O idioma maquiado

Texto de Barbara Lopes.

As mulheres aprendem desde cedo sobre “o processo”. Não, não é o mesmo do Kafka. É o processo em que a mulher pega o que ela é, ajeita, arruma, modela, arqueia, prende, solta, cobre, esconde, mostra, salta, salta e rodopia, e finaliza com uma fitinha. No fim ela é o que é, mas do jeito que deve ser. É o que acontece com a aparência feminina: tira uns pêlos daqui, alisa os outros ali, usa um creminho pra esconder, um lápis pra realçar, escolhe uma peça de roupa que faça uma parte do corpo parecer maior e outra, parecer menor. Nada contra, nem a favor, muito pelo contrário. Pra algumas mulheres é um sofrimento, pra outras é divertido… Pena que seja visto como obrigatório para todas.

Mas o mesmo que aprendemos a fazer com nossa aparência, também somos ensinadas a fazer com nossa linguagem. A mulher pensa alguma coisa; daí torce, retorce, procura todos os ângulos e vieses, escolhe bem as palavras, mostra e esconde. E então fala o que pensa, mas de um jeito transfigurado, maquiado. Sutil, por assim dizer. E as que saem do padrão de sutileza volta e meia são cobradas, por mulheres e homens. (Funciona também no sentido inverso, aprender a escutar procurando os significados implícitos).

Como apaixonada por linguagem, pelo que cada palavra diz e esconde, sempre encarei esse falar pelas entrelinhas como algo lúdico. Só passei a prestar atenção ao aspecto de gênero embutido nisso depois de um texto da Lynne Soraya, pseudônimo de uma moça que tem síndrome de Asperger, chamado “The Female Factor” (O Fator Feminino). Ela diz que por conta de sua dificuldade em decodificar essas sutilezas da linguagem, acha mais complicado se comunicar com mulheres do que com homens (comentei um pouco sobre o texto em outro blog).

Por exemplo, quando sua amiga lhe diz “A Jane confirmou presença na festa e não foi! Nem telefonou. Essa é a quinta vez! Você acredita?”, a resposta de Lynne seria “Sim, acredito” – afinal, é o comportamento esperado de alguém que já fez isso quatro vezes. Mas o que a amiga realmente quis dizer é “Você acredita [que ela me trate tão mal? Estou tão magoada!]?!” – é um pedido por apoio. Mas um pedido de apoio que vem embalado, ajeitado e com laço de fita.

Sei não, mas vou tentar ver como ficam algumas palavras de cara lavada.

A ditadura silenciosa

Texto de Thayz Athayde.

Quase todos os dias passo por uma banca jornais, mas a capa de uma revista me chamou a atenção: prepare seu corpo para o verão. Mesmo atrasada, eu tive que parar para ler aquilo e falei meio indignada pro rapaz da banca:

– Como assim preparar meu corpo para o verão? Ele já não tá preparado? Falta o que? Uma melancia na cabeça?

O que me deixou mais chocada, é que só tinha mulheres na revista, obviamente somente as mulheres devem fazer dietas e ficar magras, os homens que fiquem com suas barriguinhas de cerveja, é tão sexy, né? Ninguém gosta da barriga do Gerard Butler. Há algo extremamente necessário, talvez até um pré-requisito para ser mulher: você tem que ser perfeita. Cabelos lindos, corpo exuberante, paciência de um monge budista, esposa dedicada, super mãe, excelente cozinheira e se sobrar tempo, você pode até estudar e ter uma boa carreira, talvez até cuidar de você um pouquinho.

Vivemos hoje em uma ditadura silenciosa, que nos manda fazer tantas coisas e não temos tempo de fazer uma pergunta bem simples: será que eu quero? Eu quero fazer uma lipo? Eu quero ficar meses sem comer chocolate só pra mostrar meu bumbum no verão? Somos metralhadas todos os dias sobre essa suposta obrigação como mulher. E nosso real desejo, onde fica? Eu não acredito que as pessoas pensam que o único desejo feminino é fazer dieta ter um bom marido. Da onde saem esses pensamentos? Das mulheres – barbies. Pare de construir ou ajudar a construir esse tipo de modelo, não faça isso só por você, faça pelas próximas gerações, pelas gerações que lutaram pelo direito de ser mulher, para que possamos ouvir a palavra feminismo como heroísmo e não como um palavrão machista.

A próxima top model

Texto de Mari Moscou.

Olá, queridas e incipientes leitoras deste belíssimo blog!

Me chamo Marília, mais conhecida por aí como Mari Moscou ou, no twitter, como@mariliamoscou. Sou paulistana, tenho 24 aninhos e milito como feminista desde minha adolescência. Sou socióloga da educação, mestranda da Unicamp e estou prestes a me casar com o homem da minha vida. Que lindo!

Para minha “estréia” (uhu) escolhi um programa que acompanho e que muitas das minhas companheiras blogueiras assistem chamando-o de “guilt pleasure”, ou o prazer da culpa: America’s Next Top Model. A “culpa” no caso seria por acompanhar com prazer um programa que apóia a indústria da moda e da beleza, que são responsáveis diretas e indiretas por padrões inatingíveis de beleza e baixa auto estima entre adolescentes e adultas – parte de um grande esquema de culto ao corpo.

Até aí, meninas, pensemos juntas: qual programa de TV não faz isso? Mesmo reality shows, raramente escolhem pessoas muito fora do padrão para participarem (exceto “Perder Para Ganhar”, mas aí já é outra história).

O que eu acho bacana no America’s Next Top Model é que no programa fica muito claro que ser modelo não é ser bonita. É preciso um investimento muito grande da menina em sua carreira, é preciso uma série de habilidades e estratégias pessoais. É um trabalho MESMO. Isso desmistifica a idéia de que uma profissão feminina como a de modelo, “vale menos” ou tem status menor do que a de jogador de futebol, por exemplo, “porque ele treina”.

Além disso, a Tyra Banks é mesmo uma business woman de muito sucesso, comanda o programa, edita, dá dicas, etc. e aparece como um modelo a ser seguido: carreira de modelo que a lançou para realizar outros projetos próprios. Projetos próprios, olha como isso é bacana!

Talvez eu só esteja muito empolgada com coisas que a maioria das pessoas nem identifica como o mais legal ou mais importante do programa. Mas fico tão feliz com estas coisinhas que resolvi compartilhar aqui.

E você: já assistiu America’s Next Top Model? O que achou?