Ode ao real abjeto

Na Marcha das Vadias de Curitiba, em 2012, vi uma pessoa com uma roupa carnavalesca no meio da multidão. Cheguei mais perto e vi uma grande placa escrito: “God Save The Queer”, me apaixonei pela Tamíris Spinelli. Ao pensar no dia das mulheres, pensei em um texto que fosse quase um grito por tantos corpos abjetos e esse texto teria que ser da Tamíris. 

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Texto de Tamíris Spinelli*

Eu queria fazer uma homenagem singela à todas as mulheres, mas não essa romantizada, não quero saber de maternidade ou intuição feminina ou o mistério da força feminina interior. Não quero fazer análises perspicases sobre os relacionamentos contemporâneos, o moderníssimo, a crise de identidade, nem um traçado histórico das conquistas das mulheres, tão importantes. Minha ode vai ao que é real, à resistência às imagens esmagadoras que tentam nos impor.

Meu amor vai para as mulheres todas, mas em especial às prostitutas, às mulheres com pinto, às mulheres que já se descolaram da ideia de mulher, às gordas, às magérrimas, às carecas, às velhas, às que carregam lata na cabeça, às bipolares, às lésbicas, às que tomam testosterona, às barbadas, às drags, às donas de casa que amam demais e apanham, às que gozam sozinhas no quarto, às que se sujam, se descabelam. Todo meu amor às estrias, ao sangue menstrual, aos seios tortos, caídos, duros de leite, ao clitóris – tão poderoso, às formas infinitas que o corpo pode ter. E também aos homens sem pinto, aos homens que vestem saia de vez em quando e curtem o ventinho por baixo das pernas. Aos homens que não tem medo de ser mulheres às vezes, que não se dignificam pelo esteriótipo do macho, que não se apoiam no poder sobre o outro.

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Marcha das Vadias de Curitiba – Julho/2012.
Arquivo pessoal, foto de Nathália Tereza.

Em síntese, à todxs aquelxs que já não precisam se agarrar aos significados que a palavra mulher tem ou já teve para sê-lx. Viva todos os gêneros que possam existir, viva o não-gênero, o não binarismo, à androginia, viva a expressão livre e o respeito. VIVA A NÃO NORMATIZAÇÃO DA MULHER.

Todo o meu amor para xs amigxs que estimo tanto, e àquelxs com xs quais ainda vou cruzar, praticando o eterno exercício de não distinguir meu sentimento a partir daquilo que há entre suas pernas. Todo o meu amor para o amor que não conhece barreiras.

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*Tamíris Spinelli é queer, artista multimídia e militante do próprio corpo. Atualmente tem pesquisas voltadas para vídeo, fotografia analógica e performance, com foco em questões do corpo e suas possíveis poéticas e políticas em processos colaborativos. Dirigiu os curta-metragens Elegia (2010), Visita (2010), Se você deixar o coração bater sem medo (2012), No Penhasco (em finalização) e Corpos Trans*Lúcidos (em produção). Como intérprete e criadora desenvolveu a performance Inventário (2012), ao lado de Ana Beatriz Figueiredo.

Mulheres Guerreiras

Texto de Luciana Nepomuceno e Thayz Athayde.semana_8_marco

As amazonas são bem conhecidas no universo cultural-pop ocidental. Figuram na Ilíada, tem papel fundamental no livro ‘O Incêndio de Tróia’ de Marion Zimmer Bradley, são referenciadas nas séries da Mulher Maravilha e Xena. Até em Hércules, animação da Disney, elas dão o ar de sua graça. Na mitologia grega eram uma tribo exclusivamente de mulheres que, em algumas versões, mutilavam um dos seios para melhor manejar os arcos. São parte do nosso imaginário: mulheres guerreiras.

Os gregos não são os únicos a terem mulheres guerreiras em seu repertório cultural. Elekô é o nome de uma sociedade secreta de mulheres africanas que são lideradas por Obá – orixá guerreira que representa as águas revoltas dos rios, controla o barro, aguá parada, lama, lodo e as enchentes. Uma Orixá energética, temida e forte, considerada mais forte que muitos Orixás masculinos, vencendo na luta: Oxalá, Oyá, Oxumarê, Exú e Orumilá. Obá representa as mulheres e concentra funções sociais, políticas, culturais e religiosas.

