Feminismo? Pra quê?

Texto de Bia Cardoso.

A gente não quer só comida. A gente quer direitos iguais, uma sociedade justa e pessoas com mais respeito. Talvez esse seja um resumo do que quer o Feminismo. O tão atacado e escorraçado Feminismo. Um movimento social e político que busca empoderar as mulheres e propor medidas igualitárias de gênero na sociedade.

Conheço muitas mulheres que são feministas, mas que não se declaram feministas. Porque a palavra ganhou um estigma com o passar dos anos. Porém, a grande maioria das mulheres que conheço são feministas, basta você fazer fazer um checklist na lista elaborada pela Cynthia. E este é um espaço de Blogueiras Feministas, o que significa que o Feminismo está aí querendo valer o nosso suor.

Mas, para que o Feminismo existe? O Feminismo existe justamente para as mulheres se posicionarem politicamente, para se unirem em torno de objetivos comuns e lutarem por eles. Os homens são maioria nas esferas de poder do Estado brasileiro. É uma maioria esmagadora. Isso faz com que políticas para mulheres não sejam aprovadas? Não. Várias políticas para mulheres são aprovadas. Mas isso faz com que mais políticas essenciais para as mulheres não sejam aprovadas? Sim. Porque diferentes grupos de pessoas tem diferentes tipos de demandas e, se as mulheres não estão representadas de maneira igualitária nas esferas de poder, muitas propostas que beneficiariam muitas mulheres não são feitas. Isso vale também para negros, homossexuais, deficientes físicos e outros grupos sociais de pessoas que sofrem preconceito e discriminação todos os dias. Representatividade nas esferas de poder  e movimentos sociais organizados são fundamentais para inserir na agenda política do país questões como o aborto, o casamento gay, cotas nas universidades, etc.

As pessoas tendem a se afastar da política, a acreditar que este é um assunto chato e desinteressante. É justamente essa falta de consciência política que agrava as desigualdades sociais em nosso páis. Dá trabalho ser cidadão e cidadã, mas é fundamental se envolver politicamente para construir uma sociedade melhor. E aqui não digo que você deve se filiar a um partido político, mas que você deve ter posições políticas claras e reflexões políticas constantes. Se puder se unir a algum movimento social com o qual se identifique melhor ainda.

No caso do Feminismo ele é um movimento político e social que precisa mudar não só as relações sociais, como também as relações internas entre a família e os casais. Homens e Mulheres têm papéis bem definidos socialmente.  Muitas vezes casais homossexuais reproduzem esses papéis. Existem coisas que homem faz e coisas que mulher faz. Até hoje vemos diversos exemplos, como estes apontados por Bruna Provazi:

Sabe aquele professor de Cinema massa – simpático à causa feminista até – que chama as alunas pra fazerem produção, direção de arte, maquiagem e figurino, e chama os alunos pra fazerem fotografia, iluminação, assistência de direção? Sabe aquele seu amigo vídeoartista que conhece umas duas ou três fotógrafas boas, mas que acaba chamando sempre um cara que ele ouviu dizer que é bom também pra trampar com ele? Sabe quando sua mãe pede pra você ajudá-la na cozinha ou na casa, por que seu irmão não leva jeito pra isso? Chama divisão sexual do trabalho.

A luta diária feminista inclui questionar essas divisões. Porque muitas vezes elas se tornam invisíveis, afinal todos os dias esses estereótipos são cada vez mais solidificados em nossas mentes. Preciso falar da importância do feminismo frente os casos de violência contra mulher? Porque as vezes parece que os dados não são tão óbvios e não se relacionam, especialmente na mídia, como mostra a Maira Kubik:

Só que o que acontece com o jornalismo brasileiro é que não estamos acostumados a ver essas pautas sob uma perspectiva de gênero. E, assim, acabamos não conectando uma coisa com a outra: se a violência contra a mulher têm ainda altos índices no Brasil, é claro que cria-se um clima de permissividade para cometê-la. E logo vemos casos de assassinato ou de situações constrangedoras, como a vivida pela policial.

Então, o que proponho a você hoje é sentar e ler um pouco sobre feminismo. Esqueça os estereótipos de que feminista é o bicho-papão que quer enfiar um salto alto na sua goela. Abra o olho e conheça um movimento social que perpassa diversas relações como Maternidade e Feminismo, História e Feminismo, Violência e Feminismo, entre outros. Além é claro dos diversos feminismos, pois as prioridades mudam de acordo com os grupos sociais do qual a mulher faz parte. Existe o feminismo das mulheres negras, das lésbicas, das trabalhadoras rurais, da empregadas domésticas, das acadêmicas, das mulheres brancas de classe média, etc.

