Cem escovadas antes de ir para a cama: mulher-objeto ou mulher que não se assume?

O romance Cem escovadas antes de ir para a cama é curto (cerca de 150 páginas), simples e apresenta imagens fortes, por isso tornou-se, rapidamente, um sucesso de vendas. A protagonista se confunde com a autora, Melissa Panarello, o que confere um tom próximo da autobiografia a esse livro-diário. Seu tema central é a descoberta da sexualidade por uma estudante de 15 anos, que mora na Itália com sua família, a quem a menina culpa, em várias ocasiões, por sua carência afetiva e, mais tarde, por suas escolhas sexuais:

 

O problema é que meus pais só vêem aquilo que eles estão a fim de ver. […] Minha mãe diz que sou uma mosca morta, que só ouço música de cemitério e que minha única diversão é me fechar no quarto para ler (isso ela não diz, mas eu percebo pelo olhar dela…). Meu pai não sabe de nada sobre o modo como passo meus dias, e eu não tenho nenhuma vontade de contar para ele.

O que me falta é amor, é de um cafuné que eu preciso, é um olhar sincero que eu desejo.

 

Imagem para divulgação do filme baseado no livro 100 Escovadas Antes de Ir para a Cama

 

Melissa começa a estória como uma garota estudiosa, caseira e virgem. E termina a mesma como uma garota insegura, covarde e sexualmente experiente. Ou seja, apesar de todas as atividades sexuais a que ela se submete, por vontade própria, não percebemos um empoderamento concreto da personagem com relação ao seu corpo e desejos. Ela passa por uma série de descobertas sexuais, mas isso não reverbera em um amadurecimento da personagem, que sempre age como a princesinha à espera do príncipe encantado.

O ritual de escovar os cabelos não nos parece ser uma forma de lembrá-la de sua pouca idade, mas de culpá-la por ela não estar quieta à espera do cavalheiro salvador. O romance inteiro se constitui pela dicotomia “prazer sexual” vs “culpa”. Melissa culpa os pais por serem ausentes, os professores da escola por não dispensarem maiores cuidados para com ela, o primeiro amante (Daniele) por não ter se apaixonado perdidamente, e, assim por diante. Em momento algum, a protagonista assume as responsabilidades por suas escolhas. É como se a mulher precisasse de uma desculpa, de um culpado, por ela ter escolhido não ser a princesinha. Melissa diz estar se perdendo, cada vez que se relaciona sexualmente com um homem. Mas o “perder-se”, nessa estória, é perder a conexão com a princesa dos contos infantis, que deveria ser virgem, tolinha, vítima, objeto sexual, e não a mulher que escolhe com quem e como transar, que escolhe constituir uma personalidade à revelia das demandas sociais, atitudes estas que a personagem toma, mesmo sem se dar conta disso. O “perder-se”, na verdade, está amplamente relacionado com o não corresponder à idealização que Melissa fizera para si.

Melissa é tratada por Daniele, desde o primeiro momento, como objeto-sexual. Ele marca horário para desvirginá-la e não esconde dela ser na função de objeto que ela ocupará sua vida, pelo tempo e com as regras que ele impuser. Ela poderia ter aceitado Daniele como uma “amizade colorida” e se colocado como agente dessa relação. Mas, ao contrário disso, ela age como uma vítima e, mesmo quando dá um basta na situação, não se impõe como uma mulher forte e capaz de decidir por si, de maneira autônoma.

O fato de Melissa viver todas suas experiências sexuais, paralela e escondida da vida familiar, já demonstra a dificuldade que ela tem de se posicionar, de assumir as responsabilidades por suas escolhas. Escolhas que, aliás, tentam ser justificadas como se fossem atitudes erradas, que só foram tomadas porque a menina estava sem rumo. E o rumo seria encontrar o idealizado “verdadeiro amor”, que aparece ao final do livro, como um oásis. As elucubrações apresentadas não deixam opção para a mulher que escolhe ter mais de um(a) parceiro(a) ou para aquela que escolhe não corresponder ao ideal da princesinha. Trocando em miúdos, é como se para a mulher fosse indevido escolher. Afinal, a princesinha deveria apenas reagir.

