Malhação – Viva a Diferença: combate ao racismo, diversidade e defesa da escola pública

Esses dias chega ao fim a atual temporada da novela Malhação da Rede Globo. Malhação – Viva a Diferença foi uma das melhores novidades na televisão em 2017 e seu sucesso mostra que a juventude está interessada em conhecer e falar sobre temas como o racismo e educação pública. Conhecida como uma novela adolescente, com temas bobos e sempre girando em torno de um casal e alguém que tenta separá-los, essa temporada trouxe novidades, colocando foco em cinco adolescentes e no universo socioeconômico que as cercam.

Cinco mulheres protagonistas. Uma mãe adolescente, uma bad girl rica, uma nerd negra, uma japonesa com família tradicional e uma estudiosa com espectro autista. Keyla, Lica (Heloísa), Ellen, Tina (Cristina) e Benê (Benedita) representaram muitas adolescentes. Ao mesmo tempo que se tornaram um grupo de amigas (as Five) também viviam intensamente seus dramas pessoais. Os medos, anseios e dilemas de quem está se tornando adulto tentando entender como o mundo funciona.

No geral, é possível ver os elementos clássicos de uma novela, mas ao contrário da maioria, Malhação – Viva a Diferença se propôs a discutir abertamente temas atuais e fundamentais para a juventude, trazendo novas perspectivas para antigos problemas. Racismo, violência policial, violência escolar, drogas e álcool, homossexualidade foram assuntos retratados sem filtros, com sensibilidade e ousadia que não é comum na televisão brasileira.

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Como eu me descobri uma mulher lésbica? Na verdade, como eu me descobri uma mulher não-heterossexual?

Texto de Lorena Varão para as Blogueiras Feministas.

13 de Dezembro, Recife-PE.

Fiz terapia por uns três anos. Na verdade, acho que ainda faço. Uma das técnicas que minha terapeuta estimulava era o uso da escrita. Geralmente, ela me indicava uns filmes e eu fazia uma resenha ou escrevia livremente sobre qualquer coisa que eu estivesse sentindo. O esquema era: eu escrevia e enviava tudo por e-mail. Era libertador. Nunca liguei muito pra gramática, nunca liguei muito pra textos muito densos e prolixos, apenas escrevia. Perdi isso nos últimos dois anos.

Ocorre que 2016 e 2017 foram anos extremamente intensos pra mim. Muitas coisas aconteceram comigo e com pessoas próximas. Fui guardando tudo isso e elaborando textos na minha cabeça, mas os mantive em silêncio.

Essa semana fui questionada sobre o meu processo de “saída do armário”. Como eu me descobri uma mulher lésbica? Na verdade, como eu me descobri uma mulher não-heterossexual? A tão temida “saída do armário” sempre é um tema recorrente em todas as rodas ou papos sobre a vivência LGBT. Eis que resolvi escrever sobre o assunto.

A intenção não é formular um texto de formação política ou coisa do tipo, mas tão somente registrar minha vivência enquanto mulher lésbica. Sempre vejo esses textos nos blogs feministas e penso: poxa, eu poderia ter escrito isso! Então, o objetivo é simplesmente socializar essa vivência e aproveitar a coragem que duas garrafas de vinho me deram.

Assim sendo (adoro essa expressão, não sei porquê!), tudo começou quando eu tava na alfabetização. Teresina, Piauí. Bairro Bela Vista II, zona Sul. Eu era extremamente apaixonada por uma professora minha. Tinhamos aula dela umas duas vezes por semana. Nesses dias, eu sempre acordava bem cedo, me arrumava mais, me perfumava, ficava extremamente ansiosa. Sempre que a via meu coração disparava loucamente! Acho que foi minha primeira paixão de fato. Não recordo minha idade na época, mas tudo era tão inocente que não conseguia dimensionar aquilo que eu sentia. Era uma admiração, uma vontade de tá perto, uma necessidade de que ela me enxergasse e me quisesse por perto também… Pra vocês terem noção, eu cheguei a entrar na igreja dela só pra poder vê-la todos os domingos no culto.

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Mãozinhas na areia, perigo à vista.

Texto de Conceição Barros para as Blogueiras Feministas.

Aviso: trata-se de um conto, que fala sobre abuso e tem a intenção de chamar a atenção para a violência que rodeia as crianças e adolescentes, deixando assim marcas eternas.

