Cara Gente Branca: mulheres e personagens transversais

Texto de Isabela Sena para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a série Cara Gente Branca (Dear White People) da Netflix (2017).

Recentemente, a Netflix foi pivô de diversas polêmicas ao lançar a série Cara Gente Branca, produção que se propõe a discutir o racismo em uma universidade de elite norte-americana, expondo as tensões raciais existentes e questionando a crença de que vivemos em uma sociedade pós-racial. A série dá continuidade ao filme homônimo, lançado em 2014, em uma tentativa — um tanto falha — de desenvolver a história e aprofundar os personagens.

É uma série curta — eu assisti inteira em um dia — e acompanha o cotidiano de jovens alunos negros, envolvidos ou não com a política e militância dentro do campus. Como cada episódio é focado em um personagem, ela toca em questões diferentes relacionadas às experiências deles. Assim, a série consegue mostrar, de um jeito bem simples, a heterogeneidade das experiências negras, as formas de pensar, cores de pele, estilos de vida, aspirações e angústias. É uma mudança interessante, em grande parte por causa da falta de representatividade e, ainda mais, devido ao racismo essencialista, é comum que personagens e pessoas negras sejam tratadas como uma massa homogênea, que deve pensar igual, reagir igual e ter as mesmas experiências. O que, obviamente, não condiz com a realidade.

Provavelmente porque minha vida virtual é uma bolha cuidadosamente selecionada, Cara Gente Branca vem sendo um dos principais assuntos das últimas semanas. Apesar disso, diversos textos explicitaram a pouca projeção que a série teve em relação a outras séries que tratam questões sociais importantes e envolvem jovens, como 13 Reasons Why. Falar sobre racismo nunca é tarefa fácil e as pessoas têm uma capacidade inacreditável de ignorar toda e qualquer referência à questão, mesmo entre a militância de esquerda. Nos Estados Unidos, a série causou um rebuliço tão grande que chegou a inspirar uma campanha de boicote por “promover o genocídio branco”.

Sem entrar no mérito do genocídio branco — que em uma sociedade racializada onde o ideal é o da branquitude, chega a ser uma piada de mal gosto — é impressionante como algumas falas assertivas sobre racismo consegue desestabilizar tantas pessoas. Apesar das pessoas reconhecerem a existência do racismo, basta uma pessoa negra falar sobre isso, apontar atitudes individuais ou parar de usar eufemismos, para que a discussão se torne algo bizarro como o “racismo reverso”. Mas o que mais me chama a atenção em relação às reações de boicote é que, para mim, considerando a realidade racial nos Estados Unidos, o discurso veiculado na série nem é violento o suficiente. Para falar a verdade, ela toca em diversos pontos, mas aprofunda muito pouco e propõe menos ainda. É uma série que fala da angústia de ser um jovem negro na universidade, em uma sociedade racista, apenas.

Para quem faz parte da militância, estuda e pesquisa o assunto, a maior parte dos pontos levantados por Cara Gente Branca são lugares comuns. Assuntos bem batidos mesmo. O que dá a impressão de que a série os aborda de forma superficial. Mas acho que é uma boa porta de entrada pra quem ainda não conhece essas questões e quer conhecer, embora seja impossível não ficar um tiquinho ressentida de que seja necessária uma série para atiçar a curiosidade das pessoas, sendo que muitas militantes vem fazendo um trabalho magnífico na produção de materiais sobre o assunto.

Sem tirar o êxito de Cara Gente Branca, tem alguns pontos que me incomodaram muito no decorrer da série. O primeiro é como eles tratam a questão da mulher e feminismo. Se o objetivo da série é questionar a noção de mundo “pós-racial”, que acha que raça não importa mais e que racismo é coisa de gente retrógrada, a série, infelizmente, reforça a ideia de pós-feminismo. Não há questionamento sobre as especificidades da mulher negra além de algumas referências à solidão, e o feminismo aparece de forma bastante caricaturada, como se as mulheres negras não tivessem há décadas promovendo o debate de gênero dentro do movimento negro.

Além disso, a exposição de Sam pelo então ficante, Gabe — sua foto se vestindo sendo postada no Instagram sem sua permissão — é bem problemática e conversa com diversos casos mais ou menos graves de exposições íntimas de mulheres por seus parceiros. Não há, entretanto, nenhuma palavra sobre isso, apenas questionamentos sobre sua vida sexual e afetiva e um pedido de desculpas feito por ela publicamente no fim do episódio.

