Não precisamos ser inimigas

Texto de Priscila Messias para as Blogueiras Feministas.

Entendo, por experiência própria, que um processo de separação é muito complicado e doloroso, e dependendo das circunstâncias acabamos carregando mágoas por um longo período de tempo, ou, em alguns casos essas mágoas ficam para sempre.

Assim como tenho direito de viver um novo relacionamento, meu ex também vai fazer o mesmo – isso se ele já não o estiver fazendo enquanto estamos juntos como um casal – e, surgirá uma mulher entre eu e meu ex companheiro, caso essa antiga união tenha gerado filhos, será essa nova pessoa que irá se relacionar diretamente com nossos filhos, pois afinal, o pai precisa estar presente na vida dos filhos e a nova namorada estará junto em alguns passeios e momentos, se não em todos.

Desde criança ouvi das mulheres que me cercavam e pela TV que era impossível manter um relacionamento amigável com a mulher atual de um ex-marido.

Quando passei por esse doloroso processo recebi logo a notícia que meu ex cônjuge estava namorando e isso pra mim inicialmente foi um choque, confesso, mas minha maior preocupação mesmo foi como meus filhos reagiriam a essa notícia. E, para minha surpresa, ela logo os conquistou por sua simpatia e carinho com eles. Mas, minha relação com ela não começou bem, e qual seria o motivo? Simples! O indivíduo que fizera parte de longos anos da minha vida e me conhecia como ninguém, fazia de tudo para que eu a odiasse. Dizia coisas que ela fazia (que sabia que me irritaria), falava coisas que ela havia comentado sobre mim mesmo sem me conhecer, e deixava claro como a família dele a amava. E pasmem! Eu acreditava em tudo.

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Desculpe por estragar o seu céu: machismo no grafitti

Por Panmela Castro.

Eu recebi meus “amigos” em minha casa. Além das tintas, churrasco e cerveja de graça para todos, eu dei uma coisa muito mais importante: meu carinho. Eu, que sempre sou desqualificada como “a exibida” e “a que gosta de chamar atenção”, doei a minha energia para que seu painel ficasse bastante bacana com seus desenhos individuais. Eu pintei todo o fundo enquanto eles pintavam seus personagens e letras. Achei importante esta decisão porque mais do que fazer meu próprio graffiti, eu queria fazer algo pelo coletivo para que meus “amigos” ficassem felizes com os seus próprios desenhos e com o resultado final.

Uma parte desses meus “amigos” resolveu cobrir o céu criado com minhas estrelas com suas próprias, deixando o painel com dois estilos diferentes. Já antes, um deles me dizia como deveria pintar este céu. Veja bem, por estar doando o meu trabalho e tempo para complementar seus trabalhos, o mínimo que esperava ter era a confiança de que acreditariam que eu teria capacidade de criar um fundo bonito ali, e, caso não agradasse, eles deveriam, por respeito, deixá-lo como eu criei. Apagá-lo na situação onde eu dou tudo, e eles nada, é uma forma de impor sua superioridade e demonstrar que em nenhum momento eu teria qualquer tipo de direito, e que, enquanto mulher, eu estaria sempre ali com eles como uma serviçal para cumprir e respeitar os desejos e ordens dos rapazes e não como parte do coletivo com direitos iguais.

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Por que ser feminista?     

Texto de Laura Guedes de Souza para as Blogueiras Feministas.

Fui questionada por um amigo muito querido a respeito do feminismo. Dentre tantas indagações, ele estava sinceramente indignado por minha escolha de defender as mulheres quando no mundo também existem homens que sofrem. No meio da discussão, ele achou meu pensamento “demais” para ser levado em consideração e eu continuei falando sozinha. Então, acabei refletindo sobre o porquê dessa minha escolha de adotar o feminismo como ideologia e “selecionar” as mulheres como foco da minha luta.

Marcha das Mulheres Contra Cunha. Rio de Janeiro, 2015. Foto de Mídia NINJA.
Marcha das Mulheres Contra Cunha. Rio de Janeiro, 2015. Foto de Mídia NINJA.

Primeiramente, penso em um mundo melhor, um mundo mais justo e igualitário para todas as pessoas. Porém, sabemos que há os conflitos sociais e as desigualdades que permeiam a sociedade. Gosto muito de pensar num trecho do livro “A águia e a galinha” de Leonardo Boff para pensar na solidariedade, na empatia, no sentir a dor do outro como se fosse sua: “Cada sofrimento humano, em qualquer parte do mundo, cada lágrima chorada em qualquer rosto, cada ferida aberta em qualquer corpo é como se fosse uma ferida no meu próprio corpo, uma lágrima dos meus próprios olhos e um sofrimento do meu próprio coração”.

É com esse sentimento de preocupação com o outro que me vejo nos movimentos de luta. Porém, a realidade é dolorosa e muitas vezes as pessoas lutam pelo básico, pela sobrevivência. Todos os dias vemos violações de direitos humanos, especialmente de grupos minoritários que tem pouca representação social e sofrem com o preconceito e a exclusão. Os indígenas estão sendo exterminados, estamos tirando sua cultura, suas terras e suas esperanças. Negras e negros cotidianamente sofrem com a herança escravagista. E, até mesmo as crianças estão abandonadas, num país em que há tanta defesa da vida dos fetos que não nasceram.

Dentre tanta gente que sofre, poderia escrever um texto somente sobre eles, mas por que escolhi defender mulheres? A melhor resposta que encontrei foi: porque eu quis. Sim, simplesmente isso, por uma questão de vontade pessoal e porque tenho liberdade para fazer. A partir disso, percebi que querer defender mulheres já é um obstáculo que eu, mulher, preciso enfrentar. Porque o inconsciente coletivo se estabeleceu no sentido de que eu não poderia escolher pelo que lutar, em que acreditar, o que vestir, com quem ficar, o que falar.

Eu escolhi defender as mulheres porque minha luta não anula as outras, que são tão importantes quanto. O que eu vivo dia após dia é um poder legislativo que regula minha roupa e meu útero. Eu preciso lidar com homens que acreditam fielmente que podem encostar no meu corpo quando bem entenderem. Escuto cada vez mais pessoas que fazem planos sinceros para minha, vida sem ao menos perguntar o que acho: “Você pode estudar agora, mas o importante mesmo é se casar”. “Ganhar dinheiro é bom, mas dinheiro demais assusta os homens”. “E os filhos? Quando vai começar a ter?”.

Minha capacidade de indignação continua a mesma, e sou muito grata por isso. Mesmo com tanta desgraça no mundo, ainda me indigno com as mazelas e fico perplexa como o ser humano consegue me impressionar (de um jeito ruim) todos os dias. Eu não sofro mais ou menos quando vejo uma notícia de estupro de uma mulher ou de uma criança. Não estou mais ou menos irritada quando um homem ou uma mulher são esfaqueados. Eu simplesmente escolhi lutar por mim (sim, pode ser egoísmo) e por todas as mulheres que precisam acordar todos os dias de manhã e enfrentar um mar de obstáculos. Simplesmente por ser o que somos, mulheres.

Autora

Laura Guedes de Souza é advogada, pós-graduanda em Direito Penal. Militante e pesquisadora feminista.