A ideia de ser a princesinha aqui é, justamente, a de não assumir a posição de agente de seu destino. Desse modo, Melissa poderia transar com quantos homens quisesse. Poderia se sujeitar a situações, no mínimo, perigosas, como as orgias de que participara. Poderia viver todas as experiências que desejara. Enfim, Melissa poderia fazer o que quisesse, desde que passasse pelo ritual das cem escovadas antes de ir para a cama, o que significa dizer, que ela poderia agir como bem escolhesse, desde que houvesse um culpado: os pais ausentes, os professores desinteressados, Daniele e sua frieza, o senhor casado, o professor anti-ético, etc.

Enquanto as mulheres continuarem presas à ideia de que não são fortes o suficiente para escolherem e arcarem com suas escolhas, estaremos presas nesse ideal da princesinha. Teremos, então, uma falsa liberdade, já que se trataria de uma escolha impulsionada por fatores externos, como fica evidente no trechoem que Melissapensa sobre Claudio, o pretenso príncipe: “Por que a vida me reservou até agora só maldade, sujeira, brutalidade? Esse ser extraordinário pode me estender a mão e me tirar da cova estreita e malcheirosa onde me escondi amedrontada…”

 

Imagem para divulgação do filme baseado no livro 100 Escovadas Antes de Ir para a Cama

 

Por que precisaríamos de um príncipe salvador? Aquilo que Melissa chama de “maldade, sujeira, brutalidade” é a percepção que lhe ficou acerca das relações sexuais que ela escolheu manter. Além disso, em que momento da estória transar com quem quiser e da forma como quiser virou esconderijo para mulher amedrontada?

Cem escovadas antes de ir para a cama? Não! Prefiro dormir despenteada, mas acordar pronta para assumir minha vida.

Capitalizando nossos corpos

Outro dia, me caiu nas mãos este artigo, do jornal inglês The Guardian, na verdade, uma critica literária, ao estudo da pesquisadora inglesa Catherine Hakim, Honey Money: The Power of Erotic Capital.

 O artigo, escrito pela escritora Elizabeth Day, faz uma objeção pesada às conclusões de Hakim, que coloca, como principal objetivo de uma mulher (não li o estudo, mas pelo que constou no artigo, e consta também na capa do livro de Catherine Hakin, com mãos femininas, bem cuidadas e de unhas pintadas) fazer um uso proveitoso o que ela chama de “capital erótico”.

Capa do livro da inglesa Catherine Hakim

O que seria este “capital erótico”, Hakim explica: “uma combinação nebulosa mas crucial de beleza, sex appeal, habilidades sociais e boa apresentação… que faria alguns homens e mulheres uma companhia agradável, atrativa para todos os membros de sua sociedade, e especialmente, para o sexo oposto”

De acordo com o portal RBS, onde encontrei um artigo sobre o “capital erótico e quais são suas características, baseado no livro de Hakin, o conceito englobaria:

:: Beleza: conceito variável no tempo e cultura, mas sempre valorizado. A ideia atual destacaa fotogenia, o que leva a valorização de homens e mulheres de olhos grandes, lábios carnudos e pele bronzeada.

:: Atratividade sexual: tem a ver com um corpo sexy, o estilo e a personalidade. Ou seja, a beleza pode ser percebida numa foto, mas o jeito como a pessoa fala e se move, não.

 :: Atratividade social: é uma mistura de graça, charme e outros dotes sociais, como a habilidade para deixar o outro à vontade, feliz e com vontade de conhecer você, possivelmente, desejando você também.

:: Vivacidade: aqui também trata-se de um mix de condicionamento físico, energia social e bom humor.

:: Apresentação: o modo como você se veste, usa maquiagem, o estilo do cabelo e acessórios é o que dá a uma pessoa uma boa apresentação.

