Uma Feminista no Puteiro

Nunca pensei que um dia entraria em um puteiro. Ainda mais um que cobrava apenas 10 reais para entrar e dava duas cervejas de cortesia. Um amigo me disse que não se tratava de um puteiro, mas uma casa de shows, e que o puteiro rolava no andar de cima, nas salinhas onde se negociava o programa. De qualquer forma, me vi ali dentro. Tipo um peixe fora do aquário, dançando ao som de músicas de baixo calão, inventando coreografias de funk e me divertindo com meus amigos como se estivesse em uma balada qualquer. Apesar das mulheres semi-nuas transitando pela casa – e me olhando com ar de dúvida – e dos shows eróticos rolando, parecia apenas mais uma balada alternativa entre as tantas que eu insisto em conhecer em São Paulo.

Dançarina de Pole Dance na Semana de Moda de New York. Fonte: Reuters

Mas eu não estava em apenas mais uma balada alternativa. Mesmo que estivesse me sentindo confortável, estava no lugar símbolo de todas as causas pelas quais eu luto. Apesar de estar conversando e contando piadas para os amigos, não pude deixar de olhar com um sentimento estranho de pena para a menina que abria as pernas em torno de um pole dance; o mesmo olhar que eu estendi para os garotos de boné que olhavam-na com curiosidade e desejo. Era uma relação de poder, sem dúvida. Ela exercia poder sobre os olhares, ela era toda dona de si. Sua realidade possivelmente é bem diferente daquelas meninas que são contrabandeadas, contra sua vontade, e se tornam literalmente escravas do sexo no sertão do Ceará. Aquela menina poderia estar ali contra a vontade, sim, porque a vida não lhe deu opção melhor de pagar a faculdade sem ter que prestar um serviço que lhe consumisse horas preciosas de estudo. Vida fácil, como muitos dizem, apesar de eu ter minhas ressalvas quanto essa opinião, mesmo quando se trata de Brunas Surfistinhas da vida.

Mas afinal o que eu fazia ali? Curiosidade, suponho. A mesma curiosidade que me fez ir ao Comedians uma semana depois de dar entrevista para Folha durante o desfecho da Marcha das Vadias. Conhecer o âmago do que eu discordo, para mim, é fundamental para saber por qual causa eu estou lutando. Não, eu não quero que fechem os puteiros. Eu quero que regularizem uma troca de serviços e que se pontue que se trata de uma escolha. Pedofilia, escravidão, tráfico humano, tudo isso cerca a prostituição como um todo, porque é algo ainda marginalizado – é uma terra sem lei, sem dono. Aliás, minto. Há donos, sim. Exploradores dos corpos alheios, que se dizem protetores, e se protegem sob a alcunha de cafetões. Isso seria tema para um post jurídico, então, prefiro me ater à experiência. Pura e simples.

Cena do filme Klute, o Passado Condena (1971). Com Jane Fonda e Donald Sutherland.

Uma garota mais robusta subiu no palco. Braços fortes, pernas grossas. Instalou-se um burburinho de dúvida sobre se era uma mulher ou uma transsexual. Na minha estrita opinião, nenhuma dúvida tenho de que se trata de uma mulher, mesmo que tenha nascido em um corpo masculino, quem se define é ela, ela é senhora do seu corpo e de sua mente. Mas num ambiente daqueles, as dúvidas recaem, assim como na sociedade inteira. Como se o corpo do outro fosse assunto coletivo. No puteiro, pensando de modo prático, ainda reconheço que existisse uma preocupação quase técnica para essa questão, o que a torna até menos inválida frente a sociedade quando decide se meter neste assunto. Acompanhei o desfecho do show e percebi rapazes interessados, talvez exatamente pelo fato da dúvida sobre se era ou não era. Pelo menos ali, acho que ela não seria exposta ao rídiculo como seria se estivesse dançando normalmente, fora de um palco, em uma balada alto nível. Não senti hostilidade absoluta da casa. Acredito que ali ninguém julgaria ninguém.

