Mulheres na Campus Party: assumir o feminismo ou não?

Texto de Nessa Guedes.

Feminista.

Essa palavra soa tão pesada que muitas vezes ensaiei pronunciá-la, mas me calei. Estava participando da Campus Party Brasil, semana passada, em São Paulo. É o São Paulo Fashion Week dos nerds e geeks. Um acampamento coberto, com 6.000 e poucos participantes, todos conectados numa internet de 10gb, promovendo palestras, eventos, cursos, oficinas, debates, mesas-redondas e promoções, na área de robótica, desenvolvimento, midias sociais, software livre, música, e games. Dá para imaginar o quanto masculino é o evento e a quantidade de modelos usadas nos stands das empresas patrocinadoras, né?

Sendo assim, haviam 27% de mulheres participando. Vesti a armadura da coragem e me preparei para os absurdos que eu sabia que rolaria — tipo concursos valorizando somente a beleza das participantes, os comentários de baixo calão no meio das bancadas, etc.

Mas não foi tão tenso quanto eu imaginei.

Salvo três coisas irritantes que rolaram:

1) promoções sexistas do Coruja de TI, envolvendo o nome do nosso grupo, GarotasCPBr, que é super sério;

2) Ben Hammersey fazendo comentários infelizes sobre as mulheres brasileiras;

3) um menino me chamando de ‘nerd peituda’ no acampamento… não fiquem revolta@s, preguei uma peça nele de castigo… amarrei todos os zíperes da barraca dele com nós cegos, com ele dentro!hehe), de resto, o evento foi bem legal. Tinha muita mulher entre os palestrantes, se formos comparar com a proporção geral. Também teve bastante espaço e atenção para a crescente evolução dos blogs de maquiagem e moda, que estão profissionalizando muitas blogueiras por aí, e abrindo oportunidades de divulgação, propaganda e fonte de renda totalmente novas.

Conheci as excelentes Lulus, do Luluzinhacamp – acho que é a maior comunidade de mulheres na internet brasileira, ganha até da nossa, Blogueiras Feministas. Nem todas as lulus são feministas, mas lá na CP tinham muitas. Elas são tão unidas quanto as B.F., contrariando o mito de que mulheres estão sempre competindo. Pelo contrário, o apoio mútuo rola solto lá, inclusive as meninas estão sempre fazendo parceria em trabalhos e trocando currículos, empregando umas às outras.

Participei de uma mesa-redonda sobre a carreira de mulheres na TI, mas até agora não obtive o link do video – quando aparecer eu publico aqui. Foi lindo e interessante. Apesar de ter acontecido em pleno sábado às 9h, tinha bastante gente assistindo e interagindo – homens incluídos. Algumas pessoas na platéia comentaram sobre o Blogueiras Feministas – mais precisamente nossa amiga Anna Frank e a irmã da Tica Moreno, a Carol – e me deram o gancho que precisava para falar em feminismo. Foi bacana.

Eu, @nessoila, e a Cissa Gatto, @cissagatto representando as Garotas CPBr.

Abaixo, reproduzo partes de um post que escrevi na CampusParty, para vocês saberem um pouco do que rola entre as mulheres no mundo geek.

[..]

Então, quando eu entrei no grupo GarotasCPBr, temi que o objetivo do grupo fosse fazer um albúm de fotos especiais no Flickr para os campuseiros, ou que fosse um modo de agregar meninas que queriam conversar sobre quem iria levar chapinha e quem iria levar secador de cabelos para a CampusParty. Felizmente, o objetivo do grupo estava muito longe de ser qualquer um destes – ainda bem. E todas as integrantes e autoras do blog são excelentes profissionais e acadêmicas seríssimas. Além de cultivarem a desmitistificação do mito eterno de que mulheres não podem ser amigas.

Bullshit.

Nós somos super unidas.