:: Sexualidade: a categoria é ampla e inclui competência sexual, energia, imaginação erótica, entre outras. Não tem relação com libido e se define em particular.

:: Fertilidade: segundo a autora, a característica só vale para mulheres e em certas culturas que enxergam dotes especiais nas mães de crianças saudáveis e bonitas.

De forma interessante, e reveladora, mais uma vez fica claro que o conceito se aplica mais às mulheres que aos homens, ou pelo menos, assim tem sido entendido, já que, significativamente, a maioria das matérias brasileiras sobre o livro encontra-se nas categorias dirigidas ao público feminino, como o referido portal RBS, que tratou do assunto na coluna Donna, categoria “relacionamentos”.

 Como já disse a autora da crítica do Guardian, Elizabeth Day, parece óbvia a afirmação de que beleza e uma dose substancial de charme podem ajudar a ser bem sucedido. E a própria autora do livro Honey Money, elaboradora da tese do “capital erótico”, reconhece que se trata de uma afirmação óbvia, surpreendendo-se de que não tenha sido tratada antes.

Ora, já refuta Elizabeth Day:

Perhaps because it has never needed to be? Perhaps because in placing so much emphasis on how we appear (both aesthetically and socially) we are implying that style is more important than substance, that it doesn’t matter what you say as long as you say it with a tooth-whitened smile? Perhaps because Hakim’s ideal society would be one where cosmetic surgery was the norm, where sexuality was flaunted and where the ugly, the overweight, the depressed or the mentally ill became trampled-on Untermenschen who worked for the public sector (“All studies find a higher concentration of attractive people… employed in the private sector than in the public sector,” Hakim notes breezily).

Talvez porque nunca foi necessário? Talvez porque colocar tanta ênfase na aparência, tanto estética quanto social, estaria implicando que estilo é mais importante que substância, que não importa o que se diz, desde que seja dito com um sorriso clareado e perfeito. Talvez porque a sociedade ideal de Hakim seria uma onde a cirurgia cosmética seria a regra, onde a sexualidade seria exibida de forma ostentosa, e onde as pessoas feias e acima do peso, os deprimidos ou doentes mentais seriam chutadas, esses “povos inferiores”, Untermenschen (da ideologia nazista), para trabalharem no setor público, onde Hakim alega que todos os estudos mostram uma alta concentração de gente menos atraente que no serviço privado. – (tradução livre pela autora do post)

No artigo do Guardian, Elizabeth Day faz uma crítica ferrenha ao livro e às conclusões da autora.

Segundo Hakim, o “patriarcado”, as “feministas” e o “cristianismo”, juntos conspiraram para garantir que as mulheres não se apropriassem dessa considerável força que é o capital erótico. (???) Mistura no mesmo pacote conceitos antagônicos, demonstrando desconhecimento das teorias feministas em geral, fazendo o que em geral é feito: estereotipar e ridicularizar os feminismos.

Ainda, Hakim afirma que “as feministas sofreram tanta lavagem cerebral pelo patriarcado que são incapazes de entender como a sexualidade e o capital erótico podem ser fontes de poder feminino”. E ironiza Elizabeth Day: “se eu for uma feminista e usar brilho labial, em que isso me transforma? Uma criação da minha própria imaginação?”

Quando li o artigo, me lembrei da Letícia, do blog Cem Homens, uma pessoa que vem sendo alvo da artilharia pesada do controle social brasileiro, por ousar demonstrar uma atitude de “ostentação sexual”, não encontro outra palavra. Lola e Cynthia já escreveram sobre os ataques covardes, não de trolls anônimos, mas de uma grande emissora de TV, a mesma que acha normal mostrar cenas de homofobia e violência doméstica mas teme chocar os mais “sensíveis” da digníssima classe média branca heterossexual e católica ao mostrar a afetividade homossexual ou colocar negros e negras em posições melhores que as subalternas.

