Vozes-Mulheres de escritoras e intelectuais negras

A voz da minha bisavó ecoou
criança nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
fome.

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.

(Vozes-mulheres, de Conceição Evaristo)

A personagem que ilustra a Blogagem Coletiva Mulher Negra 2012 é Bell Hooks, autora de Alisando nossos cabelos.

Esse texto integra a Blogagem Coletiva Mulher Negra, que conjuga o dia da Consciência Negra com o dia do Combate à Violência contra a Mulher. A luta anti-racista e anti-sexista se tratam de lutas por emancipação. Acreditando na potencialidade da arte como instrumento de libertação, tem tudo a ver com esses temas uma reflexão sobre como as mulheres negras tem subvertido o lugar de subalternidade em que a sociedade as encerra quando se tornam intelectuais e escritoras.

A intelectual negra bell hooks (que escolheu grafar o nome assim mesmo, em letras minúsculas) é um exemplo da importante conjugação entre militância e vida acadêmica. Em um de seus textos, ela mostra como a representação das mulheres negras nos diversos meios de comunicação forma uma percepção coletiva de que elas estão no mundo principalmente para servir aos outros. O corpo da mulher negra, desde a escravidão até hoje, “tem sido visto pelos ocidentais como o símbolo quintessencial de uma presença feminina ‘natural’, orgânica, mais próxima da natureza, animalística e primitiva”. Essa formulação discursiva que encerra a mulher negra em seu aspecto biológico – seja como extremamente sexual ou como a figura da “mãe preta” – atua para tornar o domínio intelectual um lugar interdito, já que “mais do que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade, as negras têm sido consideradas ‘só corpo, sem mente’”.

bell hooks entende que ‘intelectual’ é muito mais do que um cara que lida com conhecimento. Ele é – ou deveria ser – “alguém que lida com idéias transgredindo fronteiras discursivas, porque ele ou ela vê a necessidade de fazê-lo”. É nesse sentido que ela afirma que “o trabalho intelectual é uma parte necessária da luta pela libertação, fundamental para os esforços de todas as pessoas oprimidas e/ou exploradas, que passariam de objeto a sujeito, que descolonizariam e libertariam suas mentes”. Assim, é essencial para a luta de libertação das mulheres negras frente ao sexismo e ao racismo que elas ocupem este espaço ‘proibido’ do trabalho intelectual, subvertendo e ressignificando elementos da ideologia hegemônica.

O papel das escritoras negras é primordial nesse processo, pois na recusa de serem apenas objetos sobre os quais se formulam discursos, essas mulheres tornam-se produtoras de uma literatura que disputará espaço com as vozes que perpetuam os estereótipos. Através desse “assenhoramento da pena”, para usar a expressão de Conceição Evaristo (de quem já falamos por aqui), as escritoras negras buscam inscrever na literatura imagens de uma auto-representação.

Maria Firmina dos Reis

Por ser uma forma literária contra-hegemônica, a escrita de mulheres negras tem sido sujeita à marginalização, ao desconhecimento e à desvalorização intelectual. Isso tudo apesar de sua incontestável presença ao longo da história. Aqui no Brasil, são consideradas fundadoras desse discurso feminino negro a ficcionista Maria Firmina dos Reis (1825-1917) e a poeta Auta de Souza (1876-1901). Para dar fim a esse silenciamento é tão importante dar a conhecer a existência dessas mulheres e propagar sua obra. As mulheres negras pensam, escrevem, fazem ciência, literatura, fazem tudo que cabe a qualquer mulher, a qualquer ser humano fazer.

*Imagem do destaque: Ilustração da capa do exemplar de A Cor Púrpura, da Alice Walker, que tem aqui em casa.

