Frente e Verso: visões da lesbianidade

À primeira vista ‘Frente e verso: visões da lesbianidade’ é um pocket book com uma seleção de diversos artigos sobre o universo lésbico. Porém, esse livro também é resultado de uma bela ação para disseminar a literatura lésbica no Brasil.

São 64 artigos curtos, escritos por três mulheres lésbicas que tem histórias na luta pela visibilidade lésbica. Lúcia Facco é doutora em literatura comparada, crítica literária e escritora. Laura Bacellar é escritora e editora. Hanna Korich é advogada e graduada e comunicação social, além de ser colunista do site Dykerama. Os artigos tratam de diversas questões cotidianas como literatura, cinema, música, artistas, personagens lésbicas, sexo, relacionamentos, homofobia, casamento e muito mais. Um livro que desvenda algumas questões do cotidiano lésbico brasileiro de uma maneira leve e bem humorada.

A editora Brejeira Malagueta é a única editora da América Latina que publica apenas livros de autoras lésbicas. Não basta ser um livro sobre lesbianidade ou com personagens lésbicas, a autora precisa ser lésbica. Em um dos textos de Laura Bacellar, ela comenta que é simples identificar um texto realmente escrito por uma lésbica:

Uma das características que sinto estar presente nos originais assinados por mulheres, mesmo aqueles menos elaborados, é a preocupação com as relações. Acho que nós mulheres não conseguimos imaginar uma pessoa como uma unidade completa e sempre entendemos que ela vem acompanhada de parentes, amigos, relações passadas, colegas. Autoras, portanto, costumam incluir na descrição de suas personagens informações sobre como elas se dão (bem ou mal) com os pais, os irmãos, os colegas de trabalho, as ex. Em histórias lésbicas é super comum as amigas terem uma participação importante e interferirem na relação entre as protagonistas de maneira positiva ou negativa. Trecho do artigo ‘Marcas da literatura lésbica’.

O objetivo é publicar autoras lésbicas que escrevam literatura para lésbicas e, que contem histórias alegres, picantes, com finais felizes. Porque chega de literatura em que as lésbicas são retratadas como mulheres amarguras e isoladas. A Brejeira Malagueta tem em seu catálogo diversos livros de romances entre mulheres, focados em adolescentes ou mulheres adultas. Inclusive, uma ação importante é enviar o livro com discrição. Os livros são enviados em papel opaco, num pacote bem lacrado, tendo como remetente o nome de uma pessoa física.

A importância de uma editora lésbica é imensa, pois lésbicas são na maioria das vezes ignoradas pelas grandes editoras. O maior benefício dos livros publicados pela Brejeira Malagueta é mostrar as lésbicas como realmente são: pessoas comuns, normais, legais (bom, nem todas), tão (des)equilibradas quanto as outras mulheres, porém com a interessante particularidade de gostar (e amar e sentir tesão por e correr atrás de) outras mulheres. Se há mulheres que amam, transam, casam, tem filhos ou não com outras mulheres elas querem ler histórias que falem desse universo.

Além de serem escritoras, Hanna Korich e Laura Bacellar também apresentam o programa As Brejeiras em seu canal no youtube. Confira!

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Referência: Frente e Verso – visões da lesbianidade de Lúcia Facco, Laura Bacellar e Hanna Korich. Editora Brejeira Malagueta, 2011.

Por que precisamos falar sobre assexualidade

Texto de Renata Be.

A assexualidade começou a me interessar há pouco tempo, quando soube do (A)sexual, documentário feito pela americana Angela Tucker (em pequena circulação somente nos Estados Unidos). Desde então, além de estudar sobre o assunto, passei a prestar atenção toda vez que alguém se refere aos assexuais no Brasil e percebi que sempre se usa o termo “assexuado”. Palavras ou definições certas não são o ponto principal em muitos casos, mas neste é bom esclarecer pelo menos a diferença entre termos, assim como é feito com homossexualismo/homossexualidade.

