Como manter um homem loucamente apaixonado

Texto de Maíra Avelar.

Hoje vou explorar um último aspecto que me chamou a atenção na reportagem da revista Focus. Trata-se do livro “Os segredos das mulheres brasileiras para manter um homem loucamente apaixonado”. Ri alto quando li o título. Porque, sabe? Ninguém se separa no Brasil. Basta ser brasileira para saber manter um homem loucamente apaixonado.

Bom, ironias à parte, a autora do livro cita  uma coisa interessante, quando começou a pesquisar para escrever, o que encontrou na internet podia ser resumido: “a mulher brasileira é puta” versus “a mulher brasileira não é puta”.

Acredito que essa dicotomia se estende às mulheres em geral. A Camilla já abordou isso no texto ‘É tempo de carnaval’ e já discutimos essa dicotomização redutora de “santa” x “puta” na lista das blogueiras. Também já discuti a questão na minha dissertação (embora do ponto de vista discursivo).

Segue abaixo um trecho com “dicas” publicadas pela revista “Focus”, sobre as quais farei breves comentários:

O texto não difere muito de revistas femininas e livros de autoajuda que encontramos aos montes nas prateleiras de grandes livrarias. O tom é normativo. O verbo geralmente vem no infinitivo, como nas receitas de bolo, o que cria um efeito discursivo de universalização das instruções a serem seguidas. Temos também verbos no imperativo, como vemos em manuais de instrução. O uso desses verbos cria uma relação mais direta de subordinação do interlocutor ao locutor, algo do tipo: “obedeça às minhas ordens, pois sou especialista e entendo do assunto”. E, finalmente, temos frases nominais, que também criam um efeito de universalização, somado a um efeito de neutralidade.

Esse tom normativo é muito comum em discursos direcionados às mulheres na mídia de entretenimento (revistas femininas, sites direcionados a mulheres). Não sei se o discurso voltado para os homens segue a mesma lógica, pois ainda não os analisei. O que vejo, no caso do discurso direcionado às mulheres, é a construção de uma imagem frágil, como se as mulheres sempre precisassem de alguém para guiá-las pela mão e aconselhá-las sobre o que fazer para “manter o relacioamento aceso”. No caso das dicas acima, isso é feito de maneira mais impessoal. Em revistas femininas brasileiras, a linguagem é informal, como se fosse uma amiga conversando e aconselhando a outra.

Manter “a chama acesa” geralmente cabe à mulher. A mulher, além de ter que ser carinhosa, bem-humorada, companheira e compreensiva, tem que ser bem cuidada, sexy e criativa na cama. É uma mistura de “mulher do comercial de margarina” com “mulher do comercial de lingerie”. Não podemos estar nunca estressadas ou de mau humor, mesmo se temos motivos para isso, pois o relacionamento tem que ser uma bolha perfeita, imune ao mundo externo ou qualquer tipo de problema. Não podemos “diminuir o homem” (eu diria que não podemos questioná-lo em hipótese alguma) e temos que reconhecer e agradecer tudo o que ele faz por nós, proporcionando a ele dias especiais e surpresas eróticas.

Não vou me estender e nem me aprofundar na análise do discurso, porque todas nós já o conhecemos à exaustão. O que me preocupa é exatamente a repetição à exaustão e a naturalização do discurso que constrói a “mulher ideal” e o efeito disso na vida das “mulheres reais”. Vou contar uma historinha de uma amiga minha, que passou por uma crise no casamento. É uma história cotidiana, que faz parte da vida de milhares de mulheres:

Minha amiga, a quem darei o nome fictício de Joana, era casada com o Augusto. O casamento deles estava em crise, tinha uma mulher stalkeando Augusto (não sabemos se a traição se consumou de fato) e as reclamações de Augusto sobre Joana eram basicamente as seguintes:

– Você está gorda.

– Você usa camisola para dormir e isso não me deixa com tesão.

– Você trabalha demais e não dedica aos nossos filhos o tempo necessário.

– Você está cansada com muita frequência e estou cansado de ouvir os problemas do seu trabalho.