E foi através do GarotasCPBr que eu acessei o link do blog Garotas Geeks, que também estariam participando da CampusParty. Ao abrir a página, me deparei com um blog cujo cabeçalho aparecia o desenho de uma

menina toda fresca, com um notebook aberto na frente. As cores do tema, apesar de serem azul e roxo, me pareciam muito girly para pertencer um blog de meninas tr00 hardcore dos games e etc. Na hora pensei “Putz, mais um site dessas meninas que se dizem geeks, mas só querem se aparecer e pagar de smart-but-hot“. Fechei a janela sem pestanejar, e passei a torcer o nariz para citações a elas em qualquer lugar da internet.

Então, hoje, tentando cobrir algumas atividades da CampusParty para postar no blog do GCPBr e na EquipeTenso, passei por um telão onde estava o tal cabeçalho do blog das “garotas geeks”, e embaixo do telão estavam as próprias, rindo e falando em microfones para uma platéia modesta. Como elas tem banner publicado no blog das CPBr, eu não poderia ignorá-las, e fui até lá, na maior má-vontade, tirar algumas fotos delas para fazer um postzinho sobre a passagem delas no evento.

Acabou que eu fiquei assistindo-as até o fim. E em pé. A platéia aumentou exponencialmente em poucos minutos. E as meninas começaram um grande show.Tirei o chapéu.

O Garotas Geeks é um blog de primeira. Tem só quatro meses de idade, mas conta com mais de 1500 acesso diários, chegando a picos de 9000 visualizações em um só dia – segundo uma das meninas da equipe, a Minhoca. Rola um humor de primeira, e releases de qualidade sobre games recém-lançados e até os mais antigos, como os feitos para Super Nintendo. Mas nem só de bits se fala por lá. Existem artigos sobre RPG de mesa, cinema, trollagem, comportamento, etc. Quando perguntada sobre o preconceito que rola sobre meninas falando de jogos e os xingamentos que elas recebem nos comentários, a Babs não perde a oportunidade de lascar os marmanjos “Na hora de jogar vocês usam o pênis para usar o controle? Pois é, eu não uso meu útero. Então é headshot na igualdade.” Depois dessa declaração, a platéia veio a abaixo, e eu quase choro – not – de emoção.

Tá, vou dizer que fiquei emocionada de verdade. Porque né. Não é todos os dias que a gente encontra alguém que consegue ter essa lucidez toda para sintetizar esse tipo de problemática. Entre o grupo animado, também tinha a menina-que-gosta-da-apple-e-nintendo, a Gaby, mais a menina que empatizou meu coração por causa do rpg de mesa, Livia, e uma jornalista de Guarulhos, Deborah, muito simpática – e super entendida do assunto, já que recém publicou um livro sobre a “cultura nerd” e o fenômeno geek nos últimos anos, se eu não me engano, foi seu TCC.

As Garotas Geeks me ensinaram hoje que existem outras mulheres na faixa dos vinte anos que tem muito conteúdo a oferecer, que gostam de trabalhar fazendo o que gostam,e não tem medo de serem tachadas de caçadoras de marido. Porque elas não são.

Existe uma veia feminista pulsante ali, embora talvez nem todas elas devam admitir a palavra “feminismo” como uma constante relacionada à elas, tão descontraídas e leves. O peso do feminismo não parece combinar com elas. Mas quem disse que feminismo tem peso? Lutar pela igualdade de gêneros, do jeito eficiente e convicto que elas fazem, é exatamente o que te faz uma ativista pelos direitos das mulheres. Essas meninas me encheram de orgulho.

Link legais de dar uma olhada, que mostram bem o cenário:

Gurias Nerds

GarotasCPBr

Garotas Geeks

A infância faz mal ao mercado

Texto de Danielle Cony.

Hoje eu gostaria de propor um post um pouco diferente. Não vou argumentar. Vou apenas postar dois vídeos que falam sobre publicidade, televisão e infância. Se alguém me perguntar o que isso está relacionado com o feminismo, vou deixar para vocês  respoderem.

Gostaria que as leitoras/expectadoras fizessem seus respectivos comentários na caixa de diálogos, para que essa interação seja uma aprendizado para todas nós.