Das informações básicas, entende-se que assexuado é quem não tem sexo definido e assexual não experiencia atração sexual. Até em dicionários há confusão, quase todos colocam as duas palavras como sinônimos. Para muitos, a palavra assexual simplesmente não existe. Não há muitos estudos sobre assexualidade no mundo e, até agora, só a pedagoga Elisabete Regina Baptista de Oliveira está se especializando no assunto no Brasil (ela tem um blog excelente: Assexualidades). Muito do que aprendi foi pela paciência que ela teve em tirar algumas dúvidas minhas.

Segundo alguns estudos, nenhuma patologia foi encontrada nos assexuais, ou seja, não há nada de errado neles. É como ser hétero, homo, bi, etc: não há uma causa, a pessoa é/está. É possível que um heterossexual passe a vida toda feliz assim e, de repente, conhece alguém do mesmo sexo por quem sente atração. É confuso porque nunca passou pela cabeça dele/a, mas aceita que é possível e entende que também pode viver feliz assim. É uma escolha aceitar essa possibilidade quando ela aparece, mas não foi escolha isso acontecer.

Escolha é se a pessoa se identifica como assexual ou sexual. Ou então o celibato. Isso é bem dito no site da AVEN (Asexual Visibility and Education Network), primeira comunidade virtual para assexuais do mundo todo. A intenção do site, criado pelo David Jay (um rapaz sensacional e foco do (A)sexual), é fazer com que exista uma ferramenta pra ajudar as pessoas a se entenderem melhor, a se descobrirem, e não exatamente que elas tenham uma palavra, uma categoria que as defina (algo que não deveria ter pra ninguém).

Por que a única forma de pensarmos é a que a sexualidade existe e não que ela TAMBÉM existe? Isso ficou bem mais claro pra mim depois que falei com o Júlio, responsável por um outro blog brasileiro: Sim… Assexual. E daí?. Cito um trecho de uns dos e-mails dele:

É muito fácil falar “chupei um homem hoje”, “ele me comeu até me deixar doida”, “transamos assim, assim e assim”, “eu adoro transar de ladinho”, “fico louco por caras de barba”, etc, etc, etc. Mas como falar que não sinto tesão pelo meu namorado? Que não gosto de fazer sexo com minha esposa? Como dizer que sinto carinho, mas não desejo por alguém? Ou como dizer que sinto desejo mas não me sinto realizado com aquilo? Ou como dizer que sinto excitação, mas nem entendo o que é desejo?

Imagem: Deviantart/CaptainEvie

Não há definição exata, um “é só isso”. Nem todos os assexuais se definem com ausência de atração sexual, já que atração sexual não significa atividade sexual — e muitos não são interessados na atividade sexual. Outros dizem não sentir desejo. E muitos têm relacionamentos afetivos com pessoas assexuais ou não — sem que a sexualidade esteja presente, porque ela não faz parte de algumas pessoas. Sexualidade não nasce com a gente. Não existe o anormal porque, pra existir, precisa ter o normal, o padrão. E qual é o padrão? Em quê nos baseamos pra validar o que nos é diferente? E por que achamos que temos tal direito? Foi comprovado, por exemplo, que alguns assexuais se masturbam tanto quanto quem é sexual. Ou seja, eles também podem sentir excitação. Quem garante que todos os aspectos da sexualidade ou assexualidade se encontram num mesmo lugar?

A assexualidade deve ser entendida da mesma forma que a sexualidade: como algo real e imensamente complexo. Alguns assexuais não sabem o que de fato sentem/são por vários fatores, principalmente culturais. Existem também os que se descobrem assexuais bem mais velhos. Mas nenhum é obrigatoriamente assexual por ter sofrido abuso, por algum trauma ou bloqueio. Ou por um problema hormonal. Em um dos e-mails que trocamos, a Elisabete Oliveira comentou um pouco sobre a questão dos hormônios:

Digamos que um jovem assexual de 25 anos faça exames de hormônio e descubra que tem uma deficiência hormonal (mesmo assim, isso não quer dizer que a assexualidade é causada pela deficiência de hormônio). Esse jovem tem um problema? Viveu 25 anos sem sentir atração sexual e isso nunca foi problema. De repente, descobre que tem uma deficiência hormonal. Como fica? Faz tratamento? Se a falta de desejo nunca foi problema para ele, não há motivo para fazer tratamento e depois ficar totalmente perdido, sem saber como viver num mundo sexualizado. Eu já vi casos de pessoas assexuais que fizeram testes hormonais e se trataram da deficiência, mas nada mudou. Continuaram sem sentir atração. Isso põe em cheque a teoria dos hormônios.

