Que presente?

Texto de Tica Moreno.

Nos últimos anos, sempre que o Dia das Mães se aproxima vem aquela questão entre as irmãs: qual vai ser o presente que vamos dar pra nossa mãe?

E, nos últimos anos também, tem me incomodado mais e mais as propagandas de presentes pro dia das mães. Outro dia ligaram aqui na SOF (organização feminista onde trabalho) pra dar uma sugestão de pauta pra um periódico nosso (a Folha Feminista). Eu atendi a moça, que falou tudo sobre uma linha de presentes mára pro dia das mães. Eu expliquei pra ela qual era nosso foco (política, feminismo, transformação…), ela entendeu e ficou por aí.

Parece que o Dia das Mães só perde pro Natal como data que dá lucro pro comércio. Aí um primeiro elemento que surge na mente é o da mercantilização do afeto. Um presente, em um dia específico do ano, sintetiza todo o carinho que deveria ser demonstrado em atos, palavras, olhares ao longo do ano. Tá, não é só no Dia das Mães, logo mais vem o Dia dos Namorados e o Dia dos Pais que tem muito disso também.

Só que aí no Dia das Mães os presentes reforçam explicitamente, ou de forma sutil, qual é o lugar daquela mulher que, entre todas as outras coisas que é ou gostaria de ser, é nossa mãe.

É nossa mãe e é mulher. Então são duas ordens de carro chefe de presentes: os eletrodomésticos maravilhosos e todas as parafernálias a serviço da feminilidade. Assim as mães dão conta de todas as suas tarefas e ainda conseguem ficar lindonas (afinal de contas, isso também é parte da tarefa).

Agora um parênteses gigante, pra depois voltar ao assunto do presente:

Ontem eu tava vendo, de novo, Sex And The City 2. Tirando todos os comentários sobre o filme (parece que foi escolhido como o pior de 2010, rs) ou sobre o seriado, vou dizer que tem uma cena, que pra mim é fantástica, e que tem a ver com o assunto desse post.

Eis que as quatro amigas estão lá em Abu Dhabi, e duas delas que são mães, vão tomar umas. A Miranda (personagem que eu mais gosto) dá um incentivo e uns drinks pra Charlotte falar sobre o assunto maternidade, as angústias que vem sofrendo, essas coisas que quem só é filha imagina como deve ser, mas não sabe porque nunca viveu na pele a experiência de ter um ou mais seres humanos dependendo full time de você. Você pode assistir a cena, numa filmagem feita na tv e sem legendas, aqui.

Enfim, umas coisas sobre essa cena:

  • A primeira é a afirmação da Miranda “Ser mãe não é o suficiente”. Não preciso comentar né?
  • A outra é o sentimento de culpa que a Charlote sente, porque ela está se sentindo bem por passar uma semana inteira longe das pimpolhas. Junto com um sentimento de fracasso como mãe. Porque ela sempre quis uma família perfeita, se dedicar inteiramente pra essa família e pluft – tá foda.
  • E olha que ela tem ajuda em tempo integral. Não, não é o marido. É a babá. Uma babá super qualificada que fica o tempo todo a disposição. A Charlotte, ricona, se pergunta “como as mulheres que não tem babá em tempo integral conseguem?”. E desemboca falando que, quando a outra amiga disse que era um risco ter uma babá bonitona porque o marido dela podia trai-la com a babá, o que deixou a Charlotte realmente preocupada foi “eu vou perder minha babá”.
  • Brilham nessa cena, em neon, a posição de classe em que elas estão, uma visão não libertária de relacionamento e, além disso – e por isso que coloquei o diálogo aqui – alguns elementos sobre a experiência da maternidade que imagino ser comum a várias mães mundo a fora.

Vários posts aqui no Blogueiras Feministas já abordaram o assunto da maternidade lindamente.

A idéia de levantar o que tem de “não perfeito/conto de fadas” na experiência da maternidade não é, de forma alguma, dizer que ser mãe é sempre um fardo, um horror e tal.  Pelo contrário, sou daquelas que acha que a gente sempre tem que levantar todos os elementos que permeiam as experiências, ver o que é bom, o que é ruim, o que é marromenos, pra ver como potencializa o bom, e acaba com o ruim.

Voltando pro presente…

Se você não for daquelas/es que pulam essas datas festivas pra boicotar o mercado, vamos combinar de dar presentes que não reforcem toda a sobrecarga e pressões pras mulheres mães? E mais, como é que a gente faz pra que esse combinado não fique restrito a um presente em um dia específico? Como fazer para isso vire uma estratégia, que vise garantir, para todas as mulheres que decidam ser mães, que a maternidade seja sempre mais prazer que perrengue?

Ei, pais, vocês tem um papel fundamental nessa empreitada.

Feminismo? Já era!

Texto de Thayz Athayde.

Quantas vezes (só hoje) você já ouviu/leu que o feminismo já era? Mulher pode tudo, não precisa de mais nada. O vídeo trata de uma forma bem humorada a grande contradição desse discurso, será que a mulher tem liberdade de escolha mesmo?

