Minha cabeça não é pra isso! Da desconstrução da mentalidade acerca da inaptidão da mulher para tecnologia

Texto de Ana Rita Dutra para as Blogueiras Feministas.

Das lembranças que tenho da minha fase escolar, principalmente do ensino médio, as festas escolares marcaram bastante. Dia de festa na escola, a organização pautava por meninas decorarem a sala e meninos deveriam trazer o refrigerante. Hoje, ao olhar para este tempo, percebo que a divisão de tarefas pautada por gênero não estava presente somente nestes eventos festivos. Meninas deveriam jogar vôlei e pular corda na educação física, meninos correr e jogar futebol. Nas aulas de português e literatura meninas deveriam ler romance e escrever poesias, já os meninos deveriam ler jornal e notícias de esportes. A capacidade das meninas nas aulas de exatas eram questionáveis, pois para nosso sexo, raciocínio lógico e direto deveria ser trabalhoso.

As condições em que vivem homens e mulheres não são produtos de um destino biológico, mas, antes de tudo, construções sociais. Homens e mulheres não são uma coleção – ou duas coleções – de indivíduos biologicamente distintos. Eles formam dois grupos sociais que estão engajados em uma relação social específica: as relações sociais de sexo. (Kergoat, 2000, p. 55)

Estas relações sociais de sexo acabam levando meninos e meninas para caminhos distintos, ouso dizer que esta divisão não começa a ser fomentada na escola, mas muito antes no ventre materno, na maternidade, nas aquisições para um bebê já estamos imputando nesta criança papeis específicos e bem definidos de ser homem e ser mulher, juntamente com seu papel na sociedade. Para mulher lhe é delegado o sentimento, o lar, para o homem da porta para fora, o raciocínio e o mundo todo.

Hoje, na educação profissionalizante tenho a oportunidade de atender estas meninas que procuram se qualificar em cursos voltados para áreas exatas: informática, t.i, engenharia, mecânica industrial. O que me chama a atenção no primeiro dia de aula quando entro nessas escolas: o baixíssimo número de alunas. Normalmente de uma turma de 30 alunos, tenho na minha classe cerca de 4 mulheres, isso sendo otimista. Com frequência pego turmas de cursos voltados para tecnologia que possuem somente homens matriculados.

Inúmeros fatores afastam estas mulheres do mercado de trabalho: maternidade, casamento, racismo, transfobia, homofobia, lesbofobia. Porém, quero falar principalmente de um fator fundante para o afastamento destas mulheres: a cultura.

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. (Beauvoir, 1967, p. 9)

Ao refletir sobre as nuances que afastam esta mulher dos bancos acadêmicos da área das ciências exatas, o fator: “eu não sou capaz”, salta aos olhos. Ao receber meninas para lecionar a disciplina de Lógica de Programação ou Matemática, a primeira frase que escuto destas garotas é de que não possuem “cabeça boa para isto”, os olhares nas primeiras aulas estão assustados e totalmente descrédulos de sua capacidade. O ambiente entre os colegas também não facilita a convivência com estas meninas, com raras exceções normalmente as mulheres são hostilizadas na forma de piadinhas discretas sobre suas dificuldades e rotinas, além do que estudar com colegas homens fazendo comentários machistas sobre suas namoradas, esposas, colegas e mulheres aleatórias, não cria um ambiente favorável e encorajador para o ensino destas mulheres.

Estas meninas acabam criando estratégias de sobrevivência nestes meios, se nas primeiras aulas você lançar um desafio em grupo, a primeira pergunta que você vai ouvir é se: “da pra ter um time só de meninas?”, “posso fazer coma s gurias?”, E não venham me dizer que isto é preconceito, é resposta e estratégia de defesa de um grupo oprimido.

Workshop de arduíno promovido pelo MariaLab, espaço em São Paulo que espaço voltado para mulheres e meninas, que quer ensinar e divulgar ciências e tecnologia como coisa de mulher! imagem: Facebook do Marialab.
Workshop de arduíno promovido pelo MariaLab, espaço em São Paulo voltado para mulheres e meninas, que quer ensinar e divulgar ciências e tecnologia como coisa de mulher! Imagem: Facebook do Marialab.