Aqui no blog você tem muitos posts sobre o assunto, além do blogroll aí do lado esquerdo. Na rede você encontra diversos textos acadêmicos e informações que podem enriquecer seus conhecimentos acerca do Feminismo. Aqui vão algumas dicas do que andei lendo recentemente:

[+] Forito – Jovens Feministas Presentes. Publicação que é resultado de oito anos de encontros do Fórum Cone Sul de Mulheres Jovens Políticas. Possui depoimentos, artigos e entrevistas que tratam de feminismo, violência, direitos reprodutivos, participação política e identidade cultural.

[+] Nós Mulheres e Nossa Experiência Comum de Silvia Camurça e Para Redescobrir o Feminismo de Christine Delphy. O primeiro texto dialoga com o segundo tratando das dificuldades encontradas pelo movimento feminista e quais seriam as principais demandas atuais.

[+] A Feminista Como o Outro de Susan Bordo. A partir do conceito de “O “Outro” de Simone de Beauvoir a autora mostra como as crítica às feministas são muitas vezes pautadas em estereótipos e como o não reconhecimento das teóricas feministas fora do Feminismo é prejudicial para as discussões de gênero.

Mulher brasileira e preconceito – parte 2

Texto de Maíra Avelar.

Há duas semanas comecei a discutir a questão dos estereótipos construídos em torno da mulher brasileira, com base na reportagem da Revista Focus. De acordo com a minha interpretação, há dois estereótipos que diferenciam a mulher brasileira das portuguesas (e europeias por extensão):

1. “Mulher brasileira é tudo puta”. Que desenvolvi no post: Mulher brasileira e preconceito – parte 1.

2. “A mulher cordial”.

De acordo com a visão de todos os homens portugueses retratadas nas entrevistas e de algumas mulheres, a brasileira demonstraria mais afetividade, seria mais positiva e alegre. Na minha opinião, podemos relacionar, mais amplamente, com a visão do “homem cordial’ (no nosso caso, da “mulher cordial”), brilhantemente retratada por Sérgio Buarque de Holanda em ‘Raízes do Brasil’. Destrinchando o conceito:

O homem cordial, como o próprio Sérgio Buarque explica, não é o homem gentil. Não. Para capturar o significado da expressão, é preciso buscar a etimologia latina do vocábulo cordial: cor, cordis. Coração. O homem cordial é aquele que age movido pelos instintos do coração. Homem visceral, a quem prefirir. O homem cordial, o brasileiro, é aquele que não suporta formalidades. Aquele que quer estreitar distâncias a todo custo. Aquele que prioriza o afetivo, as relações pessoais. Referência: O homem cordial e o desprendimento brasileiro.

Bom, o conceito é supercomplexo e tem outros desdobramentos, mas vou me ater a este, que acaba nos dando o pacote da “mulher cordial”, aquela mais disposta a se abrir afetivamente, que não suporta formalidades. Isso causa um espanto e um fascínio ao mesmo tempo.

Aqui na Europa, do ponto de vista das minhas experiências pessoais, as pessoas não estão acostumadas com o que vou chamar de ostensividade. Essa ostensividade pode ir das atitudes às roupas, pois ela inclui: falar alto, rir, abraçar, passar maquiagem (mesmo que um batonzinho), usar roupas coloridas, conversar com estranhos ou com pessoas que se conheceu há pouco (não aquele “bonjour” básico e sem sal, mas aquele lance de perguntar: “como é que vai a sua família, sua avó, seu cachorro ?”).

Uma pesquisadora argentina (desculpe, estou sem a referência agora) mostrou que, enquanto para os europeus e europeias a educação se demonstra por fórmulas, para os latinoameticanos, ela é demonstrada na afetividade da fala, que inclui, inclusive, a modulação da voz numa frequência mais alta. Repare numa mãe falando com um bebê e note a “estridência” da voz. Esse é um caso clássico onde podemos ver a modulação de maneira mais extrema. Isso pode ser fonte de admiração, “mulher afetiva”, ou de inúmeros mal-entendidos; “mulher grosseira” — onde já se viu perguntar coisas íntimas a alguém pouco conhecido?

No fim das contas, o que vejo em comum entre esses dois estereótipos é a questão do instinto. Somos vistas como instintivas, tanto do ponto de vista afetivo, quanto do ponto de vista sexual. Assim, seríamos vistas pela comunidade europeia como animalescas, inferiores e, sobretudo, como pessoas que não sabem se comportar de acordo com os INFINITOS códigos de conduta deles. Sim, também teço meus juízos de valor. E sim, eles também podem ser relacionados à imagem da “mulher cordial”. Por outro lado, esse comportamento além dos padrões, contraditoriamente, também é fonte de admiração.

