E o lixo do banheiro, quem tira?

Texto de Tica Moreno.

Quem nunca se preocupou em trocar o lixo do banheiro, que sempre achou que este desaparecia num passe de mágica, deve ter ficado preocupada ao ler a matéria sobre a dificuldade de se encontrar empregadas domésticas nas grandes metrópoles, que saiu domingo na Folha Cotidiano: Achar doméstica vira desafio e famílias tem que mudar hábitos.

Limpar o banheiro, a cozinha, lavar roupa suja, estender e passar, lavar o box do chuveiro, o vidro da janela, o chão da área de serviço. As empregadas domésticas fazem todo aquele serviço que ninguém gosta de fazer. As diaristas tem um trabalho ainda mais intenso. Muitas vezes, tem que fazer o trabalho de uma semana em um dia. É um serviço penoso, pesado, que dá dor nas costas, que te expõe a produtos de limpeza que podem fazer mal para saúde.

Fora cozinhar, não conheço outras tarefas domésticas que as pessoas dizem gostar de fazer.

O enfoque da Folha escancarou a preocupação de um setor da sociedade que está, ou estava, (mal) acostumado a ter alguém 24 horas disponível. Os exemplos tinham a ver com as empregadas domésticas que dormem no serviço, trabalham nos finais de semana, folgam a cada 15 dias.

Gente, nem quem adora muito o emprego que tem gostaria de dormir nele, né?

Alguma coisa está errada em uma sociedade que acha super normal que você repasse para outra pessoa uma série de tarefas necessárias para seu bem estar. Tarefas que você não gosta de fazer, mas não vive sem. A outra pessoa pode ser sua mãe, sua avó, sua irmã, sua namorada – que fazem de graça. Ou pode ser uma empregada doméstica, ou diarista, que faz por um salário bem baixo. E aí tem gente que ainda reclama que “tá caro”.

Cena do documentário Domésticas (2012) de Gabriel Mascaro.

O mínimo, para começo de conversa quando a gente fala de emprego doméstico, deveria ser considerar que as mais de 7 milhões de pessoas que são empregadas domésticas — mais de 90% mulheres, a maioria negras — são trabalhadoras/es que deveriam ter direitos trabalhistas garantidos, como a obrigatoriedade do FGTS e 40 horas de jornada semanal. Mas a realidade é outra, como a própria reportagem aponta: apenas 27,5% tem carteira de trabalho assinada.

E, um entrevistado mencionou que, como nos países ricos, a tendência é que ter empregada doméstica viraria luxo. Ele só esqueceu de comentar que em vários países da Europa, que não tinham a tradição do emprego doméstico como nós temos aqui no Brasil, o emprego doméstico está crescendo. Babás, cuidadoras, empregadas domésticas. Ganham pouco, pouquissimo. Na maior parte das vezes são imigrantes em uma situação irregular no país.

Acho que é muito difícil discutir o assunto do emprego doméstico sem olhar para o trabalho doméstico como um todo, incluindo o trabalho doméstico não remunerado que nós fazemos todos os dias.

E parto aqui da premissa de que o trabalho doméstico não é responsabilidade natural das mulheres. Mas o que ainda acontece é que somos nós que gastamos mais horas das nossas vidas fazendo esse trabalho. A média semanal é de 25 horas para as mulheres e 10 horas para os homens. E, vejam só, a média entre as mulheres casadas aumenta pra 29,2 horas! Ou seja, ser casada/dividir a casa acaba dando mais trabalho!

É a combinação da desigualdade social, de gênero e racial que permite que 16,4% das mulheres ocupadas no Brasil sejam empregadas domésticas. É a principal ocupação feminina. Para esse número diminuir, precisa ainda de muita coisa: mais alternativas de empregos decentes e com garantia de direitos para as mulheres, ampliação dos serviços públicos, garantia de creches públicas e educação infantil em horário integral e uma profunda alteração na divisão sexual do trabalho.

Ou seja, o Estado tem que assumir a garantia de serviços que rompam com a idéia de que a produção do viver deve se dar só dentro de casa. Restaurantes populares, lavanderias coletivas e creches são um caminho. E os homens tem que assumir sua responsabilidade nas tarefas domésticas. Não basta só ajudar de vez em quando a trocar uma lâmpada ou lavar a louça. Precisa dividir e assumir as tarefas.

Um país com justiça social não pode ter como principal ocupação feminina um serviço que ninguém mais quer fazer.

The Runaways – Garotas do Rock

Texto de Bia Cardoso.

Que tal um filme totalmente #GirlPower? A dica, que está chegando em dvd e blue-ray, é The Runaways – Garotas do Rock.

