Estupro, o que falta aprendermos?

A Valéria Fernandes enviou hoje para o grupo uma matéria que comentava as diferentes reações nos EUA ao caso de Lara Logan, repórter americana que foi atacada sexualmente no Egito.

O brutal episódio do espancamento e estupro por um grupo de egípcios da repórter da rede americana CBS Lara Logan virou febre na internet e assumiu contornos políticos e até racistas nos últimos dias nos Estados Unidos. Cercada por 200 homens, Logan foi separada de sua equipe e atacada na sexta passada (11) na praça Tahrir, no Cairo, onde cobria a queda do ditador Hosni Mubarak. Estupro de repórter no Egito vira rixa política nos EUA.

Lara Logan.

Não temos muitas informações sobre o ataque sofrido por Lara, as informações ainda estão desencontradas sobre se houve estupro ou não. Porém, parece consenso que ela foi abusada sexualmente. Entre as várias práticas de abuso sexual existentes está o estupro, um crime brutal. A violência tem várias faces e o estupro é uma das mais extremas. Uma forma de humilhação e submissão indescritível. No mundo inteiro mulheres, homens e crianças são estupradas todos os dias. Porém, o número de estupros femininos é bem maior que todos os outros. O estupro é utilizado até mesmo como prática corretiva para lésbicas.

Sabemos porque as mulheres são as maiores vítimas de estupros. Misoginia, ódio, posse, machismo, relações de poder desiguais. A mulher deve ser punida, a mulher não deve ousar dizer não. O homem deve provar sua virilidade quer ela queira ou não, a mulher deve servir ao homem especialmente no sexo, a mulher pertence ao homem.

Mas o pior é quando um crime sexual é utilizado não para se fazer uma denúncia grave, mas para corroborar ideias machistas e preconceitos. O ataque sexual a Lara serve para pessoas inferirem qual a “culpa” que ela teve por ser atacada. Porque é loira, porque uma mulher não deveria estar no meio de uma manifestação como aquela, porque repórteres do sexo feminino só devem fazer seu trabalho em locais seguros.

Serve também para as pessoas defenderem que o Egito é um país horrível e anti-democrático, sendo que em todo mundo mulheres são estupradas todos os dias. Serve também para dizer que ela ganhou mais visibilidade e ficará mais famosa depois deste caso, pois as mulheres sempre sabem o que fazer para chamarem atenção da mídia para si.

Porém, ninguém fala sobre campanhas contra o estupro, penas mais rígidas, investigações mais sérias, o quanto é absurdo os números de estupros em todos os países. O estupro é um crime bárbaro, que nos remete a uma violência brutal, quase medieval. O estupro não pode ser sequestrado por outras questões, deve ser atacado como crime, independente do país.

Já vimos o estupro ser sequestrado e utilizado politicamente no caso da prisão de Julian Assange da Wikileaks:

Se a rara mulher de classe média que apresente queixa de violação contra um estrangeiro de fato for tratada seriamente pelo sistema legal – porque inevitavelmente esses são os poucos e raros casos que o estado se dá ao trabalho de ouvir – ainda assim vai encontrar barreiras inevitáveis a qualquer espécie de verdadeira audiência para não dizer a uma verdadeira condenação: «falta de testemunhas» ou problemas com as provas, ou então um discurso de que até um ataque claro é atingido por ambiguidades.

Se, ainda mais raramente, um homem for, de fato, condenado, será quase inevitavelmente uma condenação mínima, insultuosa na sua trivialidade, porque ninguém quer «arruinar a vida» de um homem, muitas vezes um homem jovem, que «cometeu um erro». (As poucas exceções tendem a considerar uma disparidade previsível de raças – homens negros realmente chegam a ser condenados por ataques a mulheres brancas de classe média que eles desconhecem).

Por outras palavras: nunca em vinte e três anos de relatos e apoio a vítimas de violência sexual pelo mundo afora alguma vez eu ouvi falar de um caso dum homem procurado por duas nações e mantido preso em isolamento sem fiança antes de ser interrogado – para qualquer alegada violação, mesmo a mais brutal ou mais fácil de provar. Referência: Naomi Wolf: EUA e o uso cínico do estupro para silenciar a discordância.

Todos os casos de estupro devem ser punidos, não apenas um ou dois que servem a outros interesses. Nossa única certeza no caso da repórter Lara Logan é que se ela não fosse estrangeira, provavelmente este caso não seria noticiado, pois digo que, com certeza, Lara não deve ter sido a única a ser atacada pela turba.

E a pergunta final, a Barbara Lopes deu a dica de qual é: o que ainda não aprendemos sobre estupro?

A publicidade de latas e corpos

Texto de Carol Fontes.

