A autoestima da mulher negra

Texto de Fernanda Pedroza para as Blogueiras Feministas.

Fernanda, carioca, moreninha, cabelo ruim, companheira e amorosa. Essa foi a definição simplificada do que consigo me lembrar de como me considerava quando criança, estudando em uma escola quase que exclusiva de pessoas brancas em Curitiba.

Poderia falar de mil maneiras que essa definição afetou minha autoestima. O fato de ser “moreninha de cabelo ruim” não me afetou tanto quanto em algumas crianças que se esfregam com a bucha para ficarem brancas, mas me afetou de outras maneiras… Quando adolescente não me sentia bonita ou atraente com meu cabelo natural, o que me levava a fazer escova para me sentir mais autoconfiante. E quando me elogiavam pela beleza eu não acreditava ou questionava, não por modéstia, mas porque eu não me sentia assim.

As revistas de beleza, de moda ou até catálogo de produtos tinham várias mulheres, mas não tinha mulher negra. Como eu podia me sentir bonita ou gostar de mim se não me via representada em lugar nenhum? Acho que se eu apenas não visse não seria tão ruim… Acontece que, não só eu não via mulheres negras em lugares de destaque, como quando aparecia era sempre no papel de empregada ou sendo humilhada e rebaixada. Durante a infância e adolescência absorvemos muitas coisas que vemos no mundo. Que tipo de coisa você acha que eu pude absorver sobre “ser mulher negra”?

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Preta Maravilha

Texto de Viviane A. Pistache para as Blogueiras Feministas.

Dedico este conto às muitas Pretas que me inspiram (com a fé de que entre sonhos e pesadelos nos fortalecemos), e em especial à Amanda Silva, Monamuzinga!

Naquela noite chuvosa atendi sem resistência ao chamado que vinha da casa do sono. Ao entrar na sala dos sonhos dei de cara com uma ladeira e um bom pedaço de papel que me convidava pra escorregar. Uai, por que não? E depois de uma eternidade esquiando no barro, fui parar numa planície fantasma. Assustei. “Cadê o morro velho que me trouxe aqui?”

Sina de mineira é temer a morte das montanhas. No desespero até rezei pro horizonte desembelecer a passo de lesma, na esperança de que ficasse pelo menos um rastro luminoso da beleza de antes. Mas a culpa é do escorpião amarelo, aquele que tem uma escavadeira insaciável que há séculos fere o ventre da terra pra comer ouro. E ele cutucou até o formigueiro que dormia bem no pé da minha cama.

Ameaçada pelos ferrões da tradicional família mineira deixei pra trás o precioso conforto de casa, sem guerrear com o sangue que circula na minha árvore genealógica. Mas não sei se por medo ou precaução, enterrei no quintal um baú com alguns pesadelos e trouxe na mala os sonhos que julgava imprescindíveis. E assim foi que montei na garupa da minhoca de metal que veio serpenteando no lombo da Fernão Dias até chegar aqui.

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Olhos abertos: o apagamento das pessoas asiáticas na mídia

Texto de Tayná Miessa para as Blogueiras Feministas.

Já faz um tempo que acompanho as discussões sobre o apagamento de pessoas asiáticas na mídia.  Esses dias, ao ver a estreia da novela “Sol Nascente”, da Rede Globo, só consegui pensar: alguém precisa parar essas pessoas!

Primeiro, vamos pensar um pouco sobre o apagamento das pessoas asiáticas na mídia.

Nos filmes de Hollywood é bem comum encontrar atores e atrizes ocidentais fazendo um papel que, pelo contexto, seria destinado a pessoas asiáticas. Há exemplos clássicos, como “A Estirpe do Dragão” (1944) em que a atriz americana Katherine Hepburn interpreta uma chinesa que lidera seu vilarejo na luta contra os invasores japoneses. Em dois exemplos recentes, Emma Stone interpreta uma piloto descendente de havaianos, suecos e chineses em “Sob o mesmo céu (2015)”; e Scarlett Johansson interpretará Motoko Kusanagi no filme “Ghost in the shell” (2017).

Mas, se atrizes e atores ocidentais estão ocupando os papéis asiáticos, por onde andam as atrizes e atores asiáticos? Pois bem, as mulheres asiáticas estão interpretando papéis exóticos, onde geralmente são hipersexualizadas, sempre curiosamente misteriosas e sedutoras ou são submissas, quietinhas. E os homens asiáticos, pois bem, eles são representados quase sempre negativamente, como os nerds, os fracos, não atrativos e de pinto pequeno.

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