Com as mãozinhas brincando na areia, sua inocência exalava a satisfação de estar ali, fazendo o que toda criança gostaria de fazer. Brincar! Brincar das mais diferentes brincadeiras. Brincar de tudo tal qual sua imaginação mandasse. Ser feliz naquele mundo era tudo. Mundo esse que só a criança entende e percebe que faz parte dele, da realidade que ele proporciona de forma colorida e fictícia, sem perceber que em sua singela inocência, o perigo por ali passava. Perigo esse que não vinha de longe, nem do desconhecido, ao contrário do que se podia imaginar, nunca acreditaria que a brincadeira sadia e inocente poderia vir a ter uma triste lembrança em sua vida, lembrança eterna, ferida que não cicatriza, marca que parece tatuada em seus pensamentos até o resto de sua vida.

Permanece de forma viva, em sua mente, os bons momentos, mas ao mesmo tempo vem a lembrança das suas mãozinhas, ainda sujas de areia, pois fazia bolinho de areia para cozinhar, afinal de contas, a “cozinha foi o que restou como lugar”, segundo a sociedade. Logicamente que seus pais, uma vez criados por um viés conservador, machista e patriarcal, tinham esse mesmo pensamento. Apesar do conservadorismo, os conselhos voltados para os estudos não faltavam, pois sabiam que os estudos a proporcionariam muitas realizações. Mas deixando claro que, a mulher é a ‘peça’ principal da casa, parceira das construções, mas dona das desconstruções da vida familiar. Por isso a importância da submissão ao homem, uma vez que deveria zelar pela família acima de tudo, até mesmo de sua felicidade, pois a família estando bem, logo, ela estaria também, o “resto faz parte da vida de casado”. Essa era a lógica que envolvia o mundinho infantil e feminino daquela criança e provavelmente ainda continua sendo de outras crianças. A casa imaginária, mas precisamente a cozinha, era o reduto. Meu Deus, quanta inocência!

Mas, quantas vezes terá sido? Não sabe-se ao certo, em sua infância talvez duas ou três vezes, na sua adolescência, uma vez, com toda certeza . Dói! Dói a lembrança que ainda é bastante forte, apesar dos tempos terem passado, mas a lembrança é bastante viva em sua mente. Gostava tanto dele, o tinha como um segundo pai. Incrível como nunca imaginou que algo dessa natureza existiria e que pudesse acontecer com crianças, pois seria de uma monstruosidade indescritível. Se era manhã, tarde, não se sabe, é como que o que aconteceu viesse a apagar algumas coisas de sua memória. Mas a lembrança de ser subtraída da brincadeira, para sentar no colo e ser abusada, é inesquecível. Em vez do afago, que era para vir em forma de um toque em sua face, de um cheiro em sua cabeça, ou um beijo em sua testa, vinha o tocar do pênis em seu corpo enquanto sentada em seu colo, para talvez conseguir uma penetração, ou algo próximo mesmo. Plantava assim em sua cabecinha, o sentimento de dúvida, de vergonha, de medo e ao mesmo tempo de culpa. Respostas queria, mas não tinha. Ninguém sabia e assim o seu mundinho, já não estava mais tão colorido, algo tinha acontecido e fez com que ele perdesse um pouco do seu brilho. Pois agora, estava no ar, o porquê dele ter feito isso.

Mas o tempo passou e tudo permanecia do mesmo jeito, afinal de contas foram umas duas ou três vezes. Os pais não sabiam, a família não sabia, ninguém sabia, e o encanto da essência infantil ajudou a ir esquecendo aos poucos esse trauma em sua vida. Pelo menos era o que ela acreditava.
Adolescência, bela adolescência! São tantas mudanças, tantas transformações, o estranhamento entra em cena trazendo novidades, a busca pelas descobertas é incessante. Corpinho bonito, tudo no lugar, tudo novinho, os hormônios só faltavam falar. Essa é uma das fazes da vida em que você quer viver intensamente. É um perigo! Mas quem não quer passar por ela? Mas, para o desprazer, o mundo que estava colorido, também em sua adolescência, sofreu a mesma perda de cor, que tinha acontecido em sua infância, tornando-se um pouco mais opaco. Mas agora, não mais criança, o sentimento veio em forma de nojo, de raiva, de desprezo e de desilusão. De fato, agora tinha certeza que aquela pessoa em que depositava um sentimento de amor paternal, não era a pessoa que correspondia a esse sentimento.

