Conceição Evaristo: literatura e consciência negra

“O que eu tenho pontuado é isso: é o direito da escrita e da leitura que o povo pede, que o povo demanda. É um direito de qualquer um, escrevendo ou não segundo as normas cultas da língua. É um direito que as pessoas também querem exercer. Então Carolina Maria de Jesus não tinha nenhuma dificuldade de dizer, de se afirmar como escritora. (…) E quando mulheres do povo como Carolina, como minha mãe, como eu, nos dispomos a escrever, eu acho que a gente está rompendo com o lugar que normalmente nos é reservado, né? A mulher negra, ela pode cantar, ela pode dançar, ela pode cozinhar, ela pode se prostituir, mas escrever, não, escrever é uma coisa… é um exercício que a elite julga que só ela tem esse direito. (…) Então eu gosto de dizer isso:  escrever, o exercício da escrita, é um direito que todo mundo tem. Como o exercício da leitura, como o exercício do prazer, como ter uma casa, como ter a comida (…). A literatura feita pelas pessoas do povo, ela rompe com o lugar pré-determinado.”

[Conceição Evaristo, em entrevista concedida a mim em 30 de setembro de 2010]

Conceição Evaristo - Imagem: Portal Geledés

Conceição Evaristo nasceu em 1946, em uma favela na cidade de Belo Horizonte. Filha de uma lavadeira que, assim como Carolina Maria de Jesus*, matinha um diário onde anotava as dificuldades de um cotidiano sofrido, Conceição cresceu rodeada por palavras. Como gosta de enfatizar em suas entrevistas, isso não significa dizer que vivesse cercada de livros, mas que bebia na fonte da memória familiar através das histórias que os mais velhos lhe contavam.

Tendo sido exposta desde pequena às crueldades do racismo, Conceição tornou-se uma escritora negra de projeção internacional, além de uma militante que atua dentro e fora dos marcos da academia: é mestre em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e conclui atualmente seu doutorado em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense. Publicou seu primeiro poema em 1990, no décimo terceiro volume dos Cadernos Negros, editado pelo grupo Quilombhoje, de São Paulo. Desde então, publicou diversos poemas e contos nos Cadernos, além de uma coletânea de poemas e dois romances.

No entanto, é muito provável que você nunca tenha ouvido seu nome. E mais: te desafio a encontrar os livros dela à venda. Nós, blogueiras feministas, decidimos ler e discutir seus poemas esse mês e nos deparamos com uma dificuldade enorme para adquirir os livros. Uma das mais importantes escritoras negras da atualidade não figura nas prateleiras das grandes livrarias no país, tampouco nos grandes manuais de literatura brasileira. Por que será? O que tem a obra de Conceição que a impede de circular amplamente, apesar do prestígio que ela obteve nos meios especializados, nos meios “negros”?

Como diz Cuti, escritor e pesquisador da literatura negra, “a literatura é poder, poder de convencimento, de alimentar o imaginário, fonte inspiradora do pensamento e da ação”. A obra de Conceição Evaristo tem o objetivo claro de revelar a desigualdade velada em nossa sociedade, de recuperar uma memória sofrida da população afro-brasileira em toda sua riqueza e sua potencialidade de ação.

Dia 20 de novembro, foi o dia nacional da consciência negra, dia em que é comum se evocarem as grandes contribuições afro-brasileiras pra nossa sociedade: música, gingado, capoeira, feijoada… mas o conjunto não pode parar por aí. É preciso fazer emergir a luta, o conflito, os impedimentos e a demanda por igualdade. É preciso lembrar que vivemos em um país racista que, mesmo quando celebra o negro, acaba por fechá-lo nos costumes, no lúdico, mantendo o impedimento ao domínio intelectual e político. Conceição Evaristo nos diz isso: a mulher negra não é só pra ser corpo, beleza, dança… “Negro é lindo”, mas lindo também porque pensa, porque escreve, porque debate, porque luta.

*Carolina Maria de Jesus (1914-1977) é autora de Quarto de Despejo – Diário de uma favelada (1950). Best-seller à época de sua publicação e traduzido em 13 idiomas desde então, o livro narra as mazelas e discriminações enfrentadas pela autora na periferia de São Paulo. Mas também aposto que você não deve ter ouvido falar dela. Informe-se! 🙂

** Imagem de destaque: Conceição Evaristo – Revista África e Africanidades

Confira os posts participantes da Blogagem Coletiva Dia da Consciência Negra.

O que há por trás de uma burca?

Texto de Deh Capella.

Na última semana, as listas de discussão que assino foram bem movimentadas por um assunto em comum: a prisão, na França, de mulheres que estavam usando burca ou véu islâmico (aquele que cobre o rosto e deixa apenas os olhos de fora) em locais públicos. De acordo com as autoridades francesas a medida tem como objetivo preservar a dignidade da mulher e se alinhar com a política de proibir a presença de símbolos religiosos em locais como escolas e órgãos públicos.

A questão é espinhosa porque envolve ao mesmo tempo, e de forma contraditória, uma grande gama de valores e suscita várias perguntas. A discussão, pra mim, não tem fim mesmo. Quer ver só?

