A mulher, os hormônios, a TPM e a menopausa

Texto de Barbara Manoela.

Comecei a fazer acupuntura com Alexandre Coutinho, carinhosamente apelidado pelos amigos de “Cabelias”, por vários motivos: por ele ser amigo do meu marido há muitos anos (e consequentemente, meu amigo também), por ele ser um cara generoso, divertido e, acima de tudo, sensível às questões femininas. Pai presente de uma adolescente, ele tem uma visão muito particular de questões como educação de meninas, saúde, alimentação, entre outras que interessam a nós, mulheres.

Na primeira fase do tratamento, tínhamos como foco o alivio do stress e da TPM. Durante o tratamento descobri que tinha miomas. Importante enfatizar que foi ele quem apontou a necessidade de fazer exames para averiguar o que estava acontecendo. A partir daí começamos a trabalhar para que os miomas diminuíssem.

Por causa do tamanho dos miomas, optei por tomar uma injeção de hormônio, para reduzi-los e estar apta a ser submetida à cirurgia de miectomia. Entre os inúmeros efeitos colaterais e desconfortos causados pela injeção estão os fogachos da menopausa e picos de depressão. Contei isso para o Cabelias, que propôs fazer comigo um tratamento para menopausa, com o objetivo de diminuir o desconforto causado pela injeção. Em dois dias, comecei a perceber os resultados.

Hoje me sinto melhor, principalmente por conseguir dormir uma noite inteira, sem acordar de madrugada, passando mal de calor. E nao tenho mais crises de choro (essas demoraram mais ou menos 1 mês pra passar). Pensando em outras mulheres que podem passar pelo mesmo problema pedi ao querido Cabelias para fazer um post especial para o blog falando sobre a importância da mulher observar suas mudanças hormonais.

Com vocês, Alexandre Coutinho:

“Toda a mulher merece um tratamento hormonal”. Esta frase pertence a minha namorada, acupunturista como eu. Quando escrevo TRATAMENTO HORMONAL não estou falando de REPOSIÇÃO HORMONAL, mas de algo mais natural, mais consciente e de responsabilidade pessoal.

É a primeira vez que escrevo para um blog, coisa que não sou nada habituado, mas fui praticamente obrigado a escrever esse texto após um tratamento que fiz numa integrante das Blogueiras Feministas. Fiz uma combinação de pontos que diminuiu 90% dos inconvenientes fogachos da menopausa. Sem remédios, sem química, até mesmo sem agulhas. Isso mesmo!!! Usei um minúsculo cristal radiônico (instrumento opcional de acupuntura sem inserção de agulhas). Esse tipo de coisa (a resposta da paciente) impressiona até mesmo o terapeuta.

Mas não é que fiz um tratamentinho natureba e milagrosamente o fogacho desapareceu. Esta paciente tem uma qualidade que faz com que tratamentos naturais fluam com eficiência. Antes de tomar uma injeção, um remédio ou “entrar na faca” ela procura questionar o problema, entender o que está acontecendo com o corpo, e fazer algo que recupere o seu estado natural, ou seja, a SAÚDE. Por exemplo: você tomou uma bronca do chefe carrasco (isso não é benefício só das feministas) e tensionou o corpo. De repente o pescoço fica duro como uma pedra. A partir daí, a irrigação sanguínea cerebral fica comprometida, pois os músculos do pescoço estão tensos. Isso pode gerar uma leve dor de cabeça.

A tensão permanence e a glândula tireóide, que fica também na região do pescoço, começa a se alterar, e quando você se der conta,  está tomando uma batelada de remédios para a tireóide, que adoeceu “como mágica” porque engole sapo do chefe a sei lá há quanto tempo.

Esse tipo de exemplo serve também para o que você come, seus hábitos diários, como lida com as emoções e milhares de outras ocasiões que enfrentamos todos os dias que pioram ou melhoram a nossa saúde diariamente.

Como acupunturista, sei que existe uma combinação de pontos única para cada tipo de pessoa. Uma que é padrão e se acrescenta para quase todas as mulheres é o que chamamos de Tratamento Hormonal. Por isso a frase do início deste texto.

