Feminismo: ser ou não ser mãe?

Texto de Cecilia Santos.

Nós mulheres sofremos tanta pressão, opressão, repressão e imposição de todo lado que o tópico dispensa maiores comentários. Porém, os problemas aumentam muito quando se trata da mulher no papel de mãe – e da mulher que não é mãe.

No trabalho, merecemos menos oportunidades e reconhecimentos porque supostamente, como mães (ou mães potenciais), somos menos dedicadas aos interesses de nossos empregadores e seus acionistas. Ah… muitas vezes são mulheres julgando mulheres.

Pode ser que a professorinha do seu filho pequeno também te julgue por não se dedicar integralmente aos cuidados do pequeno. Talvez ela não tenha filhos ou não se coloque no seu lugar.

Pode ser que a mãe executiva olhe pra mãe dona-de-casa com desconfiança, pensando: como ela consegue viver essa vidinha medíocre, dependendo do marido? E talvez a mãe dona-de-casa veja a mãe executiva como uma egocêntrica que nunca deveria ter colocado filho no mundo.

E pode ser que ambas quisessem para si uma vida ligeiramente diferente, mas não tenham condições para isso. E podem ser que elas estejam realizadas nessa vida e ninguém tem nada com isso, pronto. Por que somos sempre julgadas, e muitas vezes por outras mulheres? No mundo todo tem mulheres (mas não só) esbravejando contra a ganhadora do Oscar Natalie Portman, grávida de 5 meses, que declarou seu orgulho de futura mamãe na cerimônia de entrega do prêmio.

Mas, com certeza, toda mãe é lembrada quando seus monstrinhos se comportam mal, porque, afinal, a educação dos rebentos é responsabilidade da mamãe. O pai costuma entrar com um espermatozoidezinho microscópico e a imposição da preferência por um time de futebol.

Foto de chableproductions no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Bom, mas para ser mãe, é preciso passar pelo que não pode (pelo menos ainda) ser delegado a terceiros: a gestação e o parto. Para algumas é uma fase linda e inesquecível; para outras, o inferno em vida.

Primeiro o sistema de saúde, seja público ou privado, não ajuda. Sempre tem um profissional da saúde que se acha bem mais capaz de decidir sobre nosso corpo do que nós mesmas. Mas as mães ainda conseguem se dividir em dois times: de um lado, as defensoras de parto natural, anos de aleitamento, massagem shantala, yoga e outros babados zen; de outro, as mulheres que não puderam ou não quiseram fugir de uma cesariana e que amamentaram somente durante o período regulamentar, com o bebê entre o peito e o notebook. E claro que sobram patrulhamento e acusações de parte a parte.

Não seria melhor ambos os times unirem forças e investirem contra os sádicos que se julgam autorizados a fazer mulheres parirem, cuidarem e amamentarem com o máximo possível de dor e humilhação?

Para quem pensa que ser mãe é difícil, vocês não viram nada. E a mulher que decide não ser mãe? Essas são secas, estéreis, não realizadas, egoístas, insensíveis. São aquelas olhadas de esguelha nos almoços de família, como seres incompletos – inclusive as mulheres que, sem nunca ter parido, são ou foram mães de seus sobrinhos, irmãos ou pais.

Aí a gente chega na principal bandeira de muitas feministas: o aborto. Sem dúvida que a descriminalização do aborto é uma demanda para ontem – assim como segurar a onda dos grupos e parlamentares ultraconservadores que tentam reverter as poucas conquistas obtidas nesse campo. Colocar-se no lugar da outra, quem quer? Uma criança estuprada pelo padrasto pode morrer numa mesa de parto, contanto que seu feto gerado em condições desumanas seja protegido.

Nós, feministas, precisamos estar atentas também às necessidades da mulher que decide não abortar pela razão que for – ainda que de ordem moral ou religiosa, não nos cabe julgar mas apoiar e proteger. É muito cruel que mulheres se submetam ao risco de serem criminalizadas ou torturadas (e de carregaram sequelas físicas e psicológicas), porque dar à luz uma criança numa sociedade que não proporciona uma rede minimamente decente de proteção social e universal à mulher, e a seus filhos, é uma opção ainda menos viável diante de uma gravidez indesejada.

Ser mãe não é obrigação nem condição para nada. A legislação brasileira diz que o Estado é laico, mas a gente sabe que desde sempre ele é dirigido por valores morais. Para sermos uma nação madura e desenvolvida, é preciso, entre muitas outras coisas, que a mulher possa decidir sobre seu próprio corpo e direitos de reprodução sem ser criminalizada ou discriminada.

Mas péra lá, como fica o homem na discussão do aborto? Por que sempre sobra para a mulher? Tem pai que paga um aborto, tem pai que abandona, tem pai que assume e dá uma ajudinha (quase sempre na mesma proporção do tamanho do óvulo para o do espermatozoide). Mas quando as coisas dão errado, homem nenhum é criminalizado. Nem são maltratados por médic@s e enfermeir@s, nem excomungados por bispos possuídos. Eu só espero que as defensoras das mudanças nas leis envolvendo direitos reprodutivos não se esqueçam de exigir responsabilidades também para os homens.

Mulheres, já sabemos que nossa vida não é nenhum piquenique. Então sejamos solidárias, compreensivas, generosas com as diferenças, com as escolhas de cada uma.

