Mercado de trabalho: o que pode mudar?

Este é um post coletivo, feito a partir de reflexões dentro do nosso grupo, principalmente com idéias e falas da Iara e da Cecília, colocado em texto por Bia Cardoso e pela Barbara Lopes. A Thayz já fez um post bem bacana sobre A Mulher e o Mercado de Trabalho. Porém, sempre há o que falar.

No Parlamento Europeu, deputadas levam seus bebês para o local de trabalho. À esquerda, a deputada italiana Licia Ronzulli. À direita, a deputada dinamarquesa Hanne Dahl. Fotos de Vincent Kessler/Reuters.

O feminismo é um movimento que não se limita a lutar por melhores salários para as mulheres, mas também quer influenciar e modificar a realidade do mercado de trabalho que temos atualmente. Um mercado que foca nos indivíduos e não apóia mães e pais que precisam dedicar tempo a seus filhos.

Para a mulher sempre existiu a questão: “filhos ou carreira?” Como se as duas coisas não pudessem caminhar juntas. Como se fosse necessário fazer uma escolha entre ser uma boa mãe ou não. E quando vemos mulheres-mães saindo de um emprego formal para montar um negócio próprio com o objetivo de ter mais tempo para ficar com seus filhos, notamos como as coisas estão erradas. Pois, nem todo mundo pode sair de um trabalho, nem todo mundo pode abrir um negócio próprio e fazer seus próprios horários. E ninguém no mercado de trabalho parece pensar com quem fica a filha ou filho dessa pessoa, como irá crescer e se desenvolver.

Qualquer mudança, tanto no mercado de trabalho, como na sociedade, vai ser difícil enquanto pais e mães não forem implicados. Porque se a licença-paternidade for curta como é atualmente, passando a clara mensagem que o papel do pai é buscar mãe e bebê na maternidade, registrar a criança e voltar ao seu papel de provedor, fica muito fácil para as empresas justificarem sua discriminação com motivações da lógica capitalista.

Porém, se os homens tivessem uma licença obrigatória tão impactante pro mercado quanto a das mulheres, ninguém discriminaria mulheres por conta disso. Seria um custo alto paras empresas e a previdência? Claro que sim. Mas a sociedade precisa entender que, se querem prosperar, se querem dali a 25 anos ter gente preparada no mercado, o investimento em educação começa agora.

Imaginem se no Brasil o período de licença fosse de 3 meses para cada um? Os 3 meses iniciais para as mulheres, por conta do parto, depois 3 meses para os homens. Sabemos que muitos homens não iriam cuidar de seus filhos, iriam terceirizar o trabalho deixando com uma babá ou com a mãe/sogra. Muitas mulheres parariam de trabalhar por não confiarem na capacidade de seus companheiros, mas seria revolucionário. Porque as empresas seriam obrigadas a dar licença, então, não teriam porque não contratarem mulheres. E alguns pais que hoje se acomodam no papel social de provedor se dedicariam mais a trocar fraldas sim, porque não? Sabemos que ninguém vira pai presente por decreto, mas muitas mudanças de mentalidade dependem mesmo de estímulos externos.

Sabemos que licença maternidade, creche na “firma”, e outros benefícios são vistos como “benefícios para as mulheres”. E acabam sendo, mas é porque a mentalidade está errada. Fica parecendo que mulheres inventam de ter filho, que a criança é só um capricho. Que somos nós mulheres que demandamos políticas especiais, benefícios extras. Crianças são feitas pelo casal e são futuros cidadãos. Então, qualquer política, seja pública ou privada, que beneficie o cuidado com as crianças é para a sociedade, não apenas para as mulheres.

A mudança de mentalidade vai demorar. Com a precarização dos contratos de trabalho, muitas empresas sequer reconhecem os direitos já estabelecidos. Propostas de pagamento de apenas metade do salário durante o período da licença-maternidade não são raridade. Mesmo assim, é preciso lançar as idéias. As famílias já não são mais as mesmas. Atualmente possuem diferentes configurações que não são necessariamente as tradicionais, tipo pai e mãe, filhinho, filhinha e cachorro golden retriever.

