ENAMB 2011: Diário de militante

Texto de Priscilla Caroline.

Cheguei ao lugar marcado antes de todo mundo. Estava um calor infernal, prenúncio de chuva, clima típico de Brasília. Sentei debaixo de uma árvore e esperei. Fiquei pensando nas pessoas que vieram de longe para participar do ENAMB – Encontro Nacional de Articulação das Mulheres Brasileiras, se elas se sentiriam acolhidas.

Brasília é uma cidade que todo mundo diz ser fria. Não sei muito bem, porque não moro no centro… A periferia é diferente, as pessoas se visitam, jogam conversa fora, acompanham a sua vida. No Plano Piloto cada um cuida do seu quadrado, vizinhos de apartamento mal se falam. Só que encontro de movimentos sociais é diferente, as pessoas se reúnem para tentar mudar o mundo. Hum… boas lembranças dos Fóruns Sociais Mundiais…

Quando os ônibus chegaram, foi uma alegria só. Preparação para a batucada, faixas, tudo muito colorido. Saímos do estacionamento do Teatro Nacional e seguimos para a Rodoviária do Plano Piloto. Para quem não conhece Brasília, a rodoviária é o ponto do centro da cidade por onde todo mundo passa. Quase todos os ônibus que vão para as cidades-satélites têm o local como seu principal destino. É por lá que quase todos os trabalhadores que ocupam aqueles prédios da esplanada que nas fotos parecem vazios passam. Os que não usam carro, claro.

Foto de Priscilla Caroline em CC, alguns direitos reservados.

Rodamos a rodoviária por cerca de uma hora mais ou menos. Entoamos gritos de guerra ora sérios, ora divertidos, sempre com muita alegria.

João, João, faz o seu feijão! Zeca, Zeca, Lava a sua cueca! Ernesto, Ernesto, aprende a fazer sexo!

O corpo/ é da mulher/ e ela dá pra quem quiser,/ inclusive outra mulher!

Feministas contra o machismo, contra o racismo, contra o terrorismo neoliberal…

Muitas pessoas paravam para ver o que estava acontecendo. Muitas se irritaram, especialmente quando o grupo parava nas escadas bloqueando boa parte da passagem. Muitas sorriram, simplesmente, parecendo simpatizar com todo aquele alvoroço. Nessas, quem sabe, plantamos uma sementinha da luta contra a opressão às mulheres.

Quanto a mim, vou continuar nessa luta. Ainda não podemos viver a igualdade nas nossas diferenças e é por isso que ainda há tanto pelo que lutar.

ENAMB – 2011

Começou hoje o Encontro Nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras, com um ato político na rodoviária do centro de Brasília. Nos dias 31 de março e 1º e 2 de abril, as atividades ocorrerão no Centro Comunitário da Universidade de Brasília. Cerca de 700 pessoas participam do Encontro, vindas de todas as regiões do país.O objetivo do encontro é debater algumas pautas do movimento feminista e de que forma a Articulação de Mulheres Brasileiras deve atuar em relação a elas. Para mais informações acesse: articulacaodemulheres.org.br .

Maria, a amiga íntima

Texto de Fabiana Motroni.

Este texto foi inspirado neste da Nina Lemos, que dialoga com este da Clarissa Corrêa e torce pelo que pode simbolizar a vitória da Maria no BBB11.

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Sou cada vez mais Maria. E hoje, um dos meus maiores desafios pessoais é equilibrar essas Marias dentro de mim, mantendo-as vivas e operantes, evitando que alguma Maria se sobressaia tanto a ponto de apagar as outras — e me fazer esquecer da existência de todas elas.

Mas, para além do exercício pessoal, meu ativismo feminista também me lembra da responsabilidade que tenho em falar das coisas sobre as quais acredito, e defendê-las — no caso, a nossa liberdade de escolha de como ser e viver o sexo — por isso enfrentei recentemente meus medos sociais e fiz até mesmo um exercício de ‘confissão pública’ na reportagem: ‘Chegar ao orgasmo é fácil, ficar satisfeita é difícil‘.

Acredito que esse exercício da sexualidade é fundamental — tanto o agir quanto o falar sobre — e me fez dar saltos quânticos em várias dimensões da minha vida. E, não é só pelo exercício em si da sexualidade, esse lance de se conhecer e respeitar seus desejos, mas especialmente pelo exercer a sexualidade fora de discursos de certo e errado, fora de acordos sociais tácitos que fizeram por você, sem te pedir opinião.

