Ano Novo: resoluções a perder de vista

Texto de Deh Capella.

Eu creio em viradas de ano e em resoluções de Ano Novo. Não porque pense que há qualquer propriedade mágica ou “energia”, mas creio porque é mais uma data-chave, de “fechamento” de ciclo, propícia para que se pise no breque e se reengate a primeira, lá vem subida em janeiro.

Todo mundo deve ter recebido em algum ano uma dessas mensagens com um texto chamado “receita de Ano Novo” ou algo assim. Acho que cada um tem sua receitinha, e parte da minha (a publicável, hehehe) tenho a ousadia de dividir com vocês aqui:

  • Depois de um período eleitoral tenso, cansativo, em que gastei latim e tentei argumentar com gente que não sabia diferenciar ‘Diretas Já’ de ‘Movimento Fora Collor’ e, que não tinha qualquer ideia a respeito de coerência, em 2011 não vou destinar tempo, humor e energia a discussão com quem não sabe e não quer debater qualquer coisa — política, sexismo, cultura, novela das 8, seja lá o que for;
  • Fui displiscente com as coisas em que acredito na maior parte do ano passado. Porque estava cansada, porque estava triste, porque estava com preguiça, porque não queria me desgastar (mesmo quando supostamente valeria a pena o desgaste), porque não queria sair mal na foto. Coisa mais feia, né? Omissão, desleixo, preguiça e covardia serão meus 4 cavaleiros do apocalipse pessoais em 2011;
  • Como cidadã e como mulher deixei de me pronunciar e de me mobilizar por muitas vezes, por todas as razões que já mencionei, somadas à desorganização geral que deixei tomar conta da minha vida. Ser mais atenta é parte da receita;
  • Minha, digamos, prostração foi agravada também por uma coisa bem feia: deixei de divulgar informações importantes por mero relaxo. Se não era possível participar de alguma coisa ativamente, que ao menos repassasse a quem pudesse ter interesse, cassem-me o diploma de profissional da Informação, mea culpa, mea maxima culpa, prometo fazer diferente;
  • Tomar cuidado com mente e língua em 2011: gosto de dizer que é importante disciplinar o olhar pra não continuar deixando cabeça, fala e ações seguirem o rumo que os preconceitos (que todo mundo tem, vamos admitir) vão apontando;
  • Interferir sempre que possível em situações que estourarem na minha frente ou por perto (vocês repararam que uma boa parte dessa lista tem a ver com omissão, acomodação? Jogue a primeira pedra aquele que nunca deixou pra lá);
  • Fazer a segunda parte do meu trabalho de eleitora e cidadã: acompanhar melhor o pessoal que, às nossas custas e graças aos nossos votos, vai ser paga para trabalhar em prol do país;
  • Como consumidora: ser mais criteriosa com gastos e na escolha de produtos, avaliar melhor as “necessidades” que são construídas e apresentadas como “fundamentais” (e a gente sabe o quanto é forte a pressão pelo consumo, sobretudo sobre mulheres e crianças) fornecedores e prestadores de serviços; cobrar bom atendimento, pesquisar preços, reclamar em caso de insatisfação com produtos, serviços ou publicidade
  • Não deixar para amanhã o que tiver que fazer ou dizer hoje. Custe o que custar.

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Falando em consumo: reproduzo aqui o ótimo “dodecálogo” escrito por Maria Inês Dolci. Que seja inspirador para tod@s nós:

1 – Vou esquecer que existe crédito rotativo nos cartões. Vou comprar aquilo que couber no meu orçamento mensal, ou que possa ser parcelado sem juros. Nada de pagar juros sobre juros, a taxas elevadíssimas, somente para satisfazer desejos momentâneos.

2 – Voltarei a planejar os gastos do mês para fazer meu salário durar 30 dias.

3 – No supermercado, chegarei com a lista preenchida, para evitar compras por impulso. Darei preferência a frutas e legumes da estação, mais saudáveis e baratos.

4 – Antes de comprar roupas e calçados, farei uma inspeção nos armários, para ver se necessito mesmo renovar o guarda-roupa, e se já espaço para novos itens.

5 – Resistirei com bravura a anúncios de liquidação, exceto se oferecerem produtos de que necessite, se os preços forem realmente compensadores e se tiver dinheiro para comprá-los.

