Cara Gente Branca e os desafios da militância interseccional

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a série Cara Gente Branca da Netflix (2017).

A série Cara Gente Branca (Dear White People) baseada, no filme homônimo, traz a rotina de alguns estudantes negros de um colégio de elite dos Estados Unidos. A maioria deles em dado momento se vincula a alguma atividade de militância e, apesar da série usar o recurso narrativo de trazer a mesma história vista pela perspectiva de vários personagens, boa parte da trama gira em torno de Sam, aluna que trabalha em um programa de rádio e busca de forma irônica apontar o racismo que enfrenta todos os dias no ambiente universitário, enquanto tenta equilibrar os desafios que enfrenta na sua vida pessoal e na militância.

De forma resumida a série consegue explorar as diversas formas de manifestações possíveis de racismo velado que podem ocorrer por parte das pessoas brancas. O que leva a várias situações ridículas e absurdas, além de expor os estudantes negros à violência constante em diversos níveis, até o limite em que a vida de um dos estudantes é ameaçada.

Pontuando sem esgotar algumas das situações racistas presentes na série:

– Insistência no uso de termos pejorativos, mesmo quando são apontados dessa forma;

– Objetificação de homens negros;

Apropriação cultural;

Blackface (“maquiagem” ou “fantasia” que busca de forma caricata e pejorativa representar personagens negros);

– Diversas situações que demonstram como pessoas brancas enxergam um estereótipo que atribui violência e agressividade aos homens negros;

Violência policial contra a juventude negra;

Padrões de estética que fazem com que mulheres negras busquem mudar sua aparência e as fazem ser preteridas em relação à mulheres brancas;

– Falta de representatividade não estereotipada na mídia e produções de cinema;

– Ensino que não trata da cultura negra;

– Minimização das violências apontadas;

– Falta de interesse no entendimento das pautas do movimento negro;

Tokenização (Uso da proximidade com alguma pessoa pertencente a uma minoria para justificar alguma ideia ou atitude, na maioria das vezes preconceituosa);

Racismo institucional, quando instituições ignoram atitudes racistas e usam do poder do capital para manipular situações a seu favor;

– O mito do racismo reverso e a dificuldade das pessoas brancas entenderem a origem e o impacto estrutural de algumas ações;

Colorismo. As diferentes cobranças e violências sofridas por pessoas negras de pele escura e pessoas negras de pele clara, que acabam gerando tensões dentro da própria comunidade negra;

– A cobrança para que pessoas de uma minoria política sejam representantes de toda uma comunidade/população.

Entre diversas outras. A série mostra de um jeito sarcástico e leve, na medida do possível, como a postura de certas pessoas brancas pode impactar a juventude negra. Além de mostrar diversos conflitos internos gerados por diferentes situações que refletem na forma como as pessoas definem sua busca por direitos, lazer e afetividade numa sociedade racista.

Um ponto que me chamou muita atenção é como a série consegue trabalhar os desafios da militância jovem na militância interseccional. Além da constante tensão entre os diversos grupos minoritários, a dificuldade de militar sobre situações em que você sofreu as violências, as dificuldades e os limites em abraçar causas que não são as nossas e, acima de tudo, como a militância traz uma complexidade ainda maior para os dramas inerentes à juventude (que também estão sendo influenciados por diferentes formas de opressão).

Isso se revela em diversas situações para além de todo arco do triângulo amoroso entre Sam, Gabe e Reggie. É possível ver como a militância de cada um influencia na vida afetiva e sexual dos três. Algumas situações que ocorrem na série trazem as diversas tensões existentes no cotidiano de militantes.

No caso da Sam isso ocorre, por exemplo, quando a personagem entra no dilema se assume ou não o relacionamento com um homem branco ou quando se vê sendo pressionada por todos os lados no momento em que as situações de racismo se intensificam e se mostram mais evidentes no campus. Ela enfrenta o dilema entre continuar ou não com um protesto que poderia cortar recursos da universidade que afetariam diretamente a permanência e o convívio dela e de seus colegas no campus.

