Jornalismo sexista feito por e para mulheres

Texto de Cecilia Santos.

Meu post de hoje trata de duas reportagens publicadas na edição de 09 de janeiro de 2011 no caderno Feminino do Estadão.

Não pretendo discutir o fato de que a mera existência de um caderno para mulheres dá a impressão de que toda a parte séria do jornal só interessa aos homens. Mas, uma vez que ele existe, creio que já seria vantagem se as jornalistas conseguissem evitar a fórmula manjadíssima e desnecessária de tratamento diferenciado dado às mulheres.

As duas matérias que pretendo comentar aqui, ambas produzidas por mulheres, são sobre uma tenente do corpo de bombeiros (da jornalista Cristiana Vieira) e a segunda (produzida por Ciça Vallerio), sobre mulheres cachaçólogas e cachacistas (para quem não sabe, a reportagem explica que designam o profissional e o amante da cachaça, respectivamente).

As matérias têm o mérito de mostrar mulheres que conseguiram ser bem-sucedidas em áreas predominantemente masculinas. Mas os textos não conseguem abrir mão de elementos sobre estética e casamento/maternidade que, além de dispensáveis no contexto, certamente  não seriam usados se os entrevistados fossem homens.

Minha dúvida é: de onde essas jornalistas inferem que a mulher que lê esses textos precisa dessas referências? Será que o manual de redação do jornal recomenda o uso desses elementos sexistas? É algo que se ensina nos cursos de jornalismo?

Eis o início da matéria sobre a tenente do corpo de bombeiros:

“São 7h30 de um dia ensolarado quando uma bela mulher se aproxima. Loira, de cabelos longos e lisos, olhos claros, unhas vermelhas, maquiagem discreta. Se não fosse pela farda, que impõe respeito a qualquer um, poderia ser a descrição de uma novata no mundo das celebridades. [esta última frase não é muito inteligente] Mas é a jovem tenente Karoline Burunsizian Fernandes, de 27 anos, que se prepara para dar o comando…”

“Estirou-se junto [com os comandados] e concluiu os exercícios, como se estivesse retocando a maquiagem.”

Eu me pergunto se as jornalistas estão sempre retocando a maquiagem ou lixando as unhas entre uma e outra tarefa, tal é a obsessão com cuidados estéticos na linguagem jornalística quando o tema é a mulher em posições de poder. Ou será preciso reforçar que são aceitas (ou toleradas) nessas posições desde que não percam a feminilidade? E quais são os parâmetros de feminilidade? Usar maquiagem?

O texto sobre as cachaçólogas cita 5 ou 6 mulheres, e eu notei que as mais jovens recebem mais adjetivos que as mais velhas. Também há citações sobre as casadas e mães. Quer dizer, tentem mudar as personagens para homens e imaginem se essas referências estariam ali:

“Jovem e bonita, num universo predominantemente masculino, ela precisa mostrar firmeza no trato com importadores…”  [Sobre Carolina Steagall Harley Tomaso, 30 anos]

“Formada em Administração de Empresas, a bela morena cuida do negócio de seu marido…”  [Sobre Viviane Luppo, 35 anos]

Nas referências às mulheres mais velhas, as jornalistas sinalizam as que são casadas e mães mas omitem informações sobre maternidade e estado civil de outras. Penso: essas últimas seriam solteiras sem filhos? Sabemos, com base na teoria da Análise do Discurso, que o que se omite em um texto é tão ou mais significativo do que o que se diz.

“Uma das mulheres mais atuantes nesse ramo é Raquel Salgado, de 55 anos, presidente executiva da Associação…”

“Nessa luta, Raquel é amiga e parceira da Pernambucana Vitória Cavalcanti, de 56 anos, casada há 33 e mãe de uma psicóloga. Ela é a toda-poderosa da Pitú…”

Mais duas mulheres são citadas no texto: Carla Adam, de 39 anos, e Katia Espírito Santo, de 55. Num dado ponto do texto, sem ligação com o contexto, aparece a informação de que a segunda é “casada e mãe de três filhos adultos”.

Penso se é realmente necessário sabermos se a profissional de sucesso tem ou não marido e filhos. Será que a omissão do estado civil de algumas mulheres é uma tentativa de evitar reforçar o estereótipo de que mulheres que se dedicam aos negócios não se casam? Se sim, não teria o efeito contrário?

Todas nós já constatamos que esse padrão é recorrente no jornalismo. Eu não estou propondo um repetitivo exercício de indignação, mas uma discussão sobre ações concretas. O que nós, como consumidoras críticas, temos feito ou podemos fazer para comunicar a essas jornalistas e seus empregadores que não é isso que queremos ler? Será que as próprias jornalistas, em seu próprio exercício profissional, sentem a necessidade de reforçar esses estereótipos de feminilidade como aparato da competência profissional?

Gênero neutro

Texto de Barbara Lopes.

A discussão sobre a forma presidenta vem nos lembrar que não existe neutralidade na nossa língua, como não existe na nossa sociedade. Se eu for ao cinema com alguém e meu marido me ligar, vou necessariamente dizer o gênero da pessoa que está comigo, “um amigo” ou “uma amiga” – e o significado desse passeio pode mudar completamente por isso. Em outras línguas, como no inglês, a frase ficaria ambígua, mas em português é muito difícil fugir – inclusive porque as fugas nos denunciam prontamente.

