Dominar os homens? O impacto de uma mentira sobre feminismo

Texto de Cynthia Semiramis.

Este é o primeiro de uma série de posts contando um pouco sobre como a divulgação de mentiras sobre feminismo atrapalha a vida de feministas. Não costumo fazer posts falando de minha vida pessoal, mas acho que vale a pena contar um pouco sobre situações que passei pra mostrar que mesmo atitudes banais revelam a ignorância e o preconceito contra feministas, interferindo de forma prejudicial em nosso cotidiano.

Consequências da mentira: “feministas querem subjugar os homens”

Quando meios de comunicação falam de feminismo, a ilustração clássica é a mulher mais poderosa que o homem (ex: bem maior que um homem, comendo um homem com garfo e faca, humilhando, batendo ou mandando em um homem). Raramente vemos uma imagem colocando mulheres e homens no mesmo patamar. O problema é que acabam divulgando uma mentira sobre feminismo, como se feministas quisessem subjugar os homens. Na verdade, homens ainda têm mais direitos e poder do que mulheres. Feministas querem igualdade de poder, oportunidades e direitos, equilibrando a balança entre homens e mulheres.

Pode até existir feminista que queira inverter os pólos, dominando homens, mas são pouquíssimas as que pensam assim. Exatamente por esse posicionamento ser raro, não deveria ser divulgado pelos meios de comunicação como a única referência de todo o movimento feminista, da mesma forma que ninguém deveria achar que as propostas do PSTU são as únicas representantes da esquerda brasileira quando são apenas uma das possibilidades.

O estereótipo da feminista que quer subjugar homens interfere na minha vida o tempo todo, especialmente quando a fama de feminista chega antes da minha presença. São pessoas que avisam ao meu marido pra tomar cuidado pra eu não mandar nele (decisões conjuntas e relacionamento igualitário são impensáveis, pelo visto), são pessoas que acham que não sei contextualizar as situações, agindo agressivamente e procurando qualquer pretexto para literalmente destruir tudo ligado ao mundo patriarcal que aparecer na minha frente. São mães em tempo integral e donas-de-casa que não querem sequer conversar comigo, achando que vou julgar e condenar as escolhas que elas fizeram. São homens que têm medo de conversar ou desenvolver algum projeto profissional comigo, achando que minhas opiniões serão uma agressão à sua masculinidade e respeitabilidade profissional.

Nesse festival de achismos ninguém perguntou minha opinião, ninguém nem se deu ao trabalho de saber direito o que é feminismo. Acabam me tratando mal com base em um estereótipo de dominação e julgamento de posicionamento alheio, sem me perguntar nada nem me dar a oportunidade de explicar por que se tratam de mentiras. E aí eu sou vista como “aquela chata feminista que quer acabar com a minha vida” sem sequer ter tido a chance de emitir uma opinião.

Em alguns casos, é possível contornar a situação, e aí mais tarde ouço coisas do tipo “eu não queria conversar com você porque achava que feminista era tudo chata e que odiava homens; você não é assim e me fez mudar de opinião”. Mas na maioria das vezes, o pré-julgamento sobre o que é feminismo e o repúdio a feministas são mais fortes do que o bom senso e o diálogo, dificultando amizades e causando mal-estar em situações profissionais.

O Feminismo de cada um@ de nós

Texto de Claudia Gavenas.

Antes de entender-me por feminista eu acreditava que  “para fazer parte” do movimento era necessário seguir um protocolo que consistia em: participar de protestos de rua, estudar a fundo teóric@s do Feminismo e lutar apenas pelas causas relacionadas aos direitos das mulheres. Com o tempo, com a convivência com outras feministas e principalmente após fazer parte do nosso grupo de discussão e do blog, finalmente compreendi que o Feminismo é antes de tudo, um movimento plural.

Sim, o Feminismo é plural. Plural porque envolve diferentes correntes políticas e ideológicas. Plural porque engloba uma série de práticas e posturas diferenciadas. Plural porque permite inúmeras possibilidades de ativismo e disseminação. E é plural porque luta contra várias formas de opressão e relações de poder,  inseridos em contextos variados. E como cada contexto é único, é impossível condensar o Feminismo como um movimento unilateral.