Um dos desafios mostrados é a dificuldade em se buscar formas de lazer que não tenham grandes cobranças políticas, mas ao mesmo tempo não os exponham a mais violência. Isso é mostrado quando Reggie e seus amigos estão caminhando pelo campus buscando alguma distração e, em algum momento, caem na festa que acaba sendo palco da violência pela segurança do campus contra Reggie. Eles apenas queriam se divertir, não estavam fazendo nada de errado e acabaram tendo a vida ameaçada, o que mostra o tamanho da fragilidade da segurança dos jovens negros.

E o personagem de Reggie, quando é pressionado pela Sam ao se posicionar politicamente com relação a violência que sofreu por parte dos policiais, busca expor que ainda não está preparado para se posicionar publicamente. “Meu palco não é sua dor”, ele diz. Quantas vezes militantes, ou até aqueles que nem estão envolvidos com política, são forçados de alguma forma a se posicionar em momentos de fragilidade?

As tensões entre diferentes grupos organizados se mostram quando Joelle e Gabe buscam aliados para fazer o protesto contra a segurança do campus. Além das tensões entre as minorias, são expostas algumas rixas e dilemas da juventude que podem complicar algumas alianças.

Ainda existe todo o arco de Gabe, que numa atitude inocente e ignorante, acaba expondo a integridade física e a vida de todos os alunos negros da festa. Isso mostra o tamanho da responsabilidade que está nas mãos de pessoas que não fazem parte de uma minoria mas buscam se aliar a uma militância da qual não sofrem as consequências. Não parar para pensar por um minuto que chamar a segurança do campus, que representa um dos maiores agentes da violência contra a juventude negra, em meio a um conflito que poderia ser resolvido entre eles mesmos… poderia ter custado a vida de Reggie.

Outro aspecto dessa situação é pontuado quando em determinado momento Leonel aponta que enquanto seus amigos se desgastavam em criticar o Gabe, perdiam de vista que o principal inimigo não era um indivíduo, mas sim um sistema que os expunha à tamanha violência. Apesar da atitude falha de Gabe, não era ele o responsável direto pela violência que Reggie havia sofrido.

Ainda sobre Gabe, apesar da série ter mostrado alguém tão “bonzinho” e, que pelo menos busca na maior parte do tempo uma postura até bastante coerente do ponto de vista de um aliado (demonstrando humildade), ao mesmo tempo, ele guarda pra si diversos preconceitos. E, enquanto Sam aguenta o mundo nas costas, ele não consegue nem ao menos encarar de frente o conflito no relacionamento. Como se os poucos problemas que ele teve que enfrentar fossem enormes e absurdos.

Isso demonstra muito da hipocrisia nas relações entre pessoas brancas e negras, ou em relações com pessoas que sofrem diferentes tipos de preconceito: quando em alguns debates existe a tentativa de trazer simetria entre uma pessoa que faz parte de um grupo opressor e outra que faz parte de um grupo oprimido. Mesmo que a pessoa não seja um completo babaca, ainda assim, quando não se busca uma postura ativa de desconstrução (seja pela empatia, por buscar ativamente se informar sobre determinadas pautas, mudar atitudes, etc.), podemos cometer muitos erros e acabar mantendo uma postura opressora. Ainda que as pessoas que participam de grupos opressores possam se beneficiar até indiretamente da desigualdade, é imperativo que busquemos ao menos diminuir os danos das nossas ações (e de nossos iguais sempre que possível).

A série também trata das tensões entre os diferentes grupos organizados… além de expor que alguns tinham uma postura mais radical enquanto outros tinham uma postura mais conservadora e conciliadora, demonstram-se desafios em buscar ações efetivas quando cada um se utiliza de diferentes ferramentas para luta (como a internet ou os protestos presenciais e ações diretas).

São expostas também as tensões com relação ao trabalho, mostradas no arco de Leonel quando ele tem de enfrentar as exigências de sua profissão, enquanto se depara constantemente com dilemas de ética. Além de ter de expor em algum momento a organização que financiava seu trabalho. Que aliás me chamou muito a atenção por ser uma personagem que expõe como a interseccionalidade em nós pode acabar nos levando para um sentimento de constante inadequação. Por ser negro e gay ele passa por preconceitos nas duas comunidades. Acabou virando um personagem pelo qual eu tive muito carinho e identificação (por ter alguns desafios similares ao buscar espaço em movimentos organizados feministas e LGBT).