Essa é a primeira parte do vídeo, logo farei a segunda. Aguarde e confie.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Ax2oA3B0kbE]

Assim como é preciso ponderar a condição da filosofia pós-psicanálise e pós-Auschwitz, a filosofia após a queda do muro no século em que a civilização encontrou de vez a barbárie, é preciso, do mesmo modo, perguntar sobre a existência de uma filosofia pós-feminismo. Não é possível entender as transformações da filosofia no século passado, cujos efeitos ressoam sobre o nascimento do século 21, sem levar em conta o que nele floresceu como feminismo afetando até hoje a construção do pensamento, da história cultural e do cotidiano de homens e mulheres. Não é possível deixar de perguntar se o feminismo afetou a filosofia ou se o feminismo é um efeito da filosofia. Que haja um feminismo filosófico a ser analisado como material para uma história da filosofia não é mais importante do que entender o que ainda pode ser tratado como filosofia após a crise da razão para o qual o feminismo contribui em grande medida ainda hoje.

Como qualquer movimento revolucionário tanto da teoria quanto da prática, o feminismo causa incômodo. Compreendê-lo é uma tarefa do nosso tempo, quando seu alcance prático ainda gera efeitos também teóricos. Hoje não podemos mais falar de um feminismo, mas de diversas correntes, posições e autores que ajudaram a levar adiante a causa feminista, inclusive pondo-a em xeque e definindo um rumo ainda mais crítico para o pensamento dos nossos dias.

Fonte: Feminismo e Filosofia no Século 20. Texto de Marcia Tiburi na Revista Cult, edição 133.

Cinco mitos sobre o Feminismo

Texto de Thayz Athayde.

Ouvimos tantas coisas sobre o que é Feminismo, não é mesmo? Que tal desvendar certos mitos? Será que tudo que você ouve ou lê é verdade?

1. Feminista odeia homem.

Sim, é o único motivo da existência do Feminismo, queimar os homens na fogueira. Inclusive é por isso que as feministas casam, para queimar os homens no fogão. Aliás, é o único momento em que vamos na cozinha. Esse mito é tão absurdo que só merece uma ironia, né? Deixo vocês com Simone Beauvoir (que é muito mais fina que eu):

“… Assim como cabe ao pobre tomar o poder do rico, também  cabe às mulheres tirar o poder dos homens. Significa estabelecer igualdade. Assim como o socialismo, o verdadeiro socialismo, estabelece igualdade econômica entre todos os povos, o movimento feminista aprendeu que ele teria  que estabelecer igualdade entre os sexos tirando o poder de classe que liderava o movimento, isto é, dos homens.”

2. Toda feminista é lésbica.

O que acontece é que dentro do movimento feminista existem homossexuais e heterossexuais, não é necessário ser lésbica para ser feminista, é necessário apenas querer a igualdade entre os sexos e a liberdade de escolha. Chocante, né? E qual o problema de ser lésbica? Desde quando isso é defeito ou doença? Não vou refutar esse tipo de “acusação”, para mim não há problema nenhum ser confundida com pessoas que se amam e, que pelo simples fato de amar pessoas do mesmo sexo são taxadas de tudo que é ruim.

3. Antes do feminismo as mulheres eram mais felizes.

Bem, não vou discutir aqui o que é felicidade, mas, acredito que ser feliz passa pela questão da liberdade, de ter a chance de escolher e efetivar essas escolhas. Felicidade é querer estudar, ter uma profissão e não poder realizar isso pelo simples fato de ser mulher? Ser feliz é querer namorar, sair, morar sozinhar e não poder fazer isso porque seu pai ou irmão mais velho não deixam? Triste é ter a liberdade de lutar dentro de movimentos? É ruim ter o direito de votar e entrar na história do seu país, conquistar sua liberdade sexual? O feminismo luta para que a mulher esteja exatamente no lugar que ela deseja estar. Se isso não é felicidade, não sei o que é. Como diria Clarice Lispector: “liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

4. Feminista quer ser homem, invade áreas masculinas, não gosta de maquiagem, quer ter aparência masculina, etc.

Não vou entrar (ainda) na questão da construção de gênero. Afinal, o que é coisa de mulher e o que é coisa de homem? Definitivamente, as feministas não querem ser homens, o feminismo quer justamente quer a mulher se valorize por ser mulher, tirando essa questão de que certas atividades são masculinas e outras femininas. Isso nada tem a ver com ser homem ou ser mulher, tem a ver com escolhas (de novo). E, já deixamos bem claro aqui que feminista usa maquiagem. O problema não é usar ou não, é não ser taxada de ter aparência masculina por não usar maquiagem ou coisas do tipo.

5. Machismo não existe mais, as feministas lutam contra um inimigo invisível.

Machismo não existe? Ok. Então, vamos ignorar que mulheres são tratadas como mercadoria, que não existe igualdade profissional e salarial entre homens e mulheres. Vamos ignorar também que há um mercado de consumo feito apenas para as mulheres ficarem perfeitas, fora isso, elas estão fora do padrão. Vamos deixar para lá o fato da mulher ser violentada fisicamente e moralmente dentro e fora de casa, por ser tratada como sexo frágil.

Eu poderia passar o dia inteirinho aqui falando de tantas coisas, de todos os nossos “inimigos”, fazer uma construção da violência contra a mulher. O fato é que o machismo está ai na nossa sociedade, disseminando preconceitos, causando desconforto e gerando violência. A pergunta é: você quer fazer parte de uma guerra que não foi criada pelo Feminismo? Insistem em dizer que as feministas fazem uma guerra, mas entender que machismo não é só bater em mulher, que existe uma série de efeitos dominós por trás disso, parece difícil, não é?