Muitos perguntam se eu desfrutei do puteiro como se esperaria, mas a resposta é sempre não. Fui embora do lugar com algumas impressões que a vida aqui fora jamais me ensinaria. Uma coisa é ter ciência de como esses ambientes funcionam, e tomar partido de como a vida dessas garotas é através de livros escritos por elas e documentários filmados por especialistas. Outra coisa é estar ali. Respirar aquele ar. Ver os olhares ao vivo, a dois passos de distância, viver aquele momento. Algo que nenhum filme jamais iria me presentear. De todo um modo foi um presente inesperado, nem bom nem ruim. Foram constatações de fatos.

Existe um poder feminino incontestável naquele lugar. A submissão dos homens ao sexo e objetificação da mulher como esse alvo de interesse absoluto são tão perceptíveis que parece que dá para pegar a tensão no ar. É quase sólido. Mas perdi a percepção de onde esse sentimento se inverte. Quando a poderosa mulher, tão desejada, vai fazer a contabilização da sua noite e acertar as contas com seu cafetão. Até que ponto esse poder vira-se contra ela ao receber uma bofetada em um programa. Até que ponto esse poder persiste quando eu, mulher e dona do meu corpo, sou xingada de prostituta quando admito gostar de sexo e não ter problema de transar sem me envolver sentimentalmente. Sabe?

Ir a um puteiro me ensinou a conhecer o poder que o nosso corpo tem, e o des-serviço que esse próprio poder nos presta. É triste. É como receber uma dádiva e descobrir que era uma punhalada pelas costas.
Ficam aí os meus sentimentos e impressões. Façam o que quiserem deles. Mas não os joguem sobre a mim, porque eu mesma já o fiz.

*Imagem do destaque: Cena do filme Uma Linda Mulher (1990). Com Julia Roberts e Richard Gere.

A culpa daquela menina

Eu lembro até hoje o dia em que fiquei menstruada pela primeira vez.. Lembro que tinha cerca de 10 anos, ao ir ao banheiro vi minha calcinha marcada com algo que parecia sangue. Lembro de ficar pretificada, aquela sensação de medo, pavor, vergonha ainda esta presente na minha memória. Eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo com o meu corpo, nunca havia sido informada sobre o que iria acontecer comigo, sobre as mudanças naturais no corpo de uma menina, eu simplesmente sabia que meu corpo mudava, eu percebia, mas não tinha real noção do que estava acontecendo. Minha família jamais conversou comigo sobre essas mudanças, qualquer assunto referente ao corpo feminido, a sexualidade era um tabu. Eu me lembro de estar trancada no banheiro, sozinha, com medo, sem ter com quem conversar, chorando encostada na parede, me sentindo culpada.

Isso aconteceu comigo a cerca de 18 anos atrás, acho que o carinho especial que eu tenho para conversar com meninas passe um pouco por essa experiencia, o medo da mudança, o terror da surpresa, a vergonha perante o corpo feminino em desenvolvimento, eu não quero ver outras meninas passando pelo que a Ana Rita menina passou. Muito infelizmente hoje ainda vejo.

Hoje tive oportunidade de conversar com uma acadêmica do curso de serviço social da UFRGS, ela me relatou uma cena muito triste. Uma menina chegou na sala de aula, muito constrangida, tremendo de medo, a menina foi retirada da sala e encaminhada para conversar com a assistente social. Ao questionar a menina sobre o que estava acontecendo, a mesma confessa: eu fiz algo horrivel! Ao ser acolhida, acalmada, a menina segue relatando que fez algo terrivel com seu corpo, ela diz que nao sabe o que é, mas com certeza fez algo errado, pois ela estava com a vagina machucada e a mae dela iria bater nela. Depois de muito conversar, percebe-se que na verdade a menina ficou menstruada pela primeira vez.  Ela tocou na sua vagina, ela percebeu essa mudança no seu corpo, ela tão pequena se sentiu culpada. Culpada pela mudança no seu corpo, culpada por se tocar, culpada por ser uma menina, culpada perante a família, culpada, culpada. Dezoito anos se passaram desde a minha primeira menstruação, lembro que depois que minha mãe descobriu, ela veio me perguntar se eu não tinha deixado alguem na escola mexer entre minhas pernas, eu me senti envergonhada e culpada, eu odiei aquele momento, eu odiei meu corpo.