Mas há quem diga que não: que o masculino funciona como masculino mesmo, mas também como neutro. Nossa língua funciona assim, no plural (“amigos” pode ser um grupo com apenas um homem e muitas mulheres) e nas formas que não flexionam (“moça meio distraída”). E também nossa sociedade funciona assim. O que precisa ser marcado é o feminino; é o que notamos primeiro, é a diferença.

O mesmo acontece com outros grupos “diferentes”. No campo da sexualidade, falamos da heteronormatividade, a expectativa é que o “normal”, o “default” é ser hétero e que a diferença é que é notada, marcada. No O que é racismo, o Joel Rufino dos Santos conta (cito de memória) de um jogo de futebol, em que toda vez que um jogador tal errava um lance, um torcedor gritava “Preto burro!”. Daí, quando um jogador branco errou, um amigo do autor gritou, para espanto de todos, “Branco burro!”.

Esses dias, um amigo criticando um comportamento no trânsito disse que achava que mulheres faziam isso mais do que homens, e me perguntou se fazia sentido. Estatísticas são complexas, talvez haja mais mulheres dirigindo; talvez mulheres realmente se comportem desse jeito. Mas me ocorreu que talvez ele repare mais quando é uma mulher e que quando homens fazem a mesma coisa, caia pra uma gaveta “neutra”.

O nosso trabalho é duplo: desconstruir esse neutro-normativo (homem, branco, hétero) e reconstruir um sentido neutro real, em que as pessoas sejam notadas pelo que são e não pelo grupo no qual foram inseridas. Nessa luta, não há campo neutro.

Update – dois links fresquinhos sobre o caso “presidenta”:

Dilma vai desfilar sozinha

Dilma desfilará sozinha: a pequena revolução do dia 1º de Janeiro de 2011.

Texto de Mari Moscou.

Leitoras queridas,

enquanto não sai meu post definitivo sobre Caminho das Índias e Hilda Furacão (ando na maior vibe reassistindo a minissérie), enquanto não começa o Big Brother 2011, enquanto não tenho mais notícias da minha ceia de ano novo ou do meu casamento, eis aqui um assunto de relativamente maior importância:

“Dilma desfilará sozinha na cerimônia de posse”, anunciava a home do UOL até esta madrugada.

Fiquei encantada com a manchete. Em uma frase ela sintetiza duas pequenas revoluções, como gosto de chamá-las, que serão exibidas escancaradamente no dia 1º de Janeiro de 2011. A primeira delas, termos eleito uma mulher. Em apenas seis eleições diretas a democracia brasileira que a direita e os golpistas querem que acreditemos ser frágil já elegeu um operário e, agora, uma mulher. Quando algum babaca vier elogiar os “países desenvolvidos” (nem sei como alguém tem a audácia de colocar na mesma cesta, homogeneizados, países como a Itália e a Finlândia, afe, mas vamos lá ao assunto) e suas “grandes democracias”, pergunte quanto tempo a França levou pra eleger uma mulher como presidente. Ahhhhh… ainda não elegeu? Há quanto tempo a França tem eleições diretas? Ah, tá, falou então. Mas vamos à próxima revolução que desta já falamos extensivamente durante as eleições.

Essa segunda “pequena revolução” que estará em destaque na cerimônia de posse tem a ver com o conceito de família. Nós somos um país BEM católico, embora haja gente que custe a admiti-lo, e vivemos todos os dias decisões relacionadas a uma série de conceitos e padrões católicos tanto na nossa vida “civil” quanto no executivo (sobretudo no estado SP, onde temo um governador da Opus Dei – oh god kill me please), no legislativo, no judiciário (eu sei, às vezes também acho que o Estado laico é uma grande mentira no Brasil). Isso aparece quando repórteres perguntam pra Dilma se ela não poderia começar a namorar durante o mandato e se isso não seria ruim para a presidência, quando definem a Marta Suplicy como “puta”, “vaca”, etc. porque ela se separou do Suplicy pra ficar com o Favre (post meu no Sexismo na Política sobre Marta, Dilma e Hillary Clinton), quando grande parte dos entrevistados de uma pesquisa dizem ser contra a adoção de crianças por casais homo, quando a Bruna Surfistinha conta em seu primeiro livro que a maioria de seus clientes era casado e pedia penetração anal, etecétera e tal. Os exemplos são muitos. Esse tipo de classificação e comportamento está mais ou menos diretamente ligado à idéia católica de que “família” deve ser um homem, uma mulher, filhos (e sexo só pra procriar hein?).

Nas cerimônias de posse, até hoje, estão sempre representados o eleito e “sua família”. A idéia convencional é um homem, eleito presidente, desfilando num carro ao lado de sua mulher, primeira-dama, que se dedicará a trabalhos sociais mas jamais à política (vide o preconceito que a Hillary sofre até hoje). Mas agora não. Na posse de Dilma, ela desfilará sozinha. Ela, uma mulher, é a presidente e a família da presidente. Não precisa de homem, de filho, de filha, de ninguém. É ela ali e pronto. Ela, sozinha, já “vale”. Não é lindo?

Infelizmente não poderei acompanhar ao vivo esse momento glorioso da luta pela igualdade de gênero, mas as amigas feministas aqui do blog, espero, contarão direitinho os detalhes e farão comentários que irão mais a fundo do que a grife da roupa da Dilma ou as jóias que ela usará (nada contra o interesse nesses detalhes, mas eu como leitora desejo mais que isso).

E confesso: cada vez gosto mais de que a Dilma seja solteira.