Aqui no Brasil também temos nossas representantes no folclore: são as Icamiabas ou Iacamiabas (do tupi: i + kama + îaba, significando “peito rachado”). Nossa tribo de mulheres que não aceitavam a presença masculina e constituíam uma sociedade rigorosamente matriarcal e eram boas de briga.

Porém, os exemplos de mulheres que não se inibiam de pegar em armas para sua própria defesa, para defesa de outras mulheres ou para defesa de terras e valores, não se extinguem na mitologia. É na História que encontramos Joana d’Arc, heroína da Guerra dos Cem Anos, comandante do exército francês com aproximadamente 17 anos e que morreu queimada pouco tempo depois. Além de libertar Orleans, Joana comandou o exército e venceu a batalha de Jargeau, a batalha de Meung-sur-Loire e a batalha de Beaugency.

Outra boa de briga era Boudicca, rainha celta que liderou os icenos contra as forças romanas que ocupavam a Grã-Bretanha em 60 ou 61 d.C., durante o reinado do imperador Nero. O marido de Boudicca tinha se tornado aliado do Império mas, com sua morte, os romanos ignoraram o testamento e se apropriaram dos bens do rei dos icenos. Quando houve protestos, os romanos tentaram controlar a situação açoitando a rainha e violando suas filhas. Boudicca reergueu-se unindo e comandando várias tribos contra o domínio romano. Ficou conhecida como uma guerreira feroz, estratégica e fria, exterminando os adversários sem fazer prisioneiros.

E, como o Império Romano não era bom em fazer amizades, também na Síria uma mulher se tornou guerreira e líder para combatê-lo. Zenóbia é reconhecida como portadora de virtudes guerreiras, administrativas e intelectuais, transformando Palmira, sua capital, em uma referência no Oriente Médio e, posteriormente, tendo expandido seu domínio do Nilo ao Eufrates, reinando sobre o Egito. Seu governo durou cerca de cinco anos, até que os romanos se reorganizaram e a venceram em batalha.

Tão corajosas quanto, mas um pouco menos conhecidas, são as vietnamitas Triệu Thị Trinh e as irmãs Trung. Triệu Thị Trinh foi uma guerreira do séc. III que ficou órfã, viveu como escrava até os 20 anos, fugiu para a floresta e organizou um exército com cerca de 1000 guerreiros que libertou uma área do Vietnã do domínio chinês e venceu cerca de 30 batalhões Wu. As irmãs Trung são consideradas heroínas nacionais no Vietnã. No ano 40 d.C., formaram um exército de 80 mil pessoas comandados por 36 mulheres-generais, incluindo, entre as líderes, a mãe delas. Elas conseguiram manter o Vietnã livre do domínio chinês por 3 anos, rechaçando todas as tentativas do exército inimigo de recuperar espaço.

Cada uma dessas mulheres, para ser quem foram, tiveram que romper com o discurso “mulher não faz isso”, “mulher não é assim”, “isso não é coisa de mulher”. Cada uma delas deu de ombros para a dicotomia homem/mulher e declararam, via ações, que o combate é um território a ser ocupado por homens e mulheres conforme seu desejo e necessidade. Para ser quem foram, guerreiras e líderes, cada uma delas ignorou o papel que as “mulheres de verdade” deviam exercer. Para serem quem foram e serem lembradas, elas se recusaram a resumir-se no que era definido como “feminino”. Porque enquanto ouvimos e acatamos a ladainha de um tipo ideal de feminilidade – o que quer que ela abarque, da antiga definição de dona de casa à de mulher liberada e independente – ainda somos subjugadas e enquadradas.

Guerreira. Por Bitrix Studio no Deviantart.
Guerreira. Por Bitrix Studio no Deviantart.

Todas as vezes que nos limitamos ou nos limitam com a expressão (explícita ou não): “isso não é feminino”, estão convocando um padrão de mulher que opera mantendo o status quo, na qual a mulher será construída pela descrição do que é ser mulher, não apenas nomeando, mas constituindo o que é ser mulher. Isso se torna mais visível quando voltam essa afirmativa para as lutas feministas, criando um manual do que as feministas devem fazer para que sejam autorizadas a militar. Para isso, devem militar totalmente vestidas, se ousarem mostrar seus corpos que eles sejam magros, depilados e padronizados. Além disso, exige-se que sejam menos ríspidas, barulhentas, agressivas ou qualquer dos termos que pululam no discurso domesticador, inclusive o infame “feminazi”.

