Quem cuida dos filhos da trabalhadora doméstica?

Texto de Cecilia Santos.

Esta semana o programa Fantástico trouxe uma matéria sobre a enorme carência de creches Brasil afora, com dados alarmantes:

  • Segundo o programa, apenas 16% das crianças com menos de 3 anos frequentam creches e 15% das cidades brasileiras não possuem uma única creche;
  • Em São Paulo, cidade mais rica do Brasil, 100 mil crianças aguardam por uma vaga (outras fontes citam 125 mil crianças). O jornal O Estado de São Paulo noticiou que o governo estadual irá investir na construção de creches, em parceria com as prefeituras, mas os investimentos atenderão apenas 3,2% do déficit de vagas;
  • Segundo dados do Cfemea, cortes no orçamento de 2011 da União reduziram os gastos previstos com educação (incluindo creches) de R$ 1 bilhão em 2010 para pouco mais de R$ 600 milhões este ano (embora fornecer creches seja responsabilidade das prefeituras, o Ministério da Educação ajuda a financiar esses gastos).

Como a legislação determina atendimento escolar obrigatório a partir dos 4 anos, administrações como a da cidade de São Paulo acabam alocando os espaços existentes para as crianças maiores, o que reduziu muito a quantidade de vagas nas creches.

Com a falta de creches, a mulher de baixa renda que trabalha é obrigada a deixar suas crianças com uma vizinha ou uma criança mais velha. Um enorme contingente dessas mulheres é de trabalhadoras domésticas, uma categoria que sofre com a precariedade das relações de trabalho.

Mães de classes média e alta tendem a deixar seus filhos aos cuidados da trabalhadora doméstica, essa mesma que não pode contar com o Estado para garantir o atendimento escolar dos próprios filhos.

Como em todas as classes sociais a mulher ainda é a principal responsável pelos filhos. A ‘patroa’ que trabalha acaba forçando a empregada/babá a longas jornadas, que frequentemente chegam a 50 horas semanais, sem falar na trabalhadora que dorme no emprego. Para piorar, existe um desrespeito atávico aos direitos das trabalhadoras domésticas, direitos que já são em menor número e extensão que na maioria das outras categorias profissionais.

Finalmente, a trabalhadora que depende de transporte público, sucateado e caro nas grandes cidades, tem que passar ainda mais tempo fora de casa, gastando até 3 a 4 horas de seu dia em ônibus ou trens lotados.

Ou seja, condições adversas para as mulheres de todas as classes sociais, como a falta de políticas públicas e de políticas das empresas voltadas à mulher trabalhadora, aliadas à sobrecarga no cuidado com os filhos dentro das famílias, geram um efeito cascata que oprime de maneira particularmente cruel as mulheres de baixa renda.

Teria sido muito mais justo e produtivo se, nas últimas eleições presidenciais, a sociedade tivesse se concentrado menos nas discussões sobre o aborto, trazidas à baila pelas forças conservadoras, e cobrado dos candidatos mais ações e políticas destinadas a atender as mulheres e seus filhos.

A mulher, os hormônios, a TPM e a menopausa

Texto de Barbara Manoela.

Comecei a fazer acupuntura com Alexandre Coutinho, carinhosamente apelidado pelos amigos de “Cabelias”, por vários motivos: por ele ser amigo do meu marido há muitos anos (e consequentemente, meu amigo também), por ele ser um cara generoso, divertido e, acima de tudo, sensível às questões femininas. Pai presente de uma adolescente, ele tem uma visão muito particular de questões como educação de meninas, saúde, alimentação, entre outras que interessam a nós, mulheres.

Na primeira fase do tratamento, tínhamos como foco o alivio do stress e da TPM. Durante o tratamento descobri que tinha miomas. Importante enfatizar que foi ele quem apontou a necessidade de fazer exames para averiguar o que estava acontecendo. A partir daí começamos a trabalhar para que os miomas diminuíssem.

Por causa do tamanho dos miomas, optei por tomar uma injeção de hormônio, para reduzi-los e estar apta a ser submetida à cirurgia de miectomia. Entre os inúmeros efeitos colaterais e desconfortos causados pela injeção estão os fogachos da menopausa e picos de depressão. Contei isso para o Cabelias, que propôs fazer comigo um tratamento para menopausa, com o objetivo de diminuir o desconforto causado pela injeção. Em dois dias, comecei a perceber os resultados.

Hoje me sinto melhor, principalmente por conseguir dormir uma noite inteira, sem acordar de madrugada, passando mal de calor. E nao tenho mais crises de choro (essas demoraram mais ou menos 1 mês pra passar). Pensando em outras mulheres que podem passar pelo mesmo problema pedi ao querido Cabelias para fazer um post especial para o blog falando sobre a importância da mulher observar suas mudanças hormonais.

Com vocês, Alexandre Coutinho:

“Toda a mulher merece um tratamento hormonal”. Esta frase pertence a minha namorada, acupunturista como eu. Quando escrevo TRATAMENTO HORMONAL não estou falando de REPOSIÇÃO HORMONAL, mas de algo mais natural, mais consciente e de responsabilidade pessoal.

É a primeira vez que escrevo para um blog, coisa que não sou nada habituado, mas fui praticamente obrigado a escrever esse texto após um tratamento que fiz numa integrante das Blogueiras Feministas. Fiz uma combinação de pontos que diminuiu 90% dos inconvenientes fogachos da menopausa. Sem remédios, sem química, até mesmo sem agulhas. Isso mesmo!!! Usei um minúsculo cristal radiônico (instrumento opcional de acupuntura sem inserção de agulhas). Esse tipo de coisa (a resposta da paciente) impressiona até mesmo o terapeuta.