Essa menina que citei neste texto esta sendo acolhida, orientada, uma equipe esta conversando com ela e com os responsáveis, eu realmente espero que a culpa que esta menina sentiu, que esses conceitos engessados que criaram nessa familia essa visão do feminino sejam trabalhados e que estas mulheres possam aos poucos passar a enxergar seus corpos, sem culpa, sem medo.

No Brasil Colonia era uma idéia comum de que o útero era a mãe do corpo da mulher, e que quando uma mulher “sangrava” ela estava purgando o seu mal, aquele momento era a prova viva de sua culpa, de seu pecado, era seu castigo, de sua relação intima com o demônio, ela estava doente. Gostaria poder dizer que esta idéia ficou no nosso passado, mas infelizmente não posso, a cada dia vemos provas das pejorativas concepçoes que ainda recaem sobre o corpo da mulher.

Quero dizer para essa menina e para todas as meninas que seu corpo não é imperfeito, não é vergonhoso, não é de outrém, quero dizer que seu corpo é seu, ele não é sua vergonha, mas seu bem, é seu, você pode toca-lo. Assim como essa menina, assim como eu quando fui uma menina, muitas mulheres envergonham-se de seu corpo, muitas mulheres nunca tocaram seu corpo com intimidade, conheço mulheres que nao utilizam absorvente interno por nojo e vergonha de tocar sua vagina.  A mentalidade de inferiorização ainda tem raizes firmes.

Quero falar, quero gritar, quero mostrar, nosso corpo não é sujo, não é inferior, nosso corpo é um corpo de mulher e deve ser livre como tal.

Menina, não há nada de errado com você!

O corpo feminino ainda é um mistério.

*Imagem do destaque: Tristesa. Foto de Llorenç Esteve no Flickr.

Cem escovadas antes de ir para a cama: mulher-objeto ou mulher que não se assume?

O romance Cem escovadas antes de ir para a cama é curto (cerca de 150 páginas), simples e apresenta imagens fortes, por isso tornou-se, rapidamente, um sucesso de vendas. A protagonista se confunde com a autora, Melissa Panarello, o que confere um tom próximo da autobiografia a esse livro-diário. Seu tema central é a descoberta da sexualidade por uma estudante de 15 anos, que mora na Itália com sua família, a quem a menina culpa, em várias ocasiões, por sua carência afetiva e, mais tarde, por suas escolhas sexuais:

 

O problema é que meus pais só vêem aquilo que eles estão a fim de ver. […] Minha mãe diz que sou uma mosca morta, que só ouço música de cemitério e que minha única diversão é me fechar no quarto para ler (isso ela não diz, mas eu percebo pelo olhar dela…). Meu pai não sabe de nada sobre o modo como passo meus dias, e eu não tenho nenhuma vontade de contar para ele.

O que me falta é amor, é de um cafuné que eu preciso, é um olhar sincero que eu desejo.

 

Imagem para divulgação do filme baseado no livro 100 Escovadas Antes de Ir para a Cama

 

Melissa começa a estória como uma garota estudiosa, caseira e virgem. E termina a mesma como uma garota insegura, covarde e sexualmente experiente. Ou seja, apesar de todas as atividades sexuais a que ela se submete, por vontade própria, não percebemos um empoderamento concreto da personagem com relação ao seu corpo e desejos. Ela passa por uma série de descobertas sexuais, mas isso não reverbera em um amadurecimento da personagem, que sempre age como a princesinha à espera do príncipe encantado.

