Eu e o Feminismo

Texto de Georgia Faust.

Vou falar o que eu achava sobre feminismo. Comecei a pensar no assunto num certo Dia Internacional da Mulher. Sempre achei essa data insignificante, mas naquele ano (2002 ou 2003), ela me irritou profundamente. Pensei: mas que diabos estão comemorando?

Fiz até um post furioso no meu blog da época. Agradeci as mulheres que queimaram soutiens e morreram queimadas, mas isso era passado. O que é que EU, hoje, tenho a ver com isso? Ganho rosas no semáforo por ter nascido mulher? Nossa, mas que mérito! O fato é que eu fui criada em uma família definitivamente fora do padrão. Eu não soube, durante a infância e adolescência, o que era preconceito, o que era racismo, o que era sexismo. Lá em casa todo mundo sempre foi igual, principalmente no relacionamento entre meu pai-drasto e minha mãe. Nunca houve um que mandasse mais, um que servisse o outro, um que fosse submisso aos caprichos do outro… Até quando a briga ficava mais feia, nunca um se calou por respeito ou medo do outro. Pra mim, feminismo era tão antiquado que não fazia sentido nenhum ser feminista em pleno século XXI!!! Eu achava que todas as conquistas já tinham sido feitas, que não havia mais nada pelo qual lutar, e que na verdade as feministas não passavam de lésbicas frustradas com um desejo secreto que Freud explica.

É engraçado como é difícil para nós vermos as realidades que estão fora do nosso mundinho.

E eu não vi mesmo. Eu não vi até EU me sentir vítima das circunstâncias, vítima do homem, vítima do posicionamento da sociedade e sua atitude com relação ao papel da mulher.

No Dia Internacional da Mulher há dois anos atrás, eu não estava mais vociferando sobre a inutilidade do feminismo. Muito pelo contrário. Eu chorei. Chorei em quase todas as homenagens bobas que vi na TV. Chorei quando senti que ainda falta TANTO para que eu seja vista com o mesmo respeito e consideração que seria vista se fosse homem. Chorei quando vi que a primeira coisa que esperam de mim é que eu seja bonita, muito antes de esperarem que eu seja inteligente, ou uma boa professora, ou qualquer outra coisa. Chorei quando lembrei de todos os comentários que escutei NA VIDA, justificando que qualquer atitude “estranha” de qualquer mulher era por causa da sua feiúra, ou da sua solteirice, ou da gordura, ou da sua TPM.

E daí, semanas depois, resolvi analisar um certo acontecimento de um passado distante não como uma “fatalidade”, algo que aconteceu por puro azar, mas sim como um resultado de toda uma estrutura focada no poder-fazer do homem. Resolvi analisar meu relacionamento não como uma relação de serventia obrigatória, mas sim como um resultado da minha vontade de me encaixar e ser uma mulher completa (mulher completa é aquela com marido e filhos, não é?), de ser uma Desperate Housewife, e que ele também é produto de tudo isso que nos cerca.

É realmente muito ilusório pensar que está tudo bem, que mulheres estão em pé de igualdade com os homens, quando na verdade há uma míriade de coisas que acontecem nos bastidores, o preconceito velado, as piadinhas sem graça…

Eu estou começando apenas. Estou lendo, estou me informando, estou vendo as coisas com outros olhos, e tenho certeza que ainda vou escrever um bilhão de besteiras enquanto descubro esse novo caminho…

E o pensamento interno mais recorrente em N momentos do meu dia é: “você não falaria assim comigo se eu fosse um homem, falaria?”

Na época em que me descobri feminista, fui comentar com meu irmão sobre minhas novas descobertas, tentando convencê-lo da relevância disso mesmo nos dias atuais. Comentei até que existem homens engajados nessa “luta”, e recebi um: só acho que hoje em dia as diferenças de gênero estão em segudo plano frente a outros problemas mais presentes.

É quase como dizer que é besteira lutar por animais abandonados, pois animais em extinção são um problema mais relevante. Quase como não comer, pois tomar água é uma necessidade mais presente. Como se houvesse uma hierarquia de lutas, onde 100% da população devesse se encaixar na luta mais presente e deixar as outras milhões de batalhas de lado enquanto não se resolve aquela primeira.

O que eu disse é que existem problemas mais importantes. Poucas pessoas morrem de sexismo. Muitas morrem de pobreza.

OK.

