Cidade para as mulheres

Texto de Keila Meireles dos Santos.

Esse ensaio(1) contempla minha experiência de mulher negra na cidade, de algumas familiares e de conhecidas, cujo fim contempla a proposta dessa reflexão, que é a de mostrar a construção social da mulher incluindo-me como mais um sujeito feminino fruto dessa construção. Ressalto, desde já, que são necessárias análises de pesquisas mais aprofundadas para chegar a uma conclusão definitiva e que essa proposta está sendo trabalhada em minha pesquisa de mestrado em curso.

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Todos os dias ao nascer do sol eu disputava com meus tios e primos o fogão de lenha que esquentava-nos do frio da manhã. Meus tios me repreendiam diariamente com ameaças por eu ficar com as pernas abertas mostrando a calcinha. “Está relampejando”, “fecha as pernas, mala de mascate”, “vou flechar sua perereca pra você aprender”. Dentre todas as frases repressivas supracitadas, a última era enfatizada pela minha avó por meio de histórias verídicas. Ela citava os nomes das crianças que tiveram suas genitálias atingidas com flechas e queimadas com brasas pelos irmãos, porque se descuidaram e mostraram a calcinha. Muitos desses nomes eram de pessoas conhecidas. Em nenhum momento era explicado porque, nós, meninas devíamos fechar as pernas sob pena de violência física.

Recordei-me dessa história no recente Encontro da Marcha Mundial de Mulheres (MMM)(2), sediado na Cidade de São Paulo, após uma militante feminista explanar a confusão que a violência machista provoca na nossa cabeça decidindo em que faixa etária a mulher deve fechar e abrir as pernas. Esse evento reuniu cerca de 1.600 mulheres do Brasil e de mais quarenta e oito países que dividiram suas experiências, reflexões e angústias entre os dias 26 e 31 de agosto de 2013. Um dos traços em comum dentre tantas diferenças destacava a opressão machista, racista, capitalista e do patriarcado. É no calor dessas discussões que emerge a relevância desse estudo. A observação de campo é fruto das experimentações da autora no seu corpo e identidade feminina, negra e jovem; de todas as mulheres que conheço, converso, e observo transitando pelas cidades; das experiências compartilhadas nos encontros de formação feminista; e das representações sociais de mulheres nos discursos também midiáticos.

Manifestação final do 9º Encontro Internacional MMM na Avenida Paulista. Foto de Cintia Barenho..
Manifestação final do 9º Encontro Internacional MMM na Avenida Paulista. Foto de Cintia Barenho.

Ciente de que a mulher sofre diversas violações de direitos humanos, aponto incisivamente apenas algumas ocorrências de assédio no âmbito privado e público. Entretanto, reconheço a existência do feminicídio (homicídio de mulheres conhecidos como crime/violência passional) e dos elevados casos de estupros de mulheres sem discriminação de faixa etária em todo o território brasileiro. De acordo com o “Dossiê Mulher 2013” (.pdf), publicado pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, a violência que tem o maior percentual de mulheres vitimizadas é a sexual. Waiselfisz (2012, p. 8)(3) retrata que “entre 1980 e 2010 foram assassinadas no país acima de 92 mil mulheres, 43,7 mil só na última década”. A maior incidência de violência ocorre na residência da vítima, 71,8%, nas faixas etárias de até 10 anos e a partir dos 30 anos da mulher. 15,6% dos incidentes violentos ocorreram em vias públicas, concentrados em mulheres jovens entre 15 e os 29 anos de idade. A escola apresenta baixa incidência numérica (966 casos), contudo, diminui a faixa etária que fica entre os 5 e os 14 anos.

A cada 15 segundos uma brasileira é impedida de sair de casa, também a cada 15 segundos outra é forçada a ter relações sexuais contra sua vontade, a cada 9 segundos outra é ofendida em sua conduta sexual ou por seu desempenho no trabalho doméstico ou remunerado. Esses dados evidenciam que a violência contra a mulher no Brasil, longe de ser um problema que deva estar restrito ao âmbito privado dos casais, constitui um fenômeno social de grande alcance, a requerer políticas públicas de ampla difusão e acesso (VENTURI, RECAMÁN, 2004, p.26).