“Porque, olha, quer reinvindicar seus direitos, tudo bem, mas faça isso com jeitinho e educação como militante Fulana ou Beltrana”. É o discurso cínico que, fingindo valorizar um tipo de luta, visa enfraquecer as reinvindicações desautorizando quem as apresenta.

A militância não prescinde do diálogo, da gentileza, da prática pedagógica. Mas isso não quer dizer que cada militante não o exerça na medida de sua história e possibilidade. Não se milita com mais ou menos “educação” porque se é mulher. Milita-se da forma A ou B conforme a relação com a realidade e embates cotidianos forjam as posturas e discursos. A militância não é um lugar exclusivamente para homens ou que demanda comportamentos masculinos, mas um espaço que deve abranger todas as formas de reivindicações por direitos das minorias.

Não temos que ser delicadas por sermos mulher. Não temos que falar baixo por sermos mulher. Não temos que ser doces, suaves, mansas, pacientes e tolerantes. Não temos que. Escolhemos. Optamos. Agimos. Fazemos acontecer. Porque ser mulher não tem forma. Feminista não tem padrão. Guerreira não tem modelo.

[+] Podem me chamar de barraqueira, não vou contemporizar por Niara de Oliveira.

[+] Um olhar a partir do portal das mulheres.

“Enegrecer o feminismo”: movimentos de mulheres negras no Brasil

Texto de Bárbara Araújo.

As mulheres negras não existem. Ou, falando de outra forma: as mulheres negras, como sujeitos identitários e políticos, são resultado de uma articulação de heterogeneidades, resultante de demandas históricas, políticas, culturais, de enfrentamento das condições adversas estabelecidas pela dominação ocidental eurocêntrica ao longo dos séculos de escravidão, expropriação colonial e da modernidade racializada e racista em que vivemos.

(Jurema Werneck em “Mulheres Negras:
um Olhar sobre as Lutas Sociais e as Políticas Públicas no Brasil”)

É importante que desnaturalizemos palavras usadas tão corriqueiramente como “mulher” e “negra”. As semana_8_marcomulheres negras são mulheres negras porque são consideradas assim histórica, sociológica e culturalmente. O discurso racista e o discurso sexista têm usado referências biológicas tais como o fenótipo, a cor da pele e os órgãos genitais para hierarquizar seres humanos e inferiorizar as mulheres e os negros. Em reação a isso, os grupos marginalizados por esse processo vem se organizando ao longo da história para lutar contra sua subalternização.

Angela Davis, ativista negra norte-americana.
Angela Davis, ativista negra norte-americana.

A combinação de preconceitos como o racismo e o machismo tem sido pensada através da interseccionalidade, conceito que se refere mais amplamente às articulações entre a discriminação de gênero, a homofobia, o racismo e a exploração de classe. Ele teve origem nas reivindicações de feministas negras, judias, lésbicas, operárias, etc., que demandaram atenção para a multiplicidade contida na ideia de “mulher”, argumentando que a opressão não poderia ser entendida unicamente pelo viés da diferença de gênero.

[+] Vozes-Mulheres de escritoras e intelectuais negras

A partir da década de 1980, o chamado “feminismo da diferença” procurou entender como as diversidades culturais, raciais e de classe contribuíram para as distintas experiências das mulheres. Essa perspectiva complexificou-se a partir do surgimento da teoria do ponto de vista feminista (“feminist standpoint”), segundo a qual

a experiência da opressão é dada pela posição que ocupamos numa matriz de dominação onde raça, gênero e classe social interceptam-se em diferentes pontos. Assim, uma mulher negra trabalhadora não é triplamente oprimida ou mais oprimida do que uma mulher branca na mesma classe social, mas experimenta a opressão a partir de um lugar, que proporciona um ponto de vista diferente sobre o que é ser mulher numa sociedade desigual, racista e sexista.