E fico pensando no “estudo” de Hakim, e em como no Brasil a gente vive essa contradição… somos um país que vende no exterior a beleza e a sensualidade femininas, mais do que qualquer país de que eu tenha notícia. A publicidade de uma sandália de dedo, recentemente usou dessa mesma fama, da beleza e da sexualidade da mulher brasileira, estereotipada, como mote para uma de suas campanhas.

Esse mesmo país, essa mesma sociedade, que faz uso da sexualidade da brasileira para vender sua imagem no exterior, aqui, reprime qualquer manifestação de sexualidade livre.

Aqui, e infelizmente, creio que em quase todo lugar, uma mulher não pode ter êxito na carreira senão as custas de sua sexualidade e de seu uso direcionado. Muitas vezes, a voz comum é que  se uma mulher é promovida, deve estar “dando” para o chefe. Se a chefe, no caso, for mulher, obviamente, deve ser lésbica, e a promovida também “deu”  (dar, oferecer, submeter-se… sempre na posição de passividade).

Experimente usar livremente da sua sexualidade. Jamais.

Como deixa aparenta deixar claro o estudo, a sexualidade e o capital erótico não devem ser usados para o prazer feminino, mas tão somente para obter coisas, bens, relações, pessoas. Obter ganhos.

A beleza, o estilo, a simpatia, o charme. Tudo transformado em uma mercadoria de troca.

Capitalizando nossos corpos - somente assim nos é permitido usar nossa sexualidade. Imagem: Alamy. Matéria do The Guardian.

Claro, disso a gente já sabia. O que a inglesa Catherine Hakim aparentemente fez, foi simplesmente “dar nome aos bois”.

Mas foi mais do que isso: quando um fato do dia a dia é revestido de uma estrutura “científica”, assume ares de “verdade absoluta”, nesse fetichismo das ciências em que vivemos desde o século retrasado.

E podemos observar que, via de regra, o fetichismo da ciência encontra-se a favor do status quo: capitalista, eurocêntrico, cristão. As ciências já foram utilizadas para justificar a inferioridade de certas raças e etnias, a opressão das mulheres, a subalternidade das homossexualidades. *Como trabalho na área do Direito, sempre me veem à mente Lombroso e sua teoria do Homem Deliquente.

Quando uma mulher age livremente, disponde de sua sexualidade como deseja, ela abala os alicerces do capitalismo. Como assim, sexo sem procriação? Como assim, ela não está nem obtendo “lucro” com o sexo que pratica (esse lucro,  na cabeça de alguns, pode ser financeiro, como alguns propõe que Leticia seria mais aceitável se fosse prostituta, afinal, prostituta é paga, ou emocional – conseguir um marido, um provedor, ou mesmo um emprego.). Abala os alicerces do capitalismo porque abala uma das estruturas sobre as quais ele se sustenta: sucessão hereditária. Se uma mulher dispõe livremente de seu corpo – e de seus óvulos – como garantir que a prole, que herdará o mundo, é de fato a prole do “pater famílias”? ( Agenita Ameno fala sobre isso no livro “Crítica à tolice feminina”, obra na qual propõe uma sociedade de usofruto, e não de sucessão).

Geisy e o vestido da discórdia

Mas, ora ora, como são hipócritas: lembram-se de Geysi Arruda, da UNIBAN? Se vestia livremente, de forma “despudorada”. Foi linchada moralmente. Recebeu apoio, e em seguida, usou a fama e “

capitalizou” seu corpo e seus minutos de fama. O que aconteceu? Apedrejada moralmente… todos já sabiam que era isso que ela queria…

Imagino se Leticia um dia vier a público, sem o pseudônimo, e realmente “capitalizar” seu erotismo. Alguma dúvida de qual será a reação de nossa sociedade?

 Não sei como fazer isso, ainda estou engatinhando nas teorias acadêmicas, nos diversos feminismos. Mas, de uma coisa, cada dia me convenço mais: o capitalismo É inimigo da igualdade. E se o feminismo É a busca da igualdade, e eu acredito que seja, feminismo e capitalismo SÃO incompatíveis.