Até os 4 anos de idade da mulher, a agressora é a mãe; o pai é a figura quase exclusiva das agressões até os 9 anos e nas faixas etárias a partir dos 10 anos são os principais agressores. Esse papel é substituído pelo namorado, marido ou ex-marido, dos 20 a 59 anos da mulher; e a partir dos 60 anos são os filhos os principais agressores (WAISELFISZ, 2012). O Brasil figura na 7ª colocação na taxa de feminicídio, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). A tolerância e naturalização da violência por meio da culpabilização das vítimas, que são taxadas de vadias que buscaram o incidente, justificam esses números. Outra razão é a não aplicação dos dispositivos legais de punição aos agressores como a Lei nº 11.340 de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha.

“O corpo é meu, a cidade é nossa”

Essa é uma das músicas cantadas pelas mulheres participantes da Marcha das Vadias (SlutWalk). Esse movimento feminista eclodiu pelo mundo depois que um policial, que ministrava uma palestra na Universidade de Toronto, no Canadá, aconselhou as mulheres a evitar se vestirem como vadias para não serem estupradas. Há outras músicas cantadas por mulheres na MMM que denunciam a violência sexista: “A nossa luta é por respeito, mulher não é só bunda e peito”; “Se o corpo é da mulher, ela dá pra quem quiser”; “A nossa luta é todo dia contra o machismo, racismo, homofobia”.

O objetivo é chamar a atenção da sociedade para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na cidade, pois o uso da cidade pela mulher(4) é um tema importante, tendo em vista que é crescente a discussão acerca dos papéis de gênero na sociedade. A divisão sexual do trabalho condicionou à mulher extensa jornada de laboro no âmbito da sua participação no mercado de trabalho somada com as tarefas domésticas. Nesse sentido, a relação da mulher com a cidade é intrínseca a essa ordem vigente. Esse estudo denuncia as violações de direitos sofridas pela mulher das cidades nas suas experiências de vivências nos ambientes privado e público.

A cidade transcende os conglomerados residenciais, atividades comerciais, institucionais, industriais e indivíduos dispostos numa determinada área geográfica. “A cidade é um estado de espírito, um corpo de costumes e tradições e dos sentimentos e atitudes organizados inerentes a esses costumes e transmitidos por essa tradição” (PARK, 1948, p.26). Segundo esse autor, “a cidade não é uma unidade geográfica e ecológica; ao mesmo tempo, é uma unidade econômica” (p. 27).

Jacobs (2007) chama a atenção para os projetos urbanísticos de construção e de revitalização das cidades. Para ela, os profissionais responsáveis por essas reformas estão mais interessados na funcionalidade de uma cidade ideal do que da cidade real. Urbanistas e projetistas pensam que solucionando os problemas no trânsito a maior parte dos problemas da cidade estarão resolvidos. “As cidades apresentam preocupações econômicas e sociais muito mais complicadas do que o trânsito de automóveis” (JACOBS, 2007, p.6).

De acordo com Park (1973, p. 29) “a cidade está enraizada nos hábitos e costumes das pessoas que a habitam. A consequência é que a cidade possui uma organização moral bem como uma organização física, e estas duas interagem mutuamente de modos característicos para se moldarem e modificarem uma a outra”. Wirth (2005) escreve que a cidade não é apenas a morada e o ofício do homem [mulher] moderno, mas também um centro de iniciação e controle da vida econômica, política e cultural que tem atraído em seu interior pessoas e atividades diferentes. Para Wirth (2005, p.2), “uma definição de cidade sociologicamente significativa busca selecionar aqueles elementos do urbanismo que o caracteriza como um modo distintivo da vida humana de grupo” (tradução minha).

Foto de Thomas Seiki Ueda no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Thomas Seiki Ueda no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Como as cidades grandes vivem equilíbrios instáveis, a mulher é a mais prejudicada nessa crise crônica citadina porque precisa constantemente se adaptar a esses processos. A cidade é reservada ao homem. Essa afirmação explica porque a mulher não encontra seu lugar na cidade. Reflete como o machismo e o racismo são os responsáveis centrais dessa desigualdade que infringe os direitos de ir e vir, o direito à cidade e à dignidade humana da mulher.