A existência de uma rede social de proteção à mulher que é mãe e trabalha também é importante para muitas mulheres poderem se libertar de um relacionamento opressor. Porém, nada impede um homem de se afastar do trabalho pra cuidar do filho que ele teve com uma namorada. Ou com a ex-mulher. Não precisa morar na mesma casa para ser pai. A rede social de benefícios existente atualmente ajuda a mulher, mas ajuda porque socialmente aceitamos que é a mãe a principal responsável pela criança, logo ela precisa desse apoio pra poder dar conta de outras coisas.

Não fosse assim, o modelo, fosse a cobrança social sobre ambos, pai e mãe, igual, íamos dizer que são benefícios para a família, não para a mulher. Então, lutemos para que a mulher não tenha que escolher entre “filhos ou carreira?” mas sim: “quando devo voltar ao trabalho?” “quais tarefas posso dividir com o pai do meu filho?” “o que a sociedade pode fazer para que as crianças tenham acesso a educação?”

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Este post faz parte da Blogagem Coletiva “Mulher no Mercado de Trabalho”, organizada pela Carolina Pombo do What Mommy Needs.

A mulher no mercado de trabalho

Texto de Thayz Athayde.

Já vi por aí, que a mulher que se dedica tanto ao casamento e a função materna, acaba sem tempo para investir em uma carreira profissional.

Trabalhar na área de Recursos Humanos faz com que eu consiga perceber que a mulher está se profissionalizando muito mais e disputando vagas com os homens de igual para igual. A mulher está ocupando espaço como gestora, nas áreas técnicas, operacionais, TI, comercial… Diversas áreas que antigamente eram taxadas apenas para homens, têm mulheres fazendo um excelente trabalho.

Áreas em que muitas vezes ficavam estabelecidas que fossem apenas masculinas. Sabe como é que é, né? Mulher entra na empresa, sai por ai engravidando (como se a mulher engravidasse sozinha), é muito fraca para fazer as coisas, tem cólica e não trabalha… Quantas vezes ouvi isso na abertura de vagas somente masculinas!

Certa vez, um cliente abriu uma vaga para Encarregado Administrativo Financeiro e deu preferência para mulheres, pela liderança natural e pelos detalhes que a mulher tanto dá atenção. Claro, esse não é um padrão feminino, nem toda mulher é assim, mas reconhecer esses tipos de qualidade em uma disputa para vaga de emprego, é uma grande vitória.

Bem, entrevistei uma candidata maravilhosa, fiquei encantada com sua história e quero dividir com vocês. Ela é uma excelente profissional, conseguiu fazer a empresa que ela entrou como estagiária crescer absurdamente e por isso saiu da empresa como Encarregada Financeira. É uma mãe solteira de 30 anos, a filha tem 11 anos, ela se sustenta sozinha e sente muito orgulho disso: não precisa de ajuda de ninguém para criar a filha. Além disso, é estudante de Ciências Contábeis (um curso extremamente masculino) e uma das primeiras da turma. Sempre ouve piadas machistas, sobre o fato de ter filha, morar sozinha e fazer um curso em que a maioria é homem, sempre falam que a vida dela seria mais fácil se ela encontrasse um marido rico e ela responde que já encontrou: a carreira profissional.

Tive a oportunidade de conhecer mulheres que são líderes de grandes empresas. A maioria delas é solteira ou casada, mas normalmente não tem filhos e, por esse motivo são taxadas de infelizes (não vou falar muito sobre, a Georgia já falou muito bem no texto sobre a tia solteirona). Mas, elas não são infelizes, elas são mulheres que optaram por outro tipo de vida e que são muito felizes por suas escolhas. Quantas mulheres ainda existem por aí, que são completamente frustradas por não conseguirem fazer uma faculdade? Tudo por causa da cultura machista, onde a mulher não pode ter o direito de não querer ter um casamento com ou sem filhos.

Temos ainda muita luta pela frente, muita coisa para ser vencida. Infelizmente ainda é comum ligar para uma candidata e ela dizer que vai pensar na vaga, pois precisa ver o que o marido acha primeiro. Essas fronteiras também têm que ser quebradas e uma das formas de fazê-lo é com o feminismo, conscientizando essas mulheres de que elas podem, sim, amar o marido e ainda tomar grandes decisões sozinhas.

O que importa na verdade é ver tantas mulheres se dedicando e disputando o mercado de trabalho, com as mesmas armas masculinas. Atendo várias empresas, que por exemplo, já disponibilizam o auxilio-creche como um beneficio, isso é uma vitória para todas as mulheres. Uma de muitas que venceremos!