Sobre as Paradas da Diversidade: Precisa? SIM!

Texto de William Paranhos para as Blogueiras Feministas.

O senso comum, formado pelas mais variadas identidades, inclusive por LGBTQI’s, sempre traz este questionamento ao falarmos sobre uma Parada da Diversidade. Vigora aquele pensamento de que não é algo necessário, porque expõe, porque é “demais”, porque isso passa uma imagem à sociedade de que seríamos nós promíscuos, pois num ato vamos às ruas cantando, dançando, festejando, beijando, mostrando nossos corpos e nossos seres.

As paradas são um ato político. Político sim, pois somos constituídos pela política; somos seres políticos nas nossas relações sociais. Político também por ser um ato de resistência. Decidimos levar às ruas nossa cultura, nosso jeito de ser, a fim de termos visibilidade.

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Por uma não-monogamia possível

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Venho tentando escrever sobre esse assunto há algum tempo, com base em várias críticas que li e ouvi, conversas com amigas e companheiras de militância e, por conta de debates que foram surgindo criticando diversas situações problemáticas que apareceram na série de televisão Amores Livres do canal a cabo GNT. A proposta da série é apresentar pessoas em relacionamentos com dinâmicas não-monogâmicas diversas. O foco são as dinâmicas amorosas das relações, como os relacionamentos funcionam e, talvez por isso, muitas questões relacionadas à política tenham sido deixadas de lado.

Cena da série 'Amores Livres', exibida pelo canal a cabo GNT (2015).
Cena da série ‘Amores Livres’, exibida pelo canal a cabo GNT (2015).

Por não apresentar um discurso mais politizado, reforçando discursos sobre posse, mostrando dinâmicas machistas, bifóbicas e por mostrar casais muito dentro do padrão (branco, classe média, magros, etc,), a série recebeu diversas críticas no meio não-monogâmico. Porém, tenho percebido que algumas dessas críticas a série são, na verdade, críticas à comunidade não-monogâmica como um todo. Outras tem a ver com a falta de representatividade e também com a representação de diversas situações e falas que entendemos como não-saúdaveis num relacionamento desse tipo. Além, é claro, de uma cobrança feita às personagens que observo muitas vezes ocorrendo por parte de mulheres militantes que se envolvem nessas relações.

A vida seria bem mais fácil se existisse uma “receita de bolo”, se em 10 passos ou 7 dias alcançássemos os níveis máximos de inteligência emocional e maturidade política para ter um ideal de relacionamento não-monogâmico, que não fosse opressor de forma alguma. Com algum tempo de experiência alcançaríamos até uma patente que nos blindaria de críticas aos nossos posicionamentos e nos eximiria de passar por qualquer dificuldade ou violência nas relações. Por vezes fico observando que muitas mulheres parecem buscar algum tipo de guia prático de como se tornar uma feminista não-monogâmica politicamente coerente e inabalável emocionalmente.

Se relacionar de forma não-mogâmica é também mudar a forma com que você vê e vive todas suas relações. É conviver com o fantasma do modelo romântico e monogâmico de relacionamentos. Além de termos de lidar com os diversos preconceitos já tão difundidos, não vamos achar numa capa de revista aquele guia básico de como deixar de sentir ciúmes e sentir apenas compersão, ou “escolha a melhor dinâmica de relacionamento não-monogâmico para vocês”, ou “como organizar sua agenda sem negligenciar as necessidades das pessoas com quem você se relaciona”, ou “como finalmente saber separar sentimentos reais de construções sociais impostas pela sociedade”, ou ainda “descubra o momento certo de revelar sua não-monogamia para amigos, familiares e colegas de trabalho”, ou quem sabe “evite constrangimentos ao dialogar sobre novas dinâmicas ou pessoas nas relações”. Ou seja, não temos referências fáceis para buscar soluções para os nossos problemas. E, a bem da verdade, muitas dessas questões nunca serão solucionadas.

