A autonomia política das mulheres só é válida para as feministas?

Algo muito importante que precisa ser relembrando vez ou outra é a necessidade de reconhecer a autonomia política das mulheres, ou seja, a possibilidade de nós podermos formular, pensar e resolver questões políticas sem necessariamente ter por trás de nós um homem pensando ou formulando. É por isso a reivindicação de termos mais mulheres nas direções das organizações políticas, pois como pensar política feminista não sendo objeto da opressão machista?

Iraniana protesta contra o golpe do governo iraniano em 2009. Foto de Hamed Saber/Wikimedia Commons

Coloco esta discussão por não ser nada eventual depararmos entre as próprias mulheres e feministas questionamentos se esta ou aquela figura organiza sua vida política por conta do seu relacionamento pessoal com alguém, não é raro ouvirmos que uma estudante começou a acompanhar as atividades do movimento por causa do carinha barbudo com quem ela começou a namorar, ou a sindicalista que defendeu em assembléia do sindicato política tal por ser apaixonada pelo dirigente y da entidade. Não é uma tarefa fácil desconstruir isso, até por que sabemos que nem todas as mulheres (arriscaria dizer a maioria) não é feminista, nem passa perto do feminismo – mesmo as ligadas a partidos de esquerda.

É importante para nós feministas compreendermos que para o bem ou para o mal defendemos a autonomia das mulheres de formular e ter suas próprias decisões políticas e desacreditá-las por suas relações pessoais seja com quem for é algo que agride nossas convicções, mesmo que seja uma mulher defensora da criminalização do aborto e afins, ela tem autonomia para formular politicamente e filosoficamente sobre o tema. Obviamente é preciso lembrar que mesmo compreendendo a autonomia política das mulheres isso não quer dizer me colocar ao lado delas na luta política, até porque não acredito que baste se mulher para mudar a sociedade de forma radical.

Compreender isso é importante até para a própria disputa política com mulheres que não apoiam o nosso programa político, pois é aí que avançamos no debate, pois o lugar delas na política não foi assegurado por mera vontade e respeito dos homens, mas por conta de muita luta das feministas no mundo inteiro. É óbvio que nós por termos sido criadas e educadas politicamente em um sistema patriarcal e machista acabamos por vezes reproduzindo valores machistas como este de passar por cima da autonomia política das mulheres quando elas exprimem posicionamentos políticos parecidos com os de seus maridos, namorados ou ficantes, é equivocado fazer isso pois nos enfraquece. Porém isso não quer dizer nos furtar de criticar posicionamentos políticos condizentes com o reacionarismo, respeitar e reconhecer a autonomia política das mulheres não é a mesma coisa de passar a mão na cabeça quando se apresenta posicionamentos e articulações políticas condizentes com a direita/burguesia.

Essa conta vamos pagando justamente pela luta feminista ser encarada de forma secundarizada nos movimentos sociais, organizações políticas e afins. Pelo fato de ter sido dissociada das chamadas lutas gerais bem lá atrás na história, sendo tratada como um assunto de interesse apenas das mulheres quando atinge diretamente a toda sociedade, pois pelo menos no Brasil nós mulheres somos a maioria da classe trabalhadora e para isso é preciso retormar a construção intríseca da dita política geral com a política feminista, pois é ínviável uma se realizar sem a outra.

Coloco esta reflexão pois é algo que vez ou outra me pego pensando por diversos motivos, pois mesmo discordando politicamente de diversas mulheres respeito sua autonomia política e tento (tentativa mesmo, pois sou humana e vivo na eterna contradição de ser feminista e socialista e viver num mundo capitalista e patriarcal) não fazer este julgamento quando está em jogo algum debate político e eu esteja de alguma forma envolvida. É um exercício árduo tirar do meio do campo este preconceito machista e focar no debate político, mas é preciso ser feito, até para podermos colocar aos nossos companheiros que o debate político se faz compreendendo a autonomia política das pessoas e principalmente das mulheres e não respeitar isso é despolitizar qualquer enfrentamento.

Mais internet, inclusão e acolhimento

O metrô de São Paulo é o mais cheio do mundo. Na hora do rush, isso significa que bons hábitos não passarão impunes: os que tentarem entrar e sair do trem com calma, dar passagem, não empurrar os outros passageiros, etc., além de fracassar nessa tentativa, ainda vai ser empurrado e corre o risco de perder o trem. A regra explícita, em cartazes e avisos sonoros, é “não ocupe a região das portas”. Na prática, isso é impossível – não dá para escolher uma região dentro do vagão – ou pouco recomendado – quem o fizer pode não conseguir desembarcar na estação desejada. É difícil ser acolhedor com oito pessoas por metro quadrado.

