Dilma vai desfilar sozinha

Dilma desfilará sozinha: a pequena revolução do dia 1º de Janeiro de 2011.

Texto de Mari Moscou.

Leitoras queridas,

enquanto não sai meu post definitivo sobre Caminho das Índias e Hilda Furacão (ando na maior vibe reassistindo a minissérie), enquanto não começa o Big Brother 2011, enquanto não tenho mais notícias da minha ceia de ano novo ou do meu casamento, eis aqui um assunto de relativamente maior importância:

“Dilma desfilará sozinha na cerimônia de posse”, anunciava a home do UOL até esta madrugada.

Fiquei encantada com a manchete. Em uma frase ela sintetiza duas pequenas revoluções, como gosto de chamá-las, que serão exibidas escancaradamente no dia 1º de Janeiro de 2011. A primeira delas, termos eleito uma mulher. Em apenas seis eleições diretas a democracia brasileira que a direita e os golpistas querem que acreditemos ser frágil já elegeu um operário e, agora, uma mulher. Quando algum babaca vier elogiar os “países desenvolvidos” (nem sei como alguém tem a audácia de colocar na mesma cesta, homogeneizados, países como a Itália e a Finlândia, afe, mas vamos lá ao assunto) e suas “grandes democracias”, pergunte quanto tempo a França levou pra eleger uma mulher como presidente. Ahhhhh… ainda não elegeu? Há quanto tempo a França tem eleições diretas? Ah, tá, falou então. Mas vamos à próxima revolução que desta já falamos extensivamente durante as eleições.

Essa segunda “pequena revolução” que estará em destaque na cerimônia de posse tem a ver com o conceito de família. Nós somos um país BEM católico, embora haja gente que custe a admiti-lo, e vivemos todos os dias decisões relacionadas a uma série de conceitos e padrões católicos tanto na nossa vida “civil” quanto no executivo (sobretudo no estado SP, onde temo um governador da Opus Dei – oh god kill me please), no legislativo, no judiciário (eu sei, às vezes também acho que o Estado laico é uma grande mentira no Brasil). Isso aparece quando repórteres perguntam pra Dilma se ela não poderia começar a namorar durante o mandato e se isso não seria ruim para a presidência, quando definem a Marta Suplicy como “puta”, “vaca”, etc. porque ela se separou do Suplicy pra ficar com o Favre (post meu no Sexismo na Política sobre Marta, Dilma e Hillary Clinton), quando grande parte dos entrevistados de uma pesquisa dizem ser contra a adoção de crianças por casais homo, quando a Bruna Surfistinha conta em seu primeiro livro que a maioria de seus clientes era casado e pedia penetração anal, etecétera e tal. Os exemplos são muitos. Esse tipo de classificação e comportamento está mais ou menos diretamente ligado à idéia católica de que “família” deve ser um homem, uma mulher, filhos (e sexo só pra procriar hein?).

Nas cerimônias de posse, até hoje, estão sempre representados o eleito e “sua família”. A idéia convencional é um homem, eleito presidente, desfilando num carro ao lado de sua mulher, primeira-dama, que se dedicará a trabalhos sociais mas jamais à política (vide o preconceito que a Hillary sofre até hoje). Mas agora não. Na posse de Dilma, ela desfilará sozinha. Ela, uma mulher, é a presidente e a família da presidente. Não precisa de homem, de filho, de filha, de ninguém. É ela ali e pronto. Ela, sozinha, já “vale”. Não é lindo?

Infelizmente não poderei acompanhar ao vivo esse momento glorioso da luta pela igualdade de gênero, mas as amigas feministas aqui do blog, espero, contarão direitinho os detalhes e farão comentários que irão mais a fundo do que a grife da roupa da Dilma ou as jóias que ela usará (nada contra o interesse nesses detalhes, mas eu como leitora desejo mais que isso).

E confesso: cada vez gosto mais de que a Dilma seja solteira.

Da angústia de sair sozinha

Texto de Georgia Faust.

Eu sempre saí sozinha.

Não importa a hora. Sempre. Acho que é algum resultado de ter crescido numa vizinhança super tranquila, onde no verão a gente até dormia com a porta da sala aberta pra entrar um vento. Nunca tive MEDO de nada, nem do escuro, nem de barata, muito menos de andar sozinha por aí.