A vida, as experiências, as pessoas, os sentimentos, as relações não são tão simples ou lineares. Independente da forma de organização dos relacionamentos temos sempre desafios a enfrentar. Viver a prática dessas relações não-monogâmicas, praticando também o feminismo, é viver um processo de aprendizado contínuo. Conhecimento e experiência podem nos alertar sobre certos desafios, e aí quando possível evitamos certas dificuldades. Mas, nada nos exime de passar por certas experiências, de sofrer ou até mesmo fazer sofrer em determinados contextos.

Um relacionamento não-monogâmico não vai por si só destruir todas as estruturas de poder existentes entre as pessoas, a sociedade já está moldada dessa forma, ainda que desafiemos em algum nível essa lógica. Não vai também resolver todos os problemas emocionais ou curar desilusões de relacionamentos anteriores. Pessoas não-monogâmicas não são seres iluminados a prova de erros ou imunes à armadilhas, violência emocional ou relacionamentos abusivos. Aliás, essa postura — muitas vezes sustentada dentro de determinados grupos e por certas pessoas — só faz com que aumente nossa cobrança interna para ter uma relação tão perfeita quanto essas pessoas dizem ter e que muitas vezes (ou talvez todas) está longe da realidade.

Primeiro, o mais importante é que estamos falando de relações. Isso quer dizer que além dos fatores pessoais, estamos lidando com aquilo que está na(s) outra(s) pessoa(s). E além disso, existe esse negócio muito simples e ao mesmo tempo extremamente complexo que é a comunicação. Precisamos numa relação não-monogâmica desafiar a lógica do silêncio que permeia a sociedade e se abrir para a(s) pessoa(s) com quem nos relacionamos, para falar sobre coisas que aprendemos durante toda a vida que deveríamos ignorar ou sentirmos culpa de sentir.

Não quero dizer com isso tudo que devemos parar de buscar melhores arranjos de relações, melhores formas de diálogo, desconstruir sentimentos e opressões (como o racismo, o machismo, o ciúme, a carência, dependência emocional, etc.). Ou ainda que é ok negligenciar as demandas ou os sentimentos das pessoas que vivem opressões que nós não vivemos. Pelo contrário. Mas, observo muito a cobrança para que um relacionamento não-monogâmico atinja um ideal político e essa pressão acaba caindo muito mais em cima das mulheres envolvidas. Isso nos expõe (e quanto mais opressões sofremos mais expostas ficamos) e nos traz ainda mais desgaste, além do que já existe dentro de um relacionamento fora da norma.

Não é a toa que tantas críticas tem sido feitas sobre quão privilegiadas costumam ser as pessoas praticantes da não-monogamia. Para as mais oprimidas o peso é maior, e as cobranças são maiores ao se assumir um relacionamento fora do padrão. É muito importante buscar uma forma não-opressora de se relacionar, e essa busca deve vir principalmente das pessoas mais privilegiadas (especialmente homens brancos, heterossexuais, cisgêneros, classe média, etc). São essas pessoas que devem ser cobradas. Porém, o que tenho observado é exatamente o contrário. Aliás, já vi muitas mulheres extremamente oprimidas sendo colocadas na fogueira por escolhas que seus parceiros impuseram nas relações. Precisamos mudar esse cenário.

+ Sobre o assunto:

[+] Abrindo o código dos ciúmes: sobre sentir compersão desde a monstruosidade.

[+] Às mulheres dos meus companheiros*, ou o que eu posso dizer sobre não-monogamia.

[+] “Amores Livres”: escolhas possíveis.

[+] A violência de gênero e o amor romântico.

[+] Monogamia, Liberdade e Feminismo.

[+] Uma biscate casada ou não: sobre a não monogamia.

[+] Sin tiempo para el amor: el capitalismo romántico.

[+] El poliamor ‘is the new black’*.

[+] 9 Strategies For Non-Oppressive Polyamory.

Pela desconstrução da Família Margarina e a ascensão do Amor Livre

Texto de Tamires Marinho para as Blogueiras Feministas.

