Magrocracia e mercado de trabalho

Texto de Barbara Lopes.

A sociedade em que vivemos tem um tique nervoso: fala “não” em voz alta, enquanto sinaliza “sim” com a cabeça.

O romance ‘Ardil 22, de Joseph Heller, mostra a eficiência dessa contradição. No livro, o Ardil 22 é uma regra militar que permite que um soldado seja dispensado caso esteja louco. Basta pedir. Mas se ele pedir, prova que está preocupado com a própria segurança e, portanto, não é louco.

“Se voasse, então estaria doido e não teria que fazê-lo. Mas se ele não quisesse fazê-lo, então estaria são e teria que fazê-lo”.

Mas temos novos ardis. A magrocracia, por exemplo. Você deve ser magro e, principalmente, você deve ser magra. Os corpos que não se adequarem a essa regra serão condenados ao escárnio público. Isso é a voz dizendo que não. Mas o gesto da cabeça é inverso: alimentos altamente processados, em grandes porções, com grande densidade calórica e todo a aparato de marketing. A rede Starbucks, por exemplo, lançou recentemente um novo tamanho para suas bebidas, o Trenta, de 916 ml, maior que a capacidade média do estômago de adulto. O ardil é criar um estresse com o “peso ideal” e oferecer alívio para esse estresse na forma de alimentos que dificultam atingir esse peso ideal.

Outro ardil é o mercado de trabalho. De um lado, somos ensinados a sonhar com uma profissão, com um trabalho. Perguntamos para as crianças o que elas serão quando crescerem. Estudamos, lemos biografias e perseguimos a promessa de atingir a realização pessoal através do trabalho. Depois chegamos lá e não é nada daquilo. A organização do trabalho que, ao mesmo tempo, exige adesão apaixonada, é muitas vezes perversa o bastante para destruir as paixões. A promessa que estava no ar, de que com as máquinas trabalharíamos menos, não foi cumprida. Trabalhamos mais e mais, e muitas empresas são cadeias de passar infelicidade adiante. Alguns conseguem escapar, outros ficam presos entre querer menos e se conformar ou querer mais e se desiludir.

De fato, um ardil e tanto.

As avós e minhas memórias proustianas

Texto de Mari Moscou.

João Garcia era filho de escravos. Isabel era filha de pequenos comerciantes espanhóis da zona rural da cidade de São Paulo (da época em que isso existia em grandes proporções). Ela branca, ele negro. Formaram uma família e trabahavam em suas pequenas terras para ter o que comer, o que vender (mas não muito) e o que trocar. Era uma família pobre de alguns irmãos e uma irmã, Zulmira.

Aliviando o peso de mais uma boca para alimentar para a família, aos 14 anos, Zulmira aceitou uma proposta de emprego como babá de uma família rica em São Paulo. Seu pai a emancipou e ela foi morar com esta família. Alguns anos depois a bela, branquinha, magra e alta mulher-violão recebeu uma proposta para trabalhar como modelo. Sozinha como era, embarcou na profissão. De repente uma proposta nova: a televisão que estava em seu auge de glória dos programas gravados e ao vivo, nos final dos anos 50. Mudou-se para o Rio onde conheceu seu primeiro marido, que trabalhava na TV e se converteu a uma nova religião para casar com ela. Pouco tempo depois engravidou, saiu do trabalho na TV e passou a cuidar do filho, que também se chamou João.

Durante o segundo ano de vida de Joãozinho uma fotografia da jovem família publicada em revista de circulação nacional (Caras da época, só não me lembro qual foi) causa escândalo ao revelar que Simão, pai de Joãozinho, tinha outra família já com dois filhos mais velhos no sul do Brasil. Num ato de bravura, Zulmira decide assumir o peso de ser mãe solteira, sobretudo em solidariedade à primeira mulher de Simão, que nada tinha de culpa no cartório e não podia criar dois filhos sozinha. Pelo menos o dela era um só.