Mas não é só com acupuntura que se equilibra a saúde. Exercícios leves, Yoga, Tai Chi, Pilates, Meditação (incrível na TPM), massagens, dietas benéficas trazem consciência física e psicológica além de fazer verdadeiros milagres. Para quem não tem intimidade com nada disso é necessário uma força de vontade inicial, mas desafio a qualquer pessoa manter 3 meses de práticas saudáveis para ela descobrir como é transformador e viciante manter-se saudável.

A verdade dos fatos é que somos os grandes responsáveis por nossa saúde e a ignorância é a principal geradora de nossas doenças. Se algo te impede de se tratar, vá praticar um exercício. Se não tem tempo para isso, 15 minutos de exercícios respiratórios diários são suficiente. Agora se você não quer fazer nem isso então, saia desse blog pois quem está fazendo mal a uma feminista é você.

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Barbara Manoela não traz a pessoa amada, mas sabe aonde a dela está.

Mutilação genital feminina

Texto de Bia Cardoso.

A Suely Oliveira avisou essa semana que dia 06 de fevereiro é o Dia Internacional de Tolerância Zero Contra a Mutilação Genital Feminina. Uma questão que compromete a saúde e a vida sexual de milhares de mulheres pelo mundo. Uma violência que não respeita limites e impõe-se sobre o corpo e os direitos de muitas mulheres, especialmente meninas.

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Um dos mais horrendos casos de violência contra a mulher, a mutilação genital feminina é uma prática em que o clitóris e/ou os lábios vaginais das mulheres são cortados, removidos ou costurados, dependendo da tradição local. Essa prática pode ocorrer em diferentes idades, no período depois do nascimento ou até a primeira gravidez. Porém, o mais comum é que seja praticada em meninas entre 4 e 8 anos.

Na maioria dos casos as mutilações são realizadas utilizando-se instrumentos rudimentares como facas, navalhas, agulhas, espinhos ou até mesmo pedaços de vidro. Não há esterilização dos instrumentos e nem anestesia para as vítimas, o que pode acarretar morte ou infecção pelo vírus da AIDS e outras doenças.

No mundo inteiro, especialmente em países africanos e asiáticos, 150 milhões de mulheres já sofreram algum tipo de mutilação genital. Na maioria das vezes a razão apresentada para justificar a barbárie sustenta-se em tradições que preconizam que a mulher é purificada ao ser mutilada. Muitas vezes é difícil falar sobre tradições culturais, algumas pessoas acreditam que a cultura deva ser respeitada acima de tudo. Porém, a mutilação genital é uma violência que tem como único objetivo extirpar da mulher o direito de ter prazer sexual.

Este não é um costume inofensivo, pois causa danos físicos e psicológicos e pode levar à morte mulheres de várias idades. Esta mutilação viola o direito da mulher de se desenvolver sexualmente de um modo saudável e natural. E há também os custos e sequelas decorrentes de complicações físicas, como sangramentos e infecções. A mutilação genital é uma ofensa grave aos direitos humanos em geral, e aos direitos da mulher e da criança, em especial.

Existem vários tratados internacionais que condenam a prática da mutilação genital feminina e eles devem ser ratificados pelos países. Porém, a prática ainda persiste e é preciso continuar a esclarecer as pessoas sobre as terríveis consequências sofridas pelas mulheres que são obrigadas a passar por essa violência tão absurda. Uma violência que permanece com elas por toda vida, uma dor indescritível.

[+] Dica de Livro e Filme:

Waris Dirie foi circuncidada aos 5 anos. Após conseguir fugir de um casamento arranjado por seu pai aos 13 anos, ela foi para Londres, trabalhou como doméstica e atendente em lanchonetes, foi descoberta por um fotógrafo, tornou-se modelo internacional e ferrenha ativista contra a circuncisão feminina. Hoje é embaixadora especial da ONU. Sua história, contada no livro “Flor do deserto”, virou filme com o mesmo nome.

[+] Outros posts sobre o assunto:

Dia Internacional Contra a Mutilação Genital Feminina – 06 de fevereiro.

E o lixo do banheiro, quem tira?

Texto de Tica Moreno.

