Mulher desdobrável ou mal humorada? Presente!

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

Adélia Prado, com licença poética, contou-nos a verdade: “mulher é desdobrável. Eu sou”. E o feminismo também. E as feministas também. É preciso tirar as feministas da caixinha. E tirar de nossos ombros todo esse fardo e toda essa culpa. Mais ainda, arrancar esses indesejáveis rótulos que nos colocam dia após dia.

Para eles, feminista ou bem é mal humorada e mal amada ou bem é fácil e destruidora da tradicional família. Não vou falar aqui como essa categorização das feministas faz parte de forças que pretendem desautorizar e desacreditar o movimento. É o Backlash, baby. Sobre isso devem surgir alguns posts em breve, após iniciado o círculo de leitura feminista sobre o livro da Susan Faludi. Quero apenas fazer uma análise rápida desses carimbos que andam estampando nossa testa.

Porque mal humoradas, ah, não somos. A começar por essas feministas aqui, desse blog. Mas de que tipo de mau humor será que se referem quando dizem isso? Querem dizer, com isso, que não achamos graças em piadas que só servem a reforçar o preconceito? Mal humorada, presente! Querem dizer, com isso, que contra-argumentamos cada lugar comum sexista dito em uma mesa de bar como se fosse verdade? Mal humorada, presente!

Acho grave quando alguém diz, por exemplo, que as feministas exageram e que esse exagero se reflete na Lei Maria da Penha. Li, há algum tempo, o artigo ‘Lei Maria da Penha e a criminalização do masculino’, que dizia que a previsão da violência psicológica na referida Lei vinha para “criminalizar o masculino”.

O artigo em questão trata de questões interessantes, em alguns pontos, como a possibilidade de imprecisão dos termos. Isso, contudo, na minha opinião, não leva à conclusão que o autor aponta. Acredito que a dificuldade de muitos em compreender a gravidade  da  “piadinha” com a companheira e a possibilidade disso caracterizar, sim, violência psicológica, só pode ser consequência da inserção em uma  cultura das relações sociais baseada no patriarcado.

Como sempre diz a Lola, quem está inserido em seu privilégio dificilmente consegue enxergar a luta e as dificuldades dos que não os tem. E, assim, como compreender que a brincadeira pode, sim, inferiorizar, humilhar, ofender, violentar; mesmo que para você pareça apenas brincadeira? Para você…

Nem sei se é possível dizer que essa coisa de brincar, caçoar é assim “natural do masculino”. (e as psicólogas aqui, me socorram, me parece muito mais coisa de gente insegura). Aqui também me parece haver uma carga forte de sexismo.

E então, se ser mal humorada quer dizer não gostar de homens que se relacionam na base da piadinha que inferioriza, então… mal humorada, presente! Ah, somos mal amadas também. Mas né, aí é simples demais responder: se ser mal amada quer dizer não desejar se relacionar com misóginos… mal amada, presente!

O segundo carimbo, a feminista fácil e destruidora de famílias, vai ficar para depois. Cada rótulo no seu tempo. Mas deixo apenas uma nota sobre isso: “Na França, principalmente, confunde-se obstinadamente mulher livre com mulher fácil”, Simone de Beauvoir.

O Aborto no Brasil

Texto de Suely Oliveira.

Rui Donato enviou para o grupo uma entrevista com Verônica Marzano, argentina do Coletivo de Lésbicas e Feministas pela Descriminalização do Aborto, em que ela divulga a criação de um serviço por telefone de esclarecimento sobre aborto seguro na Argentina.

A partir dessa discussão fiz um resumo sobre a atuação do movimento feminista brasileiro na questão do aborto.

Foto de Marcha Mundial das Mulheres.

1) A legalização do aborto no Brasil é uma das primeiras bandeiras da Segunda Onda do feminismo no país (pós-1975). Tem sido, desde então uma das maiores lutas travadas contra os fundamentalismos e o conservadorismo. Em janeiro de 1980 uma clínica de aborto foi estourada no Rio de janeiro e duas mulheres foram presas pela prática do aborto, o que provocou um grande protesto seguido de ampla repercussão, pois era a primeira vez q mulheres vinham a público reivindicar o direito ao aborto.

Em todo o país ativistas dos movimentos feministas, organizam campanhas de âmbito nacional pela legalização do aborto. Ainda nos anos oitenta, muitas feministas (entre elas eu), deu declarações à grande imprensa dizendo: Eu ja fiz um aborto! O que era (e é ainda hoje) considerado um ato de coragem. Não sou por isso melhor nem pior do que ninguém. Mas é preciso um olhar cuidadoso sobre a história para que não joguemos na lata do lixo a contribuição que o movimento de mulheres e feminista tem dado para as mudanças significativas do país. Em toda a AL há um reconhecimento e respeito pelos movimentos de mulheres e feministas brasileiro.

