O feminismo é a ação política de TODAS as mulheres

Texto de Máira Nunes.

Esses tempos, um amigo querido me marcou numa publicação de uma mulher que queria saber se era feminista ou não. Eu não conhecia a pessoa e não consegui comentar na hora, mas me chamou a atenção o fato de que os comentários todos do post iam na linha: “toda mulher que faz o que quer, é dona das próprias escolhas e do próprio destino é feminista”.

A autora da publicação reforçava o tempo todo que não via diferenças, que era apenas uma batalhadora e que queria direitos iguais para todo mundo e não apenas para as mulheres. Muitos homens também falando altas bobagens e geral sem saber do que se trata.

Eu fiquei bem incomodada com o conteúdo da publicação, pensando onde que é que estamos errando, pois já é 2017 e gente que está conectada e não chegou no rolê ontem (a maioria das pessoas no debate eram da área da comunicação) não entendeu nem o básico do básico: que feminismo não é o contrário de machismo.

Daí pensei no feminismo pedagógico e em como a gente precisa ficar desenhando o tempo todo e ressaltando que dá pra ser feminista de salto e maquiagem. Essas coisas super ano de 2011, e que feminismo é sobre igualdade, e o teste da Semíramis e me deu um cansaço gigantesco.

E fiquei matutando: o que é que a gente pode fazer pra avançar? Porque, né? Já deu. Daí lembrei da definição da Vera Soares(1), que eu gosto muito, e que diz que: feminismo é a ação política das mulheres. E eu friso: DE TODAS AS MULHERES.

Talvez esteja na hora da gente sair da matriz igualdade/diferença e passar a olhar mais pra essa ação política aí. Porque a gente tá presa num “autofeminismo”: meu feminismo é assim, meu feminismo é assado, no meu feminismo pode isso, no meu não pode aquilo. E a potência da ação política se perde no individual. E a gente vai vendo essas coisas que acontecem aí nas redes, esse feminismo divônico, essa batalha de egos, esse racismo, essa transfobia, esse elitismo e tal.

Porque veja, eu sou uma mulher branca, cis, de meia idade, escolarizada, classe média, mãe, tenho emprego e independência financeira. Tô quase no topo da cadeia alimentar dos privilégios, só faltou ser homem. Então meu feminismo vai ser sobre o quê? Igualdade salarial, direito à depilação e reconhecimento intelectual? E a violência estrutural? E o heterocispatriarcado? E a exploração capitalista? E a crítica à branquitude? Entram onde? Por que nada disso me afeta eu não devo lutar pra mudar? Onde é que foi parar o “até que TODAS sejam livres”?

É por isso que acho que essa vibe “meu feminismo” não serve pra nada. Sei, já fui assim também, mas a gente pode melhorar, né? E pode começar a pensar em um feminismo que seja político, que seja estratégico e que seja para TODAS as mulheres.

Acho que a onda atual do libfem, do feminismo pedagógico, não ajudou muito, sabe? Porque pra uma galera feminismo continua sendo feminazi-anti-ômi, pra outra feminismo virou commoditie, virou hype, virou festa. Daí tudo bem ser racista, ser transfóbica, porque nesse feminismo “tudo pode”. Você pode inclusive ficar com os seus privilégios aí, bem de boa. Olha que ótimo.

E não, eu não sou a rainha da desconstrução, nem a dona da porra toda, aliás, nem seguidores tenho, tenho meia dúzia de amigues e alunes que tão aqui na peleia comigo. Mas tô na luta, né gente. Bem sem saber o que fazer, confesso. Na real, isso tá me incomodando há muito tempo, mas só consegui escrever agora porque entreguei o texto da qualificação e tô podendo pensar em outras coisas que não só na tese.

Então, pra concluir o textaço, quando a discussão sobre a opressão da imposição de estereótipos de gênero e padrões estéticos virou defesa do direito de usar salto e batom, quando o debate sobre maternidade compulsória virou direito de odiar crianças, quando direito a creche deixou de ser pauta feminista, quando a crítica ao machismo estrutural virou “homem não dá pitaco”, quando debate sobre monogamia virou “meu homem, ninguém sai”, quando crítica à sororidade virou o direito de chamar a coleguinha de puta-feia-chata-whatever, quando apontar racismo e transfobia é “rachar o movimento”, a gente tá fazendo tudo muito errado, né não?

E, o mais importante: não basta superar o autofeminismo, tem que superar o feminismo messiânico. Pra ontem! Chega de esperar salvação, gente. Como diz Jota Mombaça(2): “Isso aqui é uma barricada! Não uma bíblia”.

Referências

(1) Soares, Vera. Muitas faces do feminismo no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, p. 33-54, 2006.

(2) rumo a uma redistribuição desobediente de gênero e anticolonial da violência! Por Jota Mombaça. Publicado no Issuu em 12/12/2016.

Autora

Máira Nunes é 8 ou 80. Feminista, mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer. Publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 05/05/2017.

Imagem: Março/2017. Tuane Fernandes/Mídia NINJA.