Pantera Negra: um filme de super-herói que divide o protagonismo com mulheres

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Pantera Negra (2018) é o grande blockbuster desse início de ano. Mesmo tendo Vingadores: Guerra Infinita (2018) em abril, a adaptação para as telas de um super-herói negro é a grande novidade de 2018. A adaptação do Universo Cinematográfico Marvel começou em 2008 com o primeiro filme do Homem de Ferro, após 10 anos, finalmente temos nas salas de cinema uma história de ação com características do afrofuturismo, um enredo que fala dos negros e da diáspora forçada africana por meio da escravidão e da exploração dos recursos desse continente.

O filme segue todas as características de um bom filme ação: o protagonista é surpreendido pela morte de seu pai, o que exige a tomada de inúmeras decisões e desafios em busca do futuro. O passado acaba por vir lhe confrontar e ameaçar a paz no planeta. Além do elenco predominantemente formado por atores e atrizes negros, há cenas em que o idioma africano xhosa — a língua natal de Nelson Mandela —  é falado e a trilha sonora possui canções escritas especificamente para o contexto das cenas. A produção mostra um grande desejo por representação negra. Mas, para mim, o maior destaque do filme são as mulheres.

A diferença principal de Pantera Negra em comparação a outros filmes de super-heróis é que as mulheres tem inúmeros papéis importantes na sociedade de Wakanda e, por mais que o protagonista tenha poderes especiais como força e velocidade superiores, sem as mulheres lutando ao seu lado seus objetivos não seriam conquistados. Elas não são apenas coadjuvantes, são fundamentais ao seu lado nas cenas de ação e também nas tomadas de decisões sobre quais caminhos seguir, nas decisões que precisam ser tomadas.

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Um fim precário para a lei anti-homossexualidade de Uganda

Texto de Alexis Okeowo. Tradução de Bia Cardoso. Publicado originalmente com o título: ‘A precarious end to Uganda’s anti-gay act’ no site da revista The New Yorker em 05/08/2014.

Foto de Isaac Kasamani/AFP/GETTY.
Foto de Isaac Kasamani/AFP/GETTY.

Na última semana, o tribunal constitucional de Uganda (país do leste da África) derrubou a lei anti-homossexualidade do país, uma lei que estabelecia punições severas — incluindo em alguns casos, prisão perpétua — para o comportamento homossexual. Na sexta-feira, na corte judicial de Kampala, muitas pessoas da imprensa, além de advogados e ativistas de Uganda, Quênia e Tanzânia aguardavam a decisão final. Martin Ssempa, pastor ugandense e proeminente defensor da lei, fez uma oração em voz alta na sala do tribunal, citando versículos da Bíblia e condenando a homossexualidade. Frank Mugisha, ativista dos direitos gays, sobre quem escrevi para essa revista em 2012, estava otimista; para ele, os argumentos contra a lei pareciam bem definidos. Quando a decisão foi lida, Mugisha e seus aliados dentro do tribunal comemoraram. Do lado de fora, eles foram recebidos com insultos e ameaças de morte. Manifestantes com grandes cartazes anti-gays gritaram que a luta não tinha acabado.

Os manifestantes estavam certos. Em Uganda, justiça para a população LGBT tem sido algo raro, com pequenas vitórias (como um mandado de segurança de 2010, obrigando um tablóide a parar de tirar gays do armário; e a primeira parada do orgulho gay do país, dois anos mais tarde), muitas vezes seguidas por duras medidas de repressão (como o assassinato de um ativista em 2011, além da prisão e chantagem de outros). O projeto de lei anti-homossexualidade foi proposto pela primeira vez ao Parlamento em 2009, e seus argumentos foram debatidos intensamente em Uganda e no exterior. Em 2013, o entusiasmo com o projeto parecia ter enfraquecido, e muitos ativistas gays voltaram a seu trabalho de defender os ugandenses LGBT da discriminação e do assédio policial. Em dezembro, no entanto, o projeto de lei foi retomado no Parlamento e aprovado rapidamente. Ativistas ficaram surpresos com a velocidade da aprovação do projeto de lei; na época, Mugisha me disse que ele estava com medo por seus amigos, que estavam em pânico.

A lei anti-homossexualidade foi assinada em fevereiro pelo presidente de Uganda, Yoweri Museveni, apesar das objeções de organizações da sociedade civil de Uganda, de grupos internacionais de direitos humanos e governos estrangeiros, incluindo os Estados Unidos. Mugisha e outros ativistas entraram imediatamente com uma ação contra a lei, argumentando, entre outras coisas, que a lei era discriminatória, muito ampla e ambígua, além de impor restrições indevidas sobre os direitos de livre associação e expressão. No julgamento de sexta-feira, o tribunal constitucional anulou a lei, alegando que não havia quórum suficiente no Parlamento no momento da votação, uma decisão que deixa em aberto a possibilidade de que uma outra versão do projeto de lei possa ser aprovada novamente.