(Luiza Bairros em “Nossos feminismos revisitados”)

Na história brasileira, encontramos organizações específicas de mulheres negras desde o início do século XX. A  Sociedade de Socorros Mútuos Princesa do Sul, fundada em 1908, e a Sociedade Brinco das Princesas, de 1925, respectivamente em Pelotas e São Paulo, eram formadas estritamente por mulheres negras. Elas integraram também uma grande parcela da Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 1931 e considerada a entidade negra mais importante do país na primeira metade do século XX, tendo arregimentado mais de 20 mil associados em diversos estados. Ainda nos anos 30 foi fundada a primeira associação de trabalhadoras domésticas no estado de São Paulo, que teve como principal representante a ativista Laudelina Campos Melo, que também integrava a FNB. Já em 1950, foi fundado o Conselho Nacional da Mulher Negra, formado por mulheres vinculadas à cultura, às artes e à política. Infelizmente os registros da atuação deste conselho são bastante escassos.

Lélia Gonzalez
Lélia Gonzalez

É a partir dos anos 1970 que as organizações de mulheres negras ganham força no Brasil, reivindicando duplamente o movimento negro e o feminismo. A partir desse período, os movimentos de mulheres negras procuraram explicitar a diferença entre as formas de mulheres e homens negros sentirem a discriminação racial, acrescentando a problemática do gênero à questão do racismo. As feministas negras denunciavam, por um lado, posturas machistas na militância negra e, por outro, as desigualdades e o racismo presentes no movimento de mulheres. Lélia Gonzalez foi uma das pioneiras a chamar atenção para essa interseção de preconceitos. Como muitos intelectuais negros, Lélia combinou uma intensa militância de rua a uma atividade de produção intelectual militante.

Em 1988 foi criado o GELEDÉS, organização que visa à valorização das mulheres negras e ao combate ao racismo. No ano 2000, mais de 20 entidades de mulheres negras pelo Brasil, inclusive o GELEDÉS, compuseram a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). O objetivo inicial da AMNB era organizar as reivindicações das mulheres negras brasileiras durante a realização da III Conferência Mundial contra o Racismo, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, ocorrida em Durban, na África do Sul, em 2001. Posteriormente, a entidade ampliou seus objetivos, dedicando-se a reivindicação de políticas públicas de proteção e promoção dos direitos das mulheres negras no país, bem como a luta contra o racismo, o machismo e a homofobia.

Suely Caneiro, do GELEDÉS, no I Encontro Nacional das Blogueiras Feministas.
Suely Caneiro, do GELEDÉS, no I Encontro Nacional das Blogueiras Feministas.

As entidades feministas negras são muitas e estão espalhadas por todo o Brasil. Integradas ao movimento anti-racista e ao movimento feminista, essas associações revelam o quanto é essencial compreender as matizes da discriminação e a amplitude da diversidade para que a luta pela igualdade aconteça de forma plena e verdadeira.

* “Enegrecer o feminismo” é um importante artigo da intelectual negra Suely Carneiro, disponível on line aqui.

Mulheres e a (re)construção da democracia

Texto de Barbara Lopes. semana_8_marco

A segunda onda do feminismo demorou a ver as praias da América Latina. Enquanto o movimento ganhava uma nova vitalidade nos Estados Unidos e na Europa, aqui embaixo países caiam, um após o outro, sob ditaduras militares. Nesse contexto de ataque às liberdades básicas de reunião, manifestação e expressão, muitas mulheres se engajaram na luta contra a ditadura em organizações  de esquerda.

Ato do Movimento do Custo de Vida, Praça da Sé, São Paulo – 1978. Arquivo do MST.
Ato do Movimento do Custo de Vida, Praça da Sé, São Paulo – 1978. Arquivo do MST.

No Brasil, quando a ditadura começou a perder fôlego – devido às denúncias de violações dos direitos humanos, mas também porque o crescimento econômico do milagre não conseguiu se sustentar – movimentos de mulheres tiveram papel central em abrir caminho para a redemocratização. Foi assim com o Movimento Feminino pela Anistia e com os Clubes de Mães.

Os clubes de mães ganharam visibilidade em 1973, quando a imprensa publicou a Carta das Mães de Periferia de São Paulo, que denunciava a alta nos preços dos alimentos e as dificuldades de dar conta das necessidades básicas da família com o apertado orçamento doméstico. As queixas ecoaram nas eleições legislativas do ano seguinte, quando o MDB, oposição ao regime militar, elegeu 48% da Câmara dos Deputados, 59% do Senado e diversas prefeituras.