2) Ainda nos anos 80 conseguimos, graças às reivindicações históricas desse movimento, que a então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, instituísse o serviço de abortamento legal (previsto em lei desde 1940), para casos em que a mulher corre risco de vida ou qdo a gravidez resulta de estupro. Isso ja tinha acontecido em outras administrações petistas à época, entre elas Santo André.

3) O movimento nunca mais parou. Sempre aliando reivindicações de políticas públicas e avanços no legislativo. Vale a pena conhecer o que essas articulações políticas tem feito pela legalização do aborto no Brasil: a a rede feminista de saúde e direitos sexuais e reprodutivos; as Jornadas pela legalização do aborto; a Marcha Mundial de Mulheres; a Articulação de Mulheres Brasileiras, entre outras.

4) Existem inúmeras publicações sobre a legalização/descriminalização do aborto no Brasil feitas por esse movimento.

5) Graças a esse movimento foi criada e implementada a Norma Técnica que regulamenta o abortamento legal no Brasil.

6) Apesar de todas as conquistas, uma onda conservadora so cresce na Cãmara de Deputados, inclusive com a renovação de parlamentares vinculados aos fundamentalismos, tendo sido criada a frente parlamentar anti-aborto. Atualmente pelo menos 46 ante-projetos que atentam contra os direitos humanos, os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres tramitam em diversas comissões. Entre eles: o Bolsa-estupro e o estatuto do nascituro. E o movimento segue na luta. Com garra e muita coragem.

Sugestões de links sobre o assunto:

– Seminário: Estratégias Latino-Americanas pela legalização do aborto e autonomia reprodutiva das mulheres.

– Porque defendemos a legalização do aborto.

– Reação das Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro aos Projetos de lei em pauta na CSSF em 22/12.

– Brasil: carta producida en el Jornadas Brasileñas por el derecho al aborto legal y seguro.

– Plataforma Feminista para a legalização do aborto no Brasil.

– Rede Feminista de Saúde

O idioma maquiado

Texto de Barbara Lopes.

As mulheres aprendem desde cedo sobre “o processo”. Não, não é o mesmo do Kafka. É o processo em que a mulher pega o que ela é, ajeita, arruma, modela, arqueia, prende, solta, cobre, esconde, mostra, salta, salta e rodopia, e finaliza com uma fitinha. No fim ela é o que é, mas do jeito que deve ser. É o que acontece com a aparência feminina: tira uns pêlos daqui, alisa os outros ali, usa um creminho pra esconder, um lápis pra realçar, escolhe uma peça de roupa que faça uma parte do corpo parecer maior e outra, parecer menor. Nada contra, nem a favor, muito pelo contrário. Pra algumas mulheres é um sofrimento, pra outras é divertido… Pena que seja visto como obrigatório para todas.

Mas o mesmo que aprendemos a fazer com nossa aparência, também somos ensinadas a fazer com nossa linguagem. A mulher pensa alguma coisa; daí torce, retorce, procura todos os ângulos e vieses, escolhe bem as palavras, mostra e esconde. E então fala o que pensa, mas de um jeito transfigurado, maquiado. Sutil, por assim dizer. E as que saem do padrão de sutileza volta e meia são cobradas, por mulheres e homens. (Funciona também no sentido inverso, aprender a escutar procurando os significados implícitos).

Como apaixonada por linguagem, pelo que cada palavra diz e esconde, sempre encarei esse falar pelas entrelinhas como algo lúdico. Só passei a prestar atenção ao aspecto de gênero embutido nisso depois de um texto da Lynne Soraya, pseudônimo de uma moça que tem síndrome de Asperger, chamado “The Female Factor” (O Fator Feminino). Ela diz que por conta de sua dificuldade em decodificar essas sutilezas da linguagem, acha mais complicado se comunicar com mulheres do que com homens (comentei um pouco sobre o texto em outro blog).

Por exemplo, quando sua amiga lhe diz “A Jane confirmou presença na festa e não foi! Nem telefonou. Essa é a quinta vez! Você acredita?”, a resposta de Lynne seria “Sim, acredito” – afinal, é o comportamento esperado de alguém que já fez isso quatro vezes. Mas o que a amiga realmente quis dizer é “Você acredita [que ela me trate tão mal? Estou tão magoada!]?!” – é um pedido por apoio. Mas um pedido de apoio que vem embalado, ajeitado e com laço de fita.

Sei não, mas vou tentar ver como ficam algumas palavras de cara lavada.