Imaginei que ele, por estar inserido no mesmo ambiente no qual cresci, simplesmente não estivesse conseguindo visualizar que ainda existe sim um ambiente opressor para a mulher, e que de fato esse ambiente pode sim matar pessoas. Talvez não tanto fisicamente quanto psicologicamente. Tentei explicitar, usando inclusive exemplos. Tentativa frustrada. Ele respondeu:

“Bem, sentir na pele é impossível, pois por mais que eu leia o texto só fica na ficção, eu acho que entendo as suas motivações pra entrar no feminismo. Desculpa se eu pareci seco antes, mas é que no meu curso eu sou rodeado de todos os tipos de problemas, de todos os tamanhos e alcances, e as relações de gênero são apenas um deles. Só pra deixar claro: você considera naturais as diferenças sociais entre homens e mulheres? E as diferenças que você não concorda, o que você faz para mudá-las? Pois como diziam a Simone e o Sartre, a omissão vale por um sim, ou o bom e velho “quem cala consente”.”

Eu não entendi, será que ele estava realmente querendo dizer que por ter se calado, milhares de mulheres diatiamente consentem o seu estupro? Claro que muitos vão dizer que não, não é isso que ele está dizendo… Está apenas falando que eu sempre calei frente ao sexismo, então sempre aceitei que as coisas fossem como são e então isso desligitimiza a minha luta feminista. Mas ele está partindo de um pensamento muito perigoso, afinal, o “quem cala consente” é universal? E o calar de uns dá direito aos outros de fazer o que quiserem?

Não, eu definitivamente não entendi o que ele quis dizer.

Feminismo, maternidade e a briga nossa de cada dia

Texto de Luka Franca.

Confesso que o dia das mães não me empolga, talvez por que seja um dos períodos do ano em que a minha dor seja mais visível, nada relacionado ao significado da data em si: motivo para se aquecer o comércio, valorização da mulher como cuidadora, visão unilateral do que é ser mulher e tantas outras coisas que pra mim são um tanto conservadoras quando penso qual o papel da mulher na sociedade. Mas ao mesmo tempo não nego que é um bom momento para reflexão do que é realmente tomar a decisão de ser mãe.

Acho fundamental que neste dia das mães desvinculemos um pouco a questão reprodutiva dos afetos pessoais, dessa imagem da mãe sacralizada e abnegada, aquela disposta aos maiores sacrifícios em nome de sua prole. Mães são também trabalhadoras não-remuneradas, que pelo modelo atual de família e mercado tendem a arcar individualmente com um ônus imenso em nome do bônus coletivo. Oferecer melhores condições para que desempenhem este trabalho, quer seja dentro da família, com o pai assumindo mais tarefas, quer seja no ambiente de trabalho, com tolerâncias às ausências justificadas de quem tem crianças sob sua responsabilidade sem que isso reflita em prejuízos ao seu desenvolvimento profissional, não é portanto uma questão de solidariedade. É um investimento social de  longo prazo. (PAIVA, Iara. Blogueiras Feministas)

Incluiria neste parágrafo da Iara a necessidade de reforçar que nós mulheres-mães não perdermos a nossa identidade pelo fato de termos crias. E esta reafirmação de ser alguém para além do ser mãe ou filha de outra pessoa é importante para podermos até mesmo compreender quais desafios temos como feministas-mães para criar pessoas não necessariamente nos moldes existentes na sociedade, pois tanto lutamos por inserção na sociedade para além do âmbito doméstico, pela socialização do trabalho doméstico e tantas outras coisas que nos resumirmos a mãe do fulano ou a filha da fulana é no mínimo retornar ao papel da mulher que foi construído pela sociedade patriarcal: cuidadora, relegada ao espaço privado e não o público, destinada a procriação e tantas outras coisas.

Aí alguém vem e pergunta: Mas as feministas não defendem a legalização do aborto? Então como é que pode haver feminista mãe? A começar que o fato de defendermos a legalização do aborto não quer dizer a não defesa de uma mulher decidir por ser mãe, é só dar uma parada e ler alguns documentos que versam justamente sobre qual deve ser a política global para se legalizar o aborto no Brasil e ver que ali se coloca a necessidade de se garantir o direito a maternidade plena.

Há sim um desafio enorme em se criar pessoas nesta sociedade, pois algumas coisas estão tão arraigadas, mas tão arraigadas que o desconstruir delas é um caminho tortuoso. Exemplos bem simples são a relação de cores para meninas e meninos e o fato das pessoas só reconhecerem se um bebê é menina ou menino pela existência ou não de um brinquinho na orelha, passando por questões mais ideológicas mesmo da valorização do núcleo familiar nas escolas e tal.

O governo equatoriano realizou uma campanha bem interessante sobre combate ao machismo e um dos vídeos era justamente relacionado o como as crianças são criadas na sociedade:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=NTxUWQ2IE6s&feature=player_embedded]

Para mim não há duvida de que feminismo e maternidade tem relações próximas, não apenas pela questão da criação e formação das pessoas, mas também pelo fato da sociedade encarar o maternar como função exclusiva da mulher, sem compreender a revolta hormonal que acontece no corpo feminino durante a gravidez e no puerpério, ou então quando se escandaliza ao ver uma mulher amamentanto no ônibus sem cobrir os seios como se fosse um sério atentado ao pudor.