Amor, sexo e liberdade, são assuntos delicados e espinhosos. O amor me parece ser uma das grandes questões da humanidade, especialmente a idealização do amor romântico. Ao longo dos séculos esse amor inspirou pensadores, mas o que querem as pessoas com o amor? Compreendê-lo? Obtê-lo? Uma utopia para conseguir através do amor a tão desejada felicidade? Nos contos de fadas, o final com o “felizes para sempre” depois do encontro com o Príncipe Encantado deve resumir toda essa relação. Deste modo, ser feliz dependeria do outro, colocando nossa felicidade pessoal nas mãos de outra pessoa.

Para alguns pensadores, como Platão, o amor liberta o ser humano e o leva à verdade. Assim, o amor platônico lança uma ponte entre o universo sensível e o universo puramente inteligível, entre o corpóreo e o espiritual, entre o relativo e o absoluto, entre o contingente e o necessário, entre o particular e o universal. Camões, por sua vez, diz que “amor é fogo que arde sem se ver”. Shakespeare conecta o amor a morte através de seus personagens Romeu e Julieta, e isso se estende através de muitas obras do romancismo. São autores de diferentes áreas — um filósofo, um poeta e um dramaturgo — que buscaram explicar o amor de acordo com suas perspectivas, porque esse parece ser um assunto universal.

O amor parece ser querido pelas pessoas. Há polêmica quando o assunto é sexo e liberdade. As discordâncias costumam se tornam mais intensas e inflamadas entre as pessoas quando tentamos juntar as palavras da seguinte forma: amor-livre e sexo-livre. Confesso que me surpreendo ao ver que ainda hoje assuntos como esses ainda geram constrangimentos e críticas, até mesmo entre pessoas que considero “cabeça aberta”. Porém, o que sempre assusta é o discurso crescente calcado em fundamentalismos religiosos ou moralismos exagerados.

Portanto, como o amor (por mais lindo que seja) é utilizado há muito tempo como uma maneira de demarcar o papel doméstico da mulher, não seria o amor a desculpa perfeita para aceitarmos todas aquelas velhas ideias machistas que permeiam nosso cotidiano? O machismo tem seus truques para convencer as mulheres que é melhor continuarmos dependentes e frágeis a espera eterna de alguém que nos salve, determinando o que pode ou não pode ser feito. Não proponho negar o amor ou se negar a amar. O que me interessa é descontruir essas crenças silenciosas que muitas vezes nos aprisionam e oprimem.

Vivemos numa sociedade em que há muitas regras nos relacionamentos. Sempre que alguém foge do modelo monogâmico heteronormativo é criticado e estimulado a reproduzir esse modelo de alguma forma. Quem criou essas regras e quais os objetivos? A minha resposta é que muitas dessas regras estão baseadas no machismo, porque a liberdade das mulheres ameaça diversas estruturas sociais rígidas como a família. Desafiar a monogamia também significa se colocar contra essas regras ao questionar: por que as pessoas devem renunciar aos seus desejos por outras pessoas quando estão num relacionamento?

Cena do programa 'Amores Livres' do canal GNT que estreia em agosto. Imagem: divulgação.
Cena do programa ‘Amores Livres’ do canal GNT que estreia em agosto. Imagem: divulgação.

Observando a história das relações entre homens e mulheres, sobretudo numa perspectiva cristã, encontraremos o romantismo associado à monogamia, enaltecendo a fidelidade como virtude essencial do indivíduo. No entanto, se olharmos para essa mesma história com uma perspectiva diferente, podemos ver a criação de um valor moral que atinge diretamente a liberdade das mulheres. Em nossa cultura, sempre foi mais aceito que o homem seja infiel, ao passo que a mulher deve ter a castidade como bem pessoal. A fidelidade é cobrada socialmente apenas de um lado. O lado mais perverso dessa condição são as mulheres mortas em nome da honra ou por posse, tragédias causadas por um moralismo sexual hipócrita.