Lógico que como professora procuro intermediar estas situações e desenvolver um ambiente propício ao aprendizado de todos, porém esta situação normalmente já está instaurada quando assumo a classe. Cabe aqui também um alerta a professora(o), que fique atento a estas questões, pois as discriminações que constam nas ruas também se fazem presentes na sala de aula. E devemos encará-las.

A partir do momento em que este ambiente hostil não é enfrentado, esta aluna torna-se forte candidata a evasão e desistência de seus sonhos, em sua mente reforça-se a ideia de que “realmente eu não levava jeito”, quando sabemos que o fator primordialmente é de uma série de culturas que oprime e afasta as mulheres destes bancos acadêmicos.

Vale lembrar que Marie Skłodowska Curie, primeira mulher a ganhar um Nobel, foi também a primeira a pessoa, homem ou mulher, a ganhar DOIS DELES! Mas também vale lembrar que nenhuma mulher repetiu seu feito até hoje, o que pode ser atribuído em parte ao fato de algumas terem seu nome omitido na pesquisa como com Rosalind Franklin no modelo de dupla hélice do DNA.

O processo de desconstrução destas situações e construção de uma presença feminina forte no campo das ciências exatas passa pela desconstrução cultural machista em todos seus aspectos. Desconstrução esta que não se dá somente em sala de aula, mas em todas as relações humanas em que esta mulher está presente. Vivemos em um momento político tenso e lamentável no cenário político nacional, o retrocesso bate a nossa porta, mais do que nunca a discussão de gênero deve estar presente em todos os campos, inclusive nas ciências exatas e suas vertentes.

Além do desafio de desconstruir a noção de que a mulher possui um raciocínio logico matemático não “tão bom” quanto o masculino, a permanência das mulheres nos bancos acadêmicos passa também pela “autenticação” da figura masculina que está ao seu lado, e da noção de que o trabalho do lar é de sua responsabilidade. Infelizmente em diversos momentos não consegui reverter a decisão de inúmeras mulheres de abandonarem os bancos da educação profissionalizante por uma decisão de seu “companheiro” que não estava gostando da ausência da mulher em casa, pois esta acarretava problemas no cuidado do lar e dos filhos. A noção de que os cuidados domésticos e dos filhos é responsabilidade primordial da mulher também contribui para os índices de evasão das mesmas. Estamos em 2016, estas alunas estão na faixa dos 16 aos 40 anos, e ainda se submetem as definições que lhes são imputadas por uma sociedade ainda fortemente patriarcal, seja pelo seu pai, irmão, namorado, marido. A figura opressora masculina ainda acorrenta estas mulheres, subjugando sua capacidade, suas decisões e seus sonhos.

A presença de mais mulheres na tecnologia, nas ciências exatas passa por uma grande mudança cultural, mudança esta que se dá em casa, nas ruas, nas escolas. Projetos de incentivo da participação de mulheres e meninas em olimpíadas de matemática, projetos que incentivem a participação na tecnologia, programação fazem diferença na vida destas mulheres.

Referências bibliográficas

BEAUVOIR, Simone. (1967) O Segundo Sexo, Volume 2. Difusão Européia do Livro, 1967.

KERGOAT, D. Divisão sexual do trabalho (M. Nobre,
Trad.). Paris: PUF, 2000.

A gênese da transfobia

Texto de Bia Pagliarini.

Quando dizem por aí que opressão “não se escolhe” no intuito de desconsiderar a legitimidade das identidades trans, desconfie – afinal, pessoas trans também não escolhem sofrer transfobia! Vou explicar o porquê: tudo tem a ver com duas concepções distintas da gênese da transfobia. Uma concepção individualista/liberal e outra materialista/estrutural desta gênese. O mais irônico de toda essa “polêmica” é que justamente uma concepção individualista/liberal acerca da transfobia se reivindica enquanto materialista/estrutural e até mesmo em nome de um “feminismo radical”. Vou explicar o porquê de todo esse imbróglio.