—Menina, não vai não! Falava a mãe.

—Meu coração tá pedindo para você não ir. Coração de mãe não se engana! Assim dizia a mãe, ao clamar à filha para não ir à casa da tia.

Era uma linda tarde e não tinha aula, poderia ter ficado em casa com sua mãe, estudando ou fazendo alguma outra coisa, mas ninguém vai saber o que lhe espera mais na frente. Seus pais não toleravam faltas na escola e sempre lhe falavam da importância dos estudos, apesar de não terem tido o privilégio de os completarem, chegando apenas até segunda ou terceira série do primário, tendo que trabalhar logo cedo para se sustentar. Tinha a mãe como uma guerreira e um exemplo de mulher a ser seguido, por sua determinação e persistência nas barreiras impostas pela vida. Seu pai trazia para ela a segurança, pois sabia que ao lado dele estaria segura em qualquer lugar. Sem contar com o amor e carinho, que sempre passava para ela. Ou seja, amor nunca faltou em sua vida.

Mas a casa da tia a esperava. Se ela soubesse o que iria acontecer com certeza não iria. A tarde estava ótima, calma e tranquila. Como um raio, bêbado, surge ele, cambaleando, querendo algo para comer, para servir de acompanhamento à cachaça. Mocinha, bem prendada, já ia ao fogão. Foi o “fim da picada”. Mais uma vez vinha a acontecer tudo o que aconteceu enquanto sua fase de criança. Enquanto tirava algo para ele comer, a mando da tia, ele mexia no corpo dela como uma propriedade sua, percorrendo suas mãos por todo ele, pressionando-a contra o fogão e depois contra a parede, tentando explorar dele o máximo possível. Sua tia nem imaginava o que estava acontecendo. A força e a voz pareciam ter sumido da sua natureza. Algo inexplicável! Mas de repente, já não se encontrava ali uma criança, e sim uma quase mulher, que em seu eu, ainda que transtornado e tomado pelas dúvidas da adolescência, criou força para gritar, afastar e chorar de forma descompensada, clamando por uma grito de socorro. A tia chega e o coloca para fora aos gritos, logo, quase todos ficam sabendo, mas o silêncio pairou no ar, definitivamente, a história passou a não existir. Penetração? Não, não existiu, não deu tempo, na verdade. Se chegaria a esse estágio, não se sabe. Mas a marca ficou em seu eu, para sempre. Casos assim em família, não se fala. Se cala, para sempre. Você de imediato começa a pensar que as pessoas naturalizam esses tipos de acontecimentos.

Para a mãe foi o maior desgosto, pois não contou para o pai, que provavelmente poderia matá-lo, ou morrer, de tanta raiva que iria sentir. Em sua persistência, em sua forma de ver a vida, procurando viver ao máximo os momentos ofertados por ela, a menina, hoje, mulher, busca forças sabe-se lá como, para dar continuidade a sua vida fazendo o possível, pelo menos por alguns instantes para não lembrar das cenas que sua mente lhe faz questão de recordar, ao escutar ou saber de noticias desse tipo. Sua pessoa foi fragilizada, sua personalidade também, mas nunca entregou-se definitivamente às tristes lembranças, sempre se reergueu. Uma luta constante com seu eu, com sua consciência. Mas enxergou, que por ser mulher, sofre por inúmeras atitudes machistas e preconceituosas, simplesmente pelo fato de ser mulher. Mas que tal situação precisa-se mudar, é importante a desconstrução dessa forma de pensar e agir relacionada ao gênero feminino. Optou por ser mais uma do time daquelas que podem fazer a diferença na vida de muitas outras mulheres, levando consigo a ferramenta do empoderamento feminino, através do fortalecimento da luta pelos seus direitos, buscando sempre por um lugar de direito e de respeito na sociedade.

A luta é contínua e constante, porque não árdua também. Mas a cada conquista, seja ela individual ou coletiva, é necessário uma comemoração. É essencial que proliferem-se as buscas por novas retomadas, pelos seus objetivos, pelo seu espaço, seja em qualquer esfera, pela emancipação feminina, pelo não à violência, pelo reconhecimento do verdadeiro lugar da mulher, que é onde ela quiser.

Autora

Conceição Barros é assistente social, feminista, militante, gosta de escrever, gosta de amar e ser amada, de respeitar e ser respeitada, ama viver.

Imagem: Pamella Gachido no Flickr em CC, alguns direitos reservados.