* O livro ainda não foi traduzido, e não encontrei em PDF. No entanto, o artigo que lançou a teoria, publicado na European Sociological Review, em março de 2010, está disponível, em inglês.

up-dating: gente, o link quebrou, e agora, qdo tento abrir a revista, eles estão pedindo senha e cadastro. Vou tentar achar de novo, livre, e posto outro link, ok?

Blogagem Coletiva – Dia da Visibilidade Lésbica

Em 29 de agosto de 1996, realizou-se o 1° Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE no Brasil. Por isso, hoje é Dia da Visibilidade Lésbica. A data existe para ser um marco do movimento das lésbicas no país. É um dia de celebração, mas também de discussão e reflexão sobre os estigmas, preconceitos e a lesbofobia que ainda permeiam a questão. Convocamos esta blogagem coletiva para que mais e mais pessoas conheçam e saibam o que significa ser lésbica em nosso país.

Imagem do grupo de lésbicas argentinas La Safinas. Em memória de Natalia Gaitán.

A imagem que ilustra este post é de um mural, que foi idealizado e pintado num muro da cidade de Rosario (ARG) pelo grupo de lésbicas argentinas Las Safinas, para ser uma homenagem a Natalia Gaitán, lésbica assassinada em 2010 pelo padrasto de sua namorada. A bela imagem de duas mulheres se beijando apareceu 10 dias depois coberta de tinta branca. O grupo Las Safinas organizou um protesto em 20 de março, com as seguintes palavras de ordem: “AUNQUE NOS TAPEN EXISTIMOS. VISIBILIDAD LESBICA”.

Confira trechos dos posts participantes da Blogagem Coletiva:

O que ocorre é que uma mulher que se assume homossexual passa a ser taxada com alcunhas que ligam sua sexualidade à incapacidade masculina de satisfazê-la. Desse modo, o desejo sexual da mulher, quando não direcionado ao homem, o ofende pessoalmente. Não prestar homenagem ao pênis, senhor e reprodutor-mor, não costuma ser bem tolerado em sociedades patriarcais e/ou machistas. A idéia de mulheres obterem prazer e serem sexualmente felizes longe do que muitos consideram o plus sexual, deflagrador da inveja fálica, não costuma ser bem tolerada. Continue lendo em 29 de agosto: dia da visibilidade lésbica por Talita R da Silva


Ainda existe muito preconceito, estigma e discriminação em relação à homo e bissexualidade feminina, o que leva ao que chamamos invisibilidade da própria sexualidade feminina, como constata o Dossiê da Rede Feminista de Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos: Saúde das Mulheres Lésbicas.

Essa invisibilidade ocorre porque vivemos numa sociedade marcada pela heteronormatividade, que considera marginal e diferente as relações sexuais e o amor entre pessoas do mesmo sexo. O documentário do canal por assinatura GNT “Sou Gay e daí?” fala sobre a origem da homossexualidade e mostra que em todas as famílias há homossexuais, só não se fala sobre o assunto. Continue lendo em 29 de Agosto: Dia Nacional da Visibilidade Lésbica por Suely Oliveira


É como se a mulher não pudesse ser livre para decidir , enquanto pessoa, a autenticidade dos seus desejos sexuais, o direito ao seu prazer sexual com quem ela bem queira e entende, claro, com mútuo consentimento e muito carinho e intimidade.

A mulher homossexual é vista como uma “hétero mal-amada” que não conseguiu ser feliz com uma pessoa do sexo oposto e, “para se vingar”, resolve escolher uma parceira do mesmo sexo. Continue lendo em Deixem a mulher homossexual ser livre por Hamanndah

O Dia da Visibilidade Lésbica afirma que as lésbicas e bissexuais existem, amam, casam-se, viajam, têm filhos, trabalham, pagam seus impostos, consomem, têm problemas, vivem da mesma forma corriqueira e comum que todos os outros cidadãos, apesar de terem diversos direitos negados pela sua orientação sexual não-heterossexual.