Foto de Paolo Alfieri no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
  • a burca é um símbolo religioso incontestável. Mas por que, então, não se proíbem outros símbolos religiosos envergados por pessoas, como…crucifixos, solideus, turbantes ou mesmo as barbas longas que são comuns a muçulmanos?
  • franceses levam muito a sério o laicismo do Estado (ao contrário dos brasileiros – que atire a primeira pedra quem nunca viu Bíblia aberta ou crucifixo pendurado em repartição pública), mas esse princípio deve ser colocado acima da liberdade individual da pessoa se vestir como quiser?
  • se os muçulmanos são o grupo diretamente afetado pela proibição, como o governo francês pretende lidar com o descontentamento crescente dos muçulmanos, que são de 5 a 6 milhões de pessoas na França? É interessante para o Estado fomentar impopularidade e jogar mais lenha na fogueira do preconceito contra imigrantes?
  • a burca pode ser considerada uma prisão, porque esconde e isola a mulher, além de uniformizar a aparência e apagar a subjetividade. Mas alto lá! Somos ocidentais falando sobre um costume que pode não incomodar outras pessoas da mesma forma. Como lidar então com a questão das mulheres que querem usar a burca ou o véu?
  • pressupondo que há mulheres que deixariam de usar a burca e o véu, se pudessem, e mulheres que o usam porque querem, como separar esses dois grupos? Como saber quem vai usar apenas porque quer e quem vai usar porque há pressão social para isso?
  • se o governo francês pretende multar e/ou prender usuárias de burca e véu, como fica a situação das mulheres que podem sofrer represálias se saírem de casa em roupas comuns? Que tipo de amparo pode ser dado a elas?
  • pode-se considerar que uma consequência da proibição talvez seja um isolamento maior de mulheres muçulmanas – que deixarão postos de trabalho e bancos escolares por simplesmente não saírem (por escolha própria ou imposição) de casa sem burca ou véu?
  • questão levantada nas duas listas: as mulheres ocidentais possuem “prisões” equivalentes à burca ou o véu? A depilação, por exemplo, pode ser considerada uma imposição equivalente à imposição do uso da burca? Nosso código de vestimenta pode ser considerado restritivo? Nós vivemos a experiência de ter um corpo livre?

Como disse lá no comecinho, é um assunto espinhoso que transita por uma série de temas e exige que a gente exercite ao mesmo tempo: nossa capacidade de refletir sobre liberdade e nossa visão sobre o que é diferente do nosso contexto e das nossas experiências. Espero ter deixado bastante material pra essa reflexão. E aí, o que você acha?

Mais alguns textos para pensarmos:

[+] Opera Mundi – Proibição a burca na França: oprimir para libertar?

[+] Mulher Alternativa – Depilação é a burca brasileira: uma menina que mudou a minha vida numa viagem à Tunísia.

[+] Cynthia Semiramis – Roupas também são uma forma de opressão.

[+] R7 – Barbie Muçulmana veste burca para leilão.

Martin Luther King Day

Texto de Georgia Faust.

Dia 15 de janeiro foi Martin Luther King Day.

Esse cara foi O cara. Não tem como assistir ao discurso mais famoso dele, ‘I have a dream’, e não se emocionar. Fico muito surpresa de saber que isso tudo aconteceu ainda ontem. Ainda ontem, agorinha, em 1963. Pensa bem cara… Há somente 48 anos, negros não podiam votar em muitos estados americanos. Negros tinham banheiros separados. Negros ocupavam a parte de tras dos ônibus. Umas coisas assim que na nossa cabeça fazem parte da Idade Média. Mas não. Foi ontem.

Martin Luther King. Foto de Dick DeMarsico/World Telegram, via Wikimedia Commons.

Acho interessante quem acha que tá tudo bem hoje em dia. Que meritocracia existe e funciona, ainda mais aqui no Brasil. Que é só lutar e se esforçar, e o céu é o limite — afinal, olha só o exemplo do Sílvio Santos né? Bem coisinha da direita isso, e bem por isso que eu odeio qualquer coisa que lembre a direita.

Vamos tirar 5 segundos, em memória de Martin Luther King e repensar saporra toda de meritocracia. Né? 49% do Brasil é de negros/pardos. Mas essa proporção não existe em cargos de chefia, em cargos políticos, em escolas particulares, em universidades. Enquanto 26% de pretos e 30% de pardos ganham ATÉ 1/2 salário mínimo, apenas 12% de brancos está nessa mesma situação.

Então… Meritocracia né?

É só se esforçar um pouco, batalhar, e daí a gente chega lá. O que significa, logo, que mais ou menos 30% de pardos e pretos são simplesmente… VADIOS? Não, não pode ser, eu conheço vários que são trabalhadores. Então… Eles só tem menos capacidade, é isso? São… mais burros? Talvez alguma falha genética então?

Porque, se não existe preconceito nesse paraíso que é o Brasil, temos que achar uma outra explicação, né?

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Na verdade, quando eu finalmente desmistifiquei esse lance todo de meritocracia foi que a minha visão DE MUNDO mudou. Comecei a ver TUDO com outros olhos. E comecei a me revoltar toda vez que ouço/vejo um discurso pregando o esforço pessoal como solução de todos os problemas. Aham, Claudia, senta lá.