estão num confinamento e isso reforça os sentimento de: “só temos um ao outro” ou “só você me entende” ou “você é a única que pode me salvar”.

A mulher como salvadora do homem é um clássico. Um grande arquétipo da sociedade patriarcal para fazer com que muitas mulheres se sintam um lixo e ao mesmo tempo só se sintam valorizadas quando se relacionam com homens extremamente ciumentos e possessivos. Muitas vezes a violência e as agressões são tudo o que tem e se acham merecedoras disso.

Num programa ao vivo, Pedro (participante eliminado da mesma edição) perguntou a Emilly: “Enquanto eu estava na casa, eu vi o Marcos te zoar, vi o Marcos ser grosso com você e até fazer ciúme com você. E depois que eu saí, ele até parou de falar com você por um tempo. O que quero saber é, qual o seu limite pra esse relacionamento?”. É uma pergunta dura e Emilly está numa posição vulnerável, ao vivo e reativa, ela responde: “O que eu sinto por ele é muito forte, muito verdadeiro, gosto muito dele. Tanto que me tachei de trouxa por sentir mais saudade dele do que ficar chateada pelas coisas que ele faz. Sentia mais saudade do que qualquer outra coisa. E o limite eu não sei, talvez se ele me trair, talvez se ele me ofendesse, não sei o limite porque eu gosto muito dele”.

Marcos gritou com Emilly inúmeras vezes mas ela não enxerga como ofensa. Diariamente, o que ensinamos as meninas e meninos não é que devem respeitar os sentimentos uns dos outros e que têm responsabilidade afetiva quando se relacionam com alguém. O que ensinamos é que a monogamia é o bem mais precioso de uma relação, por isso que o imperdoável para Emilly não é ser agredida, mas sim ser trocada por outra mulher. Não falamos com crianças e jovens sobre limites e respeito dentro de um relacionamento. Portanto, crescemos achando que apertar o braço do outro numa briga é normal, que derrubar no chão e ficar por cima mesmo enquanto a outra pessoa diz ‘não’ é certo, porque tudo que se está fazendo é por “amor”. Essa falta de educação emocional é nossa parcela de culpa social no ciclo da violência contra as mulheres.

Qual a responsabilidade da Rede Globo?

O outro lado dessa história é a responsabilidade da Rede Globo, uma concessão de televisão pública, mas que dificilmente tem seu conteúdo questionado pelos órgãos de fiscalização e, que também vem fazendo sistematicamente ações contra o machismo para tentar mudar sua imagem, provocando confusão na mensagem transmitida.

Semana passada tivemos um grande movimento organizado pelas funcionárias da Rede Globo em apoio as denúncias de assédio e abuso ao ator José Mayer feitas pela figurinista Su Tonani, publicadas no blog #AgoraÉQueSãoElas na Folha de São Paulo. Um espaço que nasceu justamente para dar voz as mulheres. As hashtags #ChegaDeAssédio e a frase “Mexeu com uma. Mexeu com todas”, foram divulgadas em diversas redes sociais por artistas estrelas da emissora. A Rede Globo numa estratégia de redução de danos decidiu apoiar a campanha. Também vem sendo bem elogiada pelos temas debatidos no programa Amor & Sexo. Porém, escolheu deixar nas mãos de Emilly denunciar se houve ou não violência física no BBB, mostrando que sua postura em relação ao machismo é seletiva.

A própria Rede Globo alimentou esse relacionamento desde o início. Mostravam os desentendimentos e as pequenas violências como algo comum e que gera audiência. E agora, em que a situação está ficando cada vez mais perigosa, decidiu colocar a culpa em Emilly e no público pela não eliminação de Marcos. No programa ao vivo, o apresentador Thiago Leifert avisou que a produção conversou separadamente com os dois e que Emilly pode e deve procurar a produção para denúncias e reclamações. Para os dois foi como tomar uma bronca da direção do programa, ao que parece não foram alertados sobre a gravidade da situação e que a violência contra a mulher é algo inadmissível. Na conversa posterior vemos mais uma vez Marcos culpabilizando Emilly por atitudes agressivas dele.

Hoje, saiu a notícia de que a diretora da Divisão de Polícia de Atendimento à Mulher do Rio (Deam), Marcia Noeli Barreto, determinou o registro de ocorrência após ver as imagens de mais uma briga entre os doisA delegada da Delegacia da Atendimento à Mulher de Jacarepaguá, Viviane da Costa Ferreira Pinto, vai acompanhar o caso e solicitar à emissora as imagens de toda confusão para que a gente possa ver se houve lesão corporal. Pelo menos é o que ela (Emilly) diz. Esse caso não pode ficar sem ser apurado — conta a diretora, que acrescenta:— A tortura psicológica que ele pratica é considerada violência doméstica, se enquadra na Lei Maria da Penha. É assim que tudo se inicia. Ele não a ameaçou de morte, por exemplo, mas houve constrangimento tão forte, que ela ficou acuada.