O papel de mãe acaba por se enquadrar na lógica de só existir apenas dois tipos de mulheres no mundo: as santas e as putas. Justamente a visão sacralizada de maternidade que a Iara se refere no parágrafo citado acima, mães não trepam, não mostram os seios, não tem desejos… Vivem apenas para as crias e se fogem disso logo escutam: Isso não é um comportamento aceitável, você é mãe.

Como já disse no mundo em que vivemos hoje se mulher e mãe sem cair nos arquétipos do que deve ser um ou outro e passar isso para as crias não é uma tarefa fácil, porém é um dos momentos em que a realidade da mulher na sociedade acaba se desvelando de forma crua e combater todos estes esteriótipos e construções não se faz do dia para noite, mas é preciso ser feito cotidianamente.

Às Mulheres Que Não Querem Direitos Iguais

Texto de Bia Cardoso.

Tem algum tempo que a Renata Correa mandou para nossa lista uma campanha da Revista Marie Claire chamada #eusouassim. Entre as diversas declarações de leitoras, a que mais chamou atenção é esta:

Campanha da Revista Marie Claire #eusouassim/Divulgação. Clique na imagem para ler outros depoimentos.

“Eu não quero direitos iguais. Eu quero que ele pague a conta. Eu quero me sentir especial, não quero me sentir igual. Homem é homem, mulher é mulher e eu acho que é assim que tem que ser. Sei que tem muita mulher de outras gerações que batalhou muito por espaço. Não tô criticando. Eu só quero que ele pague a conta quando a gente sair para jantar.”

Com todo respeito, só posso dizer uma coisa a você que escreveu esse depoimento: Você quer direitos iguais. Você pode exigir que o cara pague a conta do seu jantar, você pode escolher ficar só com caras que paguem a conta do jantar porque você pode fazer essas escolhas. O feminismo, quando iniciou a luta por direitos iguais, abriu caminho para que as mulheres façam suas próprias escolhas. Hoje você pode escolher casar com um homem que pague sua conta. E se ele por algum motivo parar de pagá-la, você pode se separar e encontrar outro homem que pague sua conta. Você só pode exigir isso porque você é livre. E, porque em algum momento, as mulheres passaram a ter os mesmos direitos que os homens num relacionamento. Essa liberdade ainda não atingiu todas as mulheres, mas nesse momento não estou aqui para criticar suas escolhas, quero que você perceba que ao exigir o pagamento da conta de um jantar por um homem, você quer direitos dentro de um relacionamento. Você quer que ele pague a conta porque você pode querer isso.

Os Direitos Iguais

Para quem sonha com a “época de ouro do romantismo” vale dizer que nas décadas de 1940/50/60/70 você não teria garantia que seu marido seria sempre gentil, que abriria a porta do carro todas as vezes. Você teria certeza que ele pagaria a conta, mas sabe por quê? Porque o dinheiro é dele, não porque você é especial. Talvez  a sua tão sonhada viagem com ele a Europa não pudesse se realizar, porque é o marido quem decide o que fazer com o dinheiro. Nessa época, mulheres casavam bem mais cedo e dificilmente conseguiriam se divorciar se apanhassem do marido. A primeira Lei do Divórcio do Brasil foi promulgada em 1977. Hoje, as mulheres podem trabalhar fora para depois descobrirem que o que realmente as realiza é ser mãe e dona de casa. Hoje, se o cara com quem você estiver não paga a conta do jantar, não é gentil, não lhe dá vestidos novos, não paga o corte de R$200 reais que você quer, você vai lá separa e arruma um que faz. E você só faz isso porque não é mais obrigada a só ter 3 possíveis funções na vida: ser mãe e dona de casa ou freira.

Tenho amigas que só saem com um cara se ele ganhar no mínimo R$xx.xxx,xx. Não concordo em pautar meus relacionamentos pela conta bancária das pessoas, mas se é o que elas querem, digo: vai fundo. Vá viver suas experiências. É uma opção que elas podem fazer, não querem viver sem conforto. Não estou aqui para dizer o que é certo ou errado. Os homens que se relacionarem com elas podem aceitar essas condições ou não. Elas podem fazer isso porque tem direitos de escolha em seus relacionamentos. Mas será que possuímos o mesmo respeito? Direitos iguais não se restringem a mercado de trabalho, salários e opções de cursos universitários. Também atingem as relações humanas e os direitos de ir e vir com a roupa que quiser, falando o que quiser, saindo da cama de alguém na hora que quiser.