Quem nunca se preocupou em trocar o lixo do banheiro, que sempre achou que este desaparecia num passe de mágica, deve ter ficado preocupada ao ler a matéria sobre a dificuldade de se encontrar empregadas domésticas nas grandes metrópoles, que saiu domingo na Folha Cotidiano: Achar doméstica vira desafio e famílias tem que mudar hábitos.

Limpar o banheiro, a cozinha, lavar roupa suja, estender e passar, lavar o box do chuveiro, o vidro da janela, o chão da área de serviço. As empregadas domésticas fazem todo aquele serviço que ninguém gosta de fazer. As diaristas tem um trabalho ainda mais intenso. Muitas vezes, tem que fazer o trabalho de uma semana em um dia. É um serviço penoso, pesado, que dá dor nas costas, que te expõe a produtos de limpeza que podem fazer mal para saúde.

Fora cozinhar, não conheço outras tarefas domésticas que as pessoas dizem gostar de fazer.

O enfoque da Folha escancarou a preocupação de um setor da sociedade que está, ou estava, (mal) acostumado a ter alguém 24 horas disponível. Os exemplos tinham a ver com as empregadas domésticas que dormem no serviço, trabalham nos finais de semana, folgam a cada 15 dias.

Gente, nem quem adora muito o emprego que tem gostaria de dormir nele, né?

Alguma coisa está errada em uma sociedade que acha super normal que você repasse para outra pessoa uma série de tarefas necessárias para seu bem estar. Tarefas que você não gosta de fazer, mas não vive sem. A outra pessoa pode ser sua mãe, sua avó, sua irmã, sua namorada – que fazem de graça. Ou pode ser uma empregada doméstica, ou diarista, que faz por um salário bem baixo. E aí tem gente que ainda reclama que “tá caro”.

Cena do documentário Domésticas (2012) de Gabriel Mascaro.

O mínimo, para começo de conversa quando a gente fala de emprego doméstico, deveria ser considerar que as mais de 7 milhões de pessoas que são empregadas domésticas — mais de 90% mulheres, a maioria negras — são trabalhadoras/es que deveriam ter direitos trabalhistas garantidos, como a obrigatoriedade do FGTS e 40 horas de jornada semanal. Mas a realidade é outra, como a própria reportagem aponta: apenas 27,5% tem carteira de trabalho assinada.

E, um entrevistado mencionou que, como nos países ricos, a tendência é que ter empregada doméstica viraria luxo. Ele só esqueceu de comentar que em vários países da Europa, que não tinham a tradição do emprego doméstico como nós temos aqui no Brasil, o emprego doméstico está crescendo. Babás, cuidadoras, empregadas domésticas. Ganham pouco, pouquissimo. Na maior parte das vezes são imigrantes em uma situação irregular no país.

Acho que é muito difícil discutir o assunto do emprego doméstico sem olhar para o trabalho doméstico como um todo, incluindo o trabalho doméstico não remunerado que nós fazemos todos os dias.

E parto aqui da premissa de que o trabalho doméstico não é responsabilidade natural das mulheres. Mas o que ainda acontece é que somos nós que gastamos mais horas das nossas vidas fazendo esse trabalho. A média semanal é de 25 horas para as mulheres e 10 horas para os homens. E, vejam só, a média entre as mulheres casadas aumenta pra 29,2 horas! Ou seja, ser casada/dividir a casa acaba dando mais trabalho!

É a combinação da desigualdade social, de gênero e racial que permite que 16,4% das mulheres ocupadas no Brasil sejam empregadas domésticas. É a principal ocupação feminina. Para esse número diminuir, precisa ainda de muita coisa: mais alternativas de empregos decentes e com garantia de direitos para as mulheres, ampliação dos serviços públicos, garantia de creches públicas e educação infantil em horário integral e uma profunda alteração na divisão sexual do trabalho.

Ou seja, o Estado tem que assumir a garantia de serviços que rompam com a idéia de que a produção do viver deve se dar só dentro de casa. Restaurantes populares, lavanderias coletivas e creches são um caminho. E os homens tem que assumir sua responsabilidade nas tarefas domésticas. Não basta só ajudar de vez em quando a trocar uma lâmpada ou lavar a louça. Precisa dividir e assumir as tarefas.

Um país com justiça social não pode ter como principal ocupação feminina um serviço que ninguém mais quer fazer.