O que todas as ‘Divas’ brasileiras precisam investigar: para que(m) serve o teu conhecimento?

Texto de Tati Andrade para as Blogueiras Feministas.

Lamentavelmente, desde o início da educação no Brasil-colônia a instrução não incluía as mulheres. A história conta que, mesmo quando foi permitido que elas frequentassem a sala de aula, eram somente ensinadas técnicas manuais e domésticas. Nesse período, educar era um ato pedagógico coercitivo, baseado na ação bruta da obediência severa e algo restrito ao sexo masculino. Em linhas gerais podemos afirmar que na formação da sociedade brasileira, as mulheres, assim como outras camadas sociais desprotegidas, estiveram apenas a serviço dos “donos do poder”. Esta ignorância era imposta de forma a manter o sexo feminino subjugado desprovendo-o de conhecimentos que lhe permitissem pensar em igualdade de direitos.

Além de ter uma representação social de inferioridade perante o homem, é possível observar uma luta imposta entre mulheres de mundos e situações econômicas diferentes. O preconceito instalado impregnava o imaginário através de contos, versos, poemas transmitidos oralmente pela colônia. Assim, a literatura era um instrumento de reprodução a favor da hegemonia dominante que veiculava o status de ser branca a sua condição social privilegiada. É daí que vem o sentido pejorativo atribuído às mulheres negras. Elas eram vistas como espertas, sedutoras e malvadas. As moças brancas como ingênuas e sem maldades.

Essas mulheres de condição inferior, índias, negras, e até mesmo brancas empobrecidas, carregaram sobre si a imagem da promiscuidade e ignorância, pois, se a maioria das mulheres brancas de elite era considerada casta, isso só foi possível devido à prostituição e ao abuso, em todos os sentidos, das outras mulheres, que, submissas e de condição social inferior, tornaram-se prisioneiras dos desejos sexuais dos senhores. Dessa forma, tanto as mulheres brancas como as outras mulheres, aprendiam, através de suas experiências de vida, os conhecimentos necessários a suas representações dentro da sociedade, ficando de mãos atadas diante do pensamento dominante e sem conseguir vislumbrar maneiras de rompê-lo.

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Por Higui e por todas: unidas as feministas podem tudo

Texto de Mary Lara-Salvatierra para as Blogueiras Feministas.

Os coletivos feministas da Argentina estão há vários anos na luta para mostrar os danos que a violência machista causa as mulheres daquele país. Só para exemplificar, de janeiro a abril de 2017, os dados indicam que uma mulher foi assassinada a cada 25 horas tendo como motivação a violência de gênero. Até o momento são mais de 150 mulheres que foram assassinadas por maridos, namorados ou ex-parceiros.

Na Argentina, as mulheres vivem uma situação muito particular, já que os movimentos feministas tem visibilidade, há organizações que tem inspirado muitos outros movimentos na região, e as mulheres estão conquistando muitos direitos graças à luta diária que fazem sem cansar. Porém, apesar da luta e de todo o trabalho, os feminicídios são notícia todos os dias.

Não é uma questão de insegurança, é uma questão de violência machista que deveria ser, pela magnitude do problema, uma questão de estado, mas ainda não é. O sistema judicial da Argentina, como em outros países da América Latina, ainda tem muitas coisas para melhorar à favor da mulher e dos coletivos LGTBQI.

O caso de Higui é um acontecimento que mostra todo o poder que nós, feministas, temos. E mostra como podemos retomar os direitos que o sistema patriarcal está nos roubando.

Eva Analía de Jesús — a quem seus amigos chamam de Higui (porque ela é goleira e lembra o goleiro colombiano Higuita) — é uma mulher lésbica que foi presa por lutar contra dez homens para evitar ser estuprada.

Durante muito tempo, Higui sofreu ameaças em seu bairro desse grupo de homens que queriam “corrigir” sua sexualidade. Ela foi assediada inúmeras vezes, escapou de uma situação similar 15 anos atrás, quando o grupo a agrediu, levando três facadas nas costas pelas quais teve que ficar no hospital. Nesse primeiro ataque ela não fez uma denuncia, até chegou a dizer para algumas pessoas que seus ferimentos foram causados por uma tentativa de assalto.

Ela teve que mudar de bairro e, cada vez que voltava lá, levava uma faca por precaução. Infelizmente, no dia 16 de outubro de 2016, ela teve que usá-la para se defender. Um grupo de dez homens tentou estuprá-la. Dez homens preparados para feri-la, humilhá-la e bater nela. Eles rasgaram suas roupas, sua calcinha, a tocaram enquanto diziam coisas horríveis, insultos cheios de ódio. Cristian Rubén Espósito deitou-se sobre ela, nesse momento, ela conseguiu usar a faca que tinha e o apunhalou no peito, foi a única facada que ela deu e conseguiu acertar, de modo que o agressor morreu posteriormente.

Quase oito meses depois — após muitas marchas públicas de coletivos feministas como #NiUnaMenos e #AsambleaLésbicaPermanente — determinaram que Higui sairia da prisão e poderia esperar o julgamento em casa. É preciso lembrar que os outros nove agressores ainda estão em liberdade e a causa foi tipificada como homicídio simples, sem levar em conta que Higui agiu em legitima defesa.