Vemos sistematicamente a tentativa de pessoas em nome de um feminismo trans-excludente de denunciar que o reconhecimento de mulheres trans enquanto mulheres seria algo “perigoso” e “mentiroso” para o feminismo. O argumento dessas pessoas que se reivindicam “feministas radicais” seria de que, como a identidade de mulheres trans se dá enquanto uma “escolha individual”, a transição como ponto de origem de toda a transfobia, a transfobia não poderia se configurar enquanto uma opressão. Ou seja: esta perspectiva, que supostamente se intitula enquanto materialista, toma como ponto de partida a categoria de indivíduo para a compreensão da gênese da transfobia, já que toda forma de violência contra este grupo de pessoas estaria vinculada a este momento fundante da transição de gênero de indivíduos.

Esta perspectiva não consegue compreender as pessoas trans enquanto grupo social, mas tão somente enquanto indivíduos que, em suas individualidades, sofreriam violência em virtude da transição. Nesta perspectiva, transfobia seria tão somente um efeito secundário de uma opressão subjacente que ocuparia uma posição de hierarquia, ou seja, a transfobia não é compreendida no seu funcionamento estrutural e estruturante das normas sociais quanto ao gênero. A perspectiva liberal/individualista, portanto, é um verdadeiro obstáculo epistemológico para a compreensão da materialidade da transfobia e das identidades trans.

SP - 20ª edição Parada do Orgulho LGBT, com o tema: Lei de Identidade de Gênero Já! Todas as pessoas contra a transfobia. Foto de Rovena Rosa/Agência Brasil.
SP – 20ª edição Parada do Orgulho LGBT, com o tema: Lei de Identidade de Gênero Já! Todas as pessoas contra a transfobia. Foto de Rovena Rosa/Agência Brasil.

Tal concepção individualista, percebam, funciona como uma luva para discursos de culpabilização da vítima. Se a gênese da transfobia se dá tão somente em virtude de sujeitos que transicionam, que individualmente se colocariam à margem das normas de gênero, subjaz aí necessariamente, portanto, uma concepção de subjetividade trans bastante específica: de que se tratariam de sujeitos “loucos”, “fetichistas”, que supostamente estariam sendo “enganados” por uma ideologia mentirosa quanto ao gênero, já que em última instância, o processo de subjetivação fora das normas cis nem ao menos faria sentido. Não faz sentido alguém “querer” ser oprimido e portanto, não faz sentido existir pessoas trans na sociedade. Toda concepção liberal/individual da transfobia tem em si subjacente uma concepção de subjetividade trans como patológica ou abjeta; a insistência em dizer que pessoas trans são mero resultados de fetiches, transtornos psicológicos ou de estruturas sociais opressoras demonstra isto. Tal concepção objetifica os sujeitos trans (destituindo a condição de sujeito para tais sujeitos), já que desconsidera o caráter revolucionário e de resistência por parte desses sujeitos, desta forma, mobiliza um discurso de tutela para com estes sujeitos – os discursos da “cura” da transexualidade, por exemplo.

Partindo para uma concepção materialista/estrutural da transfobia requer de nós uma ruptura epistemológica que faz deslocar de local a questão da existência trans enquanto “sem sentido”: o transfeminismo, enquanto crítica materialista da cisnormatividade irá realocar esta questão como forma específica de como a opressão funciona. Com isso quero dizer: tomar como evidência de que a existência de pessoas trans não faz sentido, é, por si só, uma forma de opressão que naturaliza e legitima as formas de violência transfóbicas mais explícitas: assassinatos, exclusão, negação de direitos fundamentais, como saúde, moradia, educação. O transfeminismo é o movimento de reconhecimento de que as vidas trans fazem sentido: para tanto, temos que disputar o debate público contra discursos transfóbicos que julgam nossas vidas enquanto sem sentidos. Isto porque justamente o discurso de ódio contra determinados grupos se baseia na noção de que, por não terem sentidos, vidas podem ser exterminadas e vilipendiadas.

