Mulher brasileira e preconceito – parte 2

Texto de Maíra Avelar.

Há duas semanas comecei a discutir a questão dos estereótipos construídos em torno da mulher brasileira, com base na reportagem da Revista Focus. De acordo com a minha interpretação, há dois estereótipos que diferenciam a mulher brasileira das portuguesas (e europeias por extensão):

1. “Mulher brasileira é tudo puta”. Que desenvolvi no post: Mulher brasileira e preconceito – parte 1.

2. “A mulher cordial”.

De acordo com a visão de todos os homens portugueses retratadas nas entrevistas e de algumas mulheres, a brasileira demonstraria mais afetividade, seria mais positiva e alegre. Na minha opinião, podemos relacionar, mais amplamente, com a visão do “homem cordial’ (no nosso caso, da “mulher cordial”), brilhantemente retratada por Sérgio Buarque de Holanda em ‘Raízes do Brasil’. Destrinchando o conceito:

O homem cordial, como o próprio Sérgio Buarque explica, não é o homem gentil. Não. Para capturar o significado da expressão, é preciso buscar a etimologia latina do vocábulo cordial: cor, cordis. Coração. O homem cordial é aquele que age movido pelos instintos do coração. Homem visceral, a quem prefirir. O homem cordial, o brasileiro, é aquele que não suporta formalidades. Aquele que quer estreitar distâncias a todo custo. Aquele que prioriza o afetivo, as relações pessoais. Referência: O homem cordial e o desprendimento brasileiro.

Bom, o conceito é supercomplexo e tem outros desdobramentos, mas vou me ater a este, que acaba nos dando o pacote da “mulher cordial”, aquela mais disposta a se abrir afetivamente, que não suporta formalidades. Isso causa um espanto e um fascínio ao mesmo tempo.

Aqui na Europa, do ponto de vista das minhas experiências pessoais, as pessoas não estão acostumadas com o que vou chamar de ostensividade. Essa ostensividade pode ir das atitudes às roupas, pois ela inclui: falar alto, rir, abraçar, passar maquiagem (mesmo que um batonzinho), usar roupas coloridas, conversar com estranhos ou com pessoas que se conheceu há pouco (não aquele “bonjour” básico e sem sal, mas aquele lance de perguntar: “como é que vai a sua família, sua avó, seu cachorro ?”).

Uma pesquisadora argentina (desculpe, estou sem a referência agora) mostrou que, enquanto para os europeus e europeias a educação se demonstra por fórmulas, para os latinoameticanos, ela é demonstrada na afetividade da fala, que inclui, inclusive, a modulação da voz numa frequência mais alta. Repare numa mãe falando com um bebê e note a “estridência” da voz. Esse é um caso clássico onde podemos ver a modulação de maneira mais extrema. Isso pode ser fonte de admiração, “mulher afetiva”, ou de inúmeros mal-entendidos; “mulher grosseira” — onde já se viu perguntar coisas íntimas a alguém pouco conhecido?

No fim das contas, o que vejo em comum entre esses dois estereótipos é a questão do instinto. Somos vistas como instintivas, tanto do ponto de vista afetivo, quanto do ponto de vista sexual. Assim, seríamos vistas pela comunidade europeia como animalescas, inferiores e, sobretudo, como pessoas que não sabem se comportar de acordo com os INFINITOS códigos de conduta deles. Sim, também teço meus juízos de valor. E sim, eles também podem ser relacionados à imagem da “mulher cordial”. Por outro lado, esse comportamento além dos padrões, contraditoriamente, também é fonte de admiração.

Aí entra a tal questão do desejo, numa visão também muito pessoal (e quiçá bastante generalizante e perigosamente estereotipada). Muitas vezes desejamos um pouco ser/ ter aquilo que desprezamos.

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A maternidade e suas facetas

Texto de Danielle Cony.

Quando me descobri grávida, descobri também a dúvida. Tinha acabado de mudar de cidade, estava num emprego legal, estava com o mesmo companheiro por tempos e não tinha certeza se engravidaria novamente (tinha problemas de ovários com pólipos). Contudo, aquele momento não era planejado. Eu não tinha 18 anos, já tinha 28 e ficava me questionando, se já não era de fato a hora e se realmente eu queria ser mãe.

Mas aconteceu. Não foi planejado e decidimos continuar com a gravidez. Tinha muitas dúvidas quanto a maternidade. O exemplo de maternidade nunca me foi comovente. Minha mãe me culpou a vida inteira por ter “estragado” sua vida (e olha que eu fui planejada). Você chega a conclusão sozinha que nem toda mulher nasceu para ser mãe e algumas de fato não deveriam ser.

Eis que me bateu a maior dúvida do mundo. Serei uma boa mãe? Não sou exatamente uma pessoa muito afetuosa, não gosto de plantas e animais. Gostarei da minha filha? E realmente quando ela nasceu a primeira coisa que me veio na cabeça foi: – Fudeu!.

Eu queria sair correndo da maternidade. Olhava para o bebê e não conseguia saber o que sentir. Não a achava legal, não achava “a coisa mais linda do mundo” e um pavor tomou conta de mim. Eu só queria fugir. Não conseguia identificá-la como minha filha.