A saúde dessa mulher é tema de destaque nessa data, justamente pela dificuldade dos profissionais dessa área em lidar com a especificidade das necessidades de mulheres que fazem sexo com mulheres. Pouco se fala sobre proteção a DSTs, e não há no mercado brasileiro preservativos pensados para essa prática sexual. Continue lendo em Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual por Sou Minha

Não ser visível na história é como não ser um sujeito na história. E de várias maneiras o mundo vai naturalizando algumas práticas sociais como se fossem o “normal”. O que foge a regra é considerado meio esquisito. As meninas e os meninos vão aprendendo que aquele espaço público, da política, das transformações, das ações, são espaços para os homens, que é mais natural que os meninos queiram estar lá. Pras meninas, outras atividades são apresentadas como destino natural (não menos importantes, mas socialmente menos valorizadas).

Tem motivos pra algumas coisas serem ocultadas nesse nosso mundo organizado em torno de opressões e desigualdades: é pra manter as coisas exatamente como estão. Ou seja, pra manter as relações de poder que privilegiam os homens, brancos e heterossexuais no nosso mundo. Continue lendo em Fragmentos de uma reflexão sobre a visibilidade lésbica por Tica Moreno

Eu queria escrever uma história gay porque-eu-acho-que-as-pessoas-acham-que-eu-não-tenho-cara-de-gay. Não sei que cara os gays têm e também nunca perguntei a ninguém se eu tenho cara ou não. Eu queria escrever uma história com personagens gays porque eu tenho o sonho colorido de provar-para-o-mundo-preconceituoso-que-os-gays-são-iguais-a-todo-mundo e não pessoas promíscuas. Acontece que. Um, eu só sei escrever sobre sexo e ia acabar corroborando o preconceito – e fazendo as pessoas acreditarem que reside aí a minha homossexualidade (e não no meu tesão por pessoas do mesmo sexo, é claro). Dois, eu mesma não consigo desincrustar da mente a ideia de que gay é um tipo diferente de pessoa e quero construir uma história artificial, arbitrária e – o mais importante – ruim. Continue lendo em Guest Post: Dia da Visibilidade Lésbica por Eliza Viana no blog da Barbara Araújo

A invisibilidade é tamanha que quando se ouvia, a boca pequena, falar de lésbica era na relação com mulheres muito masculinizadas e nas quais nem parecia caber o afeto e o imaginário de uma relação saudável, eram mulheres marginais e fora de contexto. Mesmo mais tarde, à época da adolescência, quando circulam as “revistinhas proibidas” entre os colegas da escola, se aparecesse algumas mulheres juntas, elas eram logo percebidas como fetiche para excitação dos meninos, mas jamais como sujeitos de desejo e de prazer.

A lesbianidade como realização de afetividade e de prazer entre mulheres e com a exclusão do falo, é inconcebível para uma sociedade heteronormativa e machista, pois deixa o corpo feminino escapar do entorno da dominação masculina. O corpo lésbico é a interdição mais cabal à sociedade heteronormativa e falocêntrica, é a celebração da liberdade das amarras das opressões que por séculos foram construídas e disponibilizadas como maquinarias do poder masculino. Por isso, as lésbicas são inconcebíveis e legadas à invisibilidade. Continue lendo em Invisibilidade lésbica e as narrativas que precisamos contar por Marcelo

Aí vocês me perguntam: ué, mas as lésbicas não estão inclusas quando falo “gay”? Em teoria, beibe, até estão. Mas junta dez pessoas e pede pra desenharem “gay”. Das que desenharem pessoas (e não a bandeira LGBTTT por exemplo) veja quantas desenham duas mulheres ou uma figura feminina. Além disso, existe entre alguns grupos o mito de que não existe mulher homossexual de verdade. De que as lésbicas seriam lésbicas apenas temporariamente e quando encontram um homem de verdade, uma bela p*ca na frente, percebem que é disso que elas gostam. Extremo desse pensamento são os “estupros corretivos” praticados em larga escala não só na África do Sul (lembram daquele filme com a Hilary Swank? – que, vale lembrar, é sobre um transexual, não sobre uma lésbica). Continue lendo em Lésbicas, as mulheres invisíveis por Mari Moscou