A concepção transfeminista da transfobia compreende, portanto, essa forma de opressão como efetivamente um vetor de opressão. A gênese da transfobia se dá, nesta perspectiva, no próprio funcionamento das normas de gênero, não enquanto um mero efeito secundário de uma opressão machista subjacente, mas enquanto vetor fundamental do funcionamento destas normas. A gênese da transfobia não se realiza, tampouco se observa, a partir do momento da transição dos indivíduos trans; a gênese está inscrita no próprio funcionamento das normas que naturaliza e justifica previamente estas violências, e isto se dá independentemente à contingência das trajetórias individuais dos sujeitos no que tange às suas transições de gênero.

Enquanto socialmente as identidades trans forem tidas como tabus, as identidades trans e a discussão no que tange às formas de subjetivação dos indivíduos irão se objetivar enquanto um fato social. Enquanto as identidades trans forem vistas enquanto impossibilidades de serem vividas em sociedade, não estaremos livres das amarras das opressões. Enquanto justificarem e legitimarem a violência e exclusão contra pessoas trans, o transfeminismo será necessário.

Publicado em seu perfil do Facebook no dia 13/06/2016.

Estupro não tem classe social nem é problema de falta de educação

Texto de Mayra Cotta para as Blogueiras Feministas.

Estupros acontecem todos os dias, em todo os países e em todas as classes sociais. São cometidos por homens com os mais diversos níveis de educação e renda, contra mulheres das mais distintas afiliações política e religiosa. Não tem cor, nem etnia.

Mas como o nosso sistema punitivo, a nossa mídia e a nossa indignação são profundamente seletivos – tanto em relação a quem queremos punir quanto em relação por quais vítimas iremos nos sensibilizar – o estupro torna-se visível apenas depois que é filtrado pelo racismo e preconceito de classe que estruturam nossas relações e instituições. E, ainda assim, aparece como um fenômeno pontual, individualizado e patologizado – apenas um monstro ou um louco psicopata faria isso com uma mulher, dizem.

O estupro, contudo, é uma violência tão comum e generalizada que, quando as feministas de segunda geração, nos anos 60, começaram a politizar o privado compartilhando umas com as outras suas experiências individuais, perceberam que quase todas tinham ao menos uma experiência de violência sexual para compartilhar. Além do convívio diário com o assédio nas ruas, nos meios de transporte e nas salas de aula, as mulheres também tinham em comum o fato de já terem sido vítimas de violência sexual, em episódios que comumente envolviam conhecidos ou parentes.

Foi nos Estados Unidos de então que o termo “cultura do estupro” surgiu para denunciar esse contrato social machista que aceita, incentiva e esconde o estupro, por meio de práticas diárias de objetificação do corpo feminino e de construção da masculinidade tanto mais valorizada quanto mais viril é.

Meio século depois, a denúncia da cultura do estupro permanece firme  e, infelizmente, necessária. Em 2014, chegou ao ponto de ser reconhecida pela Casa Branca como uma questão social gravíssima a ser combatida. Na época, uma série de acusações de estupro começaram a ser feitas por e contra estudantes de prestigiadas universidades no país. A impressionante quantidade de casos desestabilizou os hipócritas – ou os tão privilegiados que conseguiam mesmo acreditar nisso – que estabeleciam relações de causalidade entre violência sexual e pobreza ou falta de educação.

Manifestação nos Estados Unidos contra a cultura do estupro. Imagem: Mayra Cotta.
Manifestação nos Estados Unidos contra a cultura do estupro. Imagem: Mayra Cotta.

Poucas foram as mulheres, contudo, que se surpreenderam. Afinal, a cultura do estupro nas universidades estadunidenses apenas reproduz as práticas comumente toleradas e frequentemente incentivadas socialmente, seja na rua ou em casa, no bar ou no trabalho.