Vale ressaltar que Augusto é fotógrafo e trabalha com Photoshop o dia todo.

Bom, bastaria Joana seguir o conjunto de dicas acima e seus problemas acabariam, certo? Errado. Joana sempre foi gorda. Ela é uma mulher linda, seus exames de saúde estão bons, mas vive ouvindo do mundo inteiro que tem que emagrecer. E o marido entrou no coro do resto do mundo. Na minha humilde opinião, mesmo que Joana queira emagrecer, uma cobrança dessas, além de cruel, não contribui em nada. Acho engraçado que os homens não precisam ser magros ou usar “roupas sensuais” para agradar à parceira. Se o fizerem, é um bônus. No caso da mulher, vira, cada vez mais, obrigação.

Com o auxílio do Photoshop nas imagens impressas divulgadas pelas revistas (não só as femininas e não só as de moda, vale dizer), internalizamos, ainda mais, o ideal da perfeição física. A cada dia, a indústria cosmética inventa o mais novo defeito para consertarmos com cremes, cirurgias e o escambau a quatro.

Sobre a parte de trabalhar demais, ficar cansada e cuidar dos filhos, entra em pauta outra questão: por que cobrar apenas da mulher a função de se ocupar das funções domésticas? Enquanto o homem só “ajudar” no tempo que lhe convém ao invés de se virar para dividir as tarefas, a mulher vai continuar cansada e sobrecarregada (e olha que Augusto é dos caras que eu conheço que “ajudam” e, inclusive, se gabam por isso).

Se a lógica de “o homem ajuda quando dá” e “a mulher faz porque é normal” for subvertida e, inclusive, os filhos forem incluídos na rotina doméstica, o problema da sobrecarga pode ser eliminado. E isso não requer fórmulas mágicas de livros de autoajuda, mas apenas um redimensionamento do tempo e das tarefas das pessoas que ocupam uma casa.

No fim das contas, temos que estar bonitas, cheirosas, gostosas e bem humoradas para os “nossos homens”, mesmo enfrentando jornadas exaustivas de trabalho, incluindo o doméstico. Bom, só me resta dizer que a vida não é um livro de autoajuda e nós não somos feitas da costela do Photoshop.

[+] Mulher brasileira e preconceito – parte 1

[+] Mulher brasileira e preconceito – parte 2

A poetisa dos inconfidentes

Texto de Barbara Manoela.

Barbara Heliodora. Imagem: Wikimedia Commons.

Tinha pensado em escrever um texto falando sobre algumas poetisas. Imaginei que fosse interessante compreender como elas, enquanto mulheres e poetisas, lidavam com suas perdas e dores… Porém, devo dizer que Barbara Heliodora foi uma mulher à frente do seu tempo.

Quando criança, minha avó leu a história dela para mim e me apaixonei por aquela mulher forte e inteligente, que trazia o mesmo nome que o meu. De algum modo, sabia que ela era uma mulher à frente do seu tempo: ousada, valente, determinada. Barbara Heliodosa Guilhermina da Silveira foi uma poetisa brasileira, casada com um dos Inconfidentes, Alvarenga Peixoto, também poeta.

Para começar, Barbara e Alvarenga viveram juntos durante algum tempo, atitude por si só absolutamente transgressora para o século 18. E só casaram (por uma portaria do Bispo de Mariana) em 1781, quando a filha mais velha do casal, Maria Ifigênia, estava com 3 anos de idade.

Alvarenga Peixoto foi  preso em 1789, levado para a fortaleza da Ilha das Cobras e depois para a África, onde morreu. Na prisão, escreveu um de seus mais belos e conhecidos poemas: Barbara Bela, que fala sobre a dor e a saudade da companheira.

Bárbara Bela (por Alvarenga Peixoto)

Bárbara bela,

Do norte estrela,

Que o meu destino

Sabes guiar,

De ti ausente,

Triste, somente

As horas passo

A suspirar.

Por entre as penhas

De incultas brenhas,

Cansa-me a vista

De te buscar;

Porém não vejo

Mais que o desejo

Sem esperança

De te encontrar.