João não conheceu o pai. Zulmira casou-se mais quatro vezes na vida e teve mais um filho que chamou de José. Zé. Zezinho. Não teve filhas mulheres. Por isso quando eu crescia ela me acompanhava de perto praticamente todos os dias. Foi com minha avó que tive conversas incríveis sobre namorados, paqueras, sexo, casamento, gravidez… Minha avó me deu um colar de pérolas legítimo, sua última jóia, que ganhara da mãe após se emancipar. Fui sua primeira neta. Foi ela quem me deu um pequeno enxoval de louças, toalhas, leçóis, quando eu entrei na universidade e fui morar pela primeira vez fora de casa, em Campinas. A neta aqui em plena juventude de galinhagem e o câncer descoberto, ela (se é que não sabia) ao menos desconfiava que não viveria para ver meu casamento.

Me caso em Março. Passamos as últimas duas semanas montando o que temos da casa. Anteontem eu trouxe meus enxovaizinhos de solteira, tão queridos, que estavam guardados com minha mãe.

Hoje, assim, desastradamente, quebrei um prato. Um pires e um prato. De todos os pratos e pires, derrubei com as mãos molhadas e um tequinho de desatenção, o prato que acompanhava a xícara gigante e amarela, cheio de flores amarelas, que minha avó me deu sabendo que logo morreria. Fiquei estarrecida na cozinha e meu amor foi varrendo os caquinhos. Eu não me lembrava da história do prato. Foi só quando olhei pra ele que entendi meu estarrecer.

E desabei.

Fiz o almoço chorando incontrolavelmente e sem ter de fingir que era a cebola que eu cortava. Macarrão com linguiça de frango. Meu amor me abraçou e ficou assim comigo enquanto a água evaporava devagar. Mais salgada que a água do macarrão só minhas lágrimas jorrando desesperadas de saudades da minha avó. De saber que, de todos os momentos da minha vida, um que ela aguardava com ansiedade ela já perdeu.

Antes dela morrer passei uma tarde no quarto dela sozinha. Entre confissões de medo da morte e desejo de morrer para encerrar a dor, já muito doente, ela me contou com detalhes diversas passagens da sua vida que até então pareciam meio obscuras pra todo mundo. Pois sabia que morreria logo e que as histórias não poderiam parar ali com ela.

Enquanto eu puder contar a história da minha avó, ela vive. Quero contar essa história em cada dia da minha vida.

Zulmira foi minha heroína.

Você tem que casar

Texto de Georgia Faust.

Eu vejo muitas amigas minhas em uma corrida contra o tempo, lutando para conseguir atingir o seu sonho de criança. Que sonho é esse? Casar e constituir família. Acho interessante isso. Acho que toda mulher, quando criança, brincava de Barbie e imaginava como seria o dia do casamento. Todo mundo, com raríssimas exceções, quis casar. Quando eu tinha 20 anos, cheguei a pirar um pouco, porque a minha mãe com 20 já estava casada e já tinha eu. E eu com 20 não tinha nem namorado. Mas só pirei UM POUCO.

Mas daí que entre as brincadeiras de Barbie e a vida adulta a gente cresce né. E aprende. E vê pessoas ao nosso redor felizes de OUTRAS maneiras. Ou infelizes tendo a vida que a gente achou que ia nos fazer felizes.

Cena do filme ‘Noivas em Guerra’ (2009)

E, acredite, eu não tenho absolutamente nada contra filhos e casamento – apesar de não desejar isso para mim. Acredito sinceramente que isso pode sim ser uma receita de felicidade para muitas mulheres – apesar de não ser pra mim. Não milito CONTRA o casamento. Mas milito, incansavelmente, contra a mitificação dele. E contra a absurda pressão social que toda mulher sofre, diariamente. Pais, tios, amigos, pessoas que a gente acabou de conhecer dizendo que a gente tem que casar. Ou julgando que provavelmente nós, solteiras, temos algum problema, porque afinal de contas, só uma mulher com sérios problemas para não estar casada. Não pode ser opção nossa, tem que ter sido opção dos homens, não casar conosco.

Saí um dia com um cara e entre uma cerveja e outra ele chegou à mais importante pergunta: por que você não casou? Expliquei sobre alguns relacionamentos que tive e falei que nunca me importei com isso, não tenho a mínima pressa, e na verdade se eu pudesse apertar um botão HOJE para encontrar um marido, não o apertaria. Sério, eu nem sei porque cargas d’água isso vira tópico de conversa. Ainda mais nesse caso, que o cara deveria mais era estar feliz por eu não ser casada né? E no final da noite, o conselho: você tem que casar logo…

WTF?