6 – Recorrerei a jornais, revistas e sites que testam e comparam preços de produtos e serviços, antes de pisar nas lojas, para não esbanjar meu rico dinheirinho.

7 – Exigirei respeito aos meus direitos como consumidora, pois trabalho muito para pagar minhas contas, sou cidadã, voto em todas as eleições, pago impostos e recebo quase nada em troca disso.

8 – Não votarei, sob hipótese alguma, em candidatos que, no exercício do poder, tiverem criado ou ampliado impostos e taxas.

9 – Apagarei de minha lista restaurantes, lojas, oficinas, concessionárioas de veículos, supermercados, companhias aéreas e similares que me tratarem com grosseria, desrespeito ou falta de atenção.

10 – Economizarei energia elétrica, água e combustível, pois, além de fazer bem ao meu bolso, isso evitará o corte de árvores e outros danos ambientais.

11 – Procurarei me manter informada sobre práticas nocivas de indústrias, estabelecimentos comerciais e outras empresas, para não comprar nada deles.

12 – Lembrarei que o verbo ser é muito mais importante que ter. Jamais conseguirei comprar tudo o que quero, mas posso ser feliz assim mesmo.

Homenagem as mulheres de nossas vidas

Texto de Danielle Cony.

Nesse ano novo eu gostaria de refletir sobre renovação. Vou um pouco além do papo comercial-futurístico-premunitório-charlatão-religioso de fim-de-ano. Quero falar sobre renovação mesmo. Renovação da vida. E não há renovação sem morte.

Passei o natal com meus pais. Em minha despedida, minha avó se despediu de mim como se fosse a última vez em que eu a veria. E talvez ela de fato esteja certa. Ela anda muito fraca e já sofreu dois derrames. O que mais me deixou pensativa foi a sapiência de seu ato. Seria eu tão lúcida ao encarar o fim de minha própria vida de forma tão sensata?

Percebi com essa ação que minha perspectiva de futuro e ano novo é muito diferente de minha avó. Ela sempre foi uma guerreira. Como toda mulher que luta, não frustrou o seu sexo. Encontrou o amor de sua vida aos 29 anos de idade. Casou-se com ele mesmo tendo apenas 19 anos. Um adolescente! Imagino o preconceito que ela não enfrentou! Uma mulher que nasceu em 1918. Se hoje uma mulher enfrenta problemas por se relacionar com um homem mais novo, imagine no início do século xx. Então, minha avó sustentou sua convicção, mesmo contra a família e ficou com meu avô. E dessa relação nasceram três filhos.

Minha avó nasceu em uma família rica que vivera sua fortuna no ciclo da borracha em Manaus. Meu avô era um dos funcionários de meu bisavô. Após o casamento, meu avô esteve relacionado a um acidente com fatalidade a outros funcionários de meu bisavô. Envergonhado (e não sei até que ponto foi uma fuga por medo de processo legal) ele fugiu para o Rio de Janeiro. Veio para cá basicamente com a roupa do corpo.

Minha avó veio para a cidade tentar recuperar seu amor e marido. Não conseguiu convencê-lo a voltar. Decidida resolveu construir sua vida com muita precariedade no Rio de Janeiro. Abandonou a riqueza e os privilégios que sua família fornecia e seguiu destinada a permanecer ao lado de seu marido. Pediu que sua mãe enviasse (até então) suas duas filhas para o Rio de Janeiro.

Foi então que ela seguiu firme e forte com sua função familiar de cuidar de duas filhas, trabalhar silenciosamente todos os dias com uma rotina de acordar as 4h da manhã para fazer a marmita de meu avô, um operário de chão de fábrica que sobrevivia com um salário mínimo.

É óbvio que não foi somente a pobreza. Obviamente, seu marido é também a pessoa mais machista que conheci e convivi. Ela também suportou bebedeiras, traições, abusos psicológicos e mais o que você puder imaginar.

O mais interessante de sua história de vida é a força dessa mulher. Aos 92 anos tem um olhar sorridente e parece sempre saudosa por sua experiência de vida. Sua história. Hoje, porém, vejo que as coisas mudaram um pouco. Quem cuida dela é meu avô. Os dez anos de idade que um dia foi um problema recriminatório, hoje está a seu favor. Meu avô cuida da casa, da comida e de minha avó. E isso o fez refletir sobre sua vida e sua história também. Hoje ele tem uma verdadeira devoção por essa mulher. E acho que nunca é tarde para aprender, não?