Eu bem queria

A noite e o dia

Sempre contigo

Poder passar;

Mas orgulhosa

Sorte invejosa

Desta fortuna

Me quer privar.

Tu, entre os braços,

Ternos abraços

Da filha amada

Podes gozar;

Priva-me a estrela

De ti e dela,

Busca dois modos

De me matar!

Bárbara participou ativamente do movimento Inconfidente, apoiando o marido em todos os momentos. Segundo Aureliano Leite, no livro “A Vida Heróica de Barbara Heliodora”, a presença de Bárbara foi fundamental na vida de Alvarenga Peixoto:

…Ela foi a estrela do norte que soube guiar a vida do marido, foi ela que lhe acalento o seu sonho da inconfidência do Brasil…quando ele, em certo instante, quis fraquejar, foi Bárbara quem o fez reaprumar-se na aventura patriótica. Disso e do mais que ela sofreu com alta dignidade fez com que a posteridade lhe desse tratamento de Harmonia da Inconfidência.

Durante muito tempo, Bárbara foi retratada, em livros de história inclusive, como demente louca, que andava esfarrapada pelas ruas de São João Del Rei falando bobagens e loucuras. Neste século alguns escritores como Aureliano Leite, lutaram para resgatar a verdade de sua vida. Leite afirmava que Bárbara viveu seus últimos vinte e tantos anos em perfeito juízo, nesse período cuidou dos negócios da família, foi admitida da ordem 3a. do Carmo, de São João Del Rei e morreu em São Gonçalo do Sapucaí, aos 60 anos, vitima de tuberculose: “A uma louca e indigente não se dedicaram exéquias dessa pompa”.

Para Aureliano Leite, houve uma criação em torno da figura de Eliodora. Lendas que escondem dos brasileiros a verdade e que são desmentidas em palavras como a do escritor Uruguaio Rodrigues Fabregat, que qualifica Bárbara Eliodora de Mulher do Novo Mundo, colocando-a entre as mães da epopéia do Novo Mundo:

…e esta outra, também de sua carne vem, grande e profética: que traz em seus lábios de Mulher, gladiadora ardente, clamores de despertar; que traz em suas mãos uma bandeira nova e alça sobre multidões estremecidas; que traz em sua mensagem um desejo de liberdade, um credo republicano que, com ele sobe até a cúpula de seu calvário e da história: que junto às minas de ouro das rapinas imperiais, fala com voz de brasileira,  gente a proclamar direitos e conquistá-los; esta, de Vila Rica, em Minas Gerais companheira da inconfidência revolucionaria na saga heróica de VGRT e na morte mártir, esta mulher do novo mundo – oh, mãe epopéia do Novo Mundo!- cravada em seu madeiro de sacrifício com quatro escravos ardentes de Cruzeiro do Sul… Bárbara Eliodora !

Bárbara foi a primeira mulher poeta do Brasil, umas das ideólogas organizadoras da inconfidência Mineira, teve uma filha antes do casamento e, mesmo depois de casada, fez questão de continuar com seu nome de solteira. Após a morte do marido, Bárbara ainda administrou os negócios da família e cuidou da educação dos seus 4 filhos.

O sonho (por Barbara Heliodora)

Oh que sonho! Oh! que sonho eu tive n’esta,
Feliz, ditosa e socegada sésta!
Eu vi o Pão de Assucar levantar-se
E no meio das ondas transformar-se
Na figura de um indio o mais gentil,
Representando só todo o Brazil.
Pendente ao tiracol de branco arminho
Concavo dente de animal marinho
As preciosas armas lhe guardava;
Era thesoiro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
As hásteas d’oiro, mas as pennas pretas;
Que o indio valeroso altivo e forte
Não manda seta, em que não mande a morte,
Zona de pennas de vistosas côres
Guarnecida de barbaros lavores,
De folhetas e perolas pendentes,
Finos chrystaes, topazios transparentes,
Em recamadas pelles de sahiras,
Rubins, e diamantes e saphiras,
Em campo de esmeralda escurecia
A linda estrella, que nos traz o dia.
No cocar… oh que assombro! oh que riqueza!
Vi tudo quanto póde a natureza.
No peito em grandes letras de diamante
O nome da augustissima imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
As mãos lhe occupa, em quanto ao doce accento
Das saudosas palhetas, que afinava,
Pindaro americano assim cantava.