Em 1975, Therezinha Zerbini convocou mães, esposas e irmãs de presos e exilado a lutar pela anistia. Nesse caso, também era forte a ligação com a Igreja Católica. O movimento estabeleceu núcleos em oito estados brasileiros, estabelecendo as bases para o Comitê Brasileiro pela Anistia.

Em ambos os casos, tratam-se de organizações de mulheres que não tratam diretamente da desigualdade de gênero e cujos discursos muitas vezes reforçam esses papéis. O manifesto do Movimento Feminino pela Anistia dizia:

Nós, mulheres brasileiras, assumimos nossas responsabilidades de cidadãs no quadro político nacional. Através da história provamos o espírito solidário da mulher, fortalecendo aspirações de amor e justiça. Eis porque nós nos antepomos aos destinos da nação que só cumprirá sua finalidade de paz se for concedida anistia ampla e geral a todos aqueles que foram atingidos pelos atos de exceção. 

Conclamamos todas as mulheres no sentido de se unirem a esse movimento, procurando o apoio de todos que se identifiquem com a idéia da necessidade de anistia, tendo em vista um  dos objetivos nacionais: a união da nação.

De outro lado, dentro de organizações de esquerda e dos partidos, a luta por igualdade entre homens e mulheres era vista como secundária ou divisionista. Era a falsa dicotomia entre a luta geral – de classe, por justiça social – e a luta “específica” das mulheres, contra a violência, por creches e por direitos reprodutivos.

Portanto, com o processo de redemocratização, quando surge um grande número de grupos feministas no Brasil, há o contraste com essas duas vertentes: tanto com movimentos de mulheres que não reivindicavam o feminismo, como com as organizações políticas tradicionais. Mas, além do contraste, há também uma grande proximidade. Muitas militantes, mesmo tendo sido despertadas para o feminismo por causa do sexismo na esquerda, mantiveram duas frentes de atuação, como feministas e como membros de um partido, sindicato, etc. De forma similar, ainda que não questionassem diretamente os papéis de gênero, os grupos de mães organizavam mulheres nas periferias, mostravam sua força política e traziam à tona questões fundamentais para o feminismo.

O movimento de luta por creches foi, então, um grande ponto de síntese. Era uma reivindicação popular, que não entrava em conflito com a Igreja (como na questão dos direitos reprodutivos), que expunha a falta de serviços públicos nas periferias e a necessidade de redividir o trabalho doméstico e de cuidados, inclusive com o Estado. Em 1979, diversos grupos de mulheres, declaradamente feministas ou não, fundaram o Movimento de Luta por Creches, que em seu manifesto afirmava:

Somos trabalhadoras um pouco diferentes (…) somos diferentes, em primeiro lugar, porque não nos reconhecem como trabalhadoras quando trabalhamos em casa 24 horas por dia para criar condições para todos descansarem e trabalharem. Não reconhecem, mas nosso trabalho dá mais lucro que vai direto para o bolso do patrão.

Somos diferentes porque, quando trabalhamos também fora, acumulamos os dois serviços – em casa e na fábrica. E sempre nos pagam menos pelo trabalho que fazemos. Trabalhamos mais e ganhamos menos (…) A mulher é que mais sente o problema. Isto todo mundo vê. Se bem que os filhos, como não são só filhos da mãe, interessam a toda a sociedade. A sociedade é que deve criar condições para que esses trabalhadores de amanhã possam se desenvolver em boas condições de saúde e de formação (…) Creches são nosso direito.

Bibliografia: Sonia Alvarez – “Politizando as relações de gênero e engendrando a democracia”. Tradução: Alana Madureira Barros.

Emancipação feminina na novela Lado a Lado

Texto de Srta. Bia.semana_8_marco

A emancipação feminina já foi tema de filmes, peças de teatro, exposições culturais e diversas outras manifestações artísticas. Porém, apenas em 2012, uma telenovela retratou parte da luta histórica das mulheres brasileiras por liberdade e emancipação no início do século XX. E mais que isso, mostrou as diferenças que mulheres brancas e negras enfrentaram.

Essa semana, serão exibidos os cinco últimos capítulos da novela ‘Lado a Lado’, que desde setembro de 2012 vai ao ar de segunda a sábado a partir de 18:15h na Rede Globo. É até mesmo simbólico que seu último capítulo seja exibido no dia 08 de março. Por mais que telenovelas sejam vistas por algumas pessoas como “lixo cultural”, são assistidas por milhares de pessoas e exportadas para outros países, como produto cultural genuinamente brasileiro. As novelas reforçam estereótipos da imagem do homem, da mulher, d@s negr@s e de outros grupos sociais na mídia, portanto, acabam sendo responsáveis pelo processo de construção/reconstrução de identidades sociais.

