Gênero neutro

Texto de Barbara Lopes.

A discussão sobre a forma presidenta vem nos lembrar que não existe neutralidade na nossa língua, como não existe na nossa sociedade. Se eu for ao cinema com alguém e meu marido me ligar, vou necessariamente dizer o gênero da pessoa que está comigo, “um amigo” ou “uma amiga” – e o significado desse passeio pode mudar completamente por isso. Em outras línguas, como no inglês, a frase ficaria ambígua, mas em português é muito difícil fugir – inclusive porque as fugas nos denunciam prontamente.

Mas há quem diga que não: que o masculino funciona como masculino mesmo, mas também como neutro. Nossa língua funciona assim, no plural (“amigos” pode ser um grupo com apenas um homem e muitas mulheres) e nas formas que não flexionam (“moça meio distraída”). E também nossa sociedade funciona assim. O que precisa ser marcado é o feminino; é o que notamos primeiro, é a diferença.

O mesmo acontece com outros grupos “diferentes”. No campo da sexualidade, falamos da heteronormatividade, a expectativa é que o “normal”, o “default” é ser hétero e que a diferença é que é notada, marcada. No O que é racismo, o Joel Rufino dos Santos conta (cito de memória) de um jogo de futebol, em que toda vez que um jogador tal errava um lance, um torcedor gritava “Preto burro!”. Daí, quando um jogador branco errou, um amigo do autor gritou, para espanto de todos, “Branco burro!”.

Esses dias, um amigo criticando um comportamento no trânsito disse que achava que mulheres faziam isso mais do que homens, e me perguntou se fazia sentido. Estatísticas são complexas, talvez haja mais mulheres dirigindo; talvez mulheres realmente se comportem desse jeito. Mas me ocorreu que talvez ele repare mais quando é uma mulher e que quando homens fazem a mesma coisa, caia pra uma gaveta “neutra”.

O nosso trabalho é duplo: desconstruir esse neutro-normativo (homem, branco, hétero) e reconstruir um sentido neutro real, em que as pessoas sejam notadas pelo que são e não pelo grupo no qual foram inseridas. Nessa luta, não há campo neutro.

Update – dois links fresquinhos sobre o caso “presidenta”:

A revolução de cada uma

Texto de Mari Moscou.

Hoje resolvi compartilhar com vocês uma vitória.

É uma vitória para mim quando leitoras do meu blog entram em contato comigo. É uma vitória maior ainda quando contam como encontraram o blog e como o blog lhes encorajou a fazer alguma coisa (começar um blog, por exemplo). Algumas das minhas colegas aqui sabem do que estou falando. A sensação é demais.

Há algum tempo entrou em contato comigo uma leitora, Cynara, que me contou de forma linda sua própria vida e como a leitura do meu e de outros blogs feministas a estava encorajando a retomar projetos e sonhos, como o de cursar uma universidade depois de terminar o supletivo. Esta leitora, para mim, se tornou uma heroína. Penso que, como vivemos cada um as nossas vidas, às vezes não nos damos conta de que nossas experiências não são ordinárias mas fantásticas, para as pessoas que não as tiveram (e às vezes pra quem teve experiências parecidas).

Ontem, uma outra leitora entrou em contato comigo, já de madrugada, quando eu me preparava para dormir. Marina é Terena, e participou de organizações e órgãos que trabalham com as questões das mulheres indígenas. Um mundo novo se abriu pra mim na curta conversa que tivemos. E estou cada vez mais curiosa com esse mundo — quero mergulhar.

Fazer um blog crítico, tentar despertar o espírito de crítica em leitoras e leitores, é uma via de duas mãos de positividade. Quem lê aprende com quem escreve, quem escreve aprende com quem lê. Quem lê se anima a escrever, quem escreve se anima cada vez mais a ler.

Embora os “grandes blogs” feministas, aqueles mais conhecidos, sejam excelentes portas para a nossa causa e para outros blogs menores, como o meu e o de outras companheiras aqui, penso que nossa nobre missão enquanto blogueiras feministas é às vezes deixada de lado por nós, quando nos atemos somente a esses blogs/blogueiras e sua repercussão.