E como na adolescência vim morar na região central de Blumenau, também me acostumei a ir a todos os lugares a pé ou de ônibus, sempre foi rapidinho e sussi. Claro que as vezes alguém mexia comigo, na verdade a quantidade de “mexidas” era cada vez maior conforme a noite ia adentrando, mas nada que não fosse administrável. Coisas que a gente – leia-se mulheres – já se acostuma desde sempre né?

Mas me assustei com o quanto a situação mudou de poucos anos pra cá. Passei uns bons 4 anos sem sair a noite, ainda mais sozinha, e ainda mais a pé. Então não sabia de como as coisas pioraram, e como pioraram MUITO!

Há mais ou menos um ano atrás saí com uma amiga minha. Fomos comer sushi (daí o pai dela nos levou) e depois quisemos dar uma esticadinha. Fomos caminhando do sushi até um barzinho MPB, que estava vazio, então fomos do barzinho até a Cachaçaria porque me deu um desejo de tomar a batida de melão com champagne deles, humm.

Mas, sério, eu não sei o que aconteceu com os homens nesse tempo em que eu estive reclusa. Porque essa caminhada de no máximo 30 minutos às 22h (mais ou menos) beirou o insuportável. Sem brincadeira e sem exagero, não teve NENHUM carro que passou e não mexeu com a gente. E nenhum pedestre também. E eram “mexidas” de todos os tipos. De “inocentes” assovios até palavras mais grosseiras, do nível mais baixo imaginável.

E que sensação horrorosa hein? Essa de estar sendo constantemente violentada. E é um medo constante. Medo de mandar tomar no cu, porque nunca se sabe se o(s) cara(s) é ou não um maluco que pode se ofender e vir nos agredir… E não podendo mandar tomar no cu, medo até de dar uma risada, por medo que o cara entenda como uma abertura e venha nos abordar. E caminhamos, cabeça baixa, falando o mínimo possível, em passos apertados, presas na condição de sermos mulheres – e desacompanhadas.

Porque é assim né. Mulher desacompanhada é claro sinal de 100% à disposição dos caprichos masculinos. Só podemos nos sentir seguras (e ainda assim nem tanto) se acompanhadas de um homem. Se sozinhas, é medo constante. Mulher sozinha não pode estar sozinha por opção, por querer simplesmente tomar um drink de melão. Se está sozinha, está a mercê, é só vir e pegar a sua.

Lembrei desse episódio numa discussão que tivemos recentemente na nossa lista de discussão (quer nos acompanhar? entre aqui). Contei desse episódio e algumas meninas responderam que realmente, a coisa piorou de uns poucos anos para cá. E eu queria entender por quê.

E daí cheguei no blog da Lola (sempre a Lola né?) falando justamente sobre isso também. E como ela consegue expressar tão bem o que toda mulher pensa/sente sobre isso, resolvi colar as melhores partes do texto ‘De quem é o abuso de autoridade?’:

Esse terrorismo institucional que faz parte da criação de toda mulher, e que começa quando somos meninas de 8, 10 anos, pros homens é besteira. Eles também são educados, geralmente pelo pai, a dispararem grosserias a qualquer gatinha que passa. Faz parte da sua masculinidade. Opa, você achou exagerado eu chamar grosserias na rua de terrorismo? Então você só pode ser homem. Pergunte pra sua mãe, pra sua irmã, pra sua filha, que idade ela tinha quando ouviu a primeira cantada, e como se sentiu. Sei que a sociedade ou faz pouco caso desse nosso martírio do dia a dia, ou inventa que nós mulheres adoramos ouvir elogios como “Quero ser seu absorvente interno”, porque faz bem pra nossa autoestima.

O princípio da cantada na rua não é o elogio. Não é a proposta, o convite. Pelo contrário, é o insulto. É a dominação. É lembrar quem manda aqui. Só quem está numa posição de poder pode avaliar. Quem é subordinado é avaliado. […] Todos os homens se acham no sagrado direito de avaliar o corpo de uma mulher. Só porque ele é homem, ela é mulher, e uma sociedade patriarcal totalmente ultrapassada decidiu que ele pode.

Quem culpar?

Texto de Nessa Guedes.

– Mulheres tem que estar constantemente provando que são especialistas ou experts em suas áreas para serem devidamente respeitadas, enquanto que homens não precisam ser profissionais extremamente qualificados e informados para serem ouvidos sobre seu trabalho.