Uma forma de inclusão da mulher na cidade são os projetos urbanísticos com creches, escolas, salão de cabeleireiro, locais para alojamento de brinquedos das crianças, regularização das ocupações, locação social, ou seja, agregação de políticas de casas acessíveis e financiamentos mais baratos para as mulheres observando que é a categoria de gênero que têm menor rendimento financeiro devido à discriminação sofrida por elas no mercado de trabalho. Observa que as bolsas aluguel distribuídas por governos nos casos de remoções são insuficientes para suas moradias, principalmente aquelas que têm filhos.

Políticas educativas de respeito à mulher são necessárias, cujo objetivo é de informar os agressores que suas atitudes são invasivas, nocivas e criminosas, afetando negativamente a mulher. O combate ao machismo inclui a conscientização dos homens quanto às suas práticas violentas. Por isso, é indispensável o envolvimento de homens nessa luta pelo compromisso ético e social de erradicação das manifestações machistas. Para tanto, o Estado precisa assumir sua parcela de responsabilidade, inclusive que é machista e racista dentro de suas esferas institucionais, o que corrobora para o insucesso das Delegacias de Atendimento às Mulheres (DEAM) e a falta de instituições de atenção à mulher em muitas cidades.

Notas

(1) Esse texto é parte de um ensaio entitulado “A cidade para as mulheres” (.pdf), apresentado ao Segundo Seminário Fluminense de Sociologia do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (PPGS-UFF).

(2) Inspirada em uma manifestação que reuniu 850 mulheres que marcharam 200 quilômetros, pedindo, simbolicamente, “Pão e Rosas”.

(3) Julio Jacobo Waiselfisz analisou dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) e da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde referentes ao ano de 2011.

(4) Para fins de compreensão: a “mulher” nesse estudo é a categoria sexual biológica e identitária. “Gênero feminino” é uma categoria social, a qual a mulher identifica como a categoria sexual biológica conferida ao feminino. Não é minha intenção discorrer sobre os conceitos de todas as categorias tratadas aqui.

Referências

  • JACOBS, Jane. Morte e vida das grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
  • PARK, Robert Ezra. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano. In: VELHO, Otávio Guilherme (Org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1948, p. 27-67.
  • VENTURI, Gustavo; RECAMÁN, Marisol. As mulheres brasileiras no início do século XXI. In: RAGO, Margareth; VENTURI, Gustavo; RECAMÁN, Marisol; OLIVEIRA, Suely de (Org.). A mulher brasileira nos espaços público e privado. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.
  • WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2012 – Atualização: Homicídio de Mulheres no Brasil (.pdf).
  • WIRTH, Louis. El urbanismo como modo de vida (.pdf). Bifurcaciones: revista de estudios culturales urbanos, n. 2, outono, 2005.

Leia também a segunda parte: A construção social da mulher.

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Autora

Keila Meireles dos Santos é mulher negra, feminista e aluna de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (PPGS-UFF).

Em repúdio às prisões arbitrárias e à criminalização dos movimentos sociais no Rio de Janeiro

Texto de Bárbara Araújo.

Desde junho de 2013, protestos populares com adesão de centenas de milhares de pessoas tomaram conta do Brasil. Com uma pauta de reivindicações diversas, eles marcaram um momento histórico de retomada das ruas pela população, que voltou a ocupá-las como espaço de luta política por excelência. O fenômeno foi especialmente marcante no Rio de Janeiro, pelo fato da cidade ter se tornado sede de uma série de mega-eventos, o que agravou os problemas sociais preexistentes e, por consequência, ampliou e radicalizou a resistência popular.

[+] Manifestações no Rio de Janeiro: a repressão não pode nos calar.

[+] Marcha das Vadias do Rio de Janeiro: os santos que nos tem quebrado.

Depois das jornadas de junho e das manifestações contra a Copa das Confederações em julho, os protestos retomaram força em agosto com a greve da educação. A rede estadual e a rede municipal (que não deflagrava uma greve como essa há duas décadas) construíram um movimento radicalmente contrário à política meritocrática da prefeitura e do governo do estado que visa ao sucateamento da educação pública. Também em agosto teve início uma ocupação na Câmara dos Vereadores, cujo objetivo era fiscalizar a realização da CPI dos transportes, conquista das jornadas de junho que os deputados da base do governo têm feito de tudo para deslegitimar. O movimento, que ficou conhecido como Ocupa Câmara, tornou-se um espaço de convivência, de realização de atividades culturais e de debates políticos rico e plural. Tornou-se ainda uma base de apoio para o movimento dos profissionais da educação municipal, que igualmente decidiram montar acampamento na Câmara.