A diferença é que jovens universitárias da Ivy League fazem parte de uma elite econômica e intelectual que mais facilmente consegue vocalizar suas lutas por conta da posição de privilégio que ocupam. Ou seja, é mais difícil abafar uma denúncia de estupro de uma estudante de Harvard do que de uma moradora da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A luta contra a violência sexual, portanto, precisa ser tão sistêmica quanto o é a cultura do estupro. Isso significa uma resistência diária a todas as piadas, brincadeiras, propagandas de cerveja e de margarina, fiu-fius, apalpadas e tantas outras práticas tão repugnantes quanto socialmente aceitas.

Mas isso também significa que só daremos passos definitivos quando nossa capacidade de nos solidarizarmos com as vítimas e de nos revoltarmos contra os estupradores não dependa nem dos padrões de comportamento impostos desde cedo às mulheres, nem da seletividade do nosso ímpeto punitivo racista e preconceituoso de classe social. Organizemos nossa indignação coletiva por todas as vítimas – e contra todos os estupradores.

Autora

Advogada feminista, entusiasta da Política e resistentemente otimista quanto à possibilidade de um mundo melhor. Formada em Direito pela Universidade de Brasília, mestre em Direito Criminal pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e doutoranda em Política pela New School for Social Research, em Nova York.

O B, o T e outras letrinhas no mundo nefasto da LGBTfobia

Texto de Bárbara Araújo para as Blogueiras Feministas.

Da sigla LGBT, o B e o T têm algumas coisas em comum. Uma delas é a capa de invisibilidade. O T tem sido sistematicamente abandonado pela letrinha dominante no movimento e pela sociedade como um todo. O desconhecimento e a falta de compreensão social em relação a esse grupo resulta na intolerância, no desprezo e na violência intensa: pessoas transgêneras são proporcionalmente as mais expostas a violência física e assassinatos dentre os grupos representados na sigla.

O B vive essa invisibilidade de outra forma. É simplesmente como se não existisse. Uma pessoa trans pode ser identificada visualmente algumas vezes. Uma pessoa bissexual, não. Não existe nada no jeito, na cara de uma pessoa que a identifique para a sociedade como bissexual. Nem mesmo quando a pessoa se assume verbalmente como bissexual a sociedade a identifica como bissexual. Renato Russo disse naquela música: “eu gosto de meninos e meninas”. Mas a sociedade continuou classificando-o como gay.

Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.
Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.

Quando uma pessoa diz que é bissexual, a sociedade lhe responde que ela está confusa. Mesmo o mais progressista dos grupos, mesmo muitos dos militantes pró-LGBT têm grande dificuldade de aceitar – de enxergar – a bissexualidade. Ou você é hétero ou é gay ou é lésbica. Se a sua vida inteira você é uma mulher que se relacionou com homens e passa a se relacionar com uma mulher, entende-se que você “virou lésbica”. Se você é um homem e a vida inteira se interessou por mulheres, mas percebe que sente desejo por um homem, você certamente “virou viado”. Não é costumeiro considerar que você pode não ter “virado” nada, mas que seja bi. Essa possibilidade é simplesmente invisível. No cotidiano, na mídia, dentro da nossa cabecinha. Quantas pessoas bissexuais você conhece? Quantos personagens de filmes e séries são bi? Quantas vezes a bissexualidade é abordada na mídia?

Isso porque, além de heteronormativa, na nossa sociedade a monossexualidade também é compulsória. Ou seja: só pode gostar de um gênero. Ser bissexual é gostar de mais de um gênero. E isso não pode. Aliás, isso não existe. A proposta de que se pode gostar de vários gêneros – não só dois, mas vários – deixa nossa mentalidade binarista perdidinha.

Recentemente, me reuni com uma amiga que é professora de sociologia para organizarmos nossa fala num debate que ocorreu na escola em que trabalhamos sobre a cultura do estupro. Ela me disse que pensava em falar sobre a importância de nomear as coisas: identificar uma situação de assédio ou abuso sexual e nomeá-la devidamente, não ficar em dúvida ou incerto. Identificar e nomear as coisas é poderoso.

