A ditadura silenciosa

Texto de Thayz Athayde.

Quase todos os dias passo por uma banca jornais, mas a capa de uma revista me chamou a atenção: prepare seu corpo para o verão. Mesmo atrasada, eu tive que parar para ler aquilo e falei meio indignada pro rapaz da banca:

– Como assim preparar meu corpo para o verão? Ele já não tá preparado? Falta o que? Uma melancia na cabeça?

O que me deixou mais chocada, é que só tinha mulheres na revista, obviamente somente as mulheres devem fazer dietas e ficar magras, os homens que fiquem com suas barriguinhas de cerveja, é tão sexy, né? Ninguém gosta da barriga do Gerard Butler. Há algo extremamente necessário, talvez até um pré-requisito para ser mulher: você tem que ser perfeita. Cabelos lindos, corpo exuberante, paciência de um monge budista, esposa dedicada, super mãe, excelente cozinheira e se sobrar tempo, você pode até estudar e ter uma boa carreira, talvez até cuidar de você um pouquinho.

Vivemos hoje em uma ditadura silenciosa, que nos manda fazer tantas coisas e não temos tempo de fazer uma pergunta bem simples: será que eu quero? Eu quero fazer uma lipo? Eu quero ficar meses sem comer chocolate só pra mostrar meu bumbum no verão? Somos metralhadas todos os dias sobre essa suposta obrigação como mulher. E nosso real desejo, onde fica? Eu não acredito que as pessoas pensam que o único desejo feminino é fazer dieta ter um bom marido. Da onde saem esses pensamentos? Das mulheres – barbies. Pare de construir ou ajudar a construir esse tipo de modelo, não faça isso só por você, faça pelas próximas gerações, pelas gerações que lutaram pelo direito de ser mulher, para que possamos ouvir a palavra feminismo como heroísmo e não como um palavrão machista.

A alma do negócio

Texto de Barbara Lopes.

“Somos capazes de ser tão inteligentes ou estúpidos quanto o mundo quiser que realmente sejamos”.

A frase está no romance Pastelão, do Kurt Vonnegut, numa carta que o narrador e sua irmã, ainda crianças, mandam a seus pais. Crianças são assim: têm uma sensibilidade e uma percepção enormes para descobrir o que o mundo espera delas e se esforçam para se adaptar e se transformar exatamente nisso.

Uma das maneiras como o mundo diz às crianças o que quer que elas sejam é através da publicidade. Tem um vídeo muito bacana mostrando como são diferentes as propagandas de brinquedo para meninas e meninos. Para meninas, são valorizados cuidados domésticos, beleza e popularidade. Para meninos, competição, poder e criatividade. (O vídeo está em inglês, mas aqui tem a tradução do Google pra transcrição; meio tosca, mas dá pro gasto). A conclusão do vídeo, com qual eu concordo, é que a publicidade para crianças deve ser proibida ou, pelo menos, altamente regulada.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=rZn_lJoN6PI&feature=player_embedded]

A maneira como esses estereótipos de gênero limitam as possibilidades das crianças fica clara no vídeo. Mas eu fiquei pensando em outro aspecto. Nós vivemos uma matança de meninos. Um estudo da UNICEF, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Observatório de Favelas e Laboratório de Análise da Violência mostra que o índice de adolescentes assassinados é altíssimo e que a maior parte das mortes é por arma de fogo. Meninos tem risco 12 vezes maior que meninas e negros 2,6 mais que brancos.

Não dá pra simplificar o problema, que inclui uma série de outras questões – racismo, acesso fácil a armas, violência policial são algumas. Não é uma relação direta, de acreditar que uma imagem, sozinha, é culpada por toda a violência. Mas propagandas e preconceitos não são inocentes nessa história, são o mundo dizendo que quer que meninas sejam bonitas e meninos lutem. Quando isso se junta com outras condições, o resultado é explosivo.

A gente pode querer bem melhor.

Por um movimento consistente

Texto de Maia Cat.

O que antes parecia uma vaga idéia agora se assoma como uma possibilidade real para mim: um movimento feminista que realmente tenha voz. Isso por causa da lista das blogueiras feministas, que reune em torno de 150 participantes interessadas na causa. Gente, não sei se fui acometida de alguma espécie de otimismo bobo e ingênuo, mas essa me parece uma oportunidade que não podemos desperdiçar. Começamos devagar, mas agora as discussões já estão sempre andando na lista, sempre com participação, idéias interessantes e respeito entre todas. Um novo mundo praticamente se abriu pra mim. No começo, quando passei a me interessar pelo feminismo, só achava páginas e blogs em inglês na internet sobre o tema. Mal sabia eu que havia uma série de blogueiras falando sobre a causa. Demorei a achar, e olha que procurei por um bom tempo! De fato, às vezes tenho a sensação de que somos invisíveis na internet. E agora, não são só os blogs ótimos que encontrei: temos a possibilidade de nos falarmos entre todas, saber quem somos, compartilhar as idéias  ehistórias.

Reunidas, podemos explorar cada vez mais as ferramentas da internet não individualmente, mas como grupo. Claro que é um grupo pequeno ainda, de pouco alcance. Mas tem tanta idéia boa, tanta gente boa, e de tantos lugares do Brasil, e algumas que até moram fora, que permaneço acreditando que é uma oportunidade boa demais. As discussões na lista têm que continuar, mas deveriam servir de pauta, antes de tudo, para nossas ações como grupo. O blog é um começo. Mas quero ainda ver isso crescer: vídeos (como já começaram), twitter (só eu que ainda não entendo nhecas disso), blogs, campanhas, petições, busca de espaço na mídia mais tradicional, sei lá! Qualquer coisa pra chamar atenção pra causa é válido (claro, menos roubar, matar e essas coisas :D ).

E aí, sou só eu que tô empolgadinha?