A vida sexual e afetiva de Sam é alvo de debate o tempo todo, quase como se fosse pública. Uma amiga, vendo a série, comentou que nunca tinha visto uma boceta tão fiscalizada quanto a dela, o que, infelizmente, não é muito distante do que ocorre com mulheres negras, dentro da militância ou não. Nós somos, frequentemente, definidas por nossa vida sexual/afetiva, e pelo nosso valor como militantes dentro do movimento. É uma pena que essa questão não seja colocada de maneira crítica na série.

Outro ponto é o colorismo. Acho fundamental que toda série que trate de racismo e movimento negro, aborde a questão do colorismo, já que, além de ser algo constantemente discutido, o colorismo evidencia que as experiências negras, mesmo em sociedades racistas, não são iguais nem homogêneas. Em uma sociedade racista cujo o ideal é branco, pessoas negras de pele mais clara e traços mais finos têm uma certa “tolerância” em determinados espaços, até mesmo uma “passabilidade”, isso não significa que ela seja aceita e desfrute dos privilégios brancos, mas, pode evitar que ela passe por algumas violências. Essas pessoas têm sua identidade negada e questionada a todo tempo, e, muitas vezes, demoram para se reconhecerem enquanto negras.

É notório que a maior parte das pessoas que tem sua identidade colocada em dúvida (muitas vezes em situações bizarras e violentas) são mulheres, exatamente o que acontece na série. Não julgo o ressentimento de Coco em relação à amiga mais clara e mais aceita que ela, mas a única personagem que tem sua negritude questionada é Sam, embora haja outro personagem com a pele até mais clara que a dela, mas, obviamente, ele é homem. Inclusive, a única menção que se faz ao fato de que ele é claro é em uma piada feita por ele mesmo para ironizar a vida sexual da Sam. Ou seja, a única vez que essa questão é direcionada a um homem ela é feita de modo a controlar e julgar a vida sexual e afetiva de uma mulher.

Há uma representação extremamente estereotipada dos personagens LGBT. Lionel segue a narrativa de sempre, o menino tímido homossexual que passa a trama apaixonado (e meio obcecado) pelo amigo hétero. Das personagens lésbicas, uma mantém um caso com o aluno mais jovem e as outras duas aparecem rapidamente, são um caso escondido e se importam mais com intrigas entre si do que com a política no campus. A bissexualidade nem existe. O cara do casal que Lionel encontra logo no início da série é, obviamente, um homem gay disfarçando seus desejos com uma namorada, não há nem a dúvida de que ele possa ser bissexual. O mesmo acontece com a professora com quem Trey tem um caso, ela é lésbica, menos quando está na cama com ele. Não houve nenhuma preocupação em discutir o que significa ser negro e ser gay, lésbica, bissexual, uma limitação bem comum da Netflix que, vira e mexe, escorrega na hora de compor personagens transversais.

Autora

Isabela Sena é formada em História. Pesquisa gênero e raça há sete anos. É apaixonada por novelas, programas de TV de qualidade duvidosa e The Sims. Escreve também no blog Forasteras.

Imagem: Elenco da série Cara Gente Branca. Netflix/Divulgação.

+ Sobre o assunto:

[+] Dear White People e o silêncio ensurdecedor da internet. Por Gabriela Moura.

[+] Dear White People, eu só quero que vocês assistam a série. Por Duds Saldanha.

[+] “Dear White People” e a diversidade de pele negra. Por Fábio Kabral.

Estrelas Além do Tempo: quantas histórias de mulheres pretas pioneiras são desconhecidas?

Texto de Biamichelle para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre o filme ‘Estrelas Além do Tempo‘ (Hidden Figures, 2016).

Esperei bastante tempo para escrever sobre o filme Hidden Figures, intitulado no Brasil como “Estrelas além do tempo”, mesmo tendo ido assistir o filme na pré-estreia em São Paulo. A essa altura muita gente já escreveu sobre o tema, e muitos já o conhecem pelo menos após sua participação emocionante no Oscar 2017, quando as atrizes protagonistas do filme subiram ao palco com Katherine Johnson, matemática e cientista que inspirou uma das personagens.

