A mídia brasileira sempre dá uma segunda chance para agressores de mulheres

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Esse mês, estreou na Rede Record, a nona edição do reality show: A Fazenda. Entre os participantes estão dois homens que foram denunciados por agredir mulheres que eram suas namoradas: Yuri Fernandes e Marcos Harter. Mesmo com o feminismo sendo pauta na mídia e cada vez mais denúncias públicas de agressões, a TV brasileira segue promovendo a naturalização da violência contra as mulheres.

Em 2014, Yuri Fernandes foi preso em flagrante por agredir Ângela Souza. Em abril de 2017, Marcos Harter foi expulso e indiciado por agressão a Emilly Araújo durante o programa Big Brother Brasil (BBB) da Rede Globo. A proposta da atual edição de A Fazenda é ser uma “segunda chance” para participantes de reality shows que não ganharam o grande prêmio final. O que leva a Rede Record a convidar dois notórios agressores de mulheres para um reality show? O que leva a mídia brasileira a nunca ser responsabilizada por enaltecer agressores de mulheres? Por que agressores de mulheres são tratados constantemente como coitados e merecem uma segunda chance?

A mídia brasileira faz escárnio e chacota da violência contra a mulher ao dar espaço e visibilidade para esses homens. A mensagem transmitida é que esses homens fizeram uma “besteira”, tiveram um “comportamento inadequado”. O histórico dos reality shows brasileiros nos mostra que agressores de mulheres tem grande apelo popular, são apresentados como “conquistadores” ou “polêmicos” pela mídia e, justamente por isso, tornam-se celebridades. Do outro lado, emissoras de TV só costumam tomar uma atitude em relação a violência que exibem quando acionadas pela polícia.

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Violência na Marcha das Vadias de São Paulo

Relato de Carol Patrocínio. Publicado originalmente em sua página no Facebook no dia 24/05/2014.

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Vídeo com cenas da violência contra as mulheres na Marcha das Vadias de São Paulo.

O privilégio do opressor foi jogado na nossa cara durante a Marcha das Vadias. Foram, pelo menos, 500 mulheres encarando chuva para luta por seus direitos. Caminhamos pela Paulista e descemos a Augusta.

Quando estávamos perto do número 541, a Marcha se separou e uma menina foi agredida. O agressor correu para dentro de uma academia e foi acolhido. A história só foi compartilhada quando já estávamos na Praça Roosevelt.

Depois de encerrada a Marcha, um grupo de 150 pessoas subiu para a academia. A intenção era fazer um escracho. Chegamos lá e fomos recebidas com um sorriso irônico tanto do agressor quanto do dono da academia. Começou um empurra-empurra, uma menina foi agredida, o namorado tentou defende-la e se tornou o foco da polícia.

As mulheres da Marcha, em sua maioria, tentaram separar, mas sem sucesso. A polícia nos empurrou, agrediu e continuou batendo em um dos nossos. Enquanto isso, do outro lado, o agressor ria na cara de quem dizia que ele estava errado. Uma garota perguntou se ele também bateria nela — enquanto eu pedia para que ele voltasse para dentro da academia e evitasse uma tragédia — e ele apenas sorriu pra ela o sorriso mais assustador que já vi.

Rolou bomba, rolou gás. Muita gente correndo, passando mal. Muitas mulheres extremamente nervosas com mais um desrespeito sofrido. Um dos nossos foi algemado — isso não é inconstitucional? — e levado para dentro da academia junto com algumas mulheres. A porta foi baixada, ninguém sabia o que estava acontecendo.

Começamos a ser informados pelas mulheres que estavam ali. Estava tudo bem, mas ele continuava algemado e o agressor numa boa. Chegou uma advogada e todo mundo ia para a Delegacia de Polícia. O Choque estava lá. A polícia fez um cordão para que as pessoas pudessem sair. O homem que estava conosco saiu algemado e foi jogado em um porta-malas. O agressor e o homem que o acolheu entraram no banco de trás numa boa.

Quando o agressor e o dono da academia saíram, eles olharam na cara de cada uma de nós, sorriram. Eles não estavam preocupados com o que ia acontecer. Eles sabem que a polícia estava ali para proteger o status quo, que estão no topo da cadeia alimentar. A nós, impotentes, restou seguir para a DP, prestar depoimentos, entregar fotos e vídeos que comprovavam todas as agressões e abusos.

No meio de uma Marcha por igualdade e respeito tivemos jogado na nossa cara todos os privilégios do opressor e sua certeza de impunidade. Tivemos, durante essa Marcha das Vadias, a certeza de que o feminismo é extremamente necessário e que, se depender de nós, machistas não passarão. Mexeu com uma, mexeu com todas.

Manifestantes se concentram no vão livre do Masp para a 4° Marcha das Vadias de São Paulo, com o lema "Quem cala não consente!". Foto de Nelson Antoine/Fotoarena/Estadão.
Manifestantes se concentram no vão livre do Masp para a 4° Marcha das Vadias de São Paulo, com o lema “Quem cala não consente!”. Foto de Nelson Antoine/Fotoarena/Estadão.

Em repúdio às prisões arbitrárias e à criminalização dos movimentos sociais no Rio de Janeiro

Texto de Bárbara Araújo.

Desde junho de 2013, protestos populares com adesão de centenas de milhares de pessoas tomaram conta do Brasil. Com uma pauta de reivindicações diversas, eles marcaram um momento histórico de retomada das ruas pela população, que voltou a ocupá-las como espaço de luta política por excelência. O fenômeno foi especialmente marcante no Rio de Janeiro, pelo fato da cidade ter se tornado sede de uma série de mega-eventos, o que agravou os problemas sociais preexistentes e, por consequência, ampliou e radicalizou a resistência popular.