A decisão do tribunal me fez lembrar de Devine, um extravagante e autoconfiante gerente geral de uma empresa local que conheci há dois anos. Nos encontramos a noite para tomar um drink no centro de Kampala, num local iluminado por luzes neon onde fomos atendidos por um garçom que Devine me disse alegremente que adoraria bater nele. “Em Uganda, na África, se você é gay, todos os dias tem que estar atento e tomar cuidado”, disse, Devine. “Você não pode se sentir seguro para calçar seus sapatos de salto alto e dançar em um clube. De certa maneira, você sente um desejo de não ser gay, mas não há nada que você possa fazer”. Devine, que tinha vinte e seis anos na época, vivia com sua família em Mukono, uma cidade próxima, onde os índices de criminalidade eram alguns dos mais altos da área central de Uganda. Ele usava perfume e óculos elegantes, provocando exibiu o que chamou de seu “flash”, um relógio de brilhantes e pulseira. Por ter sido criado numa família cristã, ele contou, o que se esperava dele era se estabelecer, casar, ter filhos. Seu pai recentemente disse que se ele simplesmente levasse para casa uma garota, ele poderia provar que era um homem de verdade. Devine, por sua vez, disse a seus parentes que seu namorado era apenas um amigo e todos eles fingiram acreditar. Para Devine, isso foi o suficiente.

“A palavra ‘gay’ não era nem mesmo mencionada cinco anos atrás. Agora, as pessoas reconhecem que estamos aqui. As coisas tem melhorado nesses últimos dias”, disse Devine. Ele contou a alguns de seus amigos que é gay e, após a surpresa inicial, eles aceitaram o fato. Ele e seus amigos agora podem ir a Mulago, um hospital público, para terem acesso gratuito a testes de HIV e informações. Quando ele foi a uma clínica, acompanhar um amigo transgênero, o médico escreveu na ficha que o sexo do amigo era masculino, mesmo que ele seja biologicamente feminino. “Isso foi o mais longe que conseguimos chegar”, me disse, Devine. Ao mesmo tempo, ele diz: “você quer saber se quem está olhando para você está interessado, mas também tem que fingir que você não é gay”. Apesar de todo o progresso, ele ainda precisa se preocupar se está sendo seguido por alguém, com os insultos lançados contra ele por moto-taxistas e com a possibilidade de receber hostilidade por parte de alguém apenas por ter cruzado o olhar com essa pessoa. Esses problemas continuam a existir, sem dúvida; a homofobia é dominante em Uganda e certos estatutos, remanescentes do período colonial britânico, ainda criminalizam a homossexualidade. Mas, talvez, Devine se sinta um pouco mais livre do que se sentia na última quinta-feira.

No fim de semana, Nicholas Opiyo, um dos principais advogados no processo contra a lei anti-homossexualidade, me disse que a decisão do tribunal foi uma “oportunidade perdida para resolver este problema” definitivamente. “O que fizeram foi adiar a discussão para outro dia”, ele disse. No entanto, ele insistiu que a decisão de sexta-feira foi importante. Organizações da sociedade civil que haviam sido suspensas ou investigadas pela polícia por “promover a homossexualidade”, uma infração nos termos da lei, podem agora retomar suas atividades. Os legisladores, incluindo Museveni, terão a chance de reconsiderar suas decisões, embora ainda não esteja evidente se o presidente mudou totalmente de opinião. Opiyo disse que o efeito mais importante da decisão de sexta-feira era que “as pessoas que foram presas ou que estavam sendo investigadas pela polícia, sob a acusação nos termos desta lei, ganharam agora sua liberdade. As bases sob as quais estavam sendo acusadas agora são ilegais”.

Autora

Alexis Okeowo é jornalista e vive em Lagos, na Nigéria. De 2006 a 2012, ela foi correspondente em Uganda, México e Nova York. Em 2013, relatou um escândalo de grupos da mineração chinesa na Zâmbia, com o apoio do Pulitzer Center on Crisis Reporting. Em 2012, foi membro da Alicia Patterson Foundation, escrevendo sobre os direitos dos homossexuais na África. Ela também foi parceira do projeto International Reporting Project da Johns Hopkins School for Advanced International Studies, fazendo relatórios sobre a violência religiosa e sectária na Nigéria central e do norte.

Conheça-a visitando seu blog ou seguindo-a no twitter: @alexis_ok.