Todo mundo acha isso, todo mundo pensa isso, e eu realmente tenho uma cabeça muito dura por não obedecer. Mas não é todo mundo. Muitas amigas minhas acabam convencidas de que realmente elas têm que casar logo, e que certamente o fato de não estarem casadas denuncia algum problema com elas: no caráter, na índole, no desempenho sexual, no temperamento, sei lá.

Tenho uma amiga que odiava e amava o ex-namorado ao mesmo tempo. Amava por N motivos, morria de saudades dele, não conseguia ficar longe,vivia correndo atrás do cara. O cara tb gostava dela, mas eles eram diametralmente opostos. Eles já tinham namorado e ela já sabia como ele era: ela não podia ter amig@s, não podia sair sozinha e tinha que cuidar com as roupas que usava. Não podia nem conversar com os amigos DELE quando eles saíam pq sempre virava crise de ciúme.

Ela sabia de tudo isso. E reclamava sempre de tudo isso. Odiava ele por isso.

Quando eles tavam “negociando” pra voltar, eu falei o que eu pensava. Então eu falei pra ela: olha, vc sabe q ele é um idiota. vc sabe isso isso isso e aquilo (descrevi tudo). sabe que ele quer uma Amélia, e sabe q vc não é uma Amélia. vc sabe q ele não vai te aceitar como vc é, q vc vai ter q mudar mto e abrir mão de mtas coisas. vc acha mesmo q vai ser feliz assim? (ah mas eu amo ele, blablabla whiskas sachet) então se vc quer fazer isso dar certo, vai ter q entrar no jogo dele, blz?

E daí eles voltaram e ela entrou nessa, fez tudo direitinho, e com MUITO pesar no coração, eu apoiei tudinho. Porque ela sabia disso tudo, não tava sendo obrigada e entrou nessa totalmente consciente porque quis.

Várias coisas aconteceram nesse tempo que eles estiveram juntos, e no final das contas ela mesma acabou terminando o namoro – de novo. E o que eu acho interessante é que ela sabe que não gosta dele. Mas ao mesmo tempo ela sente que PRECISA dele. Porque é o relógio biológico, né? (que aliás, o backlash inventou) Porque ela tá com 25 e tá na hora de sossegar o facho, virar moça direita, ter um bebê. E isso pesa muito pra ela, eu vejo que ela sofre. E é como se ficassem 2 grilos falantes nos ombros dela, um de cada lado, um dizendo que não é isso que ela quer, e o outro dizendo que ela precisa disso. E fica esse conflito interno e eterno, de ela fazer o que quer ou atingir as expectativas da “sociedade”. E a mãe dela surtando toda semana por ela ainda ser solteira.

E não que eu seja a super-mega-blaster do mundo pra ficar cagando regra, mas sei que muitas pessoas me admiram pq eu sou ultra-independente, moro sozinha, me sustento, não trago desaforo pra casa e lido muito bem com a solteirice. Apesar de ter todas as características do estereótipo da tia-solteirona-amarga-infeliz-mal-comida (to solteira há 10 meses, e nesse tempo não fiquei nem me interessei por ninguém – além do cara que acha q eu tenho que casar, moro sozinha com 7 gatos etc etc etc) ainda sou feliz, bem humorada, tenho muitos amigos… Isso é uma quebra de paradigma que choca muito as pessoas.

Esse medo de ficar sozinha é caso bem sério, e é uma epidemia entre as mulheres, eu acho. No desespero elas se agarram até em fio desencapado. Mas justamente esse é o resultado dessa lavagem cerebral da tia-solteirona – sobre a qual já falei aqui há algumas semanas atrás. Todos esperam (e têm ctz) q se vc chegar aos 30 solteira e sem filhos, é uma infeliz. Pq a gente escuta isso desde pequena né? Não faça isso se não vai ficar pra titia… Tem q arrumar um namorado logo se não vai virar a tia-chata…

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Sim, eu repeti o tema porque acho que o assunto é infinito.

E porque minha luta nessa vida feminista é justamente acabar com essa pressão que a gente sofre por ser solteira, e permitir que mulheres como eu tenham liberdade para simplesmente serem felizes!!!