A telenovela brasileira, considerada como produto da indústria cultural mais divulgado no exterior, sendo exibida em um grande número de países da Europa, Ásia e América, é também, na avaliação de estudiosos da comunicação e de outros campos do saber, uma forma de representaçao que retrata nossas características socioculturais. Herdeira do folhetim do século XIX e da radionovela, tem se caracterizado por buscar, cada vez mais, a aproximação com temas sociais e políticos nacionais. Sem deixar de lado o conteúdo melodramático que garante o fascínio e a adesão do público aos heróis e heroínas e às tramas românticas, procura mesclar nessas tramas questões sociais e temas polêmicos para os quais a sociedade se volta na atualidade. Assim a ficção se constrói num diálogo e numa interação constantes com a realidade. Referência: Prefácio do livro ‘A negação do Brasil – o negro na telenovela brasileira‘ de Joel Zito Araújo, pg. 13.

Provavelmente, o fator mais positivo de ‘Lado a Lado’ seja seu texto que não esconde em nenhum momento o racismo e que mostrou a participação dos negros, por meio do personagem, Zé Maria, em diversos eventos históricos como a Revolta da Vacina e a Revolta da Chibata. Relegados geralmente a papéis menores e de serviçais, em ‘Lado a Lado’ o elenco negro é grande, com nove atores em papéis de destaque e conta tanto com vilôes, como mocinhos e mocinhas.

A novela se passa no Rio de Janeiro do início do século XX, onde a cidade tentava se transformar em uma nova Paris, abrindo avenidas e removendo pessoas pobres dos cortiços, dando origem à primeira favela carioca, no Morro da Providência, no centro da cidade. O samba-enredo “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós” que toca na abertura da novela já marca a diferença da trama. O racismo e a luta do povo negro são temas permanentes na novela, seja na trama sobre a presença do negro no futebol ou o combate contra a intolerância religiosa, mas nesse texto vou me concentrar nas duas personagens principais.

Cena da novela 'Lado a Lado' (2012) da Rede Globo. À esquerda, Laura (interpretada por Marjorie Estiano. À direita, Isabel (interpretada por Camila Pitanga).
Cena da novela ‘Lado a Lado’ (2012) da Rede Globo. À esquerda, Laura (interpretada por Marjorie Estiano). À direita, Isabel (interpretada por Camila Pitanga).

‘Lado a Lado’ acompanha a história e a amizade de duas mulheres. Laura, jovem branca, nascida na elite, filha de ex-proprietários de terra e escravos. E Isabel, jovem negra, filha de ex-escravos, que no início da novela trabalha como empregada doméstica de uma senhora francesa. Isabel e Laura se conhecem na igreja, no dia de seus respectivos casamentos. Isabel está lá para casar com o homem que ama, Laura está casando sem conhecer o noivo, porque as convenções sociais demandam. A partir desse encontro nasce uma amizade que enfrentará várias barreiras.

Laura deseja ser independente, trabalhar e mudar o destino das outras mulheres. Também anseia por uma sociedade mais justa e igualitária. Apesar do voto feminino não ser pauta na novela, Laura parece inspirada em sufragistas e feministas pioneiras brasileiras como Nísia Floresta. Isabel deseja ver seu povo respeitado, pretende ir além do lugar que a sociedade reserva para a mulher negra e parece ter parte de sua inspiração na dançarina americana Josephine Baker, mas com expressão brasileira, já que suas cenas de dança foram coreografadas por Zebrinha, bailarino e coreógrafo do Bando de Teatro Olodum.

A lista de absurdos que essas duas mulheres cometeram é imensa. Isabel fez sexo fora do casamento, com um homem branco e rico do qual engravidou e decidiu ser mãe solteira. Laura é uma mulher divorciada que não conseguia emprego e sofreu duas tentativas de violência sexual (uma por parte do cunhado e outra por parte de um senador) porque quem não tem marido, não merece respeito. Após uma temporada na França, Isabel retorna rica e famosa, vira dona de teatro e junto com Laura realizam um grande sonho: abrem uma escola no Morro da Providência. Laura escreve uma matéria sobre a apresentação de dança de Isabel para o jornal local com pseudônimo masculino, recebe mais encomendas de matérias e depois de se revelar consegue autorização para publicar com seu próprio nome.