Já Coco mostra o desafio de se encarar de forma militante determinadas situações quando ela mesma vivenciou de perto diversas violências. Além da dificuldade de ter sempre uma postura crítica, sendo que é tão cobrada enquanto uma mulher jovem de ter uma estética e uma vida afetiva que muitas vezes não está ao alcance das mulheres negras. Uma coisa que me incomodou um pouco foi o fato da, aparentemente única, personagem de origem humilde ter uma posição tão conversadora. Mas ao mesmo tempo, para estar num desses colégios de elite é preciso um tanto de ambição, como ela mesma pontua e todas suas atitudes demonstram a complexidade de sua posição.

Troy e Sam, principalmente mas não só, mostram também o tamanho da cobrança que vem de todos os lados para que pessoas de alguma minoria tenham caráter, atitudes perfeitas e precisas o tempo todo. Seja por cobranças da família, dos amigos ou de toda sua comunidade, os dois têm de gerenciar expectativas sobre-humanas com relação ao seu trabalho e posicionamento político.

Porém, e aí vai uma crítica que não queria ter de fazer a essa série, as experiências de Leonel e de Troy acabam levando a arcos bastante bifóbicos. Os personagens bissexuais que aparecem ou são citados na série, surgem apenas em contextos relacionados à sexo, traição e objetificação. Estereótipos relacionados às pessoas bissexuais. A fala da jovem branca direcionada ao jovem (também branco) que tentou seduzir o Leonel é bastante violenta. Ela o acusa de ser usada no relacionamento porque “na realidade” ele seria homossexual e não bissexual. A outra personagem bissexual que tem destaque, a professora de Troy, passa boa parte do tempo na série traindo sua esposa. Fica óbvio que os roteiristas não tiveram nenhum cuidado ou preocupação em buscar quais são as pautas de pessoas bissexuais, trazendo um ponto de vista bastante preconceituoso que é disseminado inclusive entre as pessoas homossexuais.

Por fim, me pergunto como aqueles jovens no meio de todos esses conflitos ainda conseguiriam conciliar as atividades formais acadêmicas (na série apenas as atividades extra curriculares aparecem em alguns momentos), mas a verdade é que morando numa cidade universitária e tento proximidade com movimentos estudantis, posso dizer que tenho uma ideia do que acontece… a verdade é que a maioria não dá conta de conciliar tudo isso, o que acaba impactando na demora do término da graduação ou desistência da universidade e/ou ainda acabam adoecendo no processo.

Inclusive em algum momento, Joelle aparece comendo compulsivamente um salgadinho no ápice do desenrolar dos conflitos, mostrando como a complexidade das situações poderiam gerar esses impactos. Outro momento em que isso é demonstrado está nas falas que tratam do relacionamento entre Gabe e Sam, sobre como ele conseguia fazer ela sorrir, e isso se mostra como é algo raro para a protagonista que vive sempre tão mobilizada.

Muitos textos, de pessoas negras, falaram sobre como a série não teve a mesma repercussão, e nem ao menos o mesmo investimento na divulgação, como outras séries por parte do Netflix. Por isso, um apontamento precisa ser reforçado aqui: essa série é sobre a comunidade negra, mas ao mesmo tempo pontua como pessoas brancas precisam urgentemente se inteirar melhor das pautas do movimento negro e mudar nossas atitudes frente diversas situações de racismo. Se cada pessoa toma para si a responsabilidade de transformar essa realidade, podemos contribuir de fato para essa luta. Isso não irá acontecer diminuindo o trabalho e a militância de pessoas negras, chamando tudo de vitimismo, mimimi ou, pior ainda, cobrando uma postura dócil de militantes negros.

Se nós, feministas brancas, pontuamos sempre que não precisamos nos cobrar uma postura sempre didática e carinhosa com homens ao expor nossas pautas, não deveríamos esperar o mesmo de militantes negros. E, essa série já é um esforço de externalizar essas pautas de forma pra lá de mastigada. Basta a gente sentar, assistir, se informar e ouvir mais.