A lesbofobia, o ódio por lésbicas, é no fundo uma maneira de atacar todas as mulheres. Pois qualquer mulher que aspire fugir de seu papel específico feminino, independente de sua sexualidade, pode ser acusada de ser lésbica e sofrer consequências sociais. As lésbicas podem até escapar de se tornarem uma propriedade privada dos homens, mas não escapam de serem uma apropriação coletiva deles, porque pertencem ao grupo das mulheres. O estupro é muitas vezes uma forma de punir e culpabilizar a mulher por fugir de seu papel especificamente feminino. Um dos crimes mais cruéis que existem é o estupro corretivo de lésbicas, porque para os agressores é inconcebível existir prazer sexual sem a figura do pênis. Ao mesmo tempo, uma das maiores fantasias eróticas heterossexuais é o sexo entre duas mulheres, que só é aceito porque elas estarão ali para o deleite do olhar masculino. Lésbicas não podem escapar ao controle masculino. Continue lendo em Lésbicas Invisíveis por Srta. Bia

Somos mulheres que subvertem a ordem do sexo frágil, da dependência e da subserviência. Somos mulheres que não seguem o “manual de boas práticas femininas”, que dita modos de vestir, de agir, de falar, de ser e estar no mundo. Somos revolucionárias na acepção própria da palavra: fazemos uma transformação radical na estrutura da sociedade. Estamos onde supostamente mulheres não deveriam estar. É ainda espantoso para muitos, por exemplo, aceitar que duas mulheres possam viver sem um homem. Como vão resolver tarefas cotidianas tidas como masculinas? Não irá lhes faltar força? Jeito? Tino? Há ainda as tentativas de ridicularizar, diminuir e não reconhecer nossa sexualidade. Há uma desqualificação fálica de nosso sexo. Para machistas de carteirinha – e uniforme completo! – lésbicas não trepam de verdade, apenas brincam de se esfregar. Sim, meninas, como se fosse pouco e somente o que fizéssemos. Mas a despeito das agressões e desqualificações, seguimos subvertendo a ordem, desconstruindo certezas e quebrando o que estaria estratificado. Continue lendo em Lésbicas: orgulho e visibilidade por Ivone Pita

Se a opção foi por dar visibilidade, significa que essa parcela de pessoas ainda está, muitas vezes, escondida. E quando nos escondemos, em geral perdemos a oportunidade de mostrar do que gostamos e do que não gostamos; o que aceitamos ou não; o que queremos mudar; a maneira que queremos viver a vida.

Dar visibilidade às lésbicas é, antes de mais nada, a afirmação de que uma porção de nossa sociedade não vive como espera o sistema e espera ser respeitada, acima de tudo. Afirmar nosso amor por outra mulher é uma das formas mais graciosas de revolucionar a sociedade patriarcal na qual vivemos. A revolução sapatão, como cantamos nas caminhadas.. Continue lendo em Mês da Visibilidade Lésbica: 29 de agosto, lésbicas visíveis por Fernanda Estima

Mas não é sobre a caminhada que decidi escrever hoje. No domingo, é dia do almoço em família. Fui para a casa dos meus pais, onde ajudei a fazer o almoço, e enquanto isso, tomava uma cerveja com minha mãe, na cozinha. Ela me perguntou sobre o sábado, o que eu havia feito, essas coisas. E eu disse que fora a uma caminhada. Ela imediatamente perguntou se era dessas coisas de gays que eu ando frequentando (palavras dela). E eu disse que não era de gays, era de lésbicas, e sim, foi uma caminhada dessas. Ela me olhou e disse: “Minha filha, pode parar com isso!” Com um tom de preocupação e, não sei, advertência? Talvez nem ela saiba o que desejava expressar com aquelas palavras. Continue lendo em Qual é o seu armário? por Renata Lima