O ritual de escovar os cabelos não nos parece ser uma forma de lembrá-la de sua pouca idade, mas de culpá-la por ela não estar quieta à espera do cavalheiro salvador. O romance inteiro se constitui pela dicotomia “prazer sexual” vs “culpa”. Melissa culpa os pais por serem ausentes, os professores da escola por não dispensarem maiores cuidados para com ela, o primeiro amante (Daniele) por não ter se apaixonado perdidamente, e, assim por diante. Em momento algum, a protagonista assume as responsabilidades por suas escolhas. É como se a mulher precisasse de uma desculpa, de um culpado, por ela ter escolhido não ser a princesinha. Melissa diz estar se perdendo, cada vez que se relaciona sexualmente com um homem. Mas o “perder-se”, nessa estória, é perder a conexão com a princesa dos contos infantis, que deveria ser virgem, tolinha, vítima, objeto sexual, e não a mulher que escolhe com quem e como transar, que escolhe constituir uma personalidade à revelia das demandas sociais, atitudes estas que a personagem toma, mesmo sem se dar conta disso. O “perder-se”, na verdade, está amplamente relacionado com o não corresponder à idealização que Melissa fizera para si.

Melissa é tratada por Daniele, desde o primeiro momento, como objeto-sexual. Ele marca horário para desvirginá-la e não esconde dela ser na função de objeto que ela ocupará sua vida, pelo tempo e com as regras que ele impuser. Ela poderia ter aceitado Daniele como uma “amizade colorida” e se colocado como agente dessa relação. Mas, ao contrário disso, ela age como uma vítima e, mesmo quando dá um basta na situação, não se impõe como uma mulher forte e capaz de decidir por si, de maneira autônoma.

O fato de Melissa viver todas suas experiências sexuais, paralela e escondida da vida familiar, já demonstra a dificuldade que ela tem de se posicionar, de assumir as responsabilidades por suas escolhas. Escolhas que, aliás, tentam ser justificadas como se fossem atitudes erradas, que só foram tomadas porque a menina estava sem rumo. E o rumo seria encontrar o idealizado “verdadeiro amor”, que aparece ao final do livro, como um oásis. As elucubrações apresentadas não deixam opção para a mulher que escolhe ter mais de um(a) parceiro(a) ou para aquela que escolhe não corresponder ao ideal da princesinha. Trocando em miúdos, é como se para a mulher fosse indevido escolher. Afinal, a princesinha deveria apenas reagir.

A ideia de ser a princesinha aqui é, justamente, a de não assumir a posição de agente de seu destino. Desse modo, Melissa poderia transar com quantos homens quisesse. Poderia se sujeitar a situações, no mínimo, perigosas, como as orgias de que participara. Poderia viver todas as experiências que desejara. Enfim, Melissa poderia fazer o que quisesse, desde que passasse pelo ritual das cem escovadas antes de ir para a cama, o que significa dizer, que ela poderia agir como bem escolhesse, desde que houvesse um culpado: os pais ausentes, os professores desinteressados, Daniele e sua frieza, o senhor casado, o professor anti-ético, etc.

Enquanto as mulheres continuarem presas à ideia de que não são fortes o suficiente para escolherem e arcarem com suas escolhas, estaremos presas nesse ideal da princesinha. Teremos, então, uma falsa liberdade, já que se trataria de uma escolha impulsionada por fatores externos, como fica evidente no trechoem que Melissapensa sobre Claudio, o pretenso príncipe: “Por que a vida me reservou até agora só maldade, sujeira, brutalidade? Esse ser extraordinário pode me estender a mão e me tirar da cova estreita e malcheirosa onde me escondi amedrontada…”

 

Imagem para divulgação do filme baseado no livro 100 Escovadas Antes de Ir para a Cama

 

Por que precisaríamos de um príncipe salvador? Aquilo que Melissa chama de “maldade, sujeira, brutalidade” é a percepção que lhe ficou acerca das relações sexuais que ela escolheu manter. Além disso, em que momento da estória transar com quem quiser e da forma como quiser virou esconderijo para mulher amedrontada?

Cem escovadas antes de ir para a cama? Não! Prefiro dormir despenteada, mas acordar pronta para assumir minha vida.