Conceição Evaristo: literatura e consciência negra

“O que eu tenho pontuado é isso: é o direito da escrita e da leitura que o povo pede, que o povo demanda. É um direito de qualquer um, escrevendo ou não segundo as normas cultas da língua. É um direito que as pessoas também querem exercer. Então Carolina Maria de Jesus não tinha nenhuma dificuldade de dizer, de se afirmar como escritora. (…) E quando mulheres do povo como Carolina, como minha mãe, como eu, nos dispomos a escrever, eu acho que a gente está rompendo com o lugar que normalmente nos é reservado, né? A mulher negra, ela pode cantar, ela pode dançar, ela pode cozinhar, ela pode se prostituir, mas escrever, não, escrever é uma coisa… é um exercício que a elite julga que só ela tem esse direito. (…) Então eu gosto de dizer isso:  escrever, o exercício da escrita, é um direito que todo mundo tem. Como o exercício da leitura, como o exercício do prazer, como ter uma casa, como ter a comida (…). A literatura feita pelas pessoas do povo, ela rompe com o lugar pré-determinado.”

[Conceição Evaristo, em entrevista concedida a mim em 30 de setembro de 2010]

Conceição Evaristo - Imagem: Portal Geledés

Conceição Evaristo nasceu em 1946, em uma favela na cidade de Belo Horizonte. Filha de uma lavadeira que, assim como Carolina Maria de Jesus*, matinha um diário onde anotava as dificuldades de um cotidiano sofrido, Conceição cresceu rodeada por palavras. Como gosta de enfatizar em suas entrevistas, isso não significa dizer que vivesse cercada de livros, mas que bebia na fonte da memória familiar através das histórias que os mais velhos lhe contavam.

Tendo sido exposta desde pequena às crueldades do racismo, Conceição tornou-se uma escritora negra de projeção internacional, além de uma militante que atua dentro e fora dos marcos da academia: é mestre em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e conclui atualmente seu doutorado em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense. Publicou seu primeiro poema em 1990, no décimo terceiro volume dos Cadernos Negros, editado pelo grupo Quilombhoje, de São Paulo. Desde então, publicou diversos poemas e contos nos Cadernos, além de uma coletânea de poemas e dois romances.

No entanto, é muito provável que você nunca tenha ouvido seu nome. E mais: te desafio a encontrar os livros dela à venda. Nós, blogueiras feministas, decidimos ler e discutir seus poemas esse mês e nos deparamos com uma dificuldade enorme para adquirir os livros. Uma das mais importantes escritoras negras da atualidade não figura nas prateleiras das grandes livrarias no país, tampouco nos grandes manuais de literatura brasileira. Por que será? O que tem a obra de Conceição que a impede de circular amplamente, apesar do prestígio que ela obteve nos meios especializados, nos meios “negros”?

Como diz Cuti, escritor e pesquisador da literatura negra, “a literatura é poder, poder de convencimento, de alimentar o imaginário, fonte inspiradora do pensamento e da ação”. A obra de Conceição Evaristo tem o objetivo claro de revelar a desigualdade velada em nossa sociedade, de recuperar uma memória sofrida da população afro-brasileira em toda sua riqueza e sua potencialidade de ação.

Dia 20 de novembro, foi o dia nacional da consciência negra, dia em que é comum se evocarem as grandes contribuições afro-brasileiras pra nossa sociedade: música, gingado, capoeira, feijoada… mas o conjunto não pode parar por aí. É preciso fazer emergir a luta, o conflito, os impedimentos e a demanda por igualdade. É preciso lembrar que vivemos em um país racista que, mesmo quando celebra o negro, acaba por fechá-lo nos costumes, no lúdico, mantendo o impedimento ao domínio intelectual e político. Conceição Evaristo nos diz isso: a mulher negra não é só pra ser corpo, beleza, dança… “Negro é lindo”, mas lindo também porque pensa, porque escreve, porque debate, porque luta.