O filme retrata a história de três mulheres negras cientistas que trabalham na NASA nos anos 60, e que tiveram um papel fundamental nesse período. Não apenas pela disputa que se dava pela corrida espacial que ocorria na época, mas também pelo enfrentamento a branquitude e o racismo permitidos durante aquele período. Talvez seja por isso que apenas quatro décadas depois o mundo pode conhecer a história de Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughn.

Quando assisti o filme não consegui, por um minuto sequer durante sua exibição, sentir a sensação de felicidade sem que ela estivesse acompanhada de angústia. Desde a primeira cena… Tive angústia por conta do policial que as abordou, pelas palavras contidas na garganta diante de uma simples pergunta sobre promoção, angústia quando uma foi promovida, deusas… como o choro ficava entalado na minha garganta toda vez que uma delas ia no banheiro… e o quanto parecia sair pela minha pele o esbravejar delas diante do confronto.

Sinceramente, não tive nenhum sentimento de gratidão pelo personagem do Kevin Costner quando ele quebrou as placas do banheiro. Meu sentimento de gratidão está para essas e outras mulheres cujas as histórias são invisíveis quando se trata de empoderar e encorajar meninas, mulheres a seguirem em frente, lutar pelos seus sonhos, serem livres e felizes.

Digo isso porque em Santa Isabel, interior do Pará, todas as mulheres que me deram por referência eram esposas, boas mães, que com sorte poderiam ser professoras do ensino infantil para continuar a cuidar de outras crianças e assim exercer sua função natural. Não lembro de nenhuma mulher nas histórias que me contavam que ousaram romper com sua “função natural” e não tiveram “um final de desgraça” (como ensinavam). Ou seja, não tinham maridos, eram mães solteiras, mulheres da vida. Nem mesmo nas histórias regionais as mulheres que apareciam em diferentes. Sempre eram velhas solitárias que perturbavam a vida das pessoas. Não havia nenhuma mulher para me dizer que eu poderia tentar ser uma cientista, por exemplo.

Digo tentar porque sei que, mesmo se houvesse uma história que me servisse de inspiração ao longo da infância, sei que a caminhada para a realização não seria como é para quem não é mulher preta, do interior do norte. E como sei disso? Quando passei a não me importar para o que os outros falariam de mim, fui para a Universidade de Matemática e, em seguida, cursei Sistemas de Informação. Não foi fácil. E, quanto mais eu entendia que a dificuldade, na maioria das vezes, vinha não pelas exigências da matéria, mas por conta de ser mulher e preta, por morar longe, muuuuito longe da universidade, por ter que chegar em casa e cuidar dos afazeres domésticos, ao invés da lição da faculdade… Eu conseguia sentir em mim a angústia das personagens do filme ao chegarem em casa e ao serem intimadas a passarem mais tempo no trabalho.

Quando a personagem de Janelle Monáe foi incentivada a fazer o teste para o cargo de engenheira … putz… Eu sei o que é me sentir incapaz, toda mulher preta que foi ao longo da vida desincentivada, sabe! Uma das frases mais marcantes do filme para mim foi: “Toda vez que temos a chance de avançar, eles mudam a chegada”. Parece ser a canção da vida diante das oportunidades que surgem e nos sentimos motivadas a tentar.

Mesmo hoje, quando já terminei a faculdade e consegui um trabalho, o sentimento de que posso ser despejada a qualquer momento (mesmo que aparentemente eu não esteja fazendo nada para isso), é gritante e permanente. E não é à toa. A personagem de Octavia Spenser tinha, até então, um trabalho estável na NASA, mas com a entrada de novas ferramentas computacionais se viu à beira de ser descartada. Não só ela, mas também todas as demais mulheres pretas com quem trabalhava, como se fossem calculadoras. Esse sentimento, como disse, não é por acaso, infelizmente está dado que somos quando necessário (ou não) as primeiras a serem descartadas, o índice de mulheres pretas desempregadas indica isso.

