Marcia Tiburi e o feminismo ético-político

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Outro dia, uma amiga me pediu indicações de livros feministas para presentear uma adolescente de 15 anos. Dei uma olhada em minha prateleira e a grande maioria são bem acadêmicos. Avistei Como Ser Mulher de Caitlin Moran e Má Feminista de Roxane Gay. Mas ainda não era o que queria. Entrei na internet e fuçando entre alguns posts com indicações de livros feministas, vi que Marcia Tiburi tinha lançado um novo livro. Passei para a amiga alguns nomes e disse que esse da Marcia eu não conhecia, mas ia procurar. A melhor notícia foi quando a editora topou enviar 1 exemplar para fazer essa resenha.

Feminismo em comum: para todas, todes e todos¹, é um bom livro para quem quer iniciar leituras refletindo sobre o que é o feminismo. Em 17 capítulos —- bem curtos pois o livro tem apenas 125 páginas — a filósofa Marcia Tiburi reflete sobre questões fundamentais para o feminismo atual, como: trabalho, autocrítica, solidão, diálogo, escuta, lugar de fala, identidade, violência, política. Não há um aprofundamento, vários temas são colocados apenas para pontuar a necessidade de serem mais discutidos, como a prostituição. É quase um glossário crítico de temas centrais do feminismo com uma linguagem simples. Como diz a orelha:

Com este livro, Marcia Tiburi nos convida a repensar essas estruturas e a levar o feminismo muito a sério, para além de modismos e discursos prontos. Espera-se que, ao criticar e repensar o movimento — com linguagem acessível tanto a iniciantes quando aos mais entendidos do assunto — Feminismo em comum seja capaz de melhorar nosso modo de ver e de inventar a vida.

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A Marcha do Progresso: a experiência de uma mulher trans na Marcha das Mulheres

Texto de Galen Mitchell. Publicado originalmente com o título: “The March of Progress: One Trans Woman’s Experience at the 2018 Denver Women’s March”, no site TransSubstantiantion em 20/01/2018. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Eu marchei hoje. E isso foi bom.

Entretanto, esta manhã, quando minha esposa e eu entramos no carro para ir até a Marcha das Mulheres de Denver junto com nosso filho, eu estava apreensiva. Eu não sabia o que esperar. Quer dizer, nós fomos a Marcha das Mulheres de Denver no ano passado, mas isso parece que aconteceu há séculos. Era praticamente uma outra era. Naquela época, tínhamos medo do que poderia acontecer naquele ano. Desta vez, nós carregamos o peso do que aconteceu. Eu estava preocupada que isso mudasse as coisas.

Dirigindo até o centro da cidade, fiquei preocupada com o fato de que o último ano foi implacável, isso poderia ter diminuído o movimento. Eu me preocupava se a multidão seria menor e, como resultado, a mensagem seria menos impactante. Eu me preocupava se, apesar de todos os esforços, o movimento iria desaparecer — se acabaria sendo substituído pela mesma apatia, que quase sempre vem em seguida, de uma longa e dura luta com a inércia social.

Além disso, pessoalmente, estava preocupada se ainda não me sentiria bem-vinda.

Muito foi dito na sequência da Marcha das mulheres do ano passado. Muitas pessoas criticaram o movimento, com razão, por não incorporar a enorme variedade de experiências e perspectivas que as mulheres têm em todo o país. O foco ficou centrado nas experiências das mulheres brancas da classe média alta, enquanto ignoraram mulheres de outras raças, etnias e grupos marginalizados. As mulheres queer, por exemplo, foram em grande parte misturadas e colocadas de lado — as mulheres trans foram duplamente tratadas assim.

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E se a professora do seu filho fosse uma travesti?

Texto de Ana Flor Fernandes Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

O título desse texto surgiu de questionamentos e inquietações que tenho feito cotidianamente desde que iniciei o curso de pedagogia na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Não obstante, do medo que parece existir quando LGBTs, neste caso específico travestis, adentram o campo minado da educação e miram na probabilidade de construir processos de ensino e aprendizagem junto aos filhos de outros.

Antes de tudo, gostaria de destacar que esse é um escrito cheio de sensações. É impossível falar dos filhos, de crianças, sem lembrar como para muitas de nós os muros das escolas se mostraram ambientes violentos. Foi no espaço escolar que aprendemos, muitas vezes, a criar mecanismos de proteção e sobrevivência. Quem diria que, algum dia, estaríamos nela novamente, mas dessa vez enquanto professoras dos filhos daqueles que de lá tentaram nos expulsar?

Pensar travestis sendo professoras é compreender que nós podemos seguir roteiros diferentes dos quais fomos submetidas. Não quero dizer com isso que existe uma regra ou um manual, mas que existem possibilidades de criar novas narrativas que abarquem o chão das escolas e os filhos de vocês. É proporcionar uma didática que se faça inclusiva, trabalhando as diferenças e o diálogo.

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