O vídeo abaixo é da pesquisadora de Harvard, Susan Linn, que fala sobre a aprendizagem na brincadeira criativa.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Bw4JtOCnztQ]

 

Já o vídeo abaixo é o documentário ‘Criança, a alma do negócio’. Esse vídeo fala sobre publicidade e consumo.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=49UXEog2fI8]

 

E então? Chocadas? Eu fiquei bem reflexiva quando assisti esses vídeos. Espero que vocês também…

Top 5 da publicidade machista

Texto de Carol Fontes.

Meu Ensino Médio foi técnico em Publicidade, passei três anos da minha vida prestando muito atenção em peças publicitárias (televisão, jornal, outdoor, etc.) e acabei ficando um pouco condicionada, já não sou mas tão ingênua!

Quando me reconheci feminista e com uma ajudinha do blog da Lola voltei esse novo olhar para meus amigos publicitários e me decepcionei. O objetivo dessa coluna, infelizmente, é tirar a inocência de vocês, mostrar que a publicidade para homens é muito machista e para mulheres é muito superficial, claro que quando encontrar algum anúncio interessante e inteligente publicarei com muita alegria. Não publicarei apenas comerciais nacionais porque temos (tomara) visitantes que moram em outros países (queridos, mandem links!) e às vezes a linguagem é muito parecida. Para nossa estréia peguei o supra-sumo dos anúncios nos anos dourados, vocês vão ver que o politicamente correto fez um bem danado para as campanhas publicitárias!

Publicidade antiga. Figuras 1, 2 e 3.

Na figura 1 temos o título “Assopre no rosto dela e ela vai te seguir em qualquer lugar” (amigas tradutoras podem sugerir versões melhores), afinal, qual mulher não gosta de uma descarga de nicotina no rosto né? Depois de listar as opções de sabor de Tipalet o texto continua: “você tem a satisfação de fumar sem inalar fumaça” deixe isso para a mulher na sua frente, ela gosta!

O texto da figura 2 diz que muitas vezes a mulher não percebe que foi anou negligência íntima que a excluiu de um casamento feliz, a propaganda é de sabonete íntimo e lembra as consumidoras de que nenhum marido gosta de mulher descuidada e fedorenta, atualmente os anúncios são um pouquinho diferentes porque nos anos 50 só um homem podia olhar, mas agora o objetivo na vida de qualquer uma é ter vários homens parando quando ela passa, até as atrizes da Globo usam né?!

A figura 3 é aquele mito clássico: mulheres não sabem trocar lâmpada, não fazem consertos na casa e não abrem potes, não abriam porque este revolucionário produto é tão fácil que até uma mulher é capaz, a garota propaganda nem consegue acreditar! É muita tecnologia, é muita inovação, muito carinho com as consumidoras, esse produto merece minha atenção.

Na verdade, fiquei em dúvida se esse pote é tão inovador quanto à máquina para selar cartas da figura 4, afinal, para um homem perguntar se “é sempre ilegal matar uma mulher?” é porque isso é realmente indispensável na vida de qualquer secretária.

Publicidade antiga. Figuras 4, 5 e 6.

Nós sabemos o quanto os homens amam café fresco, se você não sabe disso é porque é tão negligente quanto à esposa da figura 5 que merece uns tapas por isso, que displicente, será que ela ainda não aprendeu que agora pode provar os produtos antes de comprar? Essa imagem é uma das mais fortes, pois incita a violência doméstica pelo motivo mais banal possível, café, tudo bem que os maridos não costumam ter motivos para bater em suas esposas além de machismo, ignorância, falta de amor e respeito, mas usar isso para vender café é pegar um pouco pesado na persuasão.

Para fechar nosso top five da Publicidade nos anos 50 e 60 temos a figura 6. Quando olho para essa imagem só consigo pensar na frase de Rebecca West em 1913: “Eu mesma nunca cheguei a entender direito o que quer dizer feminismo: só sei que as pessoas me chamam de feminista toda vez que expresso sentimentos que me diferenciam de um capacho.”