Li o texto da Clarissa Corrêa esses dias e gostei, claro, pois ela descreveu, toda prosa (e poética), a Maria que somos e que evitamos ser. Mas algo me incomoda muito na frase com que ela fecha o texto: “A Maria, minha amiga, é a inimiga íntima de toda mulher“.

Maria Melillo, participante do BBB 11.

Lógico que pode haver poesia aí, dialética, inversão semântica, que seja. A questão é que realmente acho que, mesmo com todas as licenças poéticas, não devemos nunca usar “inimiga íntima” — nem literal, nem simbolicamente — na representação dessa Maria, esse lado ‘piriguete’ e fundamental na vida da gente.

Pode ser que nesse “inimiga” a Clarisse tenha invocado as representações do feminino, shakti, o lado oculto da lua, as deusas da criação e da destruição. Mesmo assim, longe de ser um bom recurso linguístico, é uma valorização da contradição ‘bem x mal’ que nós mulheres realmente não precisamos viver (ainda mais) — nem no discurso nem na vida real. E, especialmente quando se trata da nossa dimensão sexual, das nossas manifestações sexuais, do nosso agir sexualmente, fato e assunto que se tenta insistentemente caricaturizar e endeusar — mantendo isso bem dentro dos livros (a mente) e bem longe das ruas (o corpo).

Para mim, Maria é nossa amiga mais íntima, nossa maior amiga, nossa maior amiga íntima. O íntimo tem duplo sentido também, pois a sexualidade é nossa espinha dorsal, nossa força, nossa fonte de energia física, espiritual e todos os outros nomes que você usa para descrever as suas dimensões de ser humano.

No tarot — que é um dos vários sistemas arquetípicos que o ser humano criou, um espelho simbólico pra facilitar nossa leitura de nós mesmos — existe um arcano chamado a Imperatriz. Ela simboliza uma mulher em sua completude, que vive e/ou tenta viver todas as suas dimensões e potencialidades, seja sendo uma profissional, seja sendo mãe (não necessariamente tendo filhos seus, olha só), seja sendo amiga de seus amigos, companheira de seus companheiros, seja sendo a mais piriguete das amantes. É a Rainha, dona de si, do seu destino, da sua história.

Maria é uma dessas várias mulheres que fazem de uma mulher a Imperatriz. A soberana da sua vida, tendo o compromisso consigo e com o mundo de ser e viver sua plenitude de mulher e de ser humano.

Ah, e falando em plenitude de ser humano e em sexualidade livre da normatização, sabe o homem? Essa criatura aparentemente livre no exercício da sexualidade e nas escolhas? Ele está precisando — e muito — de uma revolução sexual pra chamar de sua. Mas isso é papo para outro texto, pois hoje é dia de Maria.

Romance água com açúcar? Sim, por favor!

Texto de Renata Lima.

A primeira vez que consumi, foi em segredo. Peguei escondido. Se tornou um vício. Gastava toda a mesada comprando. Certa vez, no intervalo da escola, acho que estava na oitava série, uma colega de sala me viu tentando esconder, mas percebeu o que era. E se aproximou, perguntando se eu não topava dividir. Não imaginam o alívio que senti ao saber que outras pessoas também gostavam.

É, isso mesmo que vocês estão pensando: romances de banca, literatura açucarada vendida a preços populares, impressa em papel de jornal, com capas ligeiramente bregas.

O primeiro que li foi um Barbara Cartland da minha tia. Ficava meio escondido e, como tinha um casal se beijando, eu, no auge dos meus 13 anos, achei aquela clandestinidade excitante. Li em poucas horas, escondida. Confesso que achei meio frustrante, já havia lido cenas mais picantes nos livros de Sidney Sheldon e Harold Robbins, também lidos em segredo, furtivamente, das estantes dessa mesma tia.

Depois, descobri outros: Julia, Sabrina, Bianca, Momentos Íntimos. Esses eram contemporâneos, mas sempre tinham o mesmo roteiro: mocinha virgem, ingênua, mas determinada, conhece homem — em geral de extrato social superior — e passa por vários percalços até viver feliz para sempre. Em geral, o inimigo do casal era a Ex do protagonista, ou a mãe deste, que era contra o filho casar com alguém de outra classe social.