A mim soa como uma reação meio ofensiva concluir que a única forma de alguém diferente de nós existir é se tiver alguma disfunção ou distúrbio. Não é um todo, são indivíduos. Não precisamos de explicação para o porquê de existirem, precisamos explicar que existem. Mesmo não sendo assexual, consigo entender o que é ser, e não só por isso jamais vou negar sua existência. Seria como anular pessoas. Será que só sentindo na pele pra poder entender que algo improvável pra algumas pessoas é real? Acho que seria o mesmo que muitos héteros fazem com bi, homo, etc. Não entendem que sexualidade não é só o básico que conhecem, então rejeitam tudo que não faz sentido ao seu padrão. Mas o que esquecem é que nem eles vivem de um padrão só.

Na primeira resposta do Júlio já aprendi muito mais que aprenderia se continuasse a pesquisar sozinha. Ele me explicou muita coisa, algumas sem mesmo eu perguntar (o que me leva a concluir que eles têm muito a dizer, um enorme conhecimento pra educar e pouco espaço, pra não dizer mínimo, entre quem não é assexual). E parece que só no Brasil se usa assexuado pra falar sobre assexual. O que ele me disse foi:

Geralmente o termo é usado com todo tipo de sentido pejorativo possível. Pessoalmente odeio esse termo. Mas muitos assexuais no Brasil usam sem problema algum porque não entendem seu sentido e o contexto político mais amplo.

Ninguém é heterossexuado ou homossexuado, por que chamá-los de assexuados, ainda mais quando essa palavra já tem um conceito totalmente diferente? Todos precisamos nos educar sobre o assunto, inclusive os assexuais.

Enviei o primeiro e-mail ao Júlio com a intenção de saber como ele e outros assexuais que conhece se sentem quando são chamados de assexuados. E depois de algumas longas mensagens, acabei num pesado mas saudável questionamento sobre minha própria sexualidade. Ou seja, todos sempre temos mais a aprender tanto sobre nós como sobre os outros. A própria pessoa pode não conseguir ou querer definir o que sente/é, mas ela existe.

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Renata Be é feminista, ateia, bissexual, vegetariana.

Uma Feminista no Puteiro

Nunca pensei que um dia entraria em um puteiro. Ainda mais um que cobrava apenas 10 reais para entrar e dava duas cervejas de cortesia. Um amigo me disse que não se tratava de um puteiro, mas uma casa de shows, e que o puteiro rolava no andar de cima, nas salinhas onde se negociava o programa. De qualquer forma, me vi ali dentro. Tipo um peixe fora do aquário, dançando ao som de músicas de baixo calão, inventando coreografias de funk e me divertindo com meus amigos como se estivesse em uma balada qualquer. Apesar das mulheres semi-nuas transitando pela casa – e me olhando com ar de dúvida – e dos shows eróticos rolando, parecia apenas mais uma balada alternativa entre as tantas que eu insisto em conhecer em São Paulo.

Dançarina de Pole Dance na Semana de Moda de New York. Fonte: Reuters

Mas eu não estava em apenas mais uma balada alternativa. Mesmo que estivesse me sentindo confortável, estava no lugar símbolo de todas as causas pelas quais eu luto. Apesar de estar conversando e contando piadas para os amigos, não pude deixar de olhar com um sentimento estranho de pena para a menina que abria as pernas em torno de um pole dance; o mesmo olhar que eu estendi para os garotos de boné que olhavam-na com curiosidade e desejo. Era uma relação de poder, sem dúvida. Ela exercia poder sobre os olhares, ela era toda dona de si. Sua realidade possivelmente é bem diferente daquelas meninas que são contrabandeadas, contra sua vontade, e se tornam literalmente escravas do sexo no sertão do Ceará. Aquela menina poderia estar ali contra a vontade, sim, porque a vida não lhe deu opção melhor de pagar a faculdade sem ter que prestar um serviço que lhe consumisse horas preciosas de estudo. Vida fácil, como muitos dizem, apesar de eu ter minhas ressalvas quanto essa opinião, mesmo quando se trata de Brunas Surfistinhas da vida.