Ah sim… Eu sorri, e chorei junto… quando elas se permitiram dançar juntas em meio a todo caos que viviam. Porque às vezes é preciso, sabe? E existe uma força muito grande nesses momentos de libertação. Quando saí do cinema fiquei me perguntando quantas outras histórias de mulheres pretas poderiam ter me incentivado quando criança (e que podem incentivar várias meninas agora), são desconhecidas? Ou melhor, são propositalmente escondidas?

Você pode me perguntar: se a história te trouxe tanta angústia, o que você achou de brilhante neste filme? No que diz respeito às personagens: tudo! Mesmo angustiada eu podia sentir em mim algo crescer quando Dorothy Vaughn aprendeu sobre os computadores da IBM e foi contratada a operar e treinar novos operadores. Quando Mary Jackson saiu de casa, foi ao tribunal, conseguiu o direito de estudar numa escola de brancos e, com isso, o direito de tentar a vaga para engenheira. E, por fim, quando Katherine Johnson sambou na cara dos machos brancos resolvendo o que eles não conseguiam. Mostrando para mim e para o mundo que viu suas histórias, que elas conheciam muito bem a sociedade racista em que elas viviam, mas que estavam dispostas a lutar, às suas maneiras, pelos seus espaços.

Eu cresci. Muitos anos desde a época dessa história se passaram, mas ainda vivemos numa sociedade racista marcada pelo seu histórico racista e misógino. Ainda temos muitas jovens que precisam ver essa história. A Jasmim precisa ver essa história. A juventude preta morre todos os dias com a falta de oportunidade, sejam nas periferias ou na porta de uma lanchonete Habib’s. As minas pretas ainda são vistas como a carne barata e gostosa do mercado. Musas do carnaval porém, não dignas de serem assumidas com seus filhos. A polícia só vê preto. As cadeias ainda estão lotadas de povo preto, enquanto a universidade ainda decide dentro dos seus conselhos se cotas raciais são necessárias ou não, influenciando a população a duvidar se existe necessidade da tal reparação histórica.

Talvez, se histórias como as de ‘Estrelas Além do Tempo’ fossem mais divulgadas, como forma de evidenciar que existe muito mais de história na antiguidade e na atualidade do povo preto para além dos navios negreiros, somadas as oportunidades e políticas públicas efetivas para nosso povo… Talvez, a nossa realidade fosse diferente. Não sendo puxadas para dentro da sala pela mão (como foi dado a entender no final do filme, numa cena entre Katherine Johnson e o personagem do Kevin Costner), mas sim pela nossa própria força, pois: “Liberdade nunca é dada aos oprimidos. Precisa ser conquistada, tomada”.

[+] Estrelas Além do Tempo. Por Winnie Bueno

[+] “Estrelas Além do Tempo”: o filme que Hollywood nos devia! Por Anne Caroline Quiangala

Autora

Biamichelle é mulher preta, ativista. Mestranda na USP e analista de infraestrutura pela Thoughtworks. Paraense papa chibé e tia da Jasmin.

Imagem: Cena do filme ‘Estrelas Além do Tempo’ (2016).

Mulheres negras na política: maioria na sociedade, minoria nos espaços de decisão

Texto de Luka Franca para as Blogueiras Feministas. 

Faz muito tempo que não escrevia para os Blogueiras Feministas. Desde 2013 e fiquei muito feliz quando recebi o convite para publicar durante a semana do Dia Internacional de Luta das Mulheres no site e ainda mais com um texto sobre participação política das mulheres negras.

Ao analisar as movimentações políticas do último período pelo Brasil e o mundo é notável a necessidade de pensar as questões de raça e gênero em conjunto com a estratégia política de enfrentamento ao pensamento conservador e a direita programática. A tarefa não é simples, é comum ouvirmos de quadros da esquerda brasileira de todas as sepas ideológicas.

O espaço da política é um espaço público e este lugar foi historicamente negado a negritude e as mulheres. Ou seja, quando falamos da participação política e empoderamento das mulheres negras falamos em uma perspectiva de mudança profunda de status quo na sociedade e modificar as estruturas sociais de forma radical requer retirar privilégios daqueles que sempre ocuparam o espaço público na sociedade para garantir a participação dos setores sociais historicamente marginalizados e alijados dos locais de decisão política e de poder.