+ Sobre o assunto:

[+] Por que “Cara Gente Branca” chegou em boa hora. Por Jarett Wieselman.

[+] Por que ‘Cara Gente Branca’ é ignorada enquanto ’13 Reasons Why’ viralizou? Por Jéssica Rosa.

[+] Os temas importantíssimos de “Dear White People”. Por Carolina Moreira.

[+] Cara Gente Branca: uma luta pela igualdade de direitos. Por Carolina Maria.

[+] Sobre Reggie. Por Tulio Custódio.

Imagem: Elenco da série Cara Gente Branca. Netflix/Divulgação.

Cara Gente Branca: mulheres e personagens transversais

Texto de Isabela Sena para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a série Cara Gente Branca (Dear White People) da Netflix (2017).

Recentemente, a Netflix foi pivô de diversas polêmicas ao lançar a série Cara Gente Branca, produção que se propõe a discutir o racismo em uma universidade de elite norte-americana, expondo as tensões raciais existentes e questionando a crença de que vivemos em uma sociedade pós-racial. A série dá continuidade ao filme homônimo, lançado em 2014, em uma tentativa — um tanto falha — de desenvolver a história e aprofundar os personagens.

É uma série curta — eu assisti inteira em um dia — e acompanha o cotidiano de jovens alunos negros, envolvidos ou não com a política e militância dentro do campus. Como cada episódio é focado em um personagem, ela toca em questões diferentes relacionadas às experiências deles. Assim, a série consegue mostrar, de um jeito bem simples, a heterogeneidade das experiências negras, as formas de pensar, cores de pele, estilos de vida, aspirações e angústias. É uma mudança interessante, em grande parte por causa da falta de representatividade e, ainda mais, devido ao racismo essencialista, é comum que personagens e pessoas negras sejam tratadas como uma massa homogênea, que deve pensar igual, reagir igual e ter as mesmas experiências. O que, obviamente, não condiz com a realidade.

Provavelmente porque minha vida virtual é uma bolha cuidadosamente selecionada, Cara Gente Branca vem sendo um dos principais assuntos das últimas semanas. Apesar disso, diversos textos explicitaram a pouca projeção que a série teve em relação a outras séries que tratam questões sociais importantes e envolvem jovens, como 13 Reasons Why. Falar sobre racismo nunca é tarefa fácil e as pessoas têm uma capacidade inacreditável de ignorar toda e qualquer referência à questão, mesmo entre a militância de esquerda. Nos Estados Unidos, a série causou um rebuliço tão grande que chegou a inspirar uma campanha de boicote por “promover o genocídio branco”.

Sem entrar no mérito do genocídio branco — que em uma sociedade racializada onde o ideal é o da branquitude, chega a ser uma piada de mal gosto — é impressionante como algumas falas assertivas sobre racismo consegue desestabilizar tantas pessoas. Apesar das pessoas reconhecerem a existência do racismo, basta uma pessoa negra falar sobre isso, apontar atitudes individuais ou parar de usar eufemismos, para que a discussão se torne algo bizarro como o “racismo reverso”. Mas o que mais me chama a atenção em relação às reações de boicote é que, para mim, considerando a realidade racial nos Estados Unidos, o discurso veiculado na série nem é violento o suficiente. Para falar a verdade, ela toca em diversos pontos, mas aprofunda muito pouco e propõe menos ainda. É uma série que fala da angústia de ser um jovem negro na universidade, em uma sociedade racista, apenas.

Para quem faz parte da militância, estuda e pesquisa o assunto, a maior parte dos pontos levantados por Cara Gente Branca são lugares comuns. Assuntos bem batidos mesmo. O que dá a impressão de que a série os aborda de forma superficial. Mas acho que é uma boa porta de entrada pra quem ainda não conhece essas questões e quer conhecer, embora seja impossível não ficar um tiquinho ressentida de que seja necessária uma série para atiçar a curiosidade das pessoas, sendo que muitas militantes vem fazendo um trabalho magnífico na produção de materiais sobre o assunto.

