A infância faz mal ao mercado

Texto de Danielle Cony.

Hoje eu gostaria de propor um post um pouco diferente. Não vou argumentar. Vou apenas postar dois vídeos que falam sobre publicidade, televisão e infância. Se alguém me perguntar o que isso está relacionado com o feminismo, vou deixar para vocês  respoderem.

Gostaria que as leitoras/expectadoras fizessem seus respectivos comentários na caixa de diálogos, para que essa interação seja uma aprendizado para todas nós.

O vídeo abaixo é da pesquisadora de Harvard, Susan Linn, que fala sobre a aprendizagem na brincadeira criativa.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Bw4JtOCnztQ]

 

Já o vídeo abaixo é o documentário ‘Criança, a alma do negócio’. Esse vídeo fala sobre publicidade e consumo.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=49UXEog2fI8]

 

E então? Chocadas? Eu fiquei bem reflexiva quando assisti esses vídeos. Espero que vocês também…

Top 5 da publicidade machista

Texto de Carol Fontes.

Meu Ensino Médio foi técnico em Publicidade, passei três anos da minha vida prestando muito atenção em peças publicitárias (televisão, jornal, outdoor, etc.) e acabei ficando um pouco condicionada, já não sou mas tão ingênua!

Quando me reconheci feminista e com uma ajudinha do blog da Lola voltei esse novo olhar para meus amigos publicitários e me decepcionei. O objetivo dessa coluna, infelizmente, é tirar a inocência de vocês, mostrar que a publicidade para homens é muito machista e para mulheres é muito superficial, claro que quando encontrar algum anúncio interessante e inteligente publicarei com muita alegria. Não publicarei apenas comerciais nacionais porque temos (tomara) visitantes que moram em outros países (queridos, mandem links!) e às vezes a linguagem é muito parecida. Para nossa estréia peguei o supra-sumo dos anúncios nos anos dourados, vocês vão ver que o politicamente correto fez um bem danado para as campanhas publicitárias!

Publicidade antiga. Figuras 1, 2 e 3.

Na figura 1 temos o título “Assopre no rosto dela e ela vai te seguir em qualquer lugar” (amigas tradutoras podem sugerir versões melhores), afinal, qual mulher não gosta de uma descarga de nicotina no rosto né? Depois de listar as opções de sabor de Tipalet o texto continua: “você tem a satisfação de fumar sem inalar fumaça” deixe isso para a mulher na sua frente, ela gosta!

O texto da figura 2 diz que muitas vezes a mulher não percebe que foi anou negligência íntima que a excluiu de um casamento feliz, a propaganda é de sabonete íntimo e lembra as consumidoras de que nenhum marido gosta de mulher descuidada e fedorenta, atualmente os anúncios são um pouquinho diferentes porque nos anos 50 só um homem podia olhar, mas agora o objetivo na vida de qualquer uma é ter vários homens parando quando ela passa, até as atrizes da Globo usam né?!

A figura 3 é aquele mito clássico: mulheres não sabem trocar lâmpada, não fazem consertos na casa e não abrem potes, não abriam porque este revolucionário produto é tão fácil que até uma mulher é capaz, a garota propaganda nem consegue acreditar! É muita tecnologia, é muita inovação, muito carinho com as consumidoras, esse produto merece minha atenção.

Na verdade, fiquei em dúvida se esse pote é tão inovador quanto à máquina para selar cartas da figura 4, afinal, para um homem perguntar se “é sempre ilegal matar uma mulher?” é porque isso é realmente indispensável na vida de qualquer secretária.

Publicidade antiga. Figuras 4, 5 e 6.

Nós sabemos o quanto os homens amam café fresco, se você não sabe disso é porque é tão negligente quanto à esposa da figura 5 que merece uns tapas por isso, que displicente, será que ela ainda não aprendeu que agora pode provar os produtos antes de comprar? Essa imagem é uma das mais fortes, pois incita a violência doméstica pelo motivo mais banal possível, café, tudo bem que os maridos não costumam ter motivos para bater em suas esposas além de machismo, ignorância, falta de amor e respeito, mas usar isso para vender café é pegar um pouco pesado na persuasão.