Também recentemente, a escola em que trabalhamos esteve na mídia mais uma vez. Dessa vez, estudantes e professoras/es foram ao programa Encontro com Fátima Bernardes para falar (muito rapidinho, infelizmente) sobre a garantia do uso do nome social por estudantes transgeneres. A fala do Rai, pessoa querida e brilhante com quem tenho o prazer de conviver desde que comecei a trabalhar nessa escola, me fez pensar muito. Ele disse que você nunca imagina que você é trans porque você nunca ouviu falar disso na sua vida. Isso ficou ressoando na minha cabeça e me levou a pensar que é justamente isso que o B e o T têm em comum na sigla, como disse na historinha que abriu esse texto.

Eu nunca tinha imaginado que eu era bissexual durante toda a minha adolescência… porque nunca tinha ouvido falar disso. Não conhecia ninguém que fosse, na escola ninguém falava nisso, minha família nunca mencionou isso; enfim, ninguém nunca tinha me dito que isso era uma possibilidade.

Há pessoas que acham que falar de gênero e sexualidade na escola vai fazer as crianças “virarem” gays ou bi ou trans. Mas pelo contrário. Falar de gênero e sexualidade na escola é apresentar as possibilidades de ser, é mostrar um caminho pra quem sabe que é diferente, pra quem se sente diferente, mas não sabe porquê, não conhece sua própria identidade. E isso traz muito, muito sofrimento. Enquanto entender, conhecer e saber nomear é poderoso, empoderador, é um alívio.

Minha vida teria sido outra se minha escola tivesse discutido sexualidade. Hoje sou professora nessa mesma escola e vejo esse debate acontecendo, como resultado da luta de estudantes e professoras/es. Isso precisa acontecer em todo espaço educativo. Projetos de lei como os da Escola sem Partido e aqueles que denunciam uma “ideologia de gênero” são ameaças graves àqueles grupos que já se encontram minoritários em termos de direitos no espaço escolar e na sociedade como um todo. A educação para a diversidade é urgente num contexto onde um assassinato em massa por homofobia tem sido tratado como um caso de “terrorismo islâmico”. A capa de invisibilidade que cobre a transgeneridade e a bissexualidade é a mesma que cobre a própria homofobia e o sexismo em um caso como o massacre de Orlando.

É por isso que precisamos, urgentemente, falar sobre gênero. Precisamos urgentemente afirmar nossa identidade LGBT. Afirmar nossa existência frente à capa de invisibilidade fornecida pela bifobia e pela transfobia. Para nós existir, sobreviver já são formas de resistência. Nos posicionar publicamente sobre quem somos é um ato de coragem.

Nosso apoio as mulheres, prostitutas, feministas e transfeministas da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

*Atualização em 17/06/2016.

Recentemente, foi aberto pela Marcha das Vadias do Rio de Janeiro um evento no Facebook com o título: Turismo sexual e Olimpíadas: quebrando tabus. Organizado pelo Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, o encontro tem como objetivo debater sobre megaeventos, turismo sexual e regulamentação da prostituição.

Sabemos que o tema da prostituição é controverso e gera longos debates dentro do feminismo. Porém, não compreendemos por que as mulheres que estão organizando e que participarão desse evento estão sendo atacadas e ameaçadas por outras feministas, que tentaram inclusive impedir que o evento seja realizado. Como construir um feminismo se as prostitutas não têm direito a falar e apresentar suas propostas?

Para muitas feministas, a prostituição deve ser proibida pois não podemos defender um sistema em que o corpo da mulher torna-se passível de compra e venda, como objetos que servem para reforçar a dominação masculina por meio da satisfação de suas necessidades e que impelem mulheres vulneráveis ou na linha da pobreza a se sujeitarem a mais essa forma de exploração. Com certeza essas são questões importantes na discussão sobre o mercado da prostituição brasileira. Pouco se fala sobre prostituição no Brasil, o tema possui grande estigma social e praticamente nenhum controle ou fiscalização. Porém, é preciso definir e diferenciar o que é prostituição e o que é exploração sexual. Partindo do pressuposto que continuaremos a viver num sistema capitalista, de que maneiras podemos pensar a questão da prostituição? O que podemos fazer para garantir a integridade e autonomia das prostitutas?