Sou vassallo e sou leal,
Como tal,
Fiel constante,
Sirvo á glória da imperante,
Sirvo á grandeza real.
Aos elysios descerei
Fiel sempre a Portugal,
Ao famoso vice-rei,
Ao illustre general,
Ás bandeiras, que jurei,
Insultando o fado e a sorte,
E a fortuna desigual,
Qu’a quem morrer sabe, a morte
Nem é morte, nem é mal.

—–

Barbara Manoela não traz a pessoa amada, mas sabe aonde a dela está.

Homens, modo de usar

Texto de Carol Fontes.

Esse foi o primeiro oito de março que não recebi flores ou parabéns. Ano passado travei lutas o dia inteiro tentando esclarecer meus amigos de que flores não significam salários dignos, licença-maternidade de seis meses ou acaba com a violência. Apenas simbolizam nossa fragilidade, docilidade e submissão exigidas, nos lembra que um tapa dói, e muito, e pode nos despetalar.

Algumas empresas estão começando a mudar (ou pelo menos a tentar) sua linguagem com as mulheres, caso da Bombril que este ano resolveu inovar na homenagem e produziu uma campanha publicitária intitulada “AME – Associação das Mulheres Evoluídas” com Marisa Orth, Dani Calabresa e Mônica Iozzi como garotas-propaganda.

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A agência produziu seis comerciais com os mais variados (e preconceituosos) temas, o primeiro (com o título de “Adestramento”) é feito por Marisa Orth e nos ensina que devemos tratar os homens como animais dentro do esquema “Dr. Pet” de recompensas, se ele lava o banheiro merece carinhos, se ficar babando no sofá merece “jornalada na cara” (e depois comece a rezar para ele não revidar!). Em “Dona Marisa” ouvimos os conselhos de Mônica Iozzi para a ex-primeira-dama mostrar que mulher evoluída é aquela que manda em casa e coloca o escravo marido desempregado para limpar a casa, não me venham com a história de dividir tarefas! Ou você faz tudo ou não faz nada…

Com o “Homem das Cavernas” aprendemos que esse pode ser um tema muito bom, como usado na campanha nacional do Equador contra o machismo, ou muito ruim, usando a coitada da Dani Calabresa pra dizer que “homem é bom, mas é tosco”, verdadeira pérola! O quarto nem deveria se chamar “Inveja” e sim “Preconceito”, a humorista ensina como um homem deve segurar os produtos da Bombril, com violência e ignorância porque é o “jeitinho” deles, e como não deve se vestir, brinquinho? Depilação? Isso é palhaçada né? Você mesmo sendo menos evoluído pode usar os produtos de limpeza e pode até nos alcançar. Obrigada, Bombril, finalmente teremos homens à nossa altura!

Quer falar com os homens? Use linguagem de macho! Tem que falar grosso, gesticular muito, ser violenta, deixa que a Dani Calabresa e “Tropa de Elite” te ensinam. Preste atenção como o gestual dela muda assim que tira a boina, voz delicada, poucos movimentos e intenso bater de cílios, quase uma personagem de José de Alencar. E depois temos Marisa Orth de volta para revelar que eles tem apenas cinco utilidades, coitados, é muito triste ver que para levantar a autoestima das mulheres precisamos acabar com a masculina, isso tem nome: sexismo!

Chamou-me atenção o estereótipo dos homens em comerciais de produtos de limpeza, dá para resumir em uma palavra: burrice. E nós acabamos reproduzindo isso quando falamos “deixa que eu faço porque você não sabe mesmo” ou “qual mulher vai dividir a louça comigo?”. Porém, o incentivo precisa ser dado desde cedo ou ele vai crescer achando que varrer uma casa, lavar um banheiro é coisa de mulher ou “bichinha”. Até nosso vocabulário está errado, um homem não deve nos ajudar a limpar a casa, devemos dividir tarefas.