Depois, descobri os históricos. Capas melodramáticas, sem o menor respeito pelas vestimentas de época, com cenas que por mais que procurássemos não encontravamos no livro. Eu gostava de pesquisar na Barsa lá de casa sobre os países e reis retratados nos livrinhos que lia.

E, vejam a contradição: nos históricos, nem sempre a mocinha era a sonsa dos contemporâneos, em geral era uma mulher à frente de seu tempo.

Nessa mesma época, descobri, no mesmo nicho, a coleção “Angélica, a Marquesa dos Anjos”.

Passada na época do auge do absolutismo francês, retrata uma jovem, Angélica, que se casa com um conde, mas é desejada pelo rei Luís XIV e por todos os homens (e até mulheres) que cruzam seu caminho. Angélica passa por inúmeros tormentos durante a saga, que cobre mais de vinte anos pela França, Oriente Médio, onde ela, previsivelmente, é feita odalisca em um harém, até chegar no Canadá.

Esses livros, junto com a saga das “Brumas de Avalon”, foram responsáveis pelo meu excelente desempenho escolar em literatura, português, história e geografia. E mesmo assim, quando um professor de literatura me viu lendo um desses, teve o desplante de dizer que estava decepcionado, que logo eu, boa aluna, com potencial lesse aquela cultura inútil.

Durante o segundo grau (hoje ensino médio), na década de noventa, descobri que uma colega de sala também os lia e colecionava, passamos a compartilhar o consumo. Na banca de revista do bairro era fácil encontrar novos ou mesmo trocar nossos usados. Ao contrário dos livros das livrarias, os romances eram baratos e cabiam em nossas contas de estudantes.

Já havia lido quase tudo da biblioteca da escola e costumava ir a Biblioteca Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade, para descobrir novos livros, mas os romancezinhos… ah, eram uma tentação. Leitura fácil, leve, sem complicações e com garantia de final feliz. Precisa mais?

Até na faculdade lembro de ainda lê-los, escondida às vezes, sob as capas de códigos penais e outros livros de Direito. Quando decidi assumir que realmente comprava e lia os tais romances, as reações foram as mais diversas, passando pelo pasmo até a repreensão. Minha mãe não entendia como eu podia gostar desses livrinhos “cheios de bobagens” e repreendia minha tia por compartilhar comigo e por ser minha iniciadora, mesmo involuntária.

Com o acesso à internet, descobri que eu não era a única, pelo contrário!

No livro ‘Todo mundo que vale a pena conhecer’ de Lauren Weisberger (autora de ‘O Diabo veste Prada’), a protagonista é uma garota que transita pelo mundo da alta sociedade e das baladas de NY, para desgosto de seus pais hippies. O livro é bem fraquinho, mas me identifiquei com Bette Robinson porque ela lia os romances sentimentais e passou pelas fases da negação, culpa, até a aceitação. No livro, ela encontra um grupo de mulheres como ela, que não se encaixavam nos estereótipos sobre quem lê esse “tipo” de literatura.

Descobri que existem teses acadêmicas sobre os “romances de banca”, “romances sentimentais” e outras denominações. Simone Regina Ferreira Meirelles escreveu a dissertação ‘Das bancas ao coração: romances sentimentais e literatura hoje’ (.pdf) e continuou com o tema no doutorado por meio da tese ‘Romance com coração: leitura e edição de romances sentimentais no Brasil’ (.pdf).

No capitulo sobre a leitura crítica feminista, a pesquisadora cita:

“Culler cita ainda o estudo de Jane Tompkins, sobre A Cabana do Pai Tomás, em Sentimental Power, do qual nos interessa a seguinte questão: embora seja na avaliação de Tompkins o mais importante livro do seu século, A cabana… é colocado em um gênero – o romance sentimental – “escrito por, sobre e para mulheres, e portanto, visto como lixo ou pelo menos não merecedor de uma crítica séria”. Ou seja, o próprio gênero é relegado a um segundo plano não por suas qualidades ou falhas, mas por ser escrito e dirigido por e para mulheres. “

Essa citação me fez mais uma vez voltar ao passado e refletir: por que os romances de bolso do meu tio (em geral de faroeste ou de detetive) ficavam à mostra e os romances “de bolsa” da minha tia eram relegados à prateleira do fundo?