Desculpe por estragar o seu céu: machismo no grafitti

Por Panmela Castro.

Eu recebi meus “amigos” em minha casa. Além das tintas, churrasco e cerveja de graça para todos, eu dei uma coisa muito mais importante: meu carinho. Eu, que sempre sou desqualificada como “a exibida” e “a que gosta de chamar atenção”, doei a minha energia para que seu painel ficasse bastante bacana com seus desenhos individuais. Eu pintei todo o fundo enquanto eles pintavam seus personagens e letras. Achei importante esta decisão porque mais do que fazer meu próprio graffiti, eu queria fazer algo pelo coletivo para que meus “amigos” ficassem felizes com os seus próprios desenhos e com o resultado final.

Uma parte desses meus “amigos” resolveu cobrir o céu criado com minhas estrelas com suas próprias, deixando o painel com dois estilos diferentes. Já antes, um deles me dizia como deveria pintar este céu. Veja bem, por estar doando o meu trabalho e tempo para complementar seus trabalhos, o mínimo que esperava ter era a confiança de que acreditariam que eu teria capacidade de criar um fundo bonito ali, e, caso não agradasse, eles deveriam, por respeito, deixá-lo como eu criei. Apagá-lo na situação onde eu dou tudo, e eles nada, é uma forma de impor sua superioridade e demonstrar que em nenhum momento eu teria qualquer tipo de direito, e que, enquanto mulher, eu estaria sempre ali com eles como uma serviçal para cumprir e respeitar os desejos e ordens dos rapazes e não como parte do coletivo com direitos iguais.

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Por que ser feminista?     

Texto de Laura Guedes de Souza para as Blogueiras Feministas.

Fui questionada por um amigo muito querido a respeito do feminismo. Dentre tantas indagações, ele estava sinceramente indignado por minha escolha de defender as mulheres quando no mundo também existem homens que sofrem. No meio da discussão, ele achou meu pensamento “demais” para ser levado em consideração e eu continuei falando sozinha. Então, acabei refletindo sobre o porquê dessa minha escolha de adotar o feminismo como ideologia e “selecionar” as mulheres como foco da minha luta.

Marcha das Mulheres Contra Cunha. Rio de Janeiro, 2015. Foto de Mídia NINJA.
Marcha das Mulheres Contra Cunha. Rio de Janeiro, 2015. Foto de Mídia NINJA.

Primeiramente, penso em um mundo melhor, um mundo mais justo e igualitário para todas as pessoas. Porém, sabemos que há os conflitos sociais e as desigualdades que permeiam a sociedade. Gosto muito de pensar num trecho do livro “A águia e a galinha” de Leonardo Boff para pensar na solidariedade, na empatia, no sentir a dor do outro como se fosse sua: “Cada sofrimento humano, em qualquer parte do mundo, cada lágrima chorada em qualquer rosto, cada ferida aberta em qualquer corpo é como se fosse uma ferida no meu próprio corpo, uma lágrima dos meus próprios olhos e um sofrimento do meu próprio coração”.

É com esse sentimento de preocupação com o outro que me vejo nos movimentos de luta. Porém, a realidade é dolorosa e muitas vezes as pessoas lutam pelo básico, pela sobrevivência. Todos os dias vemos violações de direitos humanos, especialmente de grupos minoritários que tem pouca representação social e sofrem com o preconceito e a exclusão. Os indígenas estão sendo exterminados, estamos tirando sua cultura, suas terras e suas esperanças. Negras e negros cotidianamente sofrem com a herança escravagista. E, até mesmo as crianças estão abandonadas, num país em que há tanta defesa da vida dos fetos que não nasceram.

Dentre tanta gente que sofre, poderia escrever um texto somente sobre eles, mas por que escolhi defender mulheres? A melhor resposta que encontrei foi: porque eu quis. Sim, simplesmente isso, por uma questão de vontade pessoal e porque tenho liberdade para fazer. A partir disso, percebi que querer defender mulheres já é um obstáculo que eu, mulher, preciso enfrentar. Porque o inconsciente coletivo se estabeleceu no sentido de que eu não poderia escolher pelo que lutar, em que acreditar, o que vestir, com quem ficar, o que falar.