Sem tirar o êxito de Cara Gente Branca, tem alguns pontos que me incomodaram muito no decorrer da série. O primeiro é como eles tratam a questão da mulher e feminismo. Se o objetivo da série é questionar a noção de mundo “pós-racial”, que acha que raça não importa mais e que racismo é coisa de gente retrógrada, a série, infelizmente, reforça a ideia de pós-feminismo. Não há questionamento sobre as especificidades da mulher negra além de algumas referências à solidão, e o feminismo aparece de forma bastante caricaturada, como se as mulheres negras não tivessem há décadas promovendo o debate de gênero dentro do movimento negro.

Além disso, a exposição de Sam pelo então ficante, Gabe — sua foto se vestindo sendo postada no Instagram sem sua permissão — é bem problemática e conversa com diversos casos mais ou menos graves de exposições íntimas de mulheres por seus parceiros. Não há, entretanto, nenhuma palavra sobre isso, apenas questionamentos sobre sua vida sexual e afetiva e um pedido de desculpas feito por ela publicamente no fim do episódio.

A vida sexual e afetiva de Sam é alvo de debate o tempo todo, quase como se fosse pública. Uma amiga, vendo a série, comentou que nunca tinha visto uma boceta tão fiscalizada quanto a dela, o que, infelizmente, não é muito distante do que ocorre com mulheres negras, dentro da militância ou não. Nós somos, frequentemente, definidas por nossa vida sexual/afetiva, e pelo nosso valor como militantes dentro do movimento. É uma pena que essa questão não seja colocada de maneira crítica na série.

Outro ponto é o colorismo. Acho fundamental que toda série que trate de racismo e movimento negro, aborde a questão do colorismo, já que, além de ser algo constantemente discutido, o colorismo evidencia que as experiências negras, mesmo em sociedades racistas, não são iguais nem homogêneas. Em uma sociedade racista cujo o ideal é branco, pessoas negras de pele mais clara e traços mais finos têm uma certa “tolerância” em determinados espaços, até mesmo uma “passabilidade”, isso não significa que ela seja aceita e desfrute dos privilégios brancos, mas, pode evitar que ela passe por algumas violências. Essas pessoas têm sua identidade negada e questionada a todo tempo, e, muitas vezes, demoram para se reconhecerem enquanto negras.

É notório que a maior parte das pessoas que tem sua identidade colocada em dúvida (muitas vezes em situações bizarras e violentas) são mulheres, exatamente o que acontece na série. Não julgo o ressentimento de Coco em relação à amiga mais clara e mais aceita que ela, mas a única personagem que tem sua negritude questionada é Sam, embora haja outro personagem com a pele até mais clara que a dela, mas, obviamente, ele é homem. Inclusive, a única menção que se faz ao fato de que ele é claro é em uma piada feita por ele mesmo para ironizar a vida sexual da Sam. Ou seja, a única vez que essa questão é direcionada a um homem ela é feita de modo a controlar e julgar a vida sexual e afetiva de uma mulher.

Há uma representação extremamente estereotipada dos personagens LGBT. Lionel segue a narrativa de sempre, o menino tímido homossexual que passa a trama apaixonado (e meio obcecado) pelo amigo hétero. Das personagens lésbicas, uma mantém um caso com o aluno mais jovem e as outras duas aparecem rapidamente, são um caso escondido e se importam mais com intrigas entre si do que com a política no campus. A bissexualidade nem existe. O cara do casal que Lionel encontra logo no início da série é, obviamente, um homem gay disfarçando seus desejos com uma namorada, não há nem a dúvida de que ele possa ser bissexual. O mesmo acontece com a professora com quem Trey tem um caso, ela é lésbica, menos quando está na cama com ele. Não houve nenhuma preocupação em discutir o que significa ser negro e ser gay, lésbica, bissexual, uma limitação bem comum da Netflix que, vira e mexe, escorrega na hora de compor personagens transversais.

Autora

Isabela Sena é formada em História. Pesquisa gênero e raça há sete anos. É apaixonada por novelas, programas de TV de qualidade duvidosa e The Sims. Escreve também no blog Forasteras.