Em 1975, surgiu a primeira banda de rock, que fez sucesso, formada somente por garotas. O filme The Runaways conta a história de como a guitarrista Joan Jett conheceu o produtor Kim Foley e a vocalista Cherie Curie (as três peças chaves da banda segundo o filme), e todo o trajeto da fama até o fim da parceria após inúmeras brigas.  Parece uma cinebiografia como qualqer outras mas há razões especiais para vocë ver o filme:

– A história de Joan Jett. É bacana assistir como Joan tem o sonho de ser uma rockstar e isso a persegue. Ela quer muito aprender a tocar guitarra e vai fazer isso contra tudo e contra todos. A banda e a música são sua vida e Kristen Stewart sabe nos mostrar que Joan nunca irá desistir de seu sonho.

– Dakota Fanning prova que cresceu e tem muito a mostrar como atriz. A cena de abertura é extremamente feminina e determina que o filme é sobre mulheres e, como elas se sentem deslocadas num mundo machista que não lhe abre oportunidades de ser quem querem ser. Dakota está linda, angelical, sexy e agressiva quando o papel exige. Uma pena que não teve seu talento reconhecido nas premiações. Uma atuação memorável.

– O filme foca em Joan Jett e em Cherie Currie. Infelizmente as outras meninas da banda não aparecem muito, mas dá para notar que cada uma tem personalidade própria e que fizeram história tornando-se a primeira banda famosa de garotas.

– Como toda cinebiografia rock`n roll sexo e drogas são presenças garantidas. Mas há espaço para histórias pessoais e perrengues familiares, mostrando que toda estrela do rock tem uma vida ordinária por trás.

– O show do Japão foi reproduzido com perfeição e você pode conferí-lo no youtube.

– Até hoje é difícil encontrar bandas formadas apenas por garotas. Esse já é um bom motivo para conferir The Runaways – Garotas do Rock.

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Mulher desdobrável ou puta? Presente!

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

A última vez que escrevi aqui, falei de como o fardo feminista andava pesado: ‘Mulher desdobrável ou mal humorada? Presente!’. Ou de um lado somos mal humoradas e mal amadas, ou de outro fáceis e destruidoras da família tradicional.

Vamos lá, então. Ao final terminei citando uma frase de Simone de Beauvoir sobre essa mulher livre e seu fardo: “Na França, principalmente, confunde-se obstinadamente mulher livre com mulher fácil”. É essa a segunda sina do feminismo — apesar de ter a sensação que o número pode ser ainda maior…

A estrutura do patriarcado sustenta-se, entre outras coisas, na repressão do desejo feminimo. Nossa cultura não só objetifica a mulher como também a infantiliza, tudo com uma mesma mensagem interna: o corpo feminino é uma propriedade de todos, menos da própria mulher. E aí vem o carimbo de que falei. Uma feminista, ao defender a “retomada” do corpo feminimo para si mesma, torna-se o inimigo, a libertária… a puta.

A cultura machista precisa repetir a mensagem de que o corpo feminino é um objeto para a admiração e deleite de todos, ou melhor, para o controle masculino. Essa objetificação inferioriza — e eu nem precisava dizer isso, óbvio, se a mulher é um objeto… o que mais dizer? Com isso, no entanto, não me refiro apenas ao fato de transformar a mulher em um enfeite, um meio de vender de cerveja a carros; a questão vai além.

A objetificação e a infantilização garantem o controle masculino sobre o desejo e o prazer femininos. E as feministas, de novo, no caminho. Ora, uma mulher que defende que o desejo feminino tem ou pode ter os mesmos contornos do tão proclamado, comentado, institucionalizado desejo masculino, só pode ser uma… puta! Afinal, o patriarcado não pode aceitar essa mulher libertária dona do próprio nariz… e do próprio orgasmo.

“Como, então, continuar controlando essa mulher que já sabe os caminhos do próprio corpo e dele se reconhece, agora, dona?”, pensa o patriarcado. “Daqui em diante, diremos que mulheres assim querem destruir a família, a moral, os bons costumes. Mulheres assim querem viver promíscua e irresponsavelmente e depois é só fazer um aborto”.

Então, se defender que meu corpo é meu, que meu desejo deve depender apenas da minha livre decisão e não das imposições da falsa moralidade do patriarcado é ser puta? Presente! E se você acha que isso retira o prazer masculino da conquista, da sedução… só posso dizer que você deveria conhecer mais feministas em sua vida e somar a ela um pouco mais de criatividade e prazer de verdade.

E se ao ler tudo isso você pensou: puta! Obrigada, você acabou de validar cada uma das minhas palavras acima.