Aí entra a tal questão do desejo, numa visão também muito pessoal (e quiçá bastante generalizante e perigosamente estereotipada). Muitas vezes desejamos um pouco ser/ ter aquilo que desprezamos.

[+] Como manter um homem loucamente apaixonado.

A maternidade e suas facetas

Texto de Danielle Cony.

Quando me descobri grávida, descobri também a dúvida. Tinha acabado de mudar de cidade, estava num emprego legal, estava com o mesmo companheiro por tempos e não tinha certeza se engravidaria novamente (tinha problemas de ovários com pólipos). Contudo, aquele momento não era planejado. Eu não tinha 18 anos, já tinha 28 e ficava me questionando, se já não era de fato a hora e se realmente eu queria ser mãe.

Mas aconteceu. Não foi planejado e decidimos continuar com a gravidez. Tinha muitas dúvidas quanto a maternidade. O exemplo de maternidade nunca me foi comovente. Minha mãe me culpou a vida inteira por ter “estragado” sua vida (e olha que eu fui planejada). Você chega a conclusão sozinha que nem toda mulher nasceu para ser mãe e algumas de fato não deveriam ser.

Eis que me bateu a maior dúvida do mundo. Serei uma boa mãe? Não sou exatamente uma pessoa muito afetuosa, não gosto de plantas e animais. Gostarei da minha filha? E realmente quando ela nasceu a primeira coisa que me veio na cabeça foi: – Fudeu!.

Eu queria sair correndo da maternidade. Olhava para o bebê e não conseguia saber o que sentir. Não a achava legal, não achava “a coisa mais linda do mundo” e um pavor tomou conta de mim. Eu só queria fugir. Não conseguia identificá-la como minha filha.

O primeiro dia foi um inferno. O bebê ficou comigo o tempo todo. O pai também. O pai era totalmente  babão, encantado, feliz, enquanto eu estava dilacerada, perdida. Era uma sintonia muito distinta. O bebê chorava (e muito) a madrugada inteira e, embora o parto tenha sido feito numa das maternidades de referência no Brasil, também sofri alguns abusos da equipe técnica.

Quando chamava a enfermeira (que apelidei de agente da Gestapo), ela aparecia e dizia com um mau-humor impressionante: – É assim mesmo.

E fechava a porta com força. Não importava meu questionamento, ou minha dúvida em relação a fisiologia do bebê. Naquele momento notei o descaso pela maternidade. Como se trazer uma pessoa para o mundo fosse algo sem importância. E, de fato, a maternidade só é exigida, não é reconhecida. Eu pude dizer que o problema era nosso, porque o pai foi impressionante. Não só segurou a barra de um bebê recém-nascido, como também uma mulher com depressão pós-parto.

Após o episódio e a saída da maternidade, voltei para a minha casa. Uma parte da família estava toda lá. Começou a história da amamentação. Você entende o que é para uma mulher com depressão pós-parto amamentar? E minha filha, simplesmente, nunca estava satisfeita. Era um horror! Horas com a criança no peito e quando eu retirava ela gritava de fome. Amamentei de quase arrancar os bicos e a família inteira dizendo que deveria ser apenas o leite materno, que maternidade era isso mesmo: sofrimento. Eu não conseguia achar aquilo correto.

Até que falo com minha mãe ao telefone e ela me diz: – Filha, não fique neurótica com essa amamentação. Se sua filha não está saciada dê um complemento. Ela está com fome.

E foi aí que pensei. Alternativas existem. Você não deve fazer tudo o que esperam de você a todo momento. É assim em tudo. No casamento, com seu peso, no trabalho e também na maternidade. E foi ali, naquele momento que eu aprendi a ser mãe. Porque descobri que eu seria mãe do meu jeito e não da forma cor-de-rosa-assexuada que o mundo oferece. O modelo de mãe não cabia em mim, assim como o modelo de mulher. Eu deveria então construir meu próprio modelo.

Hoje, sou uma ótima mãe, mas sou uma mãe assumida em minhas deficiências. Adoro brincar com minha filha, passo horas com ela lendo, vendo filmes ou fazendo atividades culturais. Enquanto a parte da alimentação e idas ao banheiro deixo com o pai. Ele é melhor nisso. E assim dividimos as atividades e todo mundo ganha. Ninguém fica sobrecarregado. Mas, sei que meu modelo familiar é exceção e que ainda temos que lutar muito para disseminar a inclusão da paternidade na produção de afetividade e integração com os filhos.

Porque acho que a maternidade é importante sim, mas deve ser exercida com liberdade.