Por que o Ciberativismo é tão valioso para o feminismo?

Texto de Nathália Fonseca para as Blogueiras Feministas.

“Sai desse Facebook! Compartilhar textão feminista nas redes sociais não vai surtir efeito nenhum”, me disseram. Mas se a gente se dispor a analisar um pouco mais profundamente o quão significante é o fato de hoje nós, mulheres, ocuparmos esse espaço, fica bem fácil entender.

Antes de mais nada é sempre importante ressaltar que nenhuma de nós pode ser ingênua; a gente não pode, e nem deve pensar que a internet é algo que veio salvar e resolver todos os problemas (no entanto, ela ao menos nos abre espaço para apontar eles), porque afinal de contas: 1) ainda existe exclusão digital no brasil e no mundo; 2) todas nós estamos inseridas em uma diversidade incalculável de sistemas, e esses sistemas se mantém através de dispositivos — operadores materiais de poder — que interferem direta e indiretamente na nossa vida. Então sendo o computador — e a internet — um desses dispositivos, inevitavelmente, eles também estão inseridos em relações de poder, servindo como suporte pra algumas dessas essas relações. O poder, na atualidade, depende da tecnologia, seja no estabelecimento militar e de segurança, ou no setor financeiro, na mídia, e nas instituições de ciência e tecnologia, existe uma cultura virtual, isso é muito perceptível: a cibercultura está envolvida em todos os âmbitos da nossa vida, e isso se expandiu e alcançou a militância feminista.

Mas antes de entrar no ciberativismo feminista, um breve passeio pelo caminho trilhado desde a criação do computador até a sua ocupação pelos movimentos feministas, pois é muito significativo que a gente entenda o que existe de resistência em cada post que a gente replica, cada comentário, mensagem inbox ou até mesmo cada vez que um homem abusador é exposto nas redes sociais. Continue lendo “Por que o Ciberativismo é tão valioso para o feminismo?”

5 blogs para enegrecer seu feminismo

Hoje, 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. No Brasil, é Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

A história do feminismo ainda é contada pela ótica das mulheres brancas. Pautas clássicas como a luta pelo direito ao voto e pelo direito de trabalhar na maioria das vezes não incluíam as vivências e perspectivas das mulheres negras. De que nos adianta lutar pela emancipação feminina se apenas algumas mulheres atingirão a equidade? Essa é uma das principais perguntas que o feminismo negro faz ao estabelecer as relações entre machismo e racismo.

Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Jurema Werneck, Angela Davis, bell hooks, Djamila Ribeiro, Jarid Arraes, Jéssica Ipólito, Ana Maria Gonçalves, Kimberlé Crenshaw, Audre Lorde, Stephanie Ribeiro. São algumas entre tantas feministas negras que você pode encontrar textos na internet. Além delas, sugerimos que você também leia e divulgue:

#Nós, Mulheres da Periferia – Um coletivo formado por moradoras de bairros da periferia de São Paulo. Textos baseados em vivências, visões e experiências cotidianas que buscam representatividade para as mulheres da periferia. Classe social e raça são sempre temas presentes em seus questionamentos e ações.

#Preta, Nerd e Burning Hell – Um espaço feito por mulheres para falar de cultura nerd observando recortes de raça, gênero e classe. Análises de filmes, quadrinhos, jogos e séries sempre cutucando a ferida e propondo reflexões que dificilmente estão no primeiro olhar.

#Suzane Jardim – Textos sobre blackface, apropriação cultural, linchamento. Suzane é historiadora e professora, não foge de questionamentos difíceis. Tem sido uma das principais vozes na campanha pela libertação de Rafael Braga.

#Gabriela Moura – Textos sobre militância, saúde mental e vários questionamentos feministas. Gabriela é relações públicas e com o coletivo Não Me Kahlo teve grande participação no movimento #MeuAmigoSecreto que gerou um livro.

#Blogueiras Negras – Charô, Larissa Santiago, Maria Rita Casagrande, entre tantas outras mulheres negras incríveis escrevem e abrem alas para quem quiser escrever nesse espaço em que tantas vozes mostram a multiplicidade das negras no Brasil.

Imagem: Julho/2015 – São Paulo. Marcha do Orgulho Crespo. Foto de Jornalistas Livres/Mídia Ninja.

+ Sobre o assunto:

[+] Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Por Sueli Carneiro.

[+] Livros e artigos acadêmicos sofre feminismo negro e mulheres negras para baixar.

Quando a mãe vai embora

Na supersérie Os Dias Eram Assim, o abandono familiar de Monique (Letícia Spiller) deixou os internautas indignados.

Texto de Jennifer Frank Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

A supersérie da Rede Globo, Os Dias Eram Assim teve sua passagem de tempo e o desfecho de uma das personagens tem recebido bastante críticas nas redes sociais. Monique, interpretada por Letícia Spiller, é uma mãe que sempre se esforçou para cuidar dos três filhos, vê-los bem e feliz. Uma esposa que sempre esteve ao lado do marido, Toni (Marcos Palmeira) e fez o que pode para manter seu casamento vivo. Na cena em que foi ao ar no dia 06 de junho, ela foi embora com o amante, Chico (José Loreto).