Imagem: Elenco da série Cara Gente Branca. Netflix/Divulgação.

+ Sobre o assunto:

[+] Dear White People e o silêncio ensurdecedor da internet. Por Gabriela Moura.

[+] Dear White People, eu só quero que vocês assistam a série. Por Duds Saldanha.

[+] “Dear White People” e a diversidade de pele negra. Por Fábio Kabral.

Estrelas Além do Tempo: quantas histórias de mulheres pretas pioneiras são desconhecidas?

Texto de Biamichelle para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre o filme ‘Estrelas Além do Tempo‘ (Hidden Figures, 2016).

Esperei bastante tempo para escrever sobre o filme Hidden Figures, intitulado no Brasil como “Estrelas além do tempo”, mesmo tendo ido assistir o filme na pré-estreia em São Paulo. A essa altura muita gente já escreveu sobre o tema, e muitos já o conhecem pelo menos após sua participação emocionante no Oscar 2017, quando as atrizes protagonistas do filme subiram ao palco com Katherine Johnson, matemática e cientista que inspirou uma das personagens.

O filme retrata a história de três mulheres negras cientistas que trabalham na NASA nos anos 60, e que tiveram um papel fundamental nesse período. Não apenas pela disputa que se dava pela corrida espacial que ocorria na época, mas também pelo enfrentamento a branquitude e o racismo permitidos durante aquele período. Talvez seja por isso que apenas quatro décadas depois o mundo pode conhecer a história de Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughn.

Quando assisti o filme não consegui, por um minuto sequer durante sua exibição, sentir a sensação de felicidade sem que ela estivesse acompanhada de angústia. Desde a primeira cena… Tive angústia por conta do policial que as abordou, pelas palavras contidas na garganta diante de uma simples pergunta sobre promoção, angústia quando uma foi promovida, deusas… como o choro ficava entalado na minha garganta toda vez que uma delas ia no banheiro… e o quanto parecia sair pela minha pele o esbravejar delas diante do confronto.

Sinceramente, não tive nenhum sentimento de gratidão pelo personagem do Kevin Costner quando ele quebrou as placas do banheiro. Meu sentimento de gratidão está para essas e outras mulheres cujas as histórias são invisíveis quando se trata de empoderar e encorajar meninas, mulheres a seguirem em frente, lutar pelos seus sonhos, serem livres e felizes.

Digo isso porque em Santa Isabel, interior do Pará, todas as mulheres que me deram por referência eram esposas, boas mães, que com sorte poderiam ser professoras do ensino infantil para continuar a cuidar de outras crianças e assim exercer sua função natural. Não lembro de nenhuma mulher nas histórias que me contavam que ousaram romper com sua “função natural” e não tiveram “um final de desgraça” (como ensinavam). Ou seja, não tinham maridos, eram mães solteiras, mulheres da vida. Nem mesmo nas histórias regionais as mulheres que apareciam em diferentes. Sempre eram velhas solitárias que perturbavam a vida das pessoas. Não havia nenhuma mulher para me dizer que eu poderia tentar ser uma cientista, por exemplo.

Digo tentar porque sei que, mesmo se houvesse uma história que me servisse de inspiração ao longo da infância, sei que a caminhada para a realização não seria como é para quem não é mulher preta, do interior do norte. E como sei disso? Quando passei a não me importar para o que os outros falariam de mim, fui para a Universidade de Matemática e, em seguida, cursei Sistemas de Informação. Não foi fácil. E, quanto mais eu entendia que a dificuldade, na maioria das vezes, vinha não pelas exigências da matéria, mas por conta de ser mulher e preta, por morar longe, muuuuito longe da universidade, por ter que chegar em casa e cuidar dos afazeres domésticos, ao invés da lição da faculdade… Eu conseguia sentir em mim a angústia das personagens do filme ao chegarem em casa e ao serem intimadas a passarem mais tempo no trabalho.