Escuto mulheres dizerem que é culpa do feminismo o fim da gentileza dos homens. Que querem ser tratadas de forma especial e não como um homem. Querem de volta o romantismo que as vezes está presente no pagamento da conta de um jantar especial. Será mesmo tudo culpa do feminismo? Ou será que aspectos negativos cristalizaram-se ao redor do movimento feminista? Enxergamos que todas as pessoas são diferentes, com seus anseios, desejos e buscas. Porém, a busca do feminino não pode ser pautada apenas pelo anseio do casamento e da maternidade. E nem os homens podem ser medidos apenas por sua virilidade e competitividade. O mundo perdeu em gentileza e não foi o feminismo que causou isso. A brutalidade do individualismo afetou as relações humanas. Mulheres e Homens devem continuar servindo uns aos outros. Queremos sim que cada mulher se sinta especial num primeiro encontro, assim como queremos que cada homem se sinta especial. Há diversas formas de fazer isso. Queremos que mulheres abram as portas dos carros para outras mulheres. Que amig@s paguem a conta de outros amig@s. E que homens compartilhem experiências entre si sobre seus sentimentos. Gentileza não é cobrança.

Gentileza e Feminismo

É claro que em alguns momentos o feminismo parece um movimento agressivo, pois aponta o dedo na cara do machismo diário, questiona e provoca a reflexão sobre ações cotidianas, coloca as próprias feministas contra parede. Porém, pare e pense: o que significa querer direitos iguais? É claro que significa um mundo mais justo e igualitário, consequentemente, um mundo com mais gentileza. A gentileza tão necessária do poeta. Um mundo em que mulheres se tornam mais livres é um mundo em que todos ganham mais liberdade.

O que não se percebe nessas acusações é que a emancipação feminina mudou para melhor a cara do século XX. Para as mulheres, tratava-se de se libertar do jugo das determinações de papéis preestabelecidos, atribuídos por supostas características biológicas, nas quais cabia à mulher o privilégio da sensibilidade, a obrigação dos cuidados com a casa, o bem-estar do marido e dos filhos, e uma vida dedicada à esfera doméstica. Esse discurso, construído a partir do século XVII, tinha por base a produção de uma diferença opositiva entre os sexos . A partir do momento em que as mulheres se libertam, essa demarcação de papeis cai por terra e aos homens passa também a ser dado o direito de escrever os roteiros de suas próprias vidas. Relações de gênero igualitárias passam a beneficiar ambos os lados.

Então, Mulher, brinde em cada jantar pago sua liberdade. Comemore o fato das mulheres terem o poder de viver a vida que quiserem tomando seus bons drinks. E brinde por novas rotas para o feminismo que continuem abarcando seus desejos e anseios. A Amanda, numa reflexão bacana, perguntou se não era hora de abandonarmos o nome feminismo e usarmos antisexismo? Eu, particularmente, acho que o termo antisexismo não abarca tudo que o feminismo é capaz de significar. Fora todo arcabouço teórico produzido durante tantos anos e a homenagem que prestamos as grandes feministas. O que proponho é fortalecer idéias feministas que influenciem diretamente a vida das pessoas, que o feminismo se reaproxime das discussões cotidianas.

Em conferência realizada no Rio de Janeiro, a filósofa francesa Françoise Collin descreveu o movimento feminista como sendo 1) responsável pela ampliação da democracia, na medida em que permitiu que a outra metade da população tivesse direito a voto; 2) um movimento plural, sem hierarquia, dogmas, controle ou estruturas centralizadas, que não defende uma verdade, mas está em permanente processo de construção de uma agenda que evolui e se modifica. É importante ressaltar essa segunda característica para lembrar que, quando Badinter discute o feminismo, de fato só pode falar de um lugar específico, e não em nome de todo o movimento. Esse “todo”, felizmente, não existe no movimento, como bem aponta Bila Sorj: “Diferentemente dos demais movimentos políticos como o fascismo, o nacionalismo e o comunismo, o feminismo promoveu uma formidável mudança de comportamentos orientada para a promoção de mais liberdade e igualdade entre os sexos, sem aspirar à tomada do poder, sem utilizar a força e sem derramar uma gota de sangue”.

Esse parágrafo acima resume muito bem minhas definições de feminismo, essencialmente um movimento plural, como este blog pretende ser, um coletivo de diferentes vozes. Não é preciso carteirinha de clube ou vestibular para ser feminista. A gentileza permeia um movimento que nunca matou ninguém. E você, continua achando que não quer direitos iguais? O teste Você é Feminista? talvez ajude a ampliar mais as ideias.