O fato dela ter um amante já foi motivo o suficiente para a personagem receber críticas, afinal, trata-se de uma mulher casada, com filhos grandes e criados. Filhos que ela sempre esteve ao lado, incentivando a persistirem em seus sonhos, como o de Caíque (Felipe Simas), que quer fazer uma loja de pranchas de surf na garagem do pai sem carro, que só utiliza o local para guardar coisas velhas. Além disso, Toni acha a ideia do filho mais velho uma bobeira. Em uma das cenas, ele até fica bravo com sua família por todos terem escondido dele que Caíque usou a garagem para tentar começar seu negócio. Nervoso por conta da aprovação do pai, o garoto erra o processo de construção de uma prancha e Toni reforça sua ideia de que a loja do filho é besteira. Já a mãe, mesmo depois de fugir, ainda deixa dinheiro para ele investir em seu negócio (no entanto ele recusou).

No começo da supersérie, Monique e Toni eram um casal comum, tomavam decisões juntos, discutiam ora ou outra (as brigas aumentaram na segunda fase), mas também tinham momentos de intimidade, sempre partidos da iniciativa da mulher. Mesmo cansada por cuidar dos filhos, buscava uma maneira de se dedicar ao marido, que também estava cansado por causa do trabalho ou de jogar futebol com os amigos. Ela via esse cansaço e diversas vezes sugeriu que fizessem uma viagem para relaxar, com um dinheiro que esposo tinha guardado. Essa viagem nunca aconteceu, pois Toni pediu demissão de onde trabalhava para seu irmão Arnaldo (Antonio Calloni) e com o dinheiro comprou um ponto para montar um negócio próprio. Ele tomou essa decisão sozinho, sem consultar sua mulher e não incentiva o filho a fazer o mesmo que ele, montar seu negócio.

Na passagem de tempo, o amante da personagem já fora apresentado ao telespectador e tentava convencê-la a fugir com ele numa viagem, a que Monique sempre pediu ao marido. Durante os capítulos, era nítido a mudança de Toni, mas nas redes sociais, os julgamentos eram apenas a respeito da atitude de sua esposa. Naquela época, década de 70 a 80, o abandono paterno já era grande. Até hoje muitos filhos foram e são abandonados pelo pai, deixados com a mãe. Há casos em que a paternidade é assumida, por obrigação. Alguns pagam pensão, também por que são obrigados, porém é a mãe quem cria sozinha.

Monique cuidou dos filhos com a ajuda do marido e se dedicou ao casamento, mas a traição e o abandono dela só chocam por ser uma mulher. Ninguém espera que a matriarca abandone a família. E se fosse ao contrário, se Toni tivesse traído a esposa, deixado os filhos e fugido com a amante? E se fosse Monique quem tivesse se tornado uma esposa e mãe ranzinza, estaria tudo bem para o público? Tramas deste tipo já foram abordadas diversas vezes, inclusive na própria emissora e os internautas não ficam tão chocados. A surpresa é por se tratar da mãe, de uma mulher. As críticas a personagem de Letícia Spiller deveriam se aplicar a casos contrários, com os pais, os homens, tanto nas produções fictícias quanto na vida real.

Quando a mulher é abandonada, sobram motivos para tentar justificar o porquê dela estar sozinha e no final, elas são guerreiras por criar os filhos sem uma figura paterna do lado. Todas são guerreiras, até Monique que lutou pela família e aguentou um marido que, de repente, ficou chato. Seus filhos estão grandes e criados e ela fez a viagem que tanto queria.

A imagem que estão tendo de Toni é de coitado, traído e abandonado pela mulher, mas se fosse ao contrário, ainda que dada como guerreira, Monique seria julgada do mesmo jeito só por ser mulher. Ela foi curtir com o amante, já que o marido não quis. Quantos pais vão curtir e as mães ficam com os filhos? Em Os Dias Eram Assim os papéis foram invertidos, mas não é nada de extraordinário e novo reproduzido na televisão. Quando este papel é interpretado por uma figura masculina não vejo os internautas tão espantados como aconteceu com a trama de Monique.

A mídia mostra muita traição em suas produções, nenhum tipo de traição é válida, mas a sociedade se choca quando a mulher faz um papel que estão acostumadas a ver em um homem. Pior, relevam. Já a mulher sai como a errada nas tramas e na vida real.

Autora

Jennifer Frank Rodrigues formou-se em jornalismo em 2016 e segue sua caminhada sem desistir, sempre em busca de aprendizado e o melhor para sua vida. Ama assistir séries, filmes e novelas e fazer comparação com a vida real.

Imagem: Letícia Spiller como Monique em cena da supersérie Os Dias Eram Assim (2017), Rede Globo.