Dignidade! Meninas e mulheres em situações-limite

Texto de Karen Polaz.

Exemplos recentes. O mais notável, uma mulher de 87 anos, violada por dez homens. Sobreviveu. Outra, de 69, estuprada por três militares, tinha na vagina um pedaço de sabre. Está sendo cuidada há dois meses e suas feridas ainda não cicatrizaram. Quase perde a voz quando me conta que uma menina de 15 anos, raptada por cinco “interahamwe” (milícia hútu que perpetrou o genocídio dos tútsis em Ruanda, em 1994, e logo fugiu para o Congo, onde agora apoia o exército do governo do presidente Kabila), foi mantida na mata por cinco meses como mulher e escrava. Quando a viram grávida, expulsaram-na. Ela voltou para a família, que também a expulsou porque não queriam que nascesse em sua casa um “inimigo”. Desde então vive num refúgio de mulheres e recusou a proposta de um parente para que matasse o futuro filho a fim de que a família pudesse recebê-la. A ladainha das histórias do dr. Tharcisse me causa vertigens quando se refere ao caso da mãe e suas duas filhas violadas poucos dias antes na mesma aldeia por um punhado de milicianos. A mais velha, de 10 anos, morreu. A mais nova, de 5, sobreviveu, mas teve os quadris esmagados pelo peso de seus violentadores. O dr. Tharcisse rompe a chorar. (I)

“Padres, são grandes os meus pecados”, eu disse para a cortina vermelha com flores brancas bordadas. Padre Nyoka, o padre que nos casara, disse: “Confesse, criança. Deus perdoa a todos”. Foi a primeira vez que falei do meu casamento. Contei à cortina tudo sobre Antoine [marido], mim e Fellyne [filha]. Levei meia hora para contar a minha vida à cortina. No fim eu disse: “Padre, eu tenho aids. Antoine passou para mim”. O padre tossiu. Ele deixou a igreja preencher o silêncio com sua sacralidade. “Criança”, ele disse, “o seu marido também tem aids?”

“Ele não foi testado”, disse eu. O padre respondeu: “Então, criança, não é verdade que ele tem aids”. Suas palavras foram ficando mais incisivas à medida que falava. Baixei os olhos: “Não.” O padre disse, rispidamente: “Então, que perversidade é essa que compele uma mulher a profanar o nome do marido, o nome de um herói nacional?” As palavras então se despejaram para fora de mim como se não quisessem mais ser minhas. “Padre, tenho sido uma mulher honrada.” O padre prosseguiu: “Se você tem sido uma mulher honrada, como explica essa perversidade que entrou em você?” Fiquei em silêncio. Como uma lágrima que cai, minha fé começou a deslizar para longe de Deus.

O padre Nyoka falou: “Não apenas o capitão [Antoine] Lemoyne é um herói da República Democrática do Congo, como o seu pai é o amado presidente desta mesma igreja”. Ele fez uma pausa, e o Sagrado Silêncio se interpôs entre nós. Quando falou de novo, sua voz era forte. “Maldita seja você por profanar o nome deles desse modo abominável, pois é o diabo dentro de você quem fala. É Satanás quem embebe o seu sangue com essa perversidade maléfica. Satanás está nas suas veias. Você é filha do diabo – uma filha da aids. Você não pertence mais a Deus.”

A cortina vermelha abriu-se bruscamente. O longo rosto do padre me encarava. Ele respirou fundo três vezes. Senti minha alma sendo sugada. “Saia deste lugar santo.” Ele se pôs em pé, acima de mim, e bradou: “Satanás, fuja desta igreja sagrada!” Ele apontou o dedo para a porta. E, da casa de Deus, eu fugi. (II)

Essas citações foram retiradas do livro ‘Dignidade!’, que traz relatos de nove escritores que vivenciaram situações-limite ao lado da equipe dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Profissional do grupo Médicos Sem Fronteiras examina jovem paciente no Congo. Foto de Emily Lynch/MSF.
Profissional do grupo Médicos Sem Fronteiras examina jovem paciente no Congo. Foto de Emily Lynch/MSF.

A organização MSF foi fundada em 1971, na França, por um grupo de jovens médicos e jornalistas e, desde então, leva assistência médico-humanitária às populações em estado de crise, violentadas por interesses políticos ou militares, ignoradas pela mídia internacional, deixadas à própria sorte em meio à pobreza, guerras, fome, epidemias e preconceitos. Em suma, lugares onde o mundo lança o enorme peso de sua indiferença, aonde ninguém quer ir, ver, nem tampouco ouvir falar.