[+] Relato de uma professora sobre a greve da educação no Rio de Janeiro.

Se os movimentos sociais cresceram em tamanho e potência nos últimos meses, igualmente o fez a repressão. Desde junho, a Polícia Militar do Rio de Janeiro vem utilizando um verdadeiro arsenal de guerra contra os manifestantes, entre bombas de gás lacrimogêneo cada vez mais potentes, balas de borracha e também de chumbo, espancamentos, etc. Tem sido recorrente que cada manifestação resulte em um número de pessoas detidas sem garantias mínimas de direitos, além da prática já comprovada de implantação de provas falsas pela polícia nos manifestantes e de infiltração de policiais no movimento. A arbitrariedade e a violência incomensurável não são exclusividade da PMERJ – em todo o país a polícia militar tem comprovado ser uma instituição de inclinações fascistas que PRECISA acabar para que seja possível que se viva um Estado democrático de direito. Vale lembrar que, se a polícia tem atuado dessa maneira há meses, cada vez com mais gravidade, a responsabilidade está também nas mãos do Estado – nominalmente de Eduardo Paes, Sérgio Cabral e da ex-guerrilheira Dilma Roussef.

Ocorre que na noite e na madrugada do dia 15 de outubro, o terrorismo de Estado executado por seu braço armado ultrapassou quaisquer limites. A brutalidade começou com o ataque de uma numerosa força policial à passeata dos educadores sem que absolutamente nenhum tipo de “vandalismo”, como gosta de chamar a grande mídia, tivesse ocorrido. Mais tarde, sem apresentação de qualquer determinação judicial, o Ocupa Câmara foi dissolvido à força pela polícia. Um número alarmante de pessoas foram detidas — mais de 200, segundo a OAB — dentre as quais estudantes, professores, jornalistas, um carteiro e um jovem palhaço, todos criminalizados pelo fato de se encontrarem fisicamente nas escadarias da Câmara.

Naquela madrugada, a polícia omitiu os motivos das prisões e omitiu igualmente o destino dos detidos, que foram sendo distribuídos pelas diversas D.P.s ao longo de toda a cidade. Apesar da série de entraves colocados pelo Estado, incluindo a humilhação dos advogados que procuraram garantir os direitos dessas pessoas, algumas foram liberadas no dia seguinte. Outras tantas foram encaminhadas para complexos penitenciários como criminoso inafiançáveis. Isso por conta da nova legislação repressiva, de contornos ditatoriais, que o Estado utiliza pra incriminar a militância. Trata-se da Lei Federal 12.850/2013, conhecida como “Lei de Organização Criminosa” que, com sua linguagem jurídica vaga, tem legitimado ações como infiltração de policiais nos movimentos e quebra de sigilos pessoais, além de possibilitar a compreensão dos manifestantes como “organizações criminosas” e “quadrilhas”.

Houve muitas mulheres presas. Entre elas está Elisa Quadros, conhecida pelos amigos como Sininho, que integrava o acampamento do Ocupa Câmara. Nesse vídeo, Sininho e seu companheiro denunciam as ameaças que vinham sofrendo no Ocupa Câmara. Ela agora é acusada de ser “liderança” do movimento e assim, se o movimento é tratado como “organização criminosa” pelo Estado, Sininho foi transformada em líder de quadrilha, presa inafiançável.

Não é exagero dizer que a democracia está sendo gravemente atacada. A criminalização da militância no Rio de Janeiro tomou proporções monstruosas. A nova lei 12.850/2013 ameaça o direito de manifestação e de organização dos movimentos sociais. A repressão é brutal e o Estado é conivente. Precisamos estar muito atentos a esse processo e, principalmente, precisamos ter uma posição ativa em relação a ele. Isso é: não abandonaremos as ruas. Enquanto houver presos políticos no Rio de Janeiro, todo dia é dia de manifestação. Além disso, cada pronunciamento, cada compartilhamento, cada denúncia é fundamental em um momento como esse.

sininho
Sininho se despede de seu companheiro antes de se encaminhada para o presídio. Foto: Estefan Radovicz/Agência O Dia/AE.