Mas não é que fiz um tratamentinho natureba e milagrosamente o fogacho desapareceu. Esta paciente tem uma qualidade que faz com que tratamentos naturais fluam com eficiência. Antes de tomar uma injeção, um remédio ou “entrar na faca” ela procura questionar o problema, entender o que está acontecendo com o corpo, e fazer algo que recupere o seu estado natural, ou seja, a SAÚDE. Por exemplo: você tomou uma bronca do chefe carrasco (isso não é benefício só das feministas) e tensionou o corpo. De repente o pescoço fica duro como uma pedra. A partir daí, a irrigação sanguínea cerebral fica comprometida, pois os músculos do pescoço estão tensos. Isso pode gerar uma leve dor de cabeça.

A tensão permanence e a glândula tireóide, que fica também na região do pescoço, começa a se alterar, e quando você se der conta,  está tomando uma batelada de remédios para a tireóide, que adoeceu “como mágica” porque engole sapo do chefe a sei lá há quanto tempo.

Esse tipo de exemplo serve também para o que você come, seus hábitos diários, como lida com as emoções e milhares de outras ocasiões que enfrentamos todos os dias que pioram ou melhoram a nossa saúde diariamente.

Como acupunturista, sei que existe uma combinação de pontos única para cada tipo de pessoa. Uma que é padrão e se acrescenta para quase todas as mulheres é o que chamamos de Tratamento Hormonal. Por isso a frase do início deste texto.

Mas não é só com acupuntura que se equilibra a saúde. Exercícios leves, Yoga, Tai Chi, Pilates, Meditação (incrível na TPM), massagens, dietas benéficas trazem consciência física e psicológica além de fazer verdadeiros milagres. Para quem não tem intimidade com nada disso é necessário uma força de vontade inicial, mas desafio a qualquer pessoa manter 3 meses de práticas saudáveis para ela descobrir como é transformador e viciante manter-se saudável.

A verdade dos fatos é que somos os grandes responsáveis por nossa saúde e a ignorância é a principal geradora de nossas doenças. Se algo te impede de se tratar, vá praticar um exercício. Se não tem tempo para isso, 15 minutos de exercícios respiratórios diários são suficiente. Agora se você não quer fazer nem isso então, saia desse blog pois quem está fazendo mal a uma feminista é você.

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Barbara Manoela não traz a pessoa amada, mas sabe aonde a dela está.

Mutilação genital feminina

Texto de Bia Cardoso.

A Suely Oliveira avisou essa semana que dia 06 de fevereiro é o Dia Internacional de Tolerância Zero Contra a Mutilação Genital Feminina. Uma questão que compromete a saúde e a vida sexual de milhares de mulheres pelo mundo. Uma violência que não respeita limites e impõe-se sobre o corpo e os direitos de muitas mulheres, especialmente meninas.

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Um dos mais horrendos casos de violência contra a mulher, a mutilação genital feminina é uma prática em que o clitóris e/ou os lábios vaginais das mulheres são cortados, removidos ou costurados, dependendo da tradição local. Essa prática pode ocorrer em diferentes idades, no período depois do nascimento ou até a primeira gravidez. Porém, o mais comum é que seja praticada em meninas entre 4 e 8 anos.

Na maioria dos casos as mutilações são realizadas utilizando-se instrumentos rudimentares como facas, navalhas, agulhas, espinhos ou até mesmo pedaços de vidro. Não há esterilização dos instrumentos e nem anestesia para as vítimas, o que pode acarretar morte ou infecção pelo vírus da AIDS e outras doenças.

No mundo inteiro, especialmente em países africanos e asiáticos, 150 milhões de mulheres já sofreram algum tipo de mutilação genital. Na maioria das vezes a razão apresentada para justificar a barbárie sustenta-se em tradições que preconizam que a mulher é purificada ao ser mutilada. Muitas vezes é difícil falar sobre tradições culturais, algumas pessoas acreditam que a cultura deva ser respeitada acima de tudo. Porém, a mutilação genital é uma violência que tem como único objetivo extirpar da mulher o direito de ter prazer sexual.

Este não é um costume inofensivo, pois causa danos físicos e psicológicos e pode levar à morte mulheres de várias idades. Esta mutilação viola o direito da mulher de se desenvolver sexualmente de um modo saudável e natural. E há também os custos e sequelas decorrentes de complicações físicas, como sangramentos e infecções. A mutilação genital é uma ofensa grave aos direitos humanos em geral, e aos direitos da mulher e da criança, em especial.

Existem vários tratados internacionais que condenam a prática da mutilação genital feminina e eles devem ser ratificados pelos países. Porém, a prática ainda persiste e é preciso continuar a esclarecer as pessoas sobre as terríveis consequências sofridas pelas mulheres que são obrigadas a passar por essa violência tão absurda. Uma violência que permanece com elas por toda vida, uma dor indescritível.

[+] Dica de Livro e Filme:

Waris Dirie foi circuncidada aos 5 anos. Após conseguir fugir de um casamento arranjado por seu pai aos 13 anos, ela foi para Londres, trabalhou como doméstica e atendente em lanchonetes, foi descoberta por um fotógrafo, tornou-se modelo internacional e ferrenha ativista contra a circuncisão feminina. Hoje é embaixadora especial da ONU. Sua história, contada no livro “Flor do deserto”, virou filme com o mesmo nome.

[+] Outros posts sobre o assunto:

Dia Internacional Contra a Mutilação Genital Feminina – 06 de fevereiro.