Há 30 anos: TV Mulher

Texto de Cecilia Santos.

Em dezembro de 1980, eu e meus colegas da 8ª série nos abraçávamos chorando em clima de despedida quando chegou a notícia de que John Lennon havia sido assassinado.

Foi também em 1980 que o atual presidente Luís Inácio Lula da Silva foi preso por liderar greves de metalúrgicos na região do ABC Paulista. No mesmo ano foi criado o PT – Partido dos Trabalhadores. No Brasil e em toda a América Latina militantes de esquerda estavam presos ou exilados, ou simplesmente haviam desaparecido.

Claro que nenhuma discussão crítica desses fatos da vida política passava pela escola, apelidada na região de ‘colégio dos padres’, e a TV mostrava a sua versão conservadora dos fatos. Por isso, só bem mais tarde eu fui entender o que significou esse período.

E foi com muita surpresa que, dias atrás, assisti a este vídeo da Marília Gabriela, apresentadora da TV Mulher, um programa feminino de variedades criado justamente no ano de 1980, ainda em plena vigência da ditadura militar, paradoxalmente levado ao ar pela emissora conhecida por apoiar o golpe militar, a Rede Globo.

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No vídeo, Marília Gabriela fala dos problemas da mulher, que ‘vão desde a tradicional discriminação (…) no trabalho até a validade ou não da legalização do aborto, passando pela necessidade de creches e da divisão do trabalho doméstico’.

O momento mais emocionante de sua fala é uma referência ao problema da seca que assolou o Nordeste nessa época, condenando o uso dos termos ‘invasão’ ou ‘saque’ para se referir a ‘outros brasileiros que estão querendo comer’.

Era um chamado para que as mulheres assumissem o seu protagonismo não só em relação aos múltiplos problemas de gênero que persistem até hoje, mas também no que diz respeito à vida social e política do país.

O programa tratava de uma variedade de temas, de telenovelas, moda e culinária e direito da mulher e do consumidor.

Mas talvez um dos quadros mais memoráveis foi Comportamento Sexual, dirigido pela Marta Suplicy. Foi a primeira vez que se falou na TV de orgasmo, ejaculação precoce, masturbação e gravidez na adolescência.

É claro que @s conservador@s não gostaram. O grupo que ficou conhecido como Senhoras de Santana chegou a acampar em frente ao estúdio da Rede Globo exigindo que o quadro fosse retirado do ar.

Felizmente não foram atendidas, e o programa continuou até 1986, quando foi substituído pelo programa infantil Xou da Xuxa e, mais tarde, por outro programa feminino, Mais Você, apresentado por Ana Maria Braga.

E eu me pergunto: o programa foi uma tentativa ousada de discutir questões de gênero com um público mais amplo? Isso teve alguma influência nas (poucas) conquistas dos últimos 30 anos? Mas principalmente, por que o conservadorismo conseguiu praticamente varrer as discussões de gênero da TV aberta?

Machismo e feminismo estão em muito do que vejo

Texto de Deh Capella.

Levar a vida sendo mulher é assunto que não sai da minha cabeça. Os mais empedernidos podem me considerar paranoica ou  “radical”. Mas passo uma parte considerável do meu tempo olhando, reparando, elocubrando, matutando sobre isso: enquanto ando pela rua, quando ouço pessoas conversando, quando observo suas ações, quando vejo televisão, leio; enquanto vivo.  Gosto de dizer que isso é automático e só é possível porque me impus a necessidade de disciplinar o olhar, a cabeça e  também a língua, porque me incomodava reproduzir padrões de comportamento e opinião que não condiziam com a pessoa que eu  gostaria de ser. Continuo praticando.

Gosto de olhar em volta e perceber o que há de machismo e o que há de feminismo no mundo, nas atitudes e palavras, as sutilezas e detalhes e também o que é ostensivo.