> ASSINE o abaixo-assinado pela libertação imediata dos presos políticos de 15 de outubro de 2013 no Rio de Janeiro.

> Os advogados do Instituto de Defensores de Direitos Humanos solicitam o apoio de todos para coleta de vídeos e imagens que ajudem a desmentir a incriminação dos detidos. Mais informações aqui.

> A revista Vírus Planetário está reunindo vídeos e imagens que possam ajudar no trabalho de apuração e investigação das violações de direitos cometidas pela polícia militar no dia 15 de outubro para enviar à Comissão de Direitos Humanos da ALERJ.  Mais informações aqui.

Imagem do destaque: Rio na Rua.

Nem deficientes, nem doentes, corpos desejantes

Dia 21 de setembro é o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. A data foi oficializada em 2005, pela Lei 11.133 de 14 de julho de 2005Para marcar esse dia publicamos a tradução de um texto que propõe desconstruir o termo “deficiência” e discutir novas visões sobre os corpos humanos. A luta contra o capacitismo (termo utilizado para descrever a discriminação, opressão e abuso advindos da noção de que pessoas com deficiência são inferiores) também é uma luta que deve ser encampada pelo Feminismo. 

Segundo Fiona Kumari Campbell o capacitismo, está para o segmento da pessoa com deficiência o que o racismo significa para os afro-descedentes ou o machismo para as mulheres, pode ser associado com a produção de poder e se relaciona com a temática do corpo, por uma ideia padrão corporal perfeita. Referência: Entenda o que é capacitismo!

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Nem deficientes, nem doentes, corpos desejantes

Este sábado realiza-se em Madri a “Marcha pela Visibilidade das Pessoas com Diversidade Funcional”, que, pela primeira vez na Espanha, se coordena em conjunto com organizações de diversidade sexual. Testemunhos e razões de uma luta invisibilizada.

Texto de Ana Felker. Tradução de Patricia Guedes.

Publicado originalmente com o título: ‘Ni discapacitados ni enfermos, cuerpos deseantes’ no site Marcha – Una Mirada Popular de la Argentina y el mundo em 13/09/2009.

Cartaz da VII Marcha Pela Visibilidade das Pessoas com Diversidade Funcional em Madrid, Espanha.
Cartaz da VII Marcha Pela Visibilidade das Pessoas com Diversidade Funcional em Madri, Espanha.

Uma pessoa em cadeira de rodas com uma metralhadora em cada mão grita “Festa!”, enquanto um fisiculturista com peruca loira e sapatos de salto a empurra pela rua. Esta imagem ilustra o cartaz que convoca para a “Marcha pela Visibilidade das Pessoas com Diversidade Funcional”, que se realizará este sábado em Madri, organizada pelo Foro de Vida Independiente e Divertad (síntese entre dignidade e liberdade), composto por mais de 400 pessoas de 15 países.

É a primeira vez na Espanha que os ativistas a favor da diversidade funcional formam uma aliança com aqueles que defendem os direitos das comunidades lésbica, gay, travesti, transgênero, transexual, intersexual e queer. Antonio Centeno, ativista a favor dos direitos das pessoas com diversidade funcional, relata como se deu essa relação e e quais são as coincidências.

Centeno explica que rechaçam categorias depreciativas, como “deficiente” ou “inválido”, pois se referem ao que as pessoas não podem fazer, em vez do que podem. Por isso, propõem falar em “diversidade funcional”, para atacar a discriminação desde a linguagem. “Não é uma forma de ser politicamente correto, mas sim abertamente político”.

Antonio comenta que “entendemos que o corpo é um campo de batalha onde se intenciona delimitar o que é normal, desejável, saudável. Nos dizem para que servimos, do que somos capazes ou que sexo devemos fazer”. E acrescenta: “A nós só é permitido aspirar à sobrevivência, mas nunca uma cidadania plena. Por isso, pensamos que a maneira mais potente de conectar-se à vida é a sexualidade”.