Eu escolhi defender as mulheres porque minha luta não anula as outras, que são tão importantes quanto. O que eu vivo dia após dia é um poder legislativo que regula minha roupa e meu útero. Eu preciso lidar com homens que acreditam fielmente que podem encostar no meu corpo quando bem entenderem. Escuto cada vez mais pessoas que fazem planos sinceros para minha, vida sem ao menos perguntar o que acho: “Você pode estudar agora, mas o importante mesmo é se casar”. “Ganhar dinheiro é bom, mas dinheiro demais assusta os homens”. “E os filhos? Quando vai começar a ter?”.

Minha capacidade de indignação continua a mesma, e sou muito grata por isso. Mesmo com tanta desgraça no mundo, ainda me indigno com as mazelas e fico perplexa como o ser humano consegue me impressionar (de um jeito ruim) todos os dias. Eu não sofro mais ou menos quando vejo uma notícia de estupro de uma mulher ou de uma criança. Não estou mais ou menos irritada quando um homem ou uma mulher são esfaqueados. Eu simplesmente escolhi lutar por mim (sim, pode ser egoísmo) e por todas as mulheres que precisam acordar todos os dias de manhã e enfrentar um mar de obstáculos. Simplesmente por ser o que somos, mulheres.

Autora

Laura Guedes de Souza é advogada, pós-graduanda em Direito Penal. Militante e pesquisadora feminista.

Legalizar o aborto: mulheres que ajudam outras mulheres

Hoje, publicamos uma entrevista com uma das muitas mulheres por aí que fazem a diferença no dia a dia. Essa entrevista é sobre uma mulher que ajuda outras mulheres que querem abortar. No Brasil, o aborto só é permitido em caso de estupro, em que a mãe corre risco de vida ou ainda se o feto é anencéfalo. Ainda que esses três casos sejam permitidos, é muito difícil encontrar, por exemplo, um médico que faça o procedimento de aborto, assim como uma equipe no hospital que não trate a mulher com hostilidade por conta de sua decisão.

Em qualquer outro caso o aborto não é permitido, mas isso não quer dizer que o aborto não aconteça. Segunda o trabalho de pesquisa feito por Débora Diniz, a cada 5 mulheres no Brasil 1 já fez aborto. Ou seja, ainda que o aborto seja proibido no Brasil, as mulheres abortam em clínicas clandestinas. O resultado disso é que mulheres brancas e ricas, em sua maioria, pagam clínicas e médicos particulares para abortar, já as mulheres negras e pobres acabam morrendo em clínicas clandestinas. Contudo, existem algumas mulheres que conseguem ajudar aquelas que querem fazer aborto e não tem dinheiro para pagar, ou mesmo acesso.

A entrevista de hoje é sobre uma dessas mulheres que ajudam outras mulheres. E, por ser crime, não podemos identificá-la e nem temos como oferecer nenhuma informação sobre como fazer um aborto ilegal.

Mãos. Foto de Álvaro Canivell no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Mãos. Foto de Álvaro Canivell no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

1. Por que você resolveu ajudar mulheres que querem abortar?

Acho legal falar que já fui contra a legalização do aborto, e que eu mesma, muito provavelmente não teria coragem de fazer um. Em um passado, não muito distante, cerca de 4/5 anos atrás, reproduzia o discurso ferrenhamente de que “aborto é assassinato”, cheguei inclusive a orientar algumas mulheres a não fazer, por achar errado, era “católica” nessa época. Julguei as mulheres que mesmo assim fizeram. Lembrar disso me dói um pouco.

Me dói porque a falta de informação nos faz ser ignorante por anos. Era uma completa ignorante antes de ir pesquisar sobre aborto. Apenas reproduzia mitos sobre aborto: “É um assassinato”, “O feto sente dor”, “É uma criança”, “Precisamos proteger essa criança indefesa”. Essas e outras baboseiras que dizem sobre aborto. Por sorte, depois de ler, ler, pesquisar, onversar com outras mulheres e me informar MUITO, sobre todas as questões que envolvem esse tema, passei a querer ajudar mulheres. E de fato, faço isso quando posso, quando está ao meu alcance.

Ajudo, porque entendi que gravidez não deve ser vista como destino ou obrigação, deve ser vontade, afinal toda criança deveria ser desejada e não obrigada a nascer sendo rejeitada.

Ajudo porque entendi uma coisa bem básica, pessoas com útero e não estéreis ovulam todo mês e, assim como as pessoas dizem para alguém que sofreu um aborto espontâneo: “Você pode tentar de novo”; temos que dizer: “O corpo é seu, você decide se sim e quando” para as pessoas que decidem abortar.