Essa lista é apenas um resumo curto da trajetória das duas personagens, que enfrentaram a tudo e a todos com muita autoestima e desejo por liberdade e justiça. Nem cheguei a citar os dramas pessoais de cada uma, que também passa pelo constante questionamento da liberdade sexual de ambas. São duas mulheres impulsionadas por um desejo de redefinição da mulher na sociedade, que buscam montar seus pilares na educação (por meio da escola no morro e a desaprovação que Laura faz dos métodos de ensino da época), nas artes (Isabel é dançarina, dona de teatro e apresenta o cinematógrafo) e na comunicação (Laura torna-se jornalista, assim como o marido. E elas, num determinado momento da trama. se comunicam via anúncio no jornal).

Foi uma grande alegria acompanhar essa novela por seis meses. Rir e sofrer com duas personagens tão humanas, mulheres que assumem suas decisões, mesmo que em algum momento as questionem, mas sempre tentando acertar, sabendo que seus caminhos e escolhas não são simples. A condição a que estava submetida a mulher brasileira no início do século XX era de repressão e submissão, traço que aproximava ricas e pobres, negras e brancas. Porém, cada uma delas segue caminhos distintos em sua luta por visibilidade e respeito.

Um exemplo. Há uma cena (pode ser vista aqui) em que Laura leva seu texto a um jornal para ver se aceitam publicá-lo. O editor nem lê o texto e avisa que publicar um texto sério, escrito por uma mulher, pode abalar a credibilidade do periódico e oferece a Laura uma revista feminina com várias receitas. A resposta é curta: – Eu não vim em busca de receitas. Eu nem cozinho. Eu escrevo! Para Isabel, a comida faz parte da identidade de seu povo, como mostra na cena em que apresenta o morro e sua comunidade para a francesa Dorleac (a cena pode ser vista aqui).

Outro aspecto importante para compreender a dinâmica do afeto como reforço da assimetria nas relações raciais, principalmente no Brasil, é a postura de Laura que, mesmo sabendo o quanto a mãe é peçonhenta, tenta relativizar o processo preparatório do veneno junto à Isabel, principal alvo da crueldade materna. Laura ouve as justificativas e explicações da mãe e surpreendentemente, tomada por amor filial, dá crédito a elas e tenta amainar o coração da amiga em relação à genitora. Isabel não aceita sequer ouvir, não tem paciência (como eu), mas Laura prossegue, é a representação da mulher branca não-racista que não compreende a ignomínia do racismo e por isso rejeita o fato de que uma igual, a mãe, a quem ela percebe como um ser humano ruim, mas humano, possa ser tão racista. E, se Laura continuar assim, com a visão ingenuamente obliterada pelo afeto, não caminhará a humanidade, pois haverá, sempre, o carinho do escravizador pelo escravizado. Referência: Racismo no Brasil e afetos correlatos por Cidinha da Silva.

Além de Isabel e Laura há: Gilda, Celinha, Diva Celeste, Sandra, Teresa, Fátima, Jeanette Dorleac e Tia Jurema. Diferentes mulheres que representam diferentes dramas. Uma é órfã e trabalha em um bar, outra é humilhada pelas irmãs por não ter se casado, outra é atriz, outra é mãe solteira que esconde o segredo da família, outra é a mãe que deseja a independência da filha, outra é médica que estuda a capoeira, outra é uma francesa que subverte costumes e outra é fundamental para a disseminação e continuidade da cultura negra. Foi uma novela muito rica em personagens femininas fortes e que mudaram seus próprios destinos. Espero que o tema da emancipação feminina ainda renda boas histórias, porque se até hoje as mulheres são culpadas pela violência que sofrem, temos ainda mudanças sociais importantes para colocar em prática.

[+] Entrevista com a autora Claudia Lage: ‘A novela é feminista. Quem teve que se ajustar, foi o homem’.

[+] Lado a lado, uma novela e suas mulheres livres e biscates por Iara Ávila.

[+] Estupro em Lado a Lado: aula de feminismo e boa dramaturgia por Charô.