Os valores machistas estão enraizados em nossa sociedade e me espanto ao ver visões e comportamentos tão antiquados, conservadores e tradicionais nos dias de hoje. Resultado de uma sociedade ainda cheia de desigualdades. Machista, preconceituosa e discriminatória. Por isso, acredito que até nas crenças mais belas, como é o caso do amor, ou na construção daquela família perfeita do comercial de margarina, há crenças e valores opressores que nos impedem de pensar em maneiras de viver mais livres e diversas. Afinal, essa imagem arquetípica do casamento, da relação única entre um homem e uma mulher, encontra-se consolidada nas regras dos relacionamentos. Parece haver uma placa que pisca e diz que todas as pessoas devem almejar uma relação estável.

Meu desejo é que possamos viver mais o amor-livre e o sexo-livre sem travas, sem tabus, sem moralismo. Especialmente para incomodar os mais tradicionais e misóginos. Afinal, que peso emocional carrega a mulher que deseja outro? Devemos nos sentir culpadas apenas por pensar com desejo em outra pessoa? O desejo é uma relação tão legitima quanto o amor. A sexualidade por vezes nos mostra um poder transformador.

Aude Lacelin diz que é “um preconceito pensar que os homens se interessam pelo sexo e as mulheres pelo amor”. Pensar em sexualidade e liberdade para mim significa confiar nas relações e nas possibilidades de nosso desejo sexual. Não me interessam definições que engessam a liberdade dentro dos moldes do abandono. Relacionamentos possuem suas dinâmicas e muitas vezes acabam, colocar a culpa na liberdade retira nossa capacidade coletiva de cooperação mútua, de desconstrução e reconstrução dentro do campo dos sentimentos. Por isso, concordo quando Regina Navarro Lins diz: “Traição não é uma pessoa sentir desejo por outra, isso é natural. Traição é enganar um amigo, um irmão”.

Wilhelm Reich disse que: “só é possível uma revolução social com uma revolução sexual”. Porque a maior estratégia de dominação das massas é controlar o indivíduo, limitando sua sexualidade com virgindade, casamentos monogâmicos permanentes e castrações proibicionistas com o argumento do pecado. Atualmente, também nos deparamos com uma ditadura capitalista, onde a arma de dominação é o sistema de consumo, ou o ciúme, insistentemente estabelecido como consenso pelos meios de comunicação. Precisamos de tempo para nos libertarmos desses velhos condicionamentos.

Na cultura patriarcal, a violência contra as mulheres pertence à vida cotidiana. Acredito que uma das armas que tem sido usada contra nós é a teoria da sexualidade frustrada. Homens e mulheres parecem sofrer de uma fome sexual que não conseguem admitir. Porém, o mundo machista precisa humilhar a mulher para garantir seu poder sexual. Há anos atrás, as mulheres eram queimadas vivas por serem atraentes ou por serem demonizadas. O machismo dividiu as mulheres entre santas e putas, essa dicotomia segue até hoje em nossas relações quando falamos de amor, sexo e liberdade.

Precisamos quebrar as regras. A sexualidade livre precisa de opções e não de ordens. As pessoas deveriam poder decidir se querem viver em monogamia, poligamia ou qualquer outra forma. Meu ponto chave, dentro de uma perspectiva feminista, é que este princípio de sexualidade livre possa descontruir as correntes que marginalizam o desejo feminino. Que seja possível revelar nossos desejos abertamente e formar uma nova solidariedade feminina. Um novo campo que nos liberte dessa construção fixa, de que mulheres estão em eterna disputa pelo masculino.

Autora

Tamires Marinho é apaixonada pelo comportamento humano e pelos conhecimentos empíricos da vida. Clarice Lispector é meu lado escritora, Darcy Ribeiro me faz socióloga, Beauvoir é minha militância. Escritora amadora, psicóloga mal formada e historiadora em desenvolvimento. Me orgulho, defendo tudo que sou e acima de tudo: Sou mulher!