Mulher brasileira e preconceito – parte 1

Texto de Maíra Avelar.

Eu tô azeda com um episódio de racismo que vivi recentemente na Europa. Resumindo bem a situação, estou namorando com um europeu (loiro dos zôio azul) e fui considerada (pelas costas, é claro), como uma aproveitadora, que está com ele para obter cidadania.

Bom, passei da fase 1 (sangue nos zóio + provar que não é verdade) para a fase 2 (tentar digerir e racionalizar o assunto). Pois bem, em plena era tecnológica, resolvi dar uma googlada em “mulheres brasileiras visto”, e eis que me deparo com a capa da revista Focus, com uma bunda e a chamada: “Os segredos da mulher brasileira”. Dispensável comentar o teor da capa, certo ?

Resolvi correr atrás da reportagem e, por incrível que pareça, ela é bem menos infame do que a capa. Em geral, traz depoimentos de casais luso-brasileiros (mulher brasileira e homem português) e também relata alguns estudos feitos por acadêmicos sobre a questão da imagem da mulher brasileira construída pelos europeus e pelas europeias. Como sou chata, resolvi deixar a parte dos depoimentos fofinhos de casais apaixonados de lado e me concentrar na questão dos estereótipos construídos sobre nós, mulheres brasileiras, aqui na gringolândia. Vale dizer que os estereótipos que vou analisar aqui partem de reflexões minhas sobre a leitura da reportagem, ou seja, advêm de um contexto específico, sem a pretensão de generalizar isso universalmente, ok ?

1. O primeiro estereótipo é aquele que tá todo mundo careca de saber: a imagem da mulher brasileira é uma imagem sexualizada. Traduzindo em bom português : “Mulher brasileira é tudo puta!”. É interessante a gente parar e se perguntar: Por quê que é assim? O que nos leva a respostas de origem histórica:

A questão da raça (sic) está inextrincavelmente ligada à questão da sexualização da mulher brasileira : a imagem englobante, por assim dizer, é a imagem da mulata, indicando as fortes relações entre as hierarquias sociais,  os estereótipos de sexualidade alterada e o passado colonial. O Brasil, sempre no lugar do mestiço, acaba sendo ele todo transformado no corpo feminine da mulata: como tal, é sexualizado. (Igor Machado, USP, p. 122)

Trocando em miúdos, a imagem sexualizada da mulher brasileira vem do período colonial. Mas aí rola o questionamento (racista, claro): “Pô, mas você é tão branquinha!” Como pode ser associada a uma mulata/ escrava/mucama? Bom, o que acontece, na contemporaneidade, é que tal imagem é reforçada, por exemplo, pelas novelas e também pela indústria do turismo, responsável por difundir estereótipos brasileiros mundo afora. O que inclui, naturalmente, o carnaval e todas as mulheres com pouca ou nenhuma roupa relacionadas a ele: “muitas pessoas pensam que a liberdade do sambódromo se extende à vida cotidiana” . (Ana Letícia Barreto, Universidade de Évora, p. 125).

Daí não importa se sou branca, preta, amarela, azul ou verde. SE sou brasileira, ENTÃO ando com pouca roupa; LOGO, sou libertina. Qualquer associação com a contemporânea imagem das ‘piriguetes’, que nós mesmas fazemos no Brasil, não é mera coincidência. Aplique esse estereótipo indistintamente e pronto: a fórmula “brasileira é tudo puta” tá aí, prontinha para uso da parcela desinformada da comunidade europeia.

Ou seja, o preconceito que temos contra uma parcela das mulheres da nossa população, a parcela desinformada da comunidade europeia tem contra todas. Adicione uma boa pitada de xenofobia secular e você tem a fórmula completa, que inclui a questão da ‘mulher aproveitadora’, que vem no combo do estereótipo da piriguete, certo? Repare como a coisa é recursiva!

Sou uma mulher brasileira, ENTÃO ando com pouca roupa; LOGO sou libertina; LOGO sou aproveitadora; LOGO quero subir na vida fácil; LOGO quero me casar com um europeu, PORQUE posso obter um passaporte de capa vermelha. O imaginário da pouca roupa não desaparece mesmo que usemos 500 roupas de frio, entende?

Isso nos leva à fórmula silogística mais simples: sou uma mulher brasileira, LOGO quero um passaporte europeu. Ou, como toda fórmula recursiva, pode se estender ad infimitum, neste caso, dependendo das cores que se dá ao contexto. Por exemplo:

Sou uma mulher brasileira, ENTÃO ando com pouca roupa; LOGO sou libertina; LOGO sou aproveitadora; LOGO quero subir na vida fácil; LOGO quero me casar com um europeu; LOGO quero engravidar de um europeu PORQUE posso obter um passaporte de capa vermelha e obter uma pensão em euros para sempre, amém.

No fim, todos os caminhos levam ao inevitável estereótipo relatado em quatro palavras: “Mulher brasileira é tudo puta!” Não é incrível?