São regras tácitas que, mesmo em conflito com o que é dito publicamente, aprendemos com rapidez. Meu texto anterior falava que as comunidades precisam ter uma prática permanente de acolhimento para promover a igualdade, inclusive de gênero. Afinal, para mudar uma situação em que as mulheres são minoria, vão haver novatas. Mas a maioria das comunidades tem, embutidos em mecanismos de conservação de status. Por isso, não basta apenas esperar que as pessoas adotem uma postura acolhedora se as regras do jogo não facilitarem essa postura.

Nas comunidades virtuais, parte dessas regras é incorporada na tecnologia, arquitetura e design da interface. São escolhas que refletem uma ideologia. Para citar novamente a Gina Trapani, um exemplo é a forma de preencher o campo “status de relacionamento” de um formulário, se com texto livre ou com um certo número de opções pré-definidas (a chamada lista drop down, pois é exibida como uma cortina que é baixada com as opções). Ela comenta o caso do Google Perfis e reclama por não poder dizer, com todas as letras, que seu status é “em um casamento gay”. No Facebook, a identificação do relacionamento é feita do mesmo modo e não há, sequer, a opção “em um relacionamento aberto”.

Não é segredo que o Facebook é extremamente conservador em relação a moral e costumes. As recentes denúncias de fotos removidas ou perfis bloqueados por mostrarem uma mulher amamentando ou gays se beijando mostram qual é a ideia de bom comportamento que rege o site. O Facebook também mantém um controle estrito da aparência do site. Não é possível trocar cores e imagens de fundo, como acontece no Twitter. É também o que norteia a política de privacidade do Facebook: seu fundador, Mark Zuckerberg, defende que compartilhar informações pessoais é parte de uma nova norma social e que o sistema apenas se adapta a isso.

Mas podemos argumentar que não é verdade que o Facebook simplesmente se adapta; ele também estimula uma regra em que a privacidade não é tão importante. Da mesma forma, ao oferecer um leque limitado de opções para definir o status de relacionamento, com a possibilidade de marcar apenas uma pessoa como alguém com quem se tem um relacionamento (mesmo que seja uma “amizade colorida”), o site contribui para tornar ainda menos visíveis constituições alternativas.

A internet oferece a possibilidade de se abolir ou pelo menos diminuir o impacto dos estereótipos de gênero. As comunidades virtuais crescem não a redor de limites demográficos de idade, sexo e local, mas a partir de interesses comuns, de novas identidades construídas, de afinidades descobertas. Mas por enquanto, temos artigos louvando a presença majoritária das mulheres em site de compra de artigos para bebês e nas redes sociais, onde encontram a oportunidade de serem ouvidas, ainda que principalmente por outras mulheres.

Para transformar em realidade essa possibilidade, precisamos que o feminismo ocupe o espaço virtual, para que as comunidades virtuais insiram, em sua arquitetura, mecanismos de inclusão, de acolhimento a recém-chegados, de respeito à diversidade, de espaço para vozes dissonantes. No Fórum de Internacional de Software Livre, que acontece entre os dias 29 de junho e 2 de julho em Porto Alegre, o grupo Feminino Livre discutirá as barreiras para as mulheres no mercado de tecnologia e a inclusão social através da linguagem do software livre. Essas discussões são cada vez mais necessárias.

Copa do Mundo de Futebol Feminino

Olá a todas e a todos!

Meu nome é Karen Polaz e hoje escrevo pela primeira vez no Blogueiras Feministas. A gente vai se conhecendo com o passar do tempo e eu gostaria de agradecer por esta oportunidade.

Faça a seguinte experiência: em meio a uma roda de amigas e amigos, depois que um assunto chegou ao fim, diga como quem não quer nada: “E a Copa do Mundo está chegando!”. Após alguns instantes de silêncio, provavelmente você vai ouvir que a Copa já passou e o Brasil perdeu ou que a Copa está chegando e as obras no Brasil estão atrasadíssimas ou, ainda, alguém provavelmente falará que “só se for a Copa do Mundo Sub-17, que já começou!”.

Se nessa roda de amigos não houver pessoas ligadas a alguma corrente feminista ou mesmo que se interessem pelo assunto, provavelmente será um homem a primeiro perguntar se você está se referindo à “Copa do Mundo das Mulheres”. E olhe lá!

Mas o fato é que a Copa do Mundo Feminina está mesmo chegando e será entre os dias 26 de junho (sim, agora!) até 17 de julho na Alemanha, onde 336 jogadoras divididas em 16 seleções disputarão o título de campeãs do mundo de futebol. Tive grande dificuldade em encontrar sites que dessem informações sobre a Copa Feminina e, os que eu encontrava, eram sobre as “mais gatas” ou as “mais sensuais” torcedoras da Copa do Mundo Masculina de 2010. A dificuldade foi tanta que tive que acessar os sites da FIFA e da CBF para ter condições de escrever este post.