Em casos como esse do BBB, o que pode resultar em ação mais rápida é que a própria família da participante acione as instituições responsáveis, pois a Rede Globo tem um contrato que a responsabiliza por cuidar da integridade dos participantes. Se nada for feito nesse sentido, há a possibilidade de acionar o Ministério Público contra a Rede Globo. Por ser uma concessão pública, a emissora pode responder por legitimação da violência de gênero, por violação de diretriz estabelecida na Constituição Federal e possivelmente citada na Lei Maria da Penha, que trata de medidas integradas de prevenção a violência contra a mulher.

Também é possível denunciar Marcos, mas é preciso caracterizar violência física para que o processo siga sem a denúncia da vítima. No caso de agressão verbal, em tese, o início do processo ainda depende da vontade da vítima, em razão do “se ofender” ser algo subjetivo. Porém, o BBB é um programa que extrapola a esfera do privado e isso pode ser questionado. Mesmo assim, se a vítima nega a violência isso esvazia a denúncia.

Em 2012, o Ministério Público entrou com ação contra Daniel Echaniz, participante que foi acusado de estupro de vulnerável à companheira de confinamento, Monique Amin. O caso não chegou a virar um processo judicial e, por unanimidade, a Justiça determinou o arquivamento do inquérito policial, já que não haviam provas suficientes.

Também em 2012, O Ministério Público Federal entrou com uma Ação Civil Pública contra a TV Globo e a União. Pediu liminar que proíba a emissora de transmitir cenas relacionadas, mesmo que em tese, ao que considera prática de crimes durante o programa Big Brother Brasil. Em 2015, o participante Douglas Ferreira confessou ao vivo ter agredido uma mulher com quem teve um breve relacionamento. Em 2016, algum tempo após sair do programa, o participante Laércio de Moura foi preso acusado de estupro de vulnerável.

O programa é célebre por ter participantes que fizeram comentários homofóbicos, lesbofóbicos, transfóbicos, racistas. Por ter participantes acusados de pedofilia e maus tratos aos animais. Já assistimos inúmeros casais se formarem no reality show de maior audiência do Brasil, já vimos várias cenas de agressões verbais, e até o estupro de uma mulher em situação vulnerável. Na mídia tradicional, tudo isso é chamado de “polêmica”. E assim vamos minimizando essas violências diárias que destroçam inúmeras pessoas, especialmente mulheres.

Já falei algumas vezes sobre a violência contra a mulher em novelas. E nosso foco geralmente é a Rede Globo por ser o canal com maior audiência no país, mas a televisão brasileira no geral reproduz e estimula a violência contra a mulheres constantemente.

Sabemos que não vamos salvar todas as mulheres. Sabemos que Emilly tem inúmeras fãs adolescentes que veem esse relacionamento como ideal. Sabemos que ali são duas pessoas adultas tomando decisões, mas é importante ter em mente que ninguém entra num relacionamento sabendo tudo que vai acontecer. Os conflitos emocionais são inúmeros, as maneiras como uma pessoa tem poder sobre a outra são inúmeras, as formas como as pessoas se machucam em relacionamentos são inúmeras.

Não quero ligar a televisão e ver uma mulher sendo humilhada, violentada verbalmente, imobilizada e machucada por um homem que chora e diz que a ama. Porém, vivemos tempos sombrios em que as pessoas fazem selfie com um ex-goleiro que mandou matar uma mulher, com um deputado federal que explicitamente defende ideias racistas. Ignorar isso tudo apenas desligando a televisão não vai fazer com que a violência contra a mulher suma. Minha única esperança, já que não posso impedir a Rede Globo de compactuar com a misoginia, é que algumas mulheres vejam essas cenas e saiam de relacionamentos abusivos. Que elas encontrem forças para pedir ajuda e que nós continuemos na luta para que mais canais sejam abertos para as mulheres gritarem e denunciarem essas violências.

Imagem: Marcos coloca o dedo na cara de Emilly durante uma briga em cena do programa Big Brother Brasil 2017 da Rede Globo.

[+] O relacionamento abusivo será televisionado. Por Thaisa Alves no Os Entendidos.

[+] Precisamos falar sobre a permanência de Marcos no Big Brother Brasil. Por Vanessa Panerari no Lado M.

[+] Mexeu com uma, mexeu com todas: uma reflexão sobre assédio, cultura do estupro e cultura pop. Por Anna Vitoria nas Valkirias.