Os exemplos acima se referem à República Democrática do Congo, no continente africano, mas poderia tratar-se de outros locais cuja população se encontra em perigo, em situações de conflito, vitimada tanto por catástrofes naturais quanto humanas. A desgraça que desmantela vidas por onde passa castiga, sobretudo, crianças e mulheres. Nas regiões conflituosas do Congo, enquanto os meninos são raptados e ensinados a matar e estuprar, todo dia chegam meninas e mulheres violadas com bastões, facas, ramos, etc. aos centros de tratamento do MSF.

Os estupros, como já é sabido, pouco têm a ver com sexo, mas com ódio e poder. Ao se deparar com mulheres e meninas consideradas do grupo “inimigo”, homens as estupram, espancam e matam com o objetivo expresso de humilhar e desmoralizar os homens adversários, além de implantar a própria descendência em “território” inimigo, caso elas sobrevivam e engravidem.

O documentário ‘A Guerra contra as mulheres’ (Argentina, 2013), de Hernán Zin, mostra a vida de onze mulheres, vítimas de estupro nos períodos de guerra, em dez países da África, América e Europa. A violação sexual de meninas e mulheres é considerada uma estratégia de guerra bastante eficaz, sendo que seus corpos se transformam num verdadeiro campo de batalha. Como se nota, as relações se estabelecem apenas entre homens. O corpo-objeto das meninas e mulheres entra na roda para sacrifício, vingança e satisfação de homens, não importa a quais grupos eles pertençam.

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Documentário ‘A Guerra Contra As Mulheres’ (em espanhol).

Não bastasse a violência brutal, alastram-se doenças em regiões pobres e/ou de conflitos armados como malária, cólera, febre amarela, infecções, desnutrição, tuberculose, aids. No caso da segunda história citada, a aids impera num lugar onde o uso do preservativo ainda é pouco difundido e aceito, em grande parte por resistência de homens em utilizá-lo. Ainda que em meio ao estigma social que esta doença gera, mulheres se apresentam mais para testes, enquanto homens continuam na negação e, por consequência, sem saber que são soropositivos ou recusando a doença, disseminam o vírus quando fazem sexo com suas companheiras ou estupram mulheres. Mulheres estão mais vulneráveis a contrair a aids, assim como são as que mais sofrem com o preconceito social contra os soropositivos, já que diferentes instituições sociais as veem como promíscuas e infiéis, tapando os olhos e os ouvidos para o fato de que elas são, quase sempre, as vítimas da história.

Relembrar que assim é a condição em que vivem, ainda hoje, milhares de mulheres no mundo traz à tona a importância de organizações humanitárias, como a MSF, que chegam a representar a única esperança de salvação de corpo e mente de tantas pessoas nessas regiões. Mas também nos leva a refletir sobre nosso/meu próprio feminismo, das demandas do meu feminismo privilegiado de mulher cisgênera, branca, escolarizada, heterossexual, sem deficiências físicas, que não vive em situação de pobreza nem de conflito armado, que conta com plano de saúde para prevenção e tratamento de doenças, que pode escolher com quem se relaciona afetivamente e com quem não quer se relacionar.

Relembrar essas mulheres do Congo significa nos fazer repensar pelo que e por quais grupos de mulheres também estamos lutando, para além dos avanços da nossa própria condição de vida e do nosso próprio umbigo. O recado parece nítido: “Está ruim para você, mas para tantas outras é pior ainda. Muito pior. Se existe inferno, elas chegaram lá”. Porque violência, fome, estupros, epidemias, estigma social, conflitos armados que destroem vidas, principalmente a vida de meninas e mulheres, não acontecem apenas no Congo. Qualquer semelhança com casos de conterrâneas brasileiras é mera realidade.

Capa do livro 'Dignidade'.
Capa do livro ‘Dignidade!’.

Referências

(I) Trecho extraído do conto ‘Viagem ao coração das trevas’ de Mario Vargas Llosa (p. 12), que discorre sobre a situação de precariedade generalizada em cidades do Congo, especialmente a violência sexual sofrida por meninas e mulheres.

(II) Trecho extraído do conto ‘Makass’ de James A. Levine (p. 169-170), cuja narrativa fictícia conta a história de personagens e eventos reais envolvendo pessoas com aids no Congo.

DIGNIDADE!
Título original: Dignità!
Autores: Drauzio Varella (prefácio), Mario Vargas Llosa, Eliane Brum, Paolo Giordano, Catherine Dunne, Alicia Giménez Bartlett, James A. Levine, Esmahan Aykol, Tishani Doshi e Wilfried N’Sondé
Editora: LeYa
Ano de lançamento no Brasil: 2012