Martin Luther King Day

Texto de Georgia Faust.

Dia 15 de janeiro foi Martin Luther King Day.

Esse cara foi O cara. Não tem como assistir ao discurso mais famoso dele, ‘I have a dream’, e não se emocionar. Fico muito surpresa de saber que isso tudo aconteceu ainda ontem. Ainda ontem, agorinha, em 1963. Pensa bem cara… Há somente 48 anos, negros não podiam votar em muitos estados americanos. Negros tinham banheiros separados. Negros ocupavam a parte de tras dos ônibus. Umas coisas assim que na nossa cabeça fazem parte da Idade Média. Mas não. Foi ontem.

Martin Luther King. Foto de Dick DeMarsico/World Telegram, via Wikimedia Commons.

Acho interessante quem acha que tá tudo bem hoje em dia. Que meritocracia existe e funciona, ainda mais aqui no Brasil. Que é só lutar e se esforçar, e o céu é o limite — afinal, olha só o exemplo do Sílvio Santos né? Bem coisinha da direita isso, e bem por isso que eu odeio qualquer coisa que lembre a direita.

Vamos tirar 5 segundos, em memória de Martin Luther King e repensar saporra toda de meritocracia. Né? 49% do Brasil é de negros/pardos. Mas essa proporção não existe em cargos de chefia, em cargos políticos, em escolas particulares, em universidades. Enquanto 26% de pretos e 30% de pardos ganham ATÉ 1/2 salário mínimo, apenas 12% de brancos está nessa mesma situação.

Então… Meritocracia né?

É só se esforçar um pouco, batalhar, e daí a gente chega lá. O que significa, logo, que mais ou menos 30% de pardos e pretos são simplesmente… VADIOS? Não, não pode ser, eu conheço vários que são trabalhadores. Então… Eles só tem menos capacidade, é isso? São… mais burros? Talvez alguma falha genética então?

Porque, se não existe preconceito nesse paraíso que é o Brasil, temos que achar uma outra explicação, né?

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Na verdade, quando eu finalmente desmistifiquei esse lance todo de meritocracia foi que a minha visão DE MUNDO mudou. Comecei a ver TUDO com outros olhos. E comecei a me revoltar toda vez que ouço/vejo um discurso pregando o esforço pessoal como solução de todos os problemas. Aham, Claudia, senta lá.

Os homens inseguros

Texto de Nessa Guedes.

Se metade dos caras que detono com uma frase, com uma correção qualquer, me enfrentasse ou admitisse seu erro com a dignidade de quem não tem medo de errar, eu me apaixonaria por cada um deles.

Sabe por quê?

Não tem nada mais sexy que alguém tão seguro de si, que mesmo quando erra tem colhões suficientes para dizer: OPA! ERREI, DESCULPE!

Em 80% das vezes esses “homens” correm de mim. E sério, tô cansada de ser temida. Principalmente pelos meus objetos de desejo. Eu não passo de uma jovem mulher de 20 anos que leu livros demais na sua época de gorda-nerd-pré-adolescente e desenvolveu um senso crítico aguçado para rebater qualquer um que subestime a intelgiência que tanto prezo em mim mesma. Mas, já diziam os velhos sábios, elogiar a si mesmo é o mesmo que afirmar que você não é aquilo que afirma ser, logo, eu não devo ser nada inteligente.

Disse minha mãe que, se eu fosse inteligente DE VERDADE, eu tentaria parecer burrinha para os homens. E assim que eles caíssem de quatro por mim, eu poderia mostrar para eles que eu sou um pouquinho mais do que um rostinho bonitinho e um papinho simpático. Diz ela que eu nunca deveria citar meu emprego, e meu curso na universidade, até conquistar um dito-cujo. Porque, segundo ela, e eu suspeito que tenha razão, os homens tem medo de mulheres que mostram interesse por coisas muito além do que banalidades geralmente atribuídas unicamente ao público feminino.

Segundo, minha mamãe querida, uma guria que chega e fala que estuda física, e que trabalha com o que eu trabalho, seria carta descartada do baralho de qualquer guri da minha idade — e provavelmente até os dez anos mais velhos. Meu maior erro, aparentemente, é falar demais, dar palpite demais, e dizer que sou gremista, mas estou pouco me importando se tem jogo do Grêmio quarta-feira, menosprezando uma das coisas mais importantes para 90% da população masculina. Ou, fazer coisas do tipo, cortar um cara, mesmo que sem querer, ao corrigir o que ele falou, ou desmentir algo que ele disse, sem que eu perceba que estou fazendo. E eu sei que eu faço, mesmo que inocentemente, mesmo que só querendo trazer a verdade para o conhecimento das pessoas, e não deixá-las com uma informação errada pairando sobre suas cabeças.