Namorar a Ana* foi se tornando estranho ao longo dos anos, a nossa relação foi se tornando cada vez mais castradora. Eu tinha que andar cada vez o mais mocinha possível, pra não chamar atenção dos pais dela ou de qualquer outra pessoa. Todas as vezes que ia cortar cabelo tinha que pedir ‘autorização’ da namorada. Ana falava que se quisesse namorar um menino namoraria um, que eu não precisava me transformar em um, ou numa ‘caminhoneira’. Que ser lésbica não era se transformar num menino.

Daí você pode se perguntar porque é que eu não terminava o namoro se era tão castrador assim? Eu a amava, ela me amava. E o que é um corte de cabelo mais ‘feminino’ ou uma roupa mais ‘feminina’ diante do amor de quem se ama, né gente?

Mas especialmente eu não queria viver novamente o que tinha passado com a mãe da Fernanda, não queria que me afastassem mais uma vez da pessoa que amava, simplesmente por ser como eu sou. Assim, lésbica. Essa pessoa do sexo feminino que potencialmente ama outra pessoa também do sexo feminino. Continue lendo em Sou advogada, sou lésbica, sou cidadã, sou igual a você! por Inquietudine

Dia nacional da visibilidade lésbica porque quando se fala de homossexualidade, geralmente a palavra “lésbica” não é pronunciada, sendo substituída por gay ou homossexual, termos que abrigam tanto a homossexualidade feminina como a masculina.

Usando termos gerais, apaga-se as especificidades da sexualidade lésbica, tão pouco falada (mal-falada) e cai-se novamente na invisibilidade do feminino, isto é, apaga-se a história das mulheres como protagonistas de sua própria vida e volta-se para o senso comum de que os grandes heróis são sempre os homens, mesmo dentro do movimento LGBT. Os sujeitos femininos continuariam relegados ao silêncio e ao esquecimento, como foram durante boa parte da história da humanidade. Continue lendo em Vamos falar de sexo na falta do que falar por Nandee, no blog da Pokemon Natalia.

Eu estou falando como uma pesquisadora da homossexualidade no Brasil e se hoje você quiser escrever um livro sobre esse tema você ficará preso a história da homossexualidade masculina no Brasil. São pouquíssimas as fontes que relatam a homossexualidade feminina, e ousaria dizer que tal raridade de fontes não é um ‘privilégio’ nacional.

As mulheres que mantém relações sexuais e afetivas com outras mulheres sempre passaram desapercebidas e por isso não fazem parte dos livros de história da homossexualidade. João Silvério Trevisan nos informa isso na introdução de seu livro “Devassos No Paraíso” em que apenas um capítulo é dedicado as lésbicas. Continue lendo em Visibilidade Lésbica? por Inquietudine

Negar a diversidade humana é um crime contra a Natureza. E não apenas ser, mas assumir-se lésbica e se orgulhar disso é uma forma de dizer NÃO à restrição sobre nossos afetos e desejos. O Estado deve ser laico de fato e reconhecer nossos direitos civis, sociais, econômicos, culturais, trabalhistas. Esse movimento de manifestar-se de acordo com aquilo que se é significa a alteração de uma realidade.

O ser lésbica e colocar-se socialmente como tal constitui um movimento que abarca alguns princípios, como: o da autonomia (liberdade), e o empoderamento enquanto projeto político democrático.

A invisibilidade não propicia o entendimento. A invisibilidade nos leva à perda do olhar de nós mesmas e d@ outr@. É o existir que implica à possibilidade, ao poder ser, que significa transcender do corpo natural para um corpo político, assim existindo e permitindo a visibilidade. É a visibilidade que garante o reconhecimento e propicia a nossa autonomia. Até mesmo dentro do movimento LGBT. Continue lendo em Você já vestiu o seu arco-íris hoje? Não basta ser, é preciso assumir! por Brunella França