Para fechar nosso top five da Publicidade nos anos 50 e 60 temos a figura 6. Quando olho para essa imagem só consigo pensar na frase de Rebecca West em 1913: “Eu mesma nunca cheguei a entender direito o que quer dizer feminismo: só sei que as pessoas me chamam de feminista toda vez que expresso sentimentos que me diferenciam de um capacho.”

Espelho, espelho meu

Texto de Cecilia Santos.

Quando se fala em moda, as pessoas sempre pensam nas mulheres. Mas se prestarmos mais atenção, a mulher surge muito mais como consumidora do que como criadora (muitos estilistas e executivos da indústria da moda são homens). E mais importante, ao longo da história, muito do que se estabeleceu nas sociedades em termos de vestuário foi por imposição masculina, principalmente por questões morais, repressoras da sexualidade.

Pensando em termos históricos, vemos que, a partir da Idade Média e até fins do século XIX, a mulher foi obrigada a cobrir seu corpo com muitos metros de tecido, de modo a ocultar suas formas naturais. Não é possível que aqueles vestidões quentes e enormes fossem ideia das mulheres. Mesmo porque, como sabemos, a mulher não tinha voz nas sociedades.

Lembro-me de algumas passagens de E o Vento Levou… da Margareth Mitchell, que li na adolescência. A genial (e geniosa) Scarlett O’Hara estava sempre se revoltando contra as imposições sociais. Obrigada a se casar com um rapaz sem-graça, ela fica ainda mais contrariada quando ele vem a morrer logo no começo da Guerra de Secessão, sem nem mesmo haver combatido, e por conta disso a vaidosa Scarlett é obrigada a adotar o vestuário preto das viúvas e não pode mais dançar nos bailes. Quer dizer, não podia, porque ela desafia todo mundo e na primeira oportunidade sai bailando nos braços do conquistador Rhett Buttler.

Uma passagem desse livro conta que o uso de maquiagem, no caso o carmim nas faces, está associado às prostitutas. As mulheres de boa família podiam no máximo dar uns beliscões nas bochechas para ficarem mais rosadas. Isso tudo, claro, numa tez o mais alva possível, porque o menor bronzeado remetia à cor de pele dos escravos negros.

Cena do filme ‘E o vento levou…’ (1939).

E há o espartilho, claro, que nos remete à cena clássica da mucama apertando o espartilho de Scarlett, afinando sua cintura até ela mal poder respirar. Quantas mulheres desmaiavam com a pressão do espartilho, e ainda assim muitos escritores descreviam as moças de então como criaturas diáfanas, suspirosas, de sensibilidade à flor da pele. Mas é claro, com o corpo comprimido ao extremo, o que eles queriam?

Então, os valores da moeda mudam de uma época para outra, e de uma sociedade para outra, e hoje vemos objetos como o espartilho como verdadeiras ferramentas de tortura feminina. Então eu me pergunto se o vestuário feminino atual, os acessórios, os padrões, o que tudo isso representa, são mesmo escolhas nossas ou imposições culturais.

Sapatos de salto agulha e bico fino podem ser verdadeiras torturas. Será que um dia eles estarão em museus, ao lado dos espartilhos? E por mais que muitas mulheres digam que gostam de usar salto, essa é uma escolha natural, ou somos levadas a acreditar que o sapato de salto é necessário para nos tornar mais belas? E belas para quem?

Estamos constantemente sujeitas ao julgamento alheio, tanto dos homens como das próprias mulheres. Nossas escolhas pessoais, profissionais, sexuais, nossa aparência, o que dizemos, o que pensamos, tudo passa pelo crivo moral da sociedade. Até em situações de violência somos julgadas pelo que vestimos.

Numa sociedade ideal, a mulher poderá se desnudar, com o perdão do trocadilho, de todas as artificialidades que a subjugam, fazer suas próprias escolhas e se sentir feliz com elas.