[+] Manifestações no Rio de Janeiro: a repressão não pode nos calar.

[+] Marcha das Vadias do Rio de Janeiro: os santos que nos tem quebrado.

Depois das jornadas de junho e das manifestações contra a Copa das Confederações em julho, os protestos retomaram força em agosto com a greve da educação. A rede estadual e a rede municipal (que não deflagrava uma greve como essa há duas décadas) construíram um movimento radicalmente contrário à política meritocrática da prefeitura e do governo do estado que visa ao sucateamento da educação pública. Também em agosto teve início uma ocupação na Câmara dos Vereadores, cujo objetivo era fiscalizar a realização da CPI dos transportes, conquista das jornadas de junho que os deputados da base do governo têm feito de tudo para deslegitimar. O movimento, que ficou conhecido como Ocupa Câmara, tornou-se um espaço de convivência, de realização de atividades culturais e de debates políticos rico e plural. Tornou-se ainda uma base de apoio para o movimento dos profissionais da educação municipal, que igualmente decidiram montar acampamento na Câmara.

[+] Relato de uma professora sobre a greve da educação no Rio de Janeiro.

Se os movimentos sociais cresceram em tamanho e potência nos últimos meses, igualmente o fez a repressão. Desde junho, a Polícia Militar do Rio de Janeiro vem utilizando um verdadeiro arsenal de guerra contra os manifestantes, entre bombas de gás lacrimogêneo cada vez mais potentes, balas de borracha e também de chumbo, espancamentos, etc. Tem sido recorrente que cada manifestação resulte em um número de pessoas detidas sem garantias mínimas de direitos, além da prática já comprovada de implantação de provas falsas pela polícia nos manifestantes e de infiltração de policiais no movimento. A arbitrariedade e a violência incomensurável não são exclusividade da PMERJ – em todo o país a polícia militar tem comprovado ser uma instituição de inclinações fascistas que PRECISA acabar para que seja possível que se viva um Estado democrático de direito. Vale lembrar que, se a polícia tem atuado dessa maneira há meses, cada vez com mais gravidade, a responsabilidade está também nas mãos do Estado – nominalmente de Eduardo Paes, Sérgio Cabral e da ex-guerrilheira Dilma Roussef.

Ocorre que na noite e na madrugada do dia 15 de outubro, o terrorismo de Estado executado por seu braço armado ultrapassou quaisquer limites. A brutalidade começou com o ataque de uma numerosa força policial à passeata dos educadores sem que absolutamente nenhum tipo de “vandalismo”, como gosta de chamar a grande mídia, tivesse ocorrido. Mais tarde, sem apresentação de qualquer determinação judicial, o Ocupa Câmara foi dissolvido à força pela polícia. Um número alarmante de pessoas foram detidas — mais de 200, segundo a OAB — dentre as quais estudantes, professores, jornalistas, um carteiro e um jovem palhaço, todos criminalizados pelo fato de se encontrarem fisicamente nas escadarias da Câmara.

Naquela madrugada, a polícia omitiu os motivos das prisões e omitiu igualmente o destino dos detidos, que foram sendo distribuídos pelas diversas D.P.s ao longo de toda a cidade. Apesar da série de entraves colocados pelo Estado, incluindo a humilhação dos advogados que procuraram garantir os direitos dessas pessoas, algumas foram liberadas no dia seguinte. Outras tantas foram encaminhadas para complexos penitenciários como criminoso inafiançáveis. Isso por conta da nova legislação repressiva, de contornos ditatoriais, que o Estado utiliza pra incriminar a militância. Trata-se da Lei Federal 12.850/2013, conhecida como “Lei de Organização Criminosa” que, com sua linguagem jurídica vaga, tem legitimado ações como infiltração de policiais nos movimentos e quebra de sigilos pessoais, além de possibilitar a compreensão dos manifestantes como “organizações criminosas” e “quadrilhas”.

Houve muitas mulheres presas. Entre elas está Elisa Quadros, conhecida pelos amigos como Sininho, que integrava o acampamento do Ocupa Câmara. Nesse vídeo, Sininho e seu companheiro denunciam as ameaças que vinham sofrendo no Ocupa Câmara. Ela agora é acusada de ser “liderança” do movimento e assim, se o movimento é tratado como “organização criminosa” pelo Estado, Sininho foi transformada em líder de quadrilha, presa inafiançável.

Não é exagero dizer que a democracia está sendo gravemente atacada. A criminalização da militância no Rio de Janeiro tomou proporções monstruosas. A nova lei 12.850/2013 ameaça o direito de manifestação e de organização dos movimentos sociais. A repressão é brutal e o Estado é conivente. Precisamos estar muito atentos a esse processo e, principalmente, precisamos ter uma posição ativa em relação a ele. Isso é: não abandonaremos as ruas. Enquanto houver presos políticos no Rio de Janeiro, todo dia é dia de manifestação. Além disso, cada pronunciamento, cada compartilhamento, cada denúncia é fundamental em um momento como esse.

sininho
Sininho se despede de seu companheiro antes de se encaminhada para o presídio. Foto: Estefan Radovicz/Agência O Dia/AE.

> ASSINE o abaixo-assinado pela libertação imediata dos presos políticos de 15 de outubro de 2013 no Rio de Janeiro.

> Os advogados do Instituto de Defensores de Direitos Humanos solicitam o apoio de todos para coleta de vídeos e imagens que ajudem a desmentir a incriminação dos detidos. Mais informações aqui.

> A revista Vírus Planetário está reunindo vídeos e imagens que possam ajudar no trabalho de apuração e investigação das violações de direitos cometidas pela polícia militar no dia 15 de outubro para enviar à Comissão de Direitos Humanos da ALERJ.  Mais informações aqui.

Imagem do destaque: Rio na Rua.