A importância deste êxito feminista e da pressão popular precisa ser replicada em toda América Latina. Demonstramos que juntas podemos alcançar a justiça que necessitamos como mulheres, a justiça que o mundo quer. Temos demonstrado que somos muito mais fortes do que o sistema corruto que insiste em nos roubar a liberdade, que insiste em negar que estamos sendo assassinadas e que fecha os olhos diante da violência machista que nos oprime.

A luta das companheiras argentinas é um exemplo do poder das manifestações pacíficas. Agora, a luta vai continuar por todas as mulheres desaparecidas, por todas as meninas vítimas, por todas as pessoas que precisam de justiça. Vamos continuar até o final com o caso de Higui, porque agora celebramos sua liberdade, mas o triunfo final será quando a justiça argentina disser que Higui foi absolvida das acusações. Por isso vamos lutar, por isso não vamos descansar, unidas as feministas podem alcançar a justiça que o mundo necessita.

Autora

Mary Lara-Salvatierra é filósofa, feminista e globetrotter peruana. Seu verbo favorito é Lutar.

Imagem: Higui/Arquivo Pessoal.

[+] Higui: atacada por ser lésbica, presa por defender-se. Por Thaís Campolina.

[+] Higui: presa por ser mujer, lesbiana y pobre. Por Alejandra M. Zani.

Feministas, ouçam as putas!

Texto de Jussara Cardoso. 

Já fui essa mulher contra a prostituição e quando me tornei feminista, fui por pouco tempo uma feminista contra a prostituição. Carregava um preconceito desses bem “moral cristã”, “pecadoras”, mulheres de vida fácil, pensava eu. Fui assim até entender um erro simples e complexo ao se debater prostituição, a ideia de exploração sexual ser confundida/misturada com o trabalho sexual. Muito do discurso contrário a prostituição diz na verdade ser contra o que prostitutas também são contra, e é pauta de sua luta também, o fim exploração sexual, o tráfico de pessoas (criança, adolescentes e adultas) para exploração sexual.

Aprendi que é preciso pontuar as diferenças do que é prostituição (trabalho no qual maiores de 18 anos exercem por vontade própria), o que é exploração sexual (explorar sexualmente uma pessoa, obtendo ganhos com isso) e exploração laboral da prostituição (exploração do trabalho das prostitutas, principalmente pela falta de legislação). Precisamos ter isso em mente para não deixar nenhuma mulher fora desse debate, para não silenciar nenhuma mulher, mas sim para ouvi-las melhor. Ouvir suas reais necessidades e não cairmos no risco de tentar “salvar” quem não precisa de salvação.

Lembro que em 2012 estava sentada numa mesa com mais 9 pessoas para uma reunião com prostitutas. Antes de começar a reunião a presidenta da ONG (uma puta com 40 anos de profissão) perguntou a todes ali o que era uma puta. Um a um fomos respondendo e ela disse: “A única coisa que queria ouvir nenhum de vocês disse: puta é mulher”. Nunca vou me esquecer desse dia, porque foi nesse dia que entendi o óbvio, puta é antes de mais nada uma mulher. Tem uma história, uma trajetória de vida que precisa ser respeitada.

Aquele dia aquela puta contou sua história e explicou sobre as diferenças de prostituição e exploração sexual, explicou as violências que sofrem por não terem a profissão regulamentada e falou da forma mais brilhante que já vi na vida como uma regulamentação bem feita pode ajudar a construir uma cultura de enfrentamento a exploração sexual mais séria e eficaz no país.  Daquele dia em diante passei a ouvir as prostitutas sobre prostituição e sobre exploração. Passei a buscar mais referências para aprender com elas sobre suas lutas. Passei ouvi-las para saber como eu enquanto feminista e mulher poderia ajudar.

Elas (as putas) vivem a prostituição, o lado bom e o ruim diariamente. Elas sabem muito bem como é essa realidade. Elas são organizadas, elas têm projetos e propostas para mudança reais. Elas fazem um feminismo bruto (como bem disse Monique Prada), um feminismo que nenhuma teoria que não tenha as ouvido de fato consegue fazer.

Precisamos, enquanto feministas, aprender a debater prostituição com aquelas que reivindicam o direito de exercer essa profissão e não atacá-las mais ainda. Só ouvindo vamos estar alinhadas a elas na luta contra o machismo e a misoginia masculina. Nós, enquanto feministas, precisamos olhar para essas mulheres como pessoas. Pessoas com autonomia, com vontades próprias, com uma luta enorme pela frente e como aliadas.
Nós, enquanto feministas, precisamos parar de usar senso comum violento pra debater prostituição. Precisamos parar de focar no consumidor (homem) e buscar meios de garantir que quem oferece o trabalho não seja nunca explorada e violentada.

Quer ajudar? Tem uma coisa bem simples que pode ser feita: parar e ouvir.

Esse texto foi publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 06/06/2017

Imagem: Performance de Georgina Orellano. Feminista e puta argentina.