Outra coisa que faço errado também, é fazer as contas certo. É. Se alguém erra um cálculo e eu percebo, eu corrijo. Agora pára e imagina uma mesa de bar cheia de gente, e na hora de pagar a conta, quem toma a atitude de fazer os malabarismos matemáticos para dividir a conta entre a galera seja o macho-alfa da situação. Agora, imagine que ele erre as contas, mesmo depois de ter usado um papelzinho ou o celular. Agora imagina se eu corrijo a conta que ele fez, sem usar papelzinho ou calculadora do celular. E quando as pessoas chegam no caixa, a conta que eu fiz estava certa e a dele não. Pois é. Aprendi com a minha mãe que esse é o tipo errado de atitude a se tomar quando se está afim de homem qualquer. Porque eles detestam se sentir para trás, ou algo do tipo.

Óbvio que eu — no estado de solteirice irremediável que estou, mas ao mesmo tempo, sem ninguém para dar uns amassos por aí (pelo menos não alguém que eu queria né) — ponderei sobre a sugestão da minha mãe. Pensei que, poxa, pelo menos para finalidade de apenas sexo esse método — de bancar a múmia-da-roda-que-só-ri-das-piadinhas-alheias-e-não-tem-opinião-sobre-nada — talvez fosse válido. Mas depois eu pensei; putaquepariu, onde eu enfiei a minha cabeça? Um cara que superestima minha suposta falta de inteligência, e que me levaria para cama só por eu aparentar burrice iminente e ter um sorriso simpático jamais mereceria estar ao meu lado numa cama, oras.

Porque, se os homens tem problemas em se sentirem inferiorizados, o problema é DELES. Não meu. Se esses cidadãos porto-alegrenses se sentem intimidados por uma guriazinha metida de vinte anos que ainda mora na casa dos pais – embora divida as contas com eles -, ainda está na faculdade, e fica bêbada com apenas uma capirinha, o que eu vou fazer? Acho que vou dar é graças a deus por ter m livrado de tamanho número de gente imbecil. Porque, fio, insegurança é broxante, sabe.

Só que, eu peço encarecidamente à vocês, homens de Porto Alegre e arredores (por que não?), que parem de ser inseguros.

Para o bem-estar da minha (inexistente) vida amorosa.

Ok? Combinados?

Digam que sim, please.

Mulher desdobrável ou mal humorada? Presente!

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

Adélia Prado, com licença poética, contou-nos a verdade: “mulher é desdobrável. Eu sou”. E o feminismo também. E as feministas também. É preciso tirar as feministas da caixinha. E tirar de nossos ombros todo esse fardo e toda essa culpa. Mais ainda, arrancar esses indesejáveis rótulos que nos colocam dia após dia.

Para eles, feminista ou bem é mal humorada e mal amada ou bem é fácil e destruidora da tradicional família. Não vou falar aqui como essa categorização das feministas faz parte de forças que pretendem desautorizar e desacreditar o movimento. É o Backlash, baby. Sobre isso devem surgir alguns posts em breve, após iniciado o círculo de leitura feminista sobre o livro da Susan Faludi. Quero apenas fazer uma análise rápida desses carimbos que andam estampando nossa testa.

Porque mal humoradas, ah, não somos. A começar por essas feministas aqui, desse blog. Mas de que tipo de mau humor será que se referem quando dizem isso? Querem dizer, com isso, que não achamos graças em piadas que só servem a reforçar o preconceito? Mal humorada, presente! Querem dizer, com isso, que contra-argumentamos cada lugar comum sexista dito em uma mesa de bar como se fosse verdade? Mal humorada, presente!

Acho grave quando alguém diz, por exemplo, que as feministas exageram e que esse exagero se reflete na Lei Maria da Penha. Li, há algum tempo, o artigo ‘Lei Maria da Penha e a criminalização do masculino’, que dizia que a previsão da violência psicológica na referida Lei vinha para “criminalizar o masculino”.

O artigo em questão trata de questões interessantes, em alguns pontos, como a possibilidade de imprecisão dos termos. Isso, contudo, na minha opinião, não leva à conclusão que o autor aponta. Acredito que a dificuldade de muitos em compreender a gravidade  da  “piadinha” com a companheira e a possibilidade disso caracterizar, sim, violência psicológica, só pode ser consequência da inserção em uma  cultura das relações sociais baseada no patriarcado.

Como sempre diz a Lola, quem está inserido em seu privilégio dificilmente consegue enxergar a luta e as dificuldades dos que não os tem. E, assim, como compreender que a brincadeira pode, sim, inferiorizar, humilhar, ofender, violentar; mesmo que para você pareça apenas brincadeira? Para você…

Nem sei se é possível dizer que essa coisa de brincar, caçoar é assim “natural do masculino”. (e as psicólogas aqui, me socorram, me parece muito mais coisa de gente insegura). Aqui também me parece haver uma carga forte de sexismo.

E então, se ser mal humorada quer dizer não gostar de homens que se relacionam na base da piadinha que inferioriza, então… mal humorada, presente! Ah, somos mal amadas também. Mas né, aí é simples demais responder: se ser mal amada quer dizer não desejar se relacionar com misóginos… mal amada, presente!

O segundo carimbo, a feminista fácil e destruidora de famílias, vai ficar para depois. Cada rótulo no seu tempo. Mas deixo apenas uma nota sobre isso: “Na França, principalmente, confunde-se obstinadamente mulher livre com mulher fácil”, Simone de Beauvoir.