Mas afinal o que eu fazia ali? Curiosidade, suponho. A mesma curiosidade que me fez ir ao Comedians uma semana depois de dar entrevista para Folha durante o desfecho da Marcha das Vadias. Conhecer o âmago do que eu discordo, para mim, é fundamental para saber por qual causa eu estou lutando. Não, eu não quero que fechem os puteiros. Eu quero que regularizem uma troca de serviços e que se pontue que se trata de uma escolha. Pedofilia, escravidão, tráfico humano, tudo isso cerca a prostituição como um todo, porque é algo ainda marginalizado – é uma terra sem lei, sem dono. Aliás, minto. Há donos, sim. Exploradores dos corpos alheios, que se dizem protetores, e se protegem sob a alcunha de cafetões. Isso seria tema para um post jurídico, então, prefiro me ater à experiência. Pura e simples.

Cena do filme Klute, o Passado Condena (1971). Com Jane Fonda e Donald Sutherland.

Uma garota mais robusta subiu no palco. Braços fortes, pernas grossas. Instalou-se um burburinho de dúvida sobre se era uma mulher ou uma transsexual. Na minha estrita opinião, nenhuma dúvida tenho de que se trata de uma mulher, mesmo que tenha nascido em um corpo masculino, quem se define é ela, ela é senhora do seu corpo e de sua mente. Mas num ambiente daqueles, as dúvidas recaem, assim como na sociedade inteira. Como se o corpo do outro fosse assunto coletivo. No puteiro, pensando de modo prático, ainda reconheço que existisse uma preocupação quase técnica para essa questão, o que a torna até menos inválida frente a sociedade quando decide se meter neste assunto. Acompanhei o desfecho do show e percebi rapazes interessados, talvez exatamente pelo fato da dúvida sobre se era ou não era. Pelo menos ali, acho que ela não seria exposta ao rídiculo como seria se estivesse dançando normalmente, fora de um palco, em uma balada alto nível. Não senti hostilidade absoluta da casa. Acredito que ali ninguém julgaria ninguém.

Muitos perguntam se eu desfrutei do puteiro como se esperaria, mas a resposta é sempre não. Fui embora do lugar com algumas impressões que a vida aqui fora jamais me ensinaria. Uma coisa é ter ciência de como esses ambientes funcionam, e tomar partido de como a vida dessas garotas é através de livros escritos por elas e documentários filmados por especialistas. Outra coisa é estar ali. Respirar aquele ar. Ver os olhares ao vivo, a dois passos de distância, viver aquele momento. Algo que nenhum filme jamais iria me presentear. De todo um modo foi um presente inesperado, nem bom nem ruim. Foram constatações de fatos.

Existe um poder feminino incontestável naquele lugar. A submissão dos homens ao sexo e objetificação da mulher como esse alvo de interesse absoluto são tão perceptíveis que parece que dá para pegar a tensão no ar. É quase sólido. Mas perdi a percepção de onde esse sentimento se inverte. Quando a poderosa mulher, tão desejada, vai fazer a contabilização da sua noite e acertar as contas com seu cafetão. Até que ponto esse poder vira-se contra ela ao receber uma bofetada em um programa. Até que ponto esse poder persiste quando eu, mulher e dona do meu corpo, sou xingada de prostituta quando admito gostar de sexo e não ter problema de transar sem me envolver sentimentalmente. Sabe?

Ir a um puteiro me ensinou a conhecer o poder que o nosso corpo tem, e o des-serviço que esse próprio poder nos presta. É triste. É como receber uma dádiva e descobrir que era uma punhalada pelas costas.
Ficam aí os meus sentimentos e impressões. Façam o que quiserem deles. Mas não os joguem sobre a mim, porque eu mesma já o fiz.

*Imagem do destaque: Cena do filme Uma Linda Mulher (1990). Com Julia Roberts e Richard Gere.