No nosso caso, apoiamos a legalização da prostituição por ser uma demanda das prostitutas, especialmente as que estão organizadas em sindicatos ou ONGs. São mulheres que querem questionar limites e repensar os estigmas relacionados as prostitutas. Têm no Projeto de Lei 4.211/2012, conhecido como PL Gabriela Leite, sua principal proposta formalizada. Acreditamos que com a legalização as prostitutas possam ter melhores condições de trabalho e ações mais específicas possam ser implementadas para combater a exploração sexual. Apenas esse projeto de lei não resolve tudo, mas pode ser um início. Pois essa é uma pauta de luta, uma reivindicação de um grupo social. Sem regulamentação, que espaço as prostitutas têm socialmente? Por isso, lutar pela regulamentação da prostituição é uma das pautas do nosso feminismo. Para além de ser uma questão do movimento de prostitutas, também é uma questão sobre mulheres, então acreditamos ser também uma questão feminista.

O turismo sexual no Brasil está muito atrelado a realidade de exploração de mulheres e crianças. Apenas ressignificar o termo não parece suficiente para que os tabus referentes a participação da prostituição em megaeventos sejam desfeitos, por isso acreditamos ser importante para as prostitutas que estão organizando esse evento debater essas questões publicamente. Abrir um diálogo não só com os comitês específicos, mas também com a sociedade em geral e outros movimentos sociais.

Na descrição do evento também é explícita a preocupação com as transformações urbanas que vem ocorrendo na cidade do Rio de Janeiro, o que reflete em legitimação e aprofundamento das desigualdades socioespaciais, já que parcelas mais violentadas da população sofrem com as políticas de remoções, a militarização das periferias, o recolhimento da população em situação de rua e a perseguição aos camelôs e as prostitutas.

Há inúmeras questões sociais que perpassam o tema da prostituição e, acreditamos que nesse encontro também haverá críticas aos megaeventos e como se pretende fazer uma limpeza social da paisagem carioca. Ficamos muito satisfeitas em ver as prostitutas requerendo esse espaço e discutindo seus diferentes papéis sociais, já que para elas, quanto mais legalizadas estiverem, maiores as chances de receberem turistas que buscam sexo pago de forma segura.

Incentivar a legalização da prostituição pode ser justamente uma forma de condenar quem explora mulheres e crianças em situações precárias, pois será possível identificar quem está infringindo as leis referentes a esse trabalho. Sabemos que não há como garantir segurança completa e total para essas trabalhadoras, mas também não estamos conseguindo isso sem regularização. Quanto mais precárias forem as condições de trabalho, mais a margem da sociedade essas mulheres estarão, tendo mais chances de sofrer violência, tendo menos apoio para exigir seus direitos ou receber atendimento digno em delegacias ou unidades de saúde. Com a regularização da prostituição uma parte dessas mulheres já poderia ter acesso a direito básicos trabalhistas, como licenças e outros benefícios.

Não achamos que a prostituição é uma profissão como outra qualquer, nem que seja glamourizada por quem está propondo esse evento. Assim como o emprego doméstico, há uma série de características históricas que fomentam a prática da prostituição, além de ter as mulheres como mão de obra básica. Numa sociedade estruturalmente racista e transfóbica, a prostituição acaba sendo a atividade que acolhe a maior parte das mulheres trans, muitas delas negras, que lutam para garantir um mínimo de dignidade nesse espaço. Assim como lutamos para que empregadas domésticas tenham os mesmos direitos que outras profissões, não podemos fazer o mesmo pelas prostitutas? Por que negar a algumas mulheres o direito de decidirem sobre a autonomia de seus corpos?

Por isso, queremos deixar evidente nosso apoio as mulheres, prostitutas, feministas, transfeministas e ativistas que lutam para que a prostituição seja cada vez mais debatida, para que mais e mais prostitutas tenham voz, autonomia e protagonismo na luta feminista.

*Atualização em 17/06/2016: o 5° parágrafo teve uma frase retirada a pedido das mulheres, prostitutas, feministas e transfeministas da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro.

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013.
Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013.