Em tempo: sou mãe de um aborrecente lindo e complicado, como aliás são os aborrecentes em geral. Às vezes penso que ser mãe é equivalente, em termos de aprendizado, a cursar um doutorado (que eu não fiz) – trabalhoso, extenuante e prazeroso. Mas nem fazer doutorado, nem ser mãe são as únicas, ou melhores, ou piores opções na vida de uma mulher.

Foi apenas um sonho?

Texto de Thayz Athayde.

O filme se passa nos anos 50, uma época em que os papéis estão muito bem aceitos e funcionam corretamente. Mas, April se questiona quem criou esses papéis e quem nos mandou segui-los. Ela busca a felicidade de uma forma dela, não uma inventada.  E nós, feministas, não somos um pouquinho como ela?

O que me espanta é que um tema que deveria ser ultrapassado ainda acontece nos dias de hoje. ‘Foi apenas um sonho‘ (2009) é um filme que trata de várias temáticas e uma delas é a velha polêmica do aborto. Vendo alguns comentários sobre o filme, me deparei com uma mulher falando do quanto o filme é bonito e tocante, mas em relação ao aborto a visão foi muito errada, segundo ela se o filme fosse abordado de uma outra forma a visão sobre o aborto seria outra.

O grande problema é que todos os dias assistimos uma mesma visão sobre o que é abortar. Como é errado, sujo, feio e que provavelmente quem faz vai direto pro inferno, sem escalas. E essa visão engessa, pois coloca a culpa inteira na mulher, como se apenas ela fosse a responsável pelo filho, é só ela quem tem a capacidade de criar o filho. Afinal, a mulher faz o filho sozinha ou o quê?

Cena do filme ‘Foi apenas um sonho’ (Revolutionary Road, 2009).

O filme coloca a posição da mulher em sua própria ótica, coloca o sentimento intenso de quem está presa em um mundo travestido de dona de casa, enquanto aquilo sufoca de uma forma inevitável. April é uma mulher cheia de sonhos e encontra um homem que parece querer as mesmas coisas que ela, mas o padrão e a rotina do casamento assumem um poder maior diante de um mundo de possibilidades. O filme trata do sofrimento de ser uma mulher em que tudo deve ser perfeito e impecável, quando o preconceito de ser uma mulher com desejos era explícito.

Trazendo o filme para os dias de hoje, podemos observar que mudamos muito em relação a certos conceitos, mas não com preconceitos. A mulher hoje tem mais liberdade em relação a seu desejo, mas as pessoas ainda tentam definir e impor qual é o desejo da mulher.

A leveza do filme é realmente desafiadora. Até onde essa leveza incomoda? E em que ponto deixa de ser leveza e trás personagens reprimidos diante de uma naturalidade moral?

A questão é que o filme incomoda, o diretor Sam Mendes o fez de próposito, mostrando o real e deixando o simbólico pra lá. Com maravilhosa trilha sonora de Thomas Newman, atuação extraordinária de Kate Winslet e um Leonardo DiCaprio muito mais maduro como ator, o filme é uma grande terapia no qual nos perguntamos: eu sou realmente feliz?

Gravidez Indesejada

Texto de Mari Moscou.

Nas últimas duas semanas tudo que é relacionado a aborto, gravidez e anticoncepcional parece de certa forma ter emergido com força, tanto na nossa lista de discussão quanto em meu querido bloguinho. Aí me toquei de um assunto que tem a ver com o feminismo das palavras.

Feminismo das palavras é a noção crítica que temos, nós feministas, assim como militantes de outro movimentos sociais, de que as palavras que escolhemos para expressar o que pensamos têm significado, têm história, têm sentido. Desta forma, escolher uma determinada palavra entre muitas para designar um fato, característica ou sentimento automaticamente nos alia a certas formas de pensar e nos afasta de outras.

Estava escrevendo um post pro meu blog a partir de uma discussão aqui do grupo, sobre fatores que diminuem a eficácia da pílula anticoncepcional e como além de ninguém disseminar essa informação entre mulheres, nós ainda somos culpabilizadas se engravidamos mesmo que tenhamos tomado o anticoncepcional direitinho e que seja necessário um espermatozóide pra concluir o procedimento. Mas enfim, o fato é que durante a revisão do post fui escrever “gravidez não-planejada”e falei: pe-pe-pe-pe-peraí! Não é “não-planejada”, é indesejada! e comecei a perceber algumas coisinhas. Estas reflexões vieram daí.

Quando eu era adolescente sempre ouvi falar em gravidez indesejada. “Gravidez indesejada” para cá, “gravidez indesejada para lá”. Quando fiquei mais velha parece que todos os discursos trocaram o adjetivo “indesejada” por “não-planejada”, como se simplesmente por ter ficado mais velha a gravidez já não pudesse mais ser indesejada.

Ora pipocas, se eu não planejo naquele momento X da minha vida ficar grávida, é porque naquele momento uma gravidez é indesejada, ué! E mesmo que eu opte por não descontinuá-la (e para muita gente isso nem é opção, dada a educação religiosa ou o medo de ir para cadeia ou a falta de condições financeiras) naquele exato momento em que eu não planejava ficar grávida e fiquei ela foi indesejada. Ponto.

Quer dizer, uma coisa não é sinônimo nem correspondente direta da outra. São duas noções diferentes, ainda que caminhem juntas em certo momento para algumas (ou muitas) pessoas. O que incomoda é ver como as pessoas relutam em aceitar que uma gravidez muitas vezes é, sim, indesejada. Como se não fosse possível uma mulher não desejar uma gravidez.

E vocês, já se pegaram refletindo sobre o que significa usar um certo termo a que estamos super acostumadas?