– Isso não é verdade. E eu acho que a gente não tem que ficar discutindo isso, porque mulher e homem são diferentes.

– Por quê?

– Porque sim.

– Isso não é uma resposta. Por quê?

Porque é assim e deu.

Fácil descobrir que é o homem e quem é a mulher nesse diálogo, não?

Pois uma coisa com a qual, na minha posição de feminista e recente ativista nesta causa, eu tenho dificuldade de lidar é essa conformidade sobre as aparências. É a constante busca da justificativa das diferenças pela biologia. Ou, simplesmente, o fato de que as pessoas odeiam sair da sua zona de conforto, nem que seja para expandir sua percepção do mundo e evoluir suas idéias.

Nesse fim de semana houve um momento que tive vontades absurdas de sentar no chão e chorar. Porque nada mais tinha a fazer para conseguir que outros enxergassem as dificuldades de ser mulher hoje. Enquanto eu falava com um grupo de homens na rua, à noite, sobre feminismo, três carros passaram às minhas costas gritando “Gostosa!” e equivalentes, e ainda sim eles não entenderam porque eu disse que não gostava daquilo. Simplesmente não entenderam. Falaram que, se fosse com eles, eles apreciariam que alguém tivesse os achando atraentes. Mas aí está o ponto. Eles foram incapazes de se colocar do meu lugar. Não conseguiam imaginar-se na pele de uma mulher, não entendem todas as implicações que isso provoca no nosso crescimento, no modo como sentimos que somos vistas pelo resto do mundo.

Nessas horas eu me inflo de raiva. Só que não sei a quem direcioná-la. Aos próprios homens que estão ali falando aquelas besteiras? Às suas mães que não souberam educá-los? Às suas avós que não souberam educar suas mães? Aos seus pais e avôs por serem machistas? À televisão que nos cria aos moldes do patriarcado? À sociedade inteira por ser tão mesquinha e conformista?

Quando percebo que não tenho a quem culpar, a não ser a mim mesma e o resto do mundo, por termos de várias e pequenas formas colaborado para isso, eu só tenho vontade de sentar na calçada e chorar. Chorar de raiva e medo, porque finalmente percebo o imenso trabalho que tenho pela frente. Começo a enxergar cada pequena e homérica mudança que tenho que trabalhar para instituir no meio dos homens com que convivo, e percebo a dificuldade que terei em conseguir isso. E daí me abate a depressão, porque lembro que o esforço tem que alcançar o mundo inteiro, e se já é difícil mudar um homem ou uma mulher que eu conheço, quem dirá as massas, hum? Vontade imensa de me atirar no chão e chorar um rio inteiro, deitar nos braços da histeria.

Mas milésimos de segundo depois essa vontade passa. Eu respiro fundo e aguento o tranco, mantenho a pose e a voz não falha, continua firme explicando minhas convicções, mesmo sabendo que ninguém ali estaria me levando à sério. Poxa, se eu (que sou feminista) fraquejo na frente das primeiras decepções, como vou poder ser forte para começar a mover o mundo com as próprias mãos? Nós somos poucas, não podemos fraquejar. Temos, e devemos, que nos tornar muitas e muitos. Não se deixar abater.

Um dia pensei que tudo o que eu falava ia em vão, que meus questionamentos, minhas alfinetadas, traziam desconforto às pessoas só naquele momento, e depois elas nem pensavam mais naquilo quando iam dormir. Simplesmente deixavam a reflexão passar, assim como se passam os minutos, e o que havia falado nem fazia cócegas. Até que um dia um amigo meu sentou na minha frente, com um chopp na mão e um sorriso no rosto, e me disse, mais ou menos assim: “Depois de conviver contigo eu percebi algumas coisas. Hoje em dia, quando estou no carro com meus amigos e eles gritam para alguma mulher na rua, eu sempre falo para eles que nenhuma mulher gosta disso, e peço para eles não fazerem mais”.

Queria eu que todos os meus amigos me ouvissem dessa maneira e tivessem coragem de passar o ensinamento à diante. Mas tenho ainda um longo caminho pela frente, e não adianta dar soco na parede e chorar, porque nunca terei a quem culpar. Nessa guerra, o inimigo é invisível, e por isso mesmo, extremamente forte. Mas a gente consegue. Não conseguimos carregar outra pessoa dentro da gente? Vencer o patriarcado e o machismo vai ser moleza; a história da humanidade está recém começando.