Quando a personagem de Janelle Monáe foi incentivada a fazer o teste para o cargo de engenheira … putz… Eu sei o que é me sentir incapaz, toda mulher preta que foi ao longo da vida desincentivada, sabe! Uma das frases mais marcantes do filme para mim foi: “Toda vez que temos a chance de avançar, eles mudam a chegada”. Parece ser a canção da vida diante das oportunidades que surgem e nos sentimos motivadas a tentar.

Mesmo hoje, quando já terminei a faculdade e consegui um trabalho, o sentimento de que posso ser despejada a qualquer momento (mesmo que aparentemente eu não esteja fazendo nada para isso), é gritante e permanente. E não é à toa. A personagem de Octavia Spenser tinha, até então, um trabalho estável na NASA, mas com a entrada de novas ferramentas computacionais se viu à beira de ser descartada. Não só ela, mas também todas as demais mulheres pretas com quem trabalhava, como se fossem calculadoras. Esse sentimento, como disse, não é por acaso, infelizmente está dado que somos quando necessário (ou não) as primeiras a serem descartadas, o índice de mulheres pretas desempregadas indica isso.

Ah sim… Eu sorri, e chorei junto… quando elas se permitiram dançar juntas em meio a todo caos que viviam. Porque às vezes é preciso, sabe? E existe uma força muito grande nesses momentos de libertação. Quando saí do cinema fiquei me perguntando quantas outras histórias de mulheres pretas poderiam ter me incentivado quando criança (e que podem incentivar várias meninas agora), são desconhecidas? Ou melhor, são propositalmente escondidas?

Você pode me perguntar: se a história te trouxe tanta angústia, o que você achou de brilhante neste filme? No que diz respeito às personagens: tudo! Mesmo angustiada eu podia sentir em mim algo crescer quando Dorothy Vaughn aprendeu sobre os computadores da IBM e foi contratada a operar e treinar novos operadores. Quando Mary Jackson saiu de casa, foi ao tribunal, conseguiu o direito de estudar numa escola de brancos e, com isso, o direito de tentar a vaga para engenheira. E, por fim, quando Katherine Johnson sambou na cara dos machos brancos resolvendo o que eles não conseguiam. Mostrando para mim e para o mundo que viu suas histórias, que elas conheciam muito bem a sociedade racista em que elas viviam, mas que estavam dispostas a lutar, às suas maneiras, pelos seus espaços.

Eu cresci. Muitos anos desde a época dessa história se passaram, mas ainda vivemos numa sociedade racista marcada pelo seu histórico racista e misógino. Ainda temos muitas jovens que precisam ver essa história. A Jasmim precisa ver essa história. A juventude preta morre todos os dias com a falta de oportunidade, sejam nas periferias ou na porta de uma lanchonete Habib’s. As minas pretas ainda são vistas como a carne barata e gostosa do mercado. Musas do carnaval porém, não dignas de serem assumidas com seus filhos. A polícia só vê preto. As cadeias ainda estão lotadas de povo preto, enquanto a universidade ainda decide dentro dos seus conselhos se cotas raciais são necessárias ou não, influenciando a população a duvidar se existe necessidade da tal reparação histórica.

Talvez, se histórias como as de ‘Estrelas Além do Tempo’ fossem mais divulgadas, como forma de evidenciar que existe muito mais de história na antiguidade e na atualidade do povo preto para além dos navios negreiros, somadas as oportunidades e políticas públicas efetivas para nosso povo… Talvez, a nossa realidade fosse diferente. Não sendo puxadas para dentro da sala pela mão (como foi dado a entender no final do filme, numa cena entre Katherine Johnson e o personagem do Kevin Costner), mas sim pela nossa própria força, pois: “Liberdade nunca é dada aos oprimidos. Precisa ser conquistada, tomada”.

[+] Estrelas Além do Tempo. Por Winnie Bueno

[+] “Estrelas Além do Tempo”: o filme que Hollywood nos devia! Por Anne Caroline Quiangala

Autora

Biamichelle é mulher preta, ativista. Mestranda na USP e analista de infraestrutura pela Thoughtworks. Paraense papa chibé e tia da Jasmin.

Imagem: Cena do filme ‘Estrelas Além do Tempo’ (2016).