[+] Mulher brasileira e preconceito – parte 2

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Não trabalhamos com o seu tamanho

Texto de Danielle Cony.

E as lojas agora decidiram diminuir o tamanho das roupas femininas. Embora a população brasileira venha engordando a cada ano, eis que as lojas dos grandes magazines, resolvem mudar os manequins adotando um padrão adolescente-infanto-juvenil como média de tamanho para as mulheres do meu Brasil. Alguém entende essa lógica?

Meu pai é estilista. Ele já viu muita coisa no mundo da moda. Ele me disse que teve que alterar todos os manequins e reduzir drasticamente o tamanho das roupas. Também disse que o novo modelo adotado era o antigo modelo infanto-juvenil. E por que? Porque continua vendendo (diz ele) e você tem uma redução do gasto de produção em quase 40%.

Entenderam? Não é você que não cabe na roupa. A roupa não foi feita para caber em você. Então, cara amiga, não se fruste ao tentar comprar nessas lojas. Não se sinta culpada pela roupa não entrar em você. Ela não foi feita para isso. O tamanho é para adolescentes!

Acho um absurdo não ter legislação alguma que regule e formato o tamanho das roupas. Vi uma reportagem no Jornal Nacional — Vestuário masculino vai ganhar novas medidas — onde a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) criou um padrão para os tamanhos masculinos. E nessa nova proposta de padronização roupas para obesos e homens com os ombros largos foram incorporadas a norma.

A mesma reportagem não falou nada sobre a padronização das roupas femininas. Por que será? Porque homens podem ser gordos. Mulheres não. É isso que fica bem claro na reportagem ao sequer mencionar o manequim feminino. Porque até agora não sei se a ABNT normatizou o vestuário feminino para incluir obesas.

Então, esqueça as grandes magazines. Porque toda mulher é um pouco alta, um pouco gorda, tem muito peito, tem pouco peito, tem grandes coxas, etc. A diversidade não existe no mundo da moda. Nesse mundo só existem cabides.

Quem cuida dos filhos da trabalhadora doméstica?

Texto de Cecilia Santos.

Esta semana o programa Fantástico trouxe uma matéria sobre a enorme carência de creches Brasil afora, com dados alarmantes:

  • Segundo o programa, apenas 16% das crianças com menos de 3 anos frequentam creches e 15% das cidades brasileiras não possuem uma única creche;
  • Em São Paulo, cidade mais rica do Brasil, 100 mil crianças aguardam por uma vaga (outras fontes citam 125 mil crianças). O jornal O Estado de São Paulo noticiou que o governo estadual irá investir na construção de creches, em parceria com as prefeituras, mas os investimentos atenderão apenas 3,2% do déficit de vagas;
  • Segundo dados do Cfemea, cortes no orçamento de 2011 da União reduziram os gastos previstos com educação (incluindo creches) de R$ 1 bilhão em 2010 para pouco mais de R$ 600 milhões este ano (embora fornecer creches seja responsabilidade das prefeituras, o Ministério da Educação ajuda a financiar esses gastos).

Como a legislação determina atendimento escolar obrigatório a partir dos 4 anos, administrações como a da cidade de São Paulo acabam alocando os espaços existentes para as crianças maiores, o que reduziu muito a quantidade de vagas nas creches.

Com a falta de creches, a mulher de baixa renda que trabalha é obrigada a deixar suas crianças com uma vizinha ou uma criança mais velha. Um enorme contingente dessas mulheres é de trabalhadoras domésticas, uma categoria que sofre com a precariedade das relações de trabalho.

Mães de classes média e alta tendem a deixar seus filhos aos cuidados da trabalhadora doméstica, essa mesma que não pode contar com o Estado para garantir o atendimento escolar dos próprios filhos.

Como em todas as classes sociais a mulher ainda é a principal responsável pelos filhos. A ‘patroa’ que trabalha acaba forçando a empregada/babá a longas jornadas, que frequentemente chegam a 50 horas semanais, sem falar na trabalhadora que dorme no emprego. Para piorar, existe um desrespeito atávico aos direitos das trabalhadoras domésticas, direitos que já são em menor número e extensão que na maioria das outras categorias profissionais.

Finalmente, a trabalhadora que depende de transporte público, sucateado e caro nas grandes cidades, tem que passar ainda mais tempo fora de casa, gastando até 3 a 4 horas de seu dia em ônibus ou trens lotados.

Ou seja, condições adversas para as mulheres de todas as classes sociais, como a falta de políticas públicas e de políticas das empresas voltadas à mulher trabalhadora, aliadas à sobrecarga no cuidado com os filhos dentro das famílias, geram um efeito cascata que oprime de maneira particularmente cruel as mulheres de baixa renda.

Teria sido muito mais justo e produtivo se, nas últimas eleições presidenciais, a sociedade tivesse se concentrado menos nas discussões sobre o aborto, trazidas à baila pelas forças conservadoras, e cobrado dos candidatos mais ações e políticas destinadas a atender as mulheres e seus filhos.