Vejo um pouco das duas coisas, pra começar, quando olho em volta e enxergo tantas mulheres desgastadas, sobrecarregadas,  cansadas e sobretudo culpadas em função de suas escolhas. Pra várias é como se aquilo que escolheram viver tivesse que ser  levado, arrastado como um fardo, e por trás desse peso o “mas você quis assim, você escolheu isso”; como se muitas dessas  mulheres tivessem com quem dividir o peso do que é imposto e não escolhido.

Enxergo um mundo marcado pelo machismo quando ando pelo condomínio aos finais de semana e vejo exclusivamente mães pajeando  suas crianças pequenas e ouço menções aos pais – e me espanto, porque se não ouvisse o que essas mulheres falam poderia  supor que elas viviam sozinhas com seus filhos – mas aqui vejo o machismo de uma sociedade em que muitos pais não tornam  possível uma experiência de ma(pa)ternidade diferente daquela que me contava outro dia uma senhora que se preparava para  entrar na piscina da academia: ela cuidou de seus filhos sozinha, completamente sozinha, e o pai aparecia para um bilu-bilu  no queixinho da criança de vez em quando. Alimentação, educação, higiene, valores, diversão, era tudo pra mãe. Mas aí eu  viro e mexo e continuo vendo e ouvindo casos de pais que nunca trocaram uma fralda de suas crianças, que não sabem o nome  da professora e não têm lá muita ideia do que se passa no dia-a-dia da casa. Homens da minha idade, maridos de mulheres da  minha idade. Eu continuo me espantando porque sempre acreditei que esse padrão de comportamento fosse próprio de décadas  atrás e não admissível, mas identificável em outro contexto.

Também reparo quando escuto os medonhos discursos pró-“preservação” da mulher, que deve “se dar ao respeito”. Que não deve  praticar sexo casual, deve se vestir de forma “respeitável”, sobretudo se for mãe de família, que deve se resguardar após  enviuvar ou se separar, que deve tomar cuidado com o que fala porque “palavrão em boca de mulher” é horroroso, porque  “podem pensar que é biscate”, porque “podem se aproveitar”, porque “depois acontece um estupro e ninguém sabe por quê”.  Para mim não há nada de sutil nesse tipo de afirmação e comportamento, e educar filhos e filhas com base nesse tipo de  ideia é ostensivamente machista; talvez não o seja para tanta gente porque é o “normal”. O aceito. O desejável e esperado.  Assim como desejável e esperado é também não reagir, sob perigo de ganhar o rótulo de radical, ou de mal-amada, ou de  neurótica, ouvir as ameaças que só as “mulheres bravas” sabem quais são. Espera-se de todas nós uma docilidade, uma  resignação e uma aceitação que me é familiar dos discursos do Brasil Colônia (se não me engano foi Mary Del Priore que  falou sobre “dois lados da mesma moeda: a puta e a Virgem Maria”, e isso se grudou à minha cabeça de aluna bem bobinha de  Graduação no começo dos anos 90) e das revistas femininas dos anos 50, do imaginário feminino dos seriados (lembro sempre  do Papai Sabe Tudo e de A Feiticeira, imagens bastante opostas de mulheres em núcleos familiares).

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Esta é minha primeira tentativa de reflexão neste espaço sobre um dos temas mais abrangentes que conheço. Machismo e  feminismo estão em muito do que vejo, em praticamente todo lugar. Vou tentar estabelecer uma pequena tradiçãozinha aqui: publicar a postagem e incluir uma recomendação de leitura e/ou deixar uma questão no ar. Quem quiser contribuir, dar  pitacos, fazer críticas terá a caixa de comentários à sua disposição!

A perguntinha é: que peso têm as mulheres e os homens na perpetuação de valores feministas/machistas?

Minha recomendaçãozinha de leitura é um post de Marina Macambyra, bibliotecária da ECA-USP: Sapatos, orelhas e Tia Ruth. Muito do que se espera de nós,  inclusive por sermos mulheres, tem a ver com padrões estéticos e de consumo, o texto fala exatamente sobre consumismo e necessidades.