E se a professora do seu filho fosse uma travesti?

Texto de Ana Flor Fernandes Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

O título desse texto surgiu de questionamentos e inquietações que tenho feito cotidianamente desde que iniciei o curso de pedagogia na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Não obstante, do medo que parece existir quando LGBTs, neste caso específico travestis, adentram o campo minado da educação e miram na probabilidade de construir processos de ensino e aprendizagem junto aos filhos de outros.

Antes de tudo, gostaria de destacar que esse é um escrito cheio de sensações. É impossível falar dos filhos, de crianças, sem lembrar como para muitas de nós os muros das escolas se mostraram ambientes violentos. Foi no espaço escolar que aprendemos, muitas vezes, a criar mecanismos de proteção e sobrevivência. Quem diria que, algum dia, estaríamos nela novamente, mas dessa vez enquanto professoras dos filhos daqueles que de lá tentaram nos expulsar?

Pensar travestis sendo professoras é compreender que nós podemos seguir roteiros diferentes dos quais fomos submetidas. Não quero dizer com isso que existe uma regra ou um manual, mas que existem possibilidades de criar novas narrativas que abarquem o chão das escolas e os filhos de vocês. É proporcionar uma didática que se faça inclusiva, trabalhando as diferenças e o diálogo.

Continue lendo “E se a professora do seu filho fosse uma travesti?”

Como eu me descobri uma mulher lésbica? Na verdade, como eu me descobri uma mulher não-heterossexual?

Texto de Lorena Varão para as Blogueiras Feministas.

13 de Dezembro, Recife-PE.

Fiz terapia por uns três anos. Na verdade, acho que ainda faço. Uma das técnicas que minha terapeuta estimulava era o uso da escrita. Geralmente, ela me indicava uns filmes e eu fazia uma resenha ou escrevia livremente sobre qualquer coisa que eu estivesse sentindo. O esquema era: eu escrevia e enviava tudo por e-mail. Era libertador. Nunca liguei muito pra gramática, nunca liguei muito pra textos muito densos e prolixos, apenas escrevia. Perdi isso nos últimos dois anos.

Ocorre que 2016 e 2017 foram anos extremamente intensos pra mim. Muitas coisas aconteceram comigo e com pessoas próximas. Fui guardando tudo isso e elaborando textos na minha cabeça, mas os mantive em silêncio.

Essa semana fui questionada sobre o meu processo de “saída do armário”. Como eu me descobri uma mulher lésbica? Na verdade, como eu me descobri uma mulher não-heterossexual? A tão temida “saída do armário” sempre é um tema recorrente em todas as rodas ou papos sobre a vivência LGBT. Eis que resolvi escrever sobre o assunto.

A intenção não é formular um texto de formação política ou coisa do tipo, mas tão somente registrar minha vivência enquanto mulher lésbica. Sempre vejo esses textos nos blogs feministas e penso: poxa, eu poderia ter escrito isso! Então, o objetivo é simplesmente socializar essa vivência e aproveitar a coragem que duas garrafas de vinho me deram.

Assim sendo (adoro essa expressão, não sei porquê!), tudo começou quando eu tava na alfabetização. Teresina, Piauí. Bairro Bela Vista II, zona Sul. Eu era extremamente apaixonada por uma professora minha. Tinhamos aula dela umas duas vezes por semana. Nesses dias, eu sempre acordava bem cedo, me arrumava mais, me perfumava, ficava extremamente ansiosa. Sempre que a via meu coração disparava loucamente! Acho que foi minha primeira paixão de fato. Não recordo minha idade na época, mas tudo era tão inocente que não conseguia dimensionar aquilo que eu sentia. Era uma admiração, uma vontade de tá perto, uma necessidade de que ela me enxergasse e me quisesse por perto também… Pra vocês terem noção, eu cheguei a entrar na igreja dela só pra poder vê-la todos os domingos no culto.

Continue lendo “Como eu me descobri uma mulher lésbica? Na verdade, como eu me descobri uma mulher não-heterossexual?”

Estereótipos de gênero, restrições e relato de minha experiência como uma garota

Recentemente, publicamos em nossa página no Facebook, a matéria: Estereótipos de gênero fazem mal à saúde física e mental de adolescentes; a Luh fez um comentário tão bom, que pedimos para publicar no blog.

Texto de Luh Basílio.

Ainda são precisos estudos pra apontar o que é óbvio pra quem se questiona sobre comportamentos impostos e pedidos de uma menina ao longo de sua vida. Em alguns momentos de questionamento que faço a mim mesma fui me dando conta de várias percepções – sobre mim, meninos e meninas e o que desejo para meu filho:

Quando criança eu gostava de ler, brincava de boneca e tal, mas também gostava de correr na rua, jogar bola, subir em árvore, já pulei o muro de casa, brincar e conversar tanto com meninos e meninas e jamais tinha parado pra pensar ou perceber profundamente o que era ser “homem” e “mulher”.

Em minha experiência de vida como menina/mulher, até hoje lembro a puberdade como a fase mais detestada da minha vida, não porque eu tivesse algum problema comigo realmente, mas porque comecei a perceber minhas liberdades infantis tolhidas.

Continue lendo “Estereótipos de gênero, restrições e relato de minha experiência como uma garota”