Nós não somos todas Marielle

Texto de Jussara Oliveira.

E este é o ponto.

Eu sei que dói, e quanto dói, ver alguém que partilhava dos mesmos ideais que a gente tendo a vida arrancada através tamanha violência. Alguém que buscava ser a porta voz da luta por um mundo mais justo, que abraçava diversas pautas que não eram apenas dela, sendo executada com tamanha certeza de impunidade.

Mas nós não somos todas Marielle.

Amigos e amigas minhas a conheceram, trabalharam junto com ela, estavam assistindo ao evento que ela participou um pouco antes de tudo que ocorreu, conversaram com ela, conheciam a família e minha vontade de abraçá-las não cabe em mim.

Mas nós não somos todas Marielle.

Sei que muitas compartilham do mesmo sentimento de nó na garganta, estômago embrulhado, impotência. Muitos choros, silêncios e gritos simbolizam esse lutos em diversas partes do Brasil e do mundo.

Mas nós não somos todas Marielle.

Marielle era uma mulher negra, ativista, vereadora, socióloga, que foi mãe adolescente, cresceu na Maré (um dos maiores conjuntos de favelas do Rio de Janeiro), casada com uma mulher e que defendia direitos LGBTI. Trazia em seu corpo, em seu coração e sua na garra muitas lutas com as quais nos identificamos e podemos até viver algumas na pele.

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Marielle Franco, presente! Por ela e por todas nós.

“Sou uma mulher negra, mas antes disso tenho falado muito que antes de reivindicar e compreender o que era ser uma mulher negra no mundo, eu já era favelada. Nascida e criada na Maré, pra quem não é do Rio, é um Complexo de dezesseis Favelas, Complexo porque é um aglomerado e não porque aquele lugar seja mais complexo que outro na cidade, já que estamos falando de uma favela imersa nesse Rio de Janeiro que, portanto, é tão complexa quanto outros bairros”. Marielle Franco em entrevista a Revista Subjetiva.

A complexa e absurda relação entre a política, a polícia e o crime organizado do Rio de Janeiro nos levou Marielle Franco, 38 anos, assassinada no centro do Rio na saída de evento que reunia ativistas negras. Uma das vereadoras mais votadas nas eleições de 2016, eleita com 46,5 mil votos. Vinha construindo um mandato pautado na defesa do Direitos Humanos, na luta contra o genocídio negro e em propostas que beneficiam mulheres como mudança nos horários de creches e a luta pelo direito ao aborto legal nos casos previstos em lei.

Há indícios de que as mortes de Marielle e do motorista Anderson Pedro Gomes foram uma execução. Em 28 de fevereiro, Marielle Franco havia assumido a relatoria da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio criada para acompanhar a controversa intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Ela vinha se posicionando publicamente contra a medida. Além disso, no início do mês, junto com o coletivo Papo Reto, Marielle denunciou a morte de dois jovens e a truculência policial durante operações na Favela de Acari, na Zona Norte do Rio. A vereadora compartilhou uma publicação em que comenta que os rapazes foram jogados em um valão: “Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior”, escreveu.

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Mulheres com deficiência e a dupla vulnerabilidade

Trecho do artigo ‘Mulheres com deficiência e sua dupla vulnerabilidade: contribuições para a construção da integralidade em saúde’. De Stella Maris Nicolau; Lilia Blima Schraiber e José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres. Publicado na Revista Ciência e Saúde Coletiva em 2013, vol.18, n.3, pg.863-872.

Mulheres com deficiência estão presentes em todas as faixas etárias, etnias, raças, religiões, estratos econômicos e orientação sexual. Historicamente ficaram à margem do próprio movimento de mulheres e do movimento pelos direitos civis das pessoas com deficiência.

No Brasil, segundo dados do Censo de 2000, 14,5% da população brasileira referiu ser portadora de algum tipo de deficiência, sendo que 53,58% desta população é do sexo feminino. Entre as pessoas com mais de 60 anos, 49,64% declararam ter alguma deficiência, e entre crianças até quatro anos essa cifra é de 2,26%. Isto revela que o acúmulo dos anos de vida tem estreita relação com a aquisição de deficiências, e se for considerado que a esperança de vida para as mulheres é maior do que para os homens, mesmo sob iguais condições socioeconômicas, é possível afirmar que a questão da deficiência tende a ser uma relevante problemática de saúde coletiva e de saúde da mulher ao longo de seu ciclo de vida. Trata-se de um segmento da população que conta com ações inexpressivas voltadas para as suas necessidades nos serviços de atenção primária em saúde, que embora historicamente privilegiem a clientela feminina, pouco reconhecem os aspectos relativos aos direitos sexuais e reprodutivos e à dupla vulnerabilidade que as acometem por serem mulheres e portarem deficiências. Esta condição é corroborada na literatura internacional sob a perspectiva da desvantagem: as mulheres com deficiência apresentam duas desvantagens na vida social.

Trabalharemos essa dupla desvantagem pelo conceito de vulnerabilidade. Este permite abarcar diferentes dimensões da experiência vivida relativamente às necessidades de saúde e à atenção dos serviços. Essa dupla vulnerabilidade da mulher com deficiência será discutida com base na integralidade em saúde, já que este princípio levaria as práticas a oferecerem respostas mais abrangentes às necessidades de saúde, abordando-as de modo mais holístico, ao articular a dimensão curativa à prevenção e à promoção da saúde. A integralidade designa um conjunto de valores pelos quais o movimento social em saúde lutou e pretende lutar; uma imagem-objetivo das características desejáveis do Sistema Único de Saúde.

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