A ditadura silenciosa

Texto de Thayz Athayde.

Quase todos os dias passo por uma banca jornais, mas a capa de uma revista me chamou a atenção: prepare seu corpo para o verão. Mesmo atrasada, eu tive que parar para ler aquilo e falei meio indignada pro rapaz da banca:

– Como assim preparar meu corpo para o verão? Ele já não tá preparado? Falta o que? Uma melancia na cabeça?

O que me deixou mais chocada, é que só tinha mulheres na revista, obviamente somente as mulheres devem fazer dietas e ficar magras, os homens que fiquem com suas barriguinhas de cerveja, é tão sexy, né? Ninguém gosta da barriga do Gerard Butler. Há algo extremamente necessário, talvez até um pré-requisito para ser mulher: você tem que ser perfeita. Cabelos lindos, corpo exuberante, paciência de um monge budista, esposa dedicada, super mãe, excelente cozinheira e se sobrar tempo, você pode até estudar e ter uma boa carreira, talvez até cuidar de você um pouquinho.

Vivemos hoje em uma ditadura silenciosa, que nos manda fazer tantas coisas e não temos tempo de fazer uma pergunta bem simples: será que eu quero? Eu quero fazer uma lipo? Eu quero ficar meses sem comer chocolate só pra mostrar meu bumbum no verão? Somos metralhadas todos os dias sobre essa suposta obrigação como mulher. E nosso real desejo, onde fica? Eu não acredito que as pessoas pensam que o único desejo feminino é fazer dieta ter um bom marido. Da onde saem esses pensamentos? Das mulheres – barbies. Pare de construir ou ajudar a construir esse tipo de modelo, não faça isso só por você, faça pelas próximas gerações, pelas gerações que lutaram pelo direito de ser mulher, para que possamos ouvir a palavra feminismo como heroísmo e não como um palavrão machista.

Meu feminismo e a nossa liberdade

Texto de Danielle Cony.

Percebo que a maioria dos homens se arrepiam quando digo que sou feminista. Ok, alguns são altamente machistas e possuem idéias retrógradas e não vão tentar entender que possuem privilégios. Para eles o mundo é assim. A vida deu todas as oportunidades, então porque iriam lutar por algo que não interessa? Eu diria. Sim, essa luta também te interessa.

Então… O feminismo luta pela a igualdade de direitos. Ele também luta para que você tenha o direito de sensibilizar onde e a hora que você quiser. O feminismo não é opressor como muitas pessoas pessam. O feminismo quer dar voz ao gênero. O machismo é que opressor, impede a mulher de se desenvolver, constrói uma obrigatoriedade de violência e agressividade ao homem. Quem me parece impositivo nessa história? Em outras palavras, os homens deveriam ser feministas porque o machismo também oprime os homens.

Então meu caro colega, passemos a refletir sobre sua tragetória. Lembra-se quando você era criança e seu cachorro querido morreu (ou talvez alguém muito próximo da família)? E você sentindo todas as dores do mundo foi tolhido de chorar porque “aquilo não era coisa de homem”? Quem te frustrou? O machismo ou o feminismo?

E quando você tinha uns 10 anos? E sofreu bullying na escola, porque seu cabelo era comprido ou porque usou uma blusa engraçada (ou por qualquer motivo irrelevante). Quem te frustou? Quem te chamou de “florzinha” foi um amigo seu machista agressivo ou foi uma menina feminista?

E quando você se tornou pai? E percebeu que sua filha sofreria exclusão e violência no dia-a-dia. De que sociedade você questionou essa inserção? De uma sociedade iguálitaria de direitos ou de uma sociadade que oprime o gênero?

E quantas e quantas vezes meninos precisam se explicar? Explicar suas atitudes, os seus gostos, o medo de algum rótulo, alguma brincadeira de mal-gosto e o medo de se tornar “chacota”. Diga-me, você não está cansado disso? Quem criou isso? Foi o feminismo ou o machismo vigente?

Então vamos esclarecer, que ao contrário do que muita gente pensa, as feministas (mesmo as mais radicais) não querem os homens exterminados. Feministas querem liberdade. E entenda de uma vez que a minha liberdade não é a sua prisão. A minha liberdade é a minha autonomia, assim como a sua também. A luta feminista é contra o machismo e não contra o homem.

E agora? Pronto para aderir a nossa luta?

A alma do negócio

Texto de Barbara Lopes.

“Somos capazes de ser tão inteligentes ou estúpidos quanto o mundo quiser que realmente sejamos”.

A frase está no romance Pastelão, do Kurt Vonnegut, numa carta que o narrador e sua irmã, ainda crianças, mandam a seus pais. Crianças são assim: têm uma sensibilidade e uma percepção enormes para descobrir o que o mundo espera delas e se esforçam para se adaptar e se transformar exatamente nisso.

Uma das maneiras como o mundo diz às crianças o que quer que elas sejam é através da publicidade. Tem um vídeo muito bacana mostrando como são diferentes as propagandas de brinquedo para meninas e meninos. Para meninas, são valorizados cuidados domésticos, beleza e popularidade. Para meninos, competição, poder e criatividade. (O vídeo está em inglês, mas aqui tem a tradução do Google pra transcrição; meio tosca, mas dá pro gasto). A conclusão do vídeo, com qual eu concordo, é que a publicidade para crianças deve ser proibida ou, pelo menos, altamente regulada.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=rZn_lJoN6PI&feature=player_embedded]

A maneira como esses estereótipos de gênero limitam as possibilidades das crianças fica clara no vídeo. Mas eu fiquei pensando em outro aspecto. Nós vivemos uma matança de meninos. Um estudo da UNICEF, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Observatório de Favelas e Laboratório de Análise da Violência mostra que o índice de adolescentes assassinados é altíssimo e que a maior parte das mortes é por arma de fogo. Meninos tem risco 12 vezes maior que meninas e negros 2,6 mais que brancos.

Não dá pra simplificar o problema, que inclui uma série de outras questões – racismo, acesso fácil a armas, violência policial são algumas. Não é uma relação direta, de acreditar que uma imagem, sozinha, é culpada por toda a violência. Mas propagandas e preconceitos não são inocentes nessa história, são o mundo dizendo que quer que meninas sejam bonitas e meninos lutem. Quando isso se junta com outras condições, o resultado é explosivo.

A gente pode querer bem melhor.