Marcha das Mulheres Negras Rio de Janeiro 2016 – Márcia Foletto / Agência O Globo

É marcante a presença de mulheres negras em diversas formas de organização política, muitas vezes garantido a estrutura para que atividades, movimentações, articulações e formulações políticas sejam efetivadas. Ao mesmo tempo que fazem parte destes espaços, o racismo e machismo estrutural da sociedade colocam as mulheres negras fora dos espaços de real decisão de poder nos movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos, coletivos e nas diversas formas de organização política existentes.

É possível identificar a baixa representatividade da mulher negra em espaços de poder quando olhamos para a Câmara dos Deputados em Brasília. São 513 parlamentares, destes 52 são mulheres, sendo 7 mulheres negras segundo o critério do IBGE – para o Instituto a contagem de população negra engloba o número de pretos e pardos no Brasil. As mulheres no Brasil são pouco mais da metade da população, o mesmo quando vamos pegar os dados da negritude no país, mesmo assim o setor que sintetiza o que significa o racismo e o machismo para a constituição do país é profundamente sub-representada nos espaços de decisão política e isso vai influenciar diretamente na garantia, ou não, de políticas de enfrentamento a violência contra mulher, ao racismo e questões mais ligadas ao que se chama de “política geral” como economia e justiça.

As mulheres negras, com menor acesso a recursos partidários, enfrentam maiores dificuldades do que as brancas para se elegerem. Isto se soma aos efeitos da divisão sexual do trabalho que em muito explicam a baixa participação política das mulheres. Em 96% dos domicílios brasileiros, são elas as encarregadas das tarefas domésticas e do cuidado com filhas(os), o que gera o acúmulo das jornadas de trabalho remunerado e de trabalho doméstico/familiar.

Em conseqüência, as mulheres parecem demorar mais para construir uma carreira política, visto que 52% das deputadas federais têm entre 45 e 59 anos, enquanto os legisladores homens são 48% nesta mesma faixa etária. As poucas mulheres que atuam no Congresso Nacional, ou na política em geral, tendem a acumular menos encargos domésticos, por conta de seu estado civil. (A participação das mulheres negras nos espaços de poder)

A garantia de participação política e emancipação das mulheres negras não é apenas por questão de representatividade, mas também por localizar um programa de mudança social importante. Lembrar que somos nós mulheres negras que constam nas pesquisas como as que mais morrem por causa de feminicídio, vítimas de estupro e também as que tem os postos de trabalho mais precarizados e recebem os menores salários. Falar sobre racismo e machismo quando pensamos na política é fundamental para realmente se construir processos reais de emancipação.  Os debates e mobilizações sociais que temos visto no Brasil e no mundo apontam justamente para a necessidade de se pensar a questão de raça e gênero da mesma forma universal que pensamos a questão de classe para, efetivamente, combatermos a direita e o pensamento conservador que tem se aprofundado não apenas no Brasil, mas também no mundo.

É preciso não apenas enegrecer o feminismo, mas enegrecer e feminizar as analises políticas que aí estão, é preciso abrir espaço real para a participação das mulheres negras nos lugares de decisão política, seja institucional ou não. Para conseguirmos dar uma saída real pro momento político que vivemos encarar estas questões de frente é fundamental. A condição social das mulheres negras, a falta de representatividade e uma série de outras coisas que estabelece a relação profunda entre raça, gênero e classe não pode mais ser lidada como algo menor quando pensamos a formulação política, ou analisamos a conjuntura  que hoje vivemos pelo mundo.

Esses dois elementos estão profundamente marcados nas movimentações de ataques que temos visto a direita e o conservadorismo operarem em diversos países. Sejam nas propostas xenofóbicas de Donald Trump nos EUA, ou as reformas que Michel Temer quer enfiar goela abaixo aqui no Brasil. Para isso, os setores de esquerda e progressistas precisam realmente abrir espaço não apenas para fazer este debate de forma programática, mas investir e formar mulheres negras para disputarem os espaços dos movimentos sociais e também da política institucional.

Não podemos titubear na defesa de ampliação da participação política das mulheres negras em diversos espaços de atuação na sociedade, assim como é necessário dialogar e denunciar o quanto os projetos da direita que aí se apresentam atacam de forma universal as mulheres negras antes de todos os outros setores sociais. Tratar tais temas como perfumaria na política apenas faz coro com a política racista e machista da direita e isso não podemos mais deixar acontecer.