Ajudo porque entendi que mulher deve engravidar por vontade própria e não do marido/companheiro. Esse é um motivo muito, muito importante pra mim. Só nasci, porque meu pai queria muito ter uma filha, porém, minha mãe não queria passar pela 4º gravidez para simplesmente tentar ter uma menina. Encurtando a minha história, fui rejeitada pela minha mãe praticamente a vida toda. E sofri abusos sexuais dos meus irmãos mais velhos por 5 anos.

Não culpo a minha mãe, nem pela rejeição, nem pelos abusos que sofri. Culpo meu pai e meus irmãos, porque são eles os homens que agrediram a mim e a minha mãe, foram eles que desrespeitaram nossos corpos. Se meu pai respeitasse a autonomia do corpo da minha mãe, eu provavelmente não teria nascido e ele talvez teria ensinado meus irmãos a respeitar mulheres e não ter perpetuado uma educação machista e misógina de pura violência. Se me perguntar se eu preferia não ter nascido, vou responder sem hesitar: “Preferia que minha mãe tivesse sido respeitada”.

Falar sobre aborto não é simplesmente falar sobre um feto, é falar sobre total autonomia de nossos corpos e vidas. É fazer homens terem consciência de que eles não tem controle nenhum sobre nossos corpos e nossas vidas. É fazer homens entenderem que mulheres não existem para agradá-los. É fazer homens entenderem que estes corpos não lhes pertencem.

Ajudo porque só quem pode engravidar é que tem total poder de dizer o que quer ou não fazer com seu corpo.

Ajudo porque toda tentativa de justificar a criminalização do aborto é falha, todas essas tentativas não impedem que abortos ocorram, mas contribuem para que milhares de mulheres morram todos os anos em decorrência de procedimentos errados.

Ajudo porque uma gravidez indesejada não se torna desejada apenas porque é crime abortar. Dizer que é crime e que é “pecado”, não impede que abortos aconteçam.

O mais importante pra mim é fazer uma sociedade inteira repensar sobre gravidez e todas as responsabilidades que cuidar de uma criança e educar esse individuo envolvem. Ter um/a filho/a pra mim, não deveria ser visto como obrigação religiosa, mas sim como responsabilidade social e coletiva, de educar um individuo capaz de conviver em sociedade, respeitando a autonomia dos outros.

É por todos esses motivos que ajudo e vou continuar ajudando quando possível. É por todos esses motivos que milito ferrenhamente para orientar e informar pessoas sobre a importância da legalização do aborto.

2. Essa ajuda pode fazer com que algo aconteça com você, como por exemplo, seja presa. Como é isso pra você?

Pois é, posso ser presa por ajudar mulheres a exercerem sua autonomia e isto é um absurdo, simplesmente um absurdo. Por ser considerado crime e ter esse risco de ser presa só ajudo mulheres que chegam até mim por indicação de pessoas próximas, amigas. E isso é ruim, porque sei que muitas mulheres não conseguem qualquer ajuda ou apoio e acabam morrendo em decorrência de procedimentos errados, ou sobrevivem e tem sequelas, como ficar infértil. Além da falta de apoio psicológico. Sabe, existem meios e mais meios completamente eficazes de interromper uma gravidez até 3 meses e que principalmente quando bem executados não colocam a vida da mulher em risco, que proibir/criminalizar chega a ser estupidez.

3. Como você acha que sua ajuda pode impactar a vida dessas mulheres? 

Nas palavras delas: “Você salvou a minha vida. Obrigada!”. É triste pensar que elas me agradecem por algo que deveriam ter direito. Por algo que o estado deveria informar, orientar e garantir.

Sempre que uma mulher entra em contato comigo, pergunto o tempo da gravidez. Se ainda estiver no começo, um mês, no máximo dois, o procedimento pode ser feito com chá natural. Sabe, chá não chega a R$ 10,00 e pode ser feito em casa, com as devidas orientações e cuidados. E, na maioria dos casos, não precisa ir a um hospital fazer curetagem.

Quando a gravidez já está com mais de 2 meses, aí o procedimento precisa ser feito em clinica. Porém, custa caro, em torno de três mil reais. E quem tem três mil sobrando para fazer um aborto? Clinicas clandestinas que cobram quinhentos reais tem de monte, porém essas não garantem que se saia viva ou sem sequelas. A questão do aborto é urgente, é uma questão de saúde publica. De saúde da sociedade.