A Seleção Brasileira de Futebol Feminino recebe a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Foto de Wilson Dias/Agência Brasil.

No que se refere ao site da CBF (para quem não sabe, Confederação Brasileira de Futebol), precisei de um olhar mais demorado para encontrar informações sobre a seleção feminina. Lá, existe uma divisão entre “Seleção Feminina de Futebol” e “Seleção Brasileira de Futebol”, esta última representando a dos homens e a legítima. Onde está a palavra “masculina” na seleção dos nossos meninos e onde está a palavra “brasileira” na seleção das nossas meninas? Quanto à lista de competições nacionais, a Copa do Brasil de Futebol Feminino vem lá em último lugar, depois dos Campeonatos Brasileiros das Séries A, B, C e D e da Copa do Brasil 2011. Procurando bem nas notícias de canto escritas com letras pequenas, encontram-se informações sobre a Copa do Mundo Feminina de Futebol.

O site da FIFA, por sua vez, fornece informações mais detalhadas sobre a Copa do Mundo Feminina, apesar de o fazer com discrição. Muito provavelmente escrita por um homem, a notícia principal sobre a Copa não “escapou” de se referir ao aspecto físico das jogadoras: “Sem dúvida, a versão mais bela do esporte mais popular do mundo proporcionará muitas emoções nas próximas semanas”.

Diante dessas situações, pensei em comentar sobre o estado de abandono em se encontra o futebol feminino brasileiro, sobre o preconceito ainda sofrido por esse esporte quando jogado por mulheres ou sobre a alemã Birgit Prinz, a maior artilheira da história da Copa do Mundo Feminina da FIFA ou sobre a brasileira Marta, eleita cinco vezes a Jogadora do Ano da FIFA. Também pensei em comentar sobre o fato de algumas jogadoras alemãs terem posado para a Playboy a fim de “divulgar” a Copa do Mundo, sobre o meu amor por esportes e a importância da prática de esportes para a sociabilidade e assim por diante. Mas não, não está na hora de escrever um post gigante sobre isso; está na hora de divulgar a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2011!!! Vamos lá, gente!

Começa no domingo o sexto Mundial Feminino contando com 16 seleções, entre as quais a da Alemanha e dos Estados Unidos, consideradas as favoritíssimas para o título. O Brasil, que também não pode ficar de fora desse seleto grupo, virá com tudo na tentativa de deixar para trás a alcunha de “vice”. As seleções da Noruega, Inglaterra, Suécia, Japão e Coreia do Norte, por sua vez, também podem ser consideradas fortes candidatas e que prometem um grande desempenho neste Mundial.

Quem são as convocadas da seleção brasileira?

Goleiras
1 – ANDREIA
12 – BARBARA
21 – THAIS

Defensoras
2 – MAURINE
3 – DAIANE
4 – ALINE
5 – RENATA COSTA
6 – ROSANA
13 – ERIKA
14 – FABIANA
16 – ELAINE
20 – ROSEANE

Meio-campistas
7 – ESTER
8 – FORMIGA
9 – BEATRIZ
15 – FRANCIELLE

Atacantes
10 – MARTA
11 – CRISTIANE
17 – DANIELE
18 – THAIS
19 – GRAZIELLE

Técnico: Kleiton LIMA

Onde assistir?

Aqui encontramos um problema, pois não sei até que ponto podemos confiar nas raras informações disponíveis. A TV Bandeirantes, a Band, afirmou que irá transmitir os jogos – pelo menos o jogo de estreia do Brasil com certeza. Quem souber de mais detalhes sobre a transmissão dos jogos, por favor, deixe um comentário e ajude a divulgar.

Nos sites brasileiros, não encontrei informações nem sequer sobre os horários dos jogos, mas não importa. O fuso horário da Alemanha é de 5 horas a mais que no Brasil e, portanto, já fiz as conversões dos horários de alguns jogos da primeira fase e os apresento para vocês.

Grupo A
No jogo de abertura do Mundial, a Alemanha, anfitriã e atual bicampeã, enfrentará a seleção do Canadá:
26/06, às 13:00h, em Berlim

Grupo D
Esse é o grupo do Brasil, juntamente com Austrália, Guiné Equatorial e Noruega.

Brasil x Austrália
29/06, às 13:15h, em Mönchengladbach

Brasil x Noruega
03/07, às 13:15h, em Wolfsburgo

Brasil x Guiné Equatorial
06/07, às 13:00h, em Frankfurt/Main

VAMOS DIVULGAR!!! Força, Brasil!!!

Fontes:

Fifa.com – Copa do Mundo Feminina 2011

CBF.com – Seleção Feminina de Futebol

Band Esportes – Futebol Feminino