Por isso, há um estranhamento de minha parte quando tenho contato com discursos apresentando fórmulas prontas do que é ou não ser feminista.  E na grande maioria desses discursos, há certa distorção de valores que perpassam as características supracitadas. Como falar de feminismo sem que sejam consideradas todas as suas vertentes? Como ditar regras e condições para qualificar ou não uma manifestação de pensamento?

Um texto muito bom para ajudar a compreender a pluralidade feminista é o Feminismo no plural: para pensar a diversidade constitutiva das mulheres, de Gema Galgani Silveira Leite Esmeral. Este texto discute justamente o posicionamento de diversas autoras e militantes com relação aos diversos feminismos existentes.

Então, se você (como eu) acreditava que o Feminismo era um movimento que permitia apenas uma interpretação ou manifestação, esta é uma oportunidade para mudar de idéia.

Fun Home – Uma Tragicomédia em Família

Texto de Kori Ramos.

Oi, eu sou a Kori e hoje eu vou escrever sobre uma Graphic Novel, Fun Home – Uma Tragicomédia em Família por Alison Bechdel.

Fun Home de Alison Bechdel.

Graphic Novel, simplificando, é o termo designado para diferenciar histórias em quadrinhos com temas adultos das de super heróis. Pra variar, é uma atividade em sua maioria com destaque masculino, como Neil Gaiman (Sandman), Alan Moore (V de Vingança, Watchmen), Will Eisner (Spirit), esse último sendo homenageado com a premiação de quadrinhos Eisner Awards, que em 2007 deu o prêmio à Fun Home.

A história é auto-biográfica e fala desde a infância da autora até sua juventude. Na infância, Alison cresceu numa casa antiga em constante reforma, decorar era a obsessão de seu pai, sempre distante.

Na relação entre pai e filha, é ela que gosta das chamadas “coisas de meninos”: confortável em roupas largas e despreocupada com a aparência; e o pai, das “coisas de meninas”: decoração, jardinagem, moda. A troca de papéis entre os dois é visível, um dá contraste ao outro.

Sua mãe é uma artista brilhante, é atriz e pianista, mas deixa seus planos de lado, engravida, volta com o pai de Alison para o interior e toca com ele os negócios da família, o que dá nome a história: uma casa funerária, “o lar da graça”. Fun Home.

Seus pais, apesar de terem dado uma boa educação aos filhos, possuem uma relação fria um com o outro. No decorrer da história, Alison explica que nem sempre foi assim, que, movidos por cartas inspiradas em livros de Fitzgerald, ambos pareciam apaixonados e felizes, mas que essa deterioração se dá, em grande parte, a vida dupla do pai: homossexual, mas no armário até morrer, mantém casos com garotos mais novos, incluindo o babysitter dos filhos. Alison expõe a teoria de que, sufocado com a vida dupla, a morte de seu pai pareceu ter sido um acidente, mas na verdade foi um suicídio planejado.

Todas as tentativas de esconder o que o pai de Alison era, inspiraram nela, felizmente, o contrário. Já na faculdade ela se assumiu lésbica e contou para os pais, encorajada por grupos militantes que frequentava, pelo feminismo e pelos livros que lera. Entre as autoras estão Simone de Beauvoir, Virginia Woolf, Anais Nin e essa influência parece ter dado força à ótica feminista com a qual ela conta a história com questões de gênero, a submissão do casamento a qual a mulher é destinada e o feminismo e o movimento LGBT, inclusive com uma memória marcante de quando ela visitou Nova York pós Stonewall.

Infelizmente, não sei se pela tradução, mas quando ela descreve seu pai como gay, soa bastante preconceituoso, se há uma ironia ali, não captei e como me disseram, às vezes tentando ser irônica se dá voz ao preconceito.
De qualquer forma, um excelente livro, com desenhos lindos em tons azuis, detalhes, citações de livros e muito humor, afinal nada no livro é só trágico, e sim uma tragicomédia.

+ Sobre o assunto

Alison Bechdel  é autora do site/tirinhas http://dykestowatchoutfor.com/ e criadora da já citada aqui Lei de Bechdel. 😀

Pra quem se interessar, dois sites sobre Graphic Novels e Mulheres

http://www.squidoo.com/graphic-novels-for-girls (com uma lista ótima de livros)

Outro site em português: http://ladyscomics.com/