O primeiro dia foi um inferno. O bebê ficou comigo o tempo todo. O pai também. O pai era totalmente  babão, encantado, feliz, enquanto eu estava dilacerada, perdida. Era uma sintonia muito distinta. O bebê chorava (e muito) a madrugada inteira e, embora o parto tenha sido feito numa das maternidades de referência no Brasil, também sofri alguns abusos da equipe técnica.

Quando chamava a enfermeira (que apelidei de agente da Gestapo), ela aparecia e dizia com um mau-humor impressionante: – É assim mesmo.

E fechava a porta com força. Não importava meu questionamento, ou minha dúvida em relação a fisiologia do bebê. Naquele momento notei o descaso pela maternidade. Como se trazer uma pessoa para o mundo fosse algo sem importância. E, de fato, a maternidade só é exigida, não é reconhecida. Eu pude dizer que o problema era nosso, porque o pai foi impressionante. Não só segurou a barra de um bebê recém-nascido, como também uma mulher com depressão pós-parto.

Após o episódio e a saída da maternidade, voltei para a minha casa. Uma parte da família estava toda lá. Começou a história da amamentação. Você entende o que é para uma mulher com depressão pós-parto amamentar? E minha filha, simplesmente, nunca estava satisfeita. Era um horror! Horas com a criança no peito e quando eu retirava ela gritava de fome. Amamentei de quase arrancar os bicos e a família inteira dizendo que deveria ser apenas o leite materno, que maternidade era isso mesmo: sofrimento. Eu não conseguia achar aquilo correto.

Até que falo com minha mãe ao telefone e ela me diz: – Filha, não fique neurótica com essa amamentação. Se sua filha não está saciada dê um complemento. Ela está com fome.

E foi aí que pensei. Alternativas existem. Você não deve fazer tudo o que esperam de você a todo momento. É assim em tudo. No casamento, com seu peso, no trabalho e também na maternidade. E foi ali, naquele momento que eu aprendi a ser mãe. Porque descobri que eu seria mãe do meu jeito e não da forma cor-de-rosa-assexuada que o mundo oferece. O modelo de mãe não cabia em mim, assim como o modelo de mulher. Eu deveria então construir meu próprio modelo.

Hoje, sou uma ótima mãe, mas sou uma mãe assumida em minhas deficiências. Adoro brincar com minha filha, passo horas com ela lendo, vendo filmes ou fazendo atividades culturais. Enquanto a parte da alimentação e idas ao banheiro deixo com o pai. Ele é melhor nisso. E assim dividimos as atividades e todo mundo ganha. Ninguém fica sobrecarregado. Mas, sei que meu modelo familiar é exceção e que ainda temos que lutar muito para disseminar a inclusão da paternidade na produção de afetividade e integração com os filhos.

Porque acho que a maternidade é importante sim, mas deve ser exercida com liberdade.

Foi apenas um sonho?

Texto de Thayz Athayde.

O filme se passa nos anos 50, uma época em que os papéis estão muito bem aceitos e funcionam corretamente. Mas, April se questiona quem criou esses papéis e quem nos mandou segui-los. Ela busca a felicidade de uma forma dela, não uma inventada.  E nós, feministas, não somos um pouquinho como ela?

O que me espanta é que um tema que deveria ser ultrapassado ainda acontece nos dias de hoje. ‘Foi apenas um sonho‘ (2009) é um filme que trata de várias temáticas e uma delas é a velha polêmica do aborto. Vendo alguns comentários sobre o filme, me deparei com uma mulher falando do quanto o filme é bonito e tocante, mas em relação ao aborto a visão foi muito errada, segundo ela se o filme fosse abordado de uma outra forma a visão sobre o aborto seria outra.

O grande problema é que todos os dias assistimos uma mesma visão sobre o que é abortar. Como é errado, sujo, feio e que provavelmente quem faz vai direto pro inferno, sem escalas. E essa visão engessa, pois coloca a culpa inteira na mulher, como se apenas ela fosse a responsável pelo filho, é só ela quem tem a capacidade de criar o filho. Afinal, a mulher faz o filho sozinha ou o quê?

Cena do filme ‘Foi apenas um sonho’ (Revolutionary Road, 2009).

O filme coloca a posição da mulher em sua própria ótica, coloca o sentimento intenso de quem está presa em um mundo travestido de dona de casa, enquanto aquilo sufoca de uma forma inevitável. April é uma mulher cheia de sonhos e encontra um homem que parece querer as mesmas coisas que ela, mas o padrão e a rotina do casamento assumem um poder maior diante de um mundo de possibilidades. O filme trata do sofrimento de ser uma mulher em que tudo deve ser perfeito e impecável, quando o preconceito de ser uma mulher com desejos era explícito.

Trazendo o filme para os dias de hoje, podemos observar que mudamos muito em relação a certos conceitos, mas não com preconceitos. A mulher hoje tem mais liberdade em relação a seu desejo, mas as pessoas ainda tentam definir e impor qual é o desejo da mulher.

A leveza do filme é realmente desafiadora. Até onde essa leveza incomoda? E em que ponto deixa de ser leveza e trás personagens reprimidos diante de uma naturalidade moral?

A questão é que o filme incomoda, o diretor Sam Mendes o fez de próposito, mostrando o real e deixando o simbólico pra lá. Com maravilhosa trilha sonora de Thomas Newman, atuação extraordinária de Kate Winslet e um Leonardo DiCaprio muito mais maduro como ator, o filme é uma grande terapia no qual nos perguntamos: eu sou realmente feliz?