A aproximação entre ambos os grupos se deu quando alguns membros do Foro de Vida Independiente conheceram o coletivo Post Op, em Barcelona. Este grupo se dedica à investigação de gênero e pós-pornografia, tanto na teoria quanto na prática. O pós-pornô é um tipo de pornografia que busca visibilizar outros corpos que não coincidem com o ideal de beleza ou de funcionalidade, assim como outras formas de prazer que não as da indústria pornográfica que, do seu ponto de vista, reproduz estereótipos de gênero.

“Queremos visibilizar os corpos não-funcionais como corpos desejantes e desejáveis”, diz Antonio. Assim, com interesses em comum, começaram a trabalhar no documentário “Yes, we fuck!”.

Outros corpos

De acordo com a filósofa e ativista queer Beatriz Preciado, foi em meados do século XIX que se criaram as noções modernas de “deficiência” e “incapacidade física e psíquica”, entendidas como patologias ou enfermidades. Do seu ponto de vista, não é por acaso que estas categorias tenham surgido em plena revolução industrial, pois foram identificados como anormais os corpos que não se adaptaram a esse sistema de produção.

Preciado explica que a estatística aplicada à gestão da saúde, nos últimos anos, criou a diferenciação entre os corpos “normais” e os “anormais”. Segundo suas investigações, foi assim também que foram patologizados os homossexuais. “Ao serem considerados doentes – explica – se lhes negava não apenas uma representação política, como também o acesso ao poder. Depois, no século XX, os movimentos pelos direitos dos homossexuais lutavam pela despatologização do corpo”.

Da mesma forma, membros da diversidade funcional buscam agora que seus corpos não sejam vistos como doentes, mas sim como capazes de decidir sobre a própria vida, se forem criadas as condições necessárias. Entre alguns ativistas e pesquisadores que estão trabalhando neste sentido encontram-se:

  • Sunaura Taylor, artista que expõe em importantes galerias dos Estados Unidos, professora da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e ativista pela diversidade funcional. Ela argumenta que não são as pessoas que são deficientes e sim as condições sociais que os inabilitam. Ou seja, a falta de condições no entorno para sua independência. Sunara tem artrogripose, uma síndrome congênita que a obriga a usar cadeira de rodas, entre outras dificuldades motoras.
  • Amanda Baggs demonstrou que também podemos falar de uma diversidade cognitiva a partir do ativismo autista. Em 2007, aos 26 anos, publicou o vídeo “In my language” como uma declaração sobre as capacidades e os direitos das pessoas com autismo. Mediante um sintetizador de voz e um teclado, pode fazer uma tradução de sua forma de comunicar-se com o mundo. “Esta é uma declaração sobre o valor da existência de diferentes tipos de pensamento ou interação em um mundo onde se você não usa a linguagem considerada normal, você não é considerada uma pessoa com direitos”, argumenta Baggs no vídeo.
  • Antonio Centeno aos 13 anos sofreu um acidente que o despertou para essas reinvindicações. Em 2006, junto com outros membros do Foro de Vida Independiente, se manifestou contra a Lei de Promoção da Autonomia Pessoal e Atenção à Dependência, liderada pelo então presidente espanhol José Luis Rodriguez Zapatero. Para ele, a lei usa uma linguagem discriminatória e não garante as condições econômicas ou sociais para que as pessoas com diversidade funcional possam desenvolver uma vida autônoma.

Além desta inconformidade, a marcha deste sábado exige o cumprimento da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas que, na Espanha, entrou em vigor em maio de 2008.

Trata-se de combater uma discriminação estrutural que se expressa em “entornos urbanos e transportes não acessíveis, escolas sem a formação nem os meios para dar o melhor à criança, independente de como ela seja, falta de apoio para a autonomia pessoal que acaba enclausurando aqueles com necessidades especiais na casa da mãe ou em uma residência”, explica Antônio.

Há uma falsa ideia sobre a dependência corresponder a apenas um grupo: “Nem você, nem eu, nem ninguém é autônomo”. Qualquer um está propenso a necessitar de assistência em virtude de doença, acidente ou da própria velhice.

Pela sétima vez, ele sairá em manifestação pelos direitos da diversidade funcional. Pela primeira vez, com o apoio de lésbicas, homossexuais, transgêneros, transexuais e intersexuais pelo reconhecimento desses outros corpos que não estão dispostos a limitar-se à sobrevivência.