Faço aqui um apelo, às amigas blogueiras, twitteiras, grandes, médias, pequenas, prospectos: ao encorajarmos, lermos, comentarmos, linkarmos novos espaços de gente que está começando, damos proporções exponenciais ao crescimento de uma blogosfera feminina e feminista que seja crítica. Ampliamos as opções de leitura de nossas leitoras e de nossos leitores. Mostramos que é possível ler blogs de moda, culinária, unhas, maquiagem mas também de política, viagem, feminismo – todos feitos por mulheres, com todo o mérito que isso tem.

O feminismo pode ser, também assim, um trampolim para cada revolução pessoal.

Poder, gênero e presidência

Texto de Cecilia Santos.

Escrevo este texto no dia da posse da Presidenta Dilma Roussef, 01 de janeiro de 2011. Dia de muita emoção, de me sentir ainda mais ligada às mulheres deste grupo. Desejo de abraçar todas as mulheres brasileiras.

Revendo as imagens, penso no agora ex-presidente Lula e em minha própria história. Em 2010, participei da sexta eleição para presidente da minha vida. Ou seja, todas as eleições do período pós-ditadura. E ano passado, pela primeira vez, não votei no Lula, mas na candidata do PT, Dilma Roussef.

Nesses 21 anos muitas coisas mudaram na minha vida. Só não mudou o fato de que, a cada eleição, era preciso enfrentar o preconceito e a má fé em tudo o que se referia ao PT e especialmente a Lula.

Bom, hoje terminou o seu mandato e, como vimos, nenhuma das muitas previsões estapafúrdias e catastróficas de seus críticos se concretizou. Pelo contrário. Apesar de críticas à direita e à esquerda do espectro político nacional, é consenso que Lula deu um grande passo para diminuir a desigualdade social. Por isso, é simbólico que, ao descer a rampa do Planalto, Lula tenha se abraçado e chorado com esse povo que ele entende tão bem e que o venera.

Vocês devem estar pensando: por que eu resolvi enaltecer a biografia desse homem num post de temática feminista? Porque, em primeiro lugar, sem ignorar seus erros ou omissões, tenho grande admiração por ele. E minha admiração decorre também de sua iniciativa de indicar e apoiar Dilma para presidente. Se houve motivações ocultas e cálculos políticos, eu não sei. Se Lula é machista em sua vida privada, também ignoro. Mas acho realmente relevante que o primeiro operário a se tornar presidente tenha trabalhado para eleger uma mulher para sucedê-lo.

Embora as conquistas femininas ainda tenham sido modestas em seus 8 anos de governo, comparado aos governos anteriores do período democrático, a diferença é enorme. Fiz uma pesquisa rápida na internet, levantei os números de ministras em cada governo, e o resultado, em forma de gráfico, é o seguinte:

Os dados sobre o número de ministros foram obtidos na Wikipedia e, portanto, são passíveis de erro, mas certamente se aproximam da realidade. A tabulação e o gráfico foram feitos por Cecilia Santos.

Como se vê, Lula teve o maior número de mulheres ocupando pastas ministeriais, um total de 10 mulheres ao longo de 8 anos. Durante o mesmo período, o ex-presidente FHC teve apenas 2, a mesma proporção que Sarney e menos até, proporcionalmente, que Collor e Itamar.

Infelizmente, ainda neste início de século as mulheres, mesmo organizadas, continuam a ter muita dificuldade para romper barreiras. Infelizmente tivemos que contar com a figura masculina para lançar a candidatura da Dilma. Infelizmente seu mandato será sempre julgado por aqueles que acreditam que Dilma é uma invenção de Lula, por mais competente que ela tenha sido, seja e venha a ser em suas funções públicas.

O que eu quero dizer é que não devemos esperar que os homens nos façam ‘concessões’ na vida pública ou privada. A luta feminista é das mulheres, sem dúvida. Mas pode e deve ser também dos homens, pois é inegável que, com um pouco mais de consciência da parte deles, o acesso igualitário e justo dos gênero às posições de poder é possível.