A Barbara Lopes trouxe para a lista de discussão a latinha de Pepsi lançada na Mercedes-Benz Fashion Week. De início achamos o formato e o rótulo bonitos e criativos, a graça só acaba quando lemos o conceito de refrigerante magro:

Na celebração da mulher bela e confiante, a Diet Pepsi apresenta sua mais alta e fashion lata nova, a Skinny (“magra”) no Fashion Week Mercedes-Benz de Outono de 2011, em Nova York, do dia 10 ao dia 17 de fevereiro. A Nova Pepsi Diet Skinny, disponível aos consumidores a partir de  Março, lançará uma série de celebrações e eventos de moda, incluindo uma instalação de arte realizada pelo comentarista de moda, Simon Doonan, com colaborações das aclamadas designers, Charlotte Ronson e Betsey Johnson….Nossa lata nova e esbelta é o complemento perfeito para os looks mais estilosos dos dias de hoje , e estamos empolgados em lançar sua festa de estréia durante a maior celebração de inovação no design de todo o mundo.

Eles estão celebrando a beleza e confiança das mulheres com latas “magras”? A ideia de “só as magras são felizes” soa familiar? Nos fazer sentir que somos feias e gordas não é nenhuma novidade para o mercado publicitário, eles vivem disso, mas a contradição dentro deste anúncio é quase piada! Nós somos as rainhas da dieta e não existe mulher que não conheça os males do refrigerante. E uma empresa deste produto quer nos convencer que, com a Diet Pepsi Skinny, não ficaremos gordas e com celulites, mas sim belas, magras e confiantes? Estão abusando um pouco de nossa inteligência.

Em contrapartida, temos a lata do Leite Moça e seu formato anatômico. A Nestlé lançou este formato em 2004 como homenagem as mulheres e o conceito de que: “Toda forma de amar vale a pena. Toda forma de amar faz bem”, juntamente com um poema:

Toda forma de amar vale a pena. Não se preocupe com a sua.

Deve ser por isso que existe amor que nasce meio quadrado, meio sem querer.

Que existe triângulo amoroso e amores que andam em círculos.

Porque o amor, não importa a forma, tem o privilégio da juventude.

Amor, não envelhece com a gente. Nunca muda.

Nem na essência e muito menos na alma.

O que às vezes muda é só a forma de amar.

Mas de amar, o amor de sempre.

Nova lata de Moça. Nossa nova forma de amar você.

É? o amor faz maravilhas e como faz bem.

Além de entender que o produto tem consumidoras dos mais diversos tipos, a maioria se sentirá contemplada — o biotipo brasileiro é curvilíneo, independente de ser mais ou menos magra — a campanha não tenta vender o que não pode oferecer, seria quase ofensivo que um dos ingredientes principais das mais calóricas receitas nos enganasse dessa forma!

Isso tudo acabou me lembrando do quanto a magrocracia é machista, não só pelo motivo óbvio de restringir nossos corpos, mas de querer tornar as mulheres responsáveis pela magreza de toda a família.

De acordo com pesquisadores da American University, Cornell University e University of Chicago o aumento do Índice de Massa Corporal (IMC) de crianças entre 11 e 12 anos tem relação com a ocupação de suas mães. Os filhos de mulheres que trabalham meio expediente ou o dia todo tem seis vezes mais propensão a sobrepeso ou obesidade nesta faixa etária. Ou seja, nós somos descuidadas com nossos corpos e com os de nossos filhos também!

Se desistíssemos dessa bobagem de disputar o mercado de trabalho com os homens teríamos muito mais tempo para comidas saudáveis e crianças mais sadias. E nem pensem em perguntar por que o pai não está incluído na pesquisa, é óbvio que situações relacionadas à família são responsabilidades da mulher, o homem já tem muito com o que se preocupar no trabalho!

Apurando os tamborins

Texto de Barbara Lopes.

Carnaval e feminismo combinam? Este ano, a Terça-Feira Gorda e o Dia Internacional da Mulher se trombaram no calendário, deixando no ar essa pergunta.

Porque não dá para esquecer o que há de exploração do corpo feminino (principalmente negro) e a transformação de discursos machistas e homofóbicos em letras de música com ares inocentes. Mas esta coincidência pode ser uma oportunidade para levantar a bandeira branca, afinal mulheres (e feministas em particular) também gostam de se divertir. Por isso, separei algumas músicas que conseguem escapar dos estereótipos ofensivos e que trazem uma perspectiva mais favorável para as mulheres. E bora botar nosso bloco na rua!

Ó Abre-Alas. Chiquinha Gonzaga fez abrir alas: no fim do século 19 e começo do século 20, ela se tornou uma compositora consagrada, compôs esta, que é considerada a primeira marchinha de Carnaval, e foi a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Era feminista, abolicionista e desafiou repetidamente os padrões de sua época.

Pierrô Apaixonado. Noel Rosa e Heitor dos Prazeres brincam com os clássicos personagens da Commedia Dell’Arte. Nesta versão, ao invés de assistir Pierrô e Arlequim brigarem por seu amor, a Colombina cansa da chatice do Pierrô e vai pro botequim.

Chiquita Bacana. A personagem que desafiou as condições climáticas e a moda, que ignorava os papéis sexuais clássicos (não usava vestido nem calção), que morava na Martinica e que era existencialista não podia ficar de fora.

A Filha da Chiquita Bacana. A homenagem de Caetano Veloso à marchinha de Braguinha e Alberto Ribeiro mostra que ser “moça de família” pode ter outros significados. Se a mãe era existencialista, a filha saiu feminista e entrou para o Women’s Liberation Front (não percam o clipe do Caetano com os Trapalhões).