*Carolina Maria de Jesus (1914-1977) é autora de Quarto de Despejo – Diário de uma favelada (1950). Best-seller à época de sua publicação e traduzido em 13 idiomas desde então, o livro narra as mazelas e discriminações enfrentadas pela autora na periferia de São Paulo. Mas também aposto que você não deve ter ouvido falar dela. Informe-se! 🙂

** Imagem de destaque: Conceição Evaristo – Revista África e Africanidades

Confira os posts participantes da Blogagem Coletiva Dia da Consciência Negra.

O que há por trás de uma burca?

Texto de Deh Capella.

Na última semana, as listas de discussão que assino foram bem movimentadas por um assunto em comum: a prisão, na França, de mulheres que estavam usando burca ou véu islâmico (aquele que cobre o rosto e deixa apenas os olhos de fora) em locais públicos. De acordo com as autoridades francesas a medida tem como objetivo preservar a dignidade da mulher e se alinhar com a política de proibir a presença de símbolos religiosos em locais como escolas e órgãos públicos.

A questão é espinhosa porque envolve ao mesmo tempo, e de forma contraditória, uma grande gama de valores e suscita várias perguntas. A discussão, pra mim, não tem fim mesmo. Quer ver só?

Foto de Paolo Alfieri no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
  • a burca é um símbolo religioso incontestável. Mas por que, então, não se proíbem outros símbolos religiosos envergados por pessoas, como…crucifixos, solideus, turbantes ou mesmo as barbas longas que são comuns a muçulmanos?
  • franceses levam muito a sério o laicismo do Estado (ao contrário dos brasileiros – que atire a primeira pedra quem nunca viu Bíblia aberta ou crucifixo pendurado em repartição pública), mas esse princípio deve ser colocado acima da liberdade individual da pessoa se vestir como quiser?
  • se os muçulmanos são o grupo diretamente afetado pela proibição, como o governo francês pretende lidar com o descontentamento crescente dos muçulmanos, que são de 5 a 6 milhões de pessoas na França? É interessante para o Estado fomentar impopularidade e jogar mais lenha na fogueira do preconceito contra imigrantes?
  • a burca pode ser considerada uma prisão, porque esconde e isola a mulher, além de uniformizar a aparência e apagar a subjetividade. Mas alto lá! Somos ocidentais falando sobre um costume que pode não incomodar outras pessoas da mesma forma. Como lidar então com a questão das mulheres que querem usar a burca ou o véu?
  • pressupondo que há mulheres que deixariam de usar a burca e o véu, se pudessem, e mulheres que o usam porque querem, como separar esses dois grupos? Como saber quem vai usar apenas porque quer e quem vai usar porque há pressão social para isso?
  • se o governo francês pretende multar e/ou prender usuárias de burca e véu, como fica a situação das mulheres que podem sofrer represálias se saírem de casa em roupas comuns? Que tipo de amparo pode ser dado a elas?
  • pode-se considerar que uma consequência da proibição talvez seja um isolamento maior de mulheres muçulmanas – que deixarão postos de trabalho e bancos escolares por simplesmente não saírem (por escolha própria ou imposição) de casa sem burca ou véu?
  • questão levantada nas duas listas: as mulheres ocidentais possuem “prisões” equivalentes à burca ou o véu? A depilação, por exemplo, pode ser considerada uma imposição equivalente à imposição do uso da burca? Nosso código de vestimenta pode ser considerado restritivo? Nós vivemos a experiência de ter um corpo livre?

Como disse lá no comecinho, é um assunto espinhoso que transita por uma série de temas e exige que a gente exercite ao mesmo tempo: nossa capacidade de refletir sobre liberdade e nossa visão sobre o que é diferente do nosso contexto e das nossas experiências. Espero ter deixado bastante material pra essa reflexão. E aí, o que você acha?

Mais alguns textos para pensarmos:

[+] Opera Mundi – Proibição a burca na França: oprimir para libertar?

[+] Mulher Alternativa – Depilação é a burca brasileira: uma menina que mudou a minha vida numa viagem à Tunísia.

[+] Cynthia Semiramis – Roupas também são uma forma de opressão.

[+] R7 – Barbie Muçulmana veste burca para leilão.