Um brinde então a renovação da vida. Um brinde a todas as mulheres que silenciosamente são responsáveis pela vida e por sua continuidade. Um brinde as mulheres guerreiras que mesmo com os cenários mais injustos seguem como formigas na determinação de seus objetivos.

Um brinde ao Ano Novo e a Renovação.

Dilma vai desfilar sozinha

Dilma desfilará sozinha: a pequena revolução do dia 1º de Janeiro de 2011.

Texto de Mari Moscou.

Leitoras queridas,

enquanto não sai meu post definitivo sobre Caminho das Índias e Hilda Furacão (ando na maior vibe reassistindo a minissérie), enquanto não começa o Big Brother 2011, enquanto não tenho mais notícias da minha ceia de ano novo ou do meu casamento, eis aqui um assunto de relativamente maior importância:

“Dilma desfilará sozinha na cerimônia de posse”, anunciava a home do UOL até esta madrugada.

Fiquei encantada com a manchete. Em uma frase ela sintetiza duas pequenas revoluções, como gosto de chamá-las, que serão exibidas escancaradamente no dia 1º de Janeiro de 2011. A primeira delas, termos eleito uma mulher. Em apenas seis eleições diretas a democracia brasileira que a direita e os golpistas querem que acreditemos ser frágil já elegeu um operário e, agora, uma mulher. Quando algum babaca vier elogiar os “países desenvolvidos” (nem sei como alguém tem a audácia de colocar na mesma cesta, homogeneizados, países como a Itália e a Finlândia, afe, mas vamos lá ao assunto) e suas “grandes democracias”, pergunte quanto tempo a França levou pra eleger uma mulher como presidente. Ahhhhh… ainda não elegeu? Há quanto tempo a França tem eleições diretas? Ah, tá, falou então. Mas vamos à próxima revolução que desta já falamos extensivamente durante as eleições.

Essa segunda “pequena revolução” que estará em destaque na cerimônia de posse tem a ver com o conceito de família. Nós somos um país BEM católico, embora haja gente que custe a admiti-lo, e vivemos todos os dias decisões relacionadas a uma série de conceitos e padrões católicos tanto na nossa vida “civil” quanto no executivo (sobretudo no estado SP, onde temo um governador da Opus Dei – oh god kill me please), no legislativo, no judiciário (eu sei, às vezes também acho que o Estado laico é uma grande mentira no Brasil). Isso aparece quando repórteres perguntam pra Dilma se ela não poderia começar a namorar durante o mandato e se isso não seria ruim para a presidência, quando definem a Marta Suplicy como “puta”, “vaca”, etc. porque ela se separou do Suplicy pra ficar com o Favre (post meu no Sexismo na Política sobre Marta, Dilma e Hillary Clinton), quando grande parte dos entrevistados de uma pesquisa dizem ser contra a adoção de crianças por casais homo, quando a Bruna Surfistinha conta em seu primeiro livro que a maioria de seus clientes era casado e pedia penetração anal, etecétera e tal. Os exemplos são muitos. Esse tipo de classificação e comportamento está mais ou menos diretamente ligado à idéia católica de que “família” deve ser um homem, uma mulher, filhos (e sexo só pra procriar hein?).

Nas cerimônias de posse, até hoje, estão sempre representados o eleito e “sua família”. A idéia convencional é um homem, eleito presidente, desfilando num carro ao lado de sua mulher, primeira-dama, que se dedicará a trabalhos sociais mas jamais à política (vide o preconceito que a Hillary sofre até hoje). Mas agora não. Na posse de Dilma, ela desfilará sozinha. Ela, uma mulher, é a presidente e a família da presidente. Não precisa de homem, de filho, de filha, de ninguém. É ela ali e pronto. Ela, sozinha, já “vale”. Não é lindo?

Infelizmente não poderei acompanhar ao vivo esse momento glorioso da luta pela igualdade de gênero, mas as amigas feministas aqui do blog, espero, contarão direitinho os detalhes e farão comentários que irão mais a fundo do que a grife da roupa da Dilma ou as jóias que ela usará (nada contra o interesse nesses detalhes, mas eu como leitora desejo mais que isso).

E confesso: cada vez gosto mais de que a Dilma seja solteira.