A experiência do amor compartilhado e o autocuidado na luta contra as opressões

Texto de Ana Nery para as Blogueiras Feministas.

“A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar”. Essa frase é da ativista norte-americana bell hooks no texto “Vivendo de amor”, em que atravessa os sentidos e aguça muitas reflexões sobre nossas formas de amar. Às vezes me pergunto: como nos conhecer bem e nos afirmar numa sociedade erguida com pilares tão machistas, racistas e classistas?

Cresci com minha mãe falando que muitas vezes teve que reprimir o seu sotaque nordestino para que as pessoas não fossem tão hostis em determinados espaços e para que ela conseguisse arrumar um trabalho nas cidades que moramos. Minha mãe é do interior do Ceará.

Cresci com minha mãe falando que ser pobre não significa ser uma pessoa suja, mal educada e burra. Porque em sua trajetória e experiência de vida, não ter dinheiro e posses significava não “ser gente”. Morar em casa de taipa, ser da roça, era ser invisível. Passar fome era vergonhoso.

Cresci ouvindo minha mãe falando que durante toda sua infância e adolescência andava com o cabelo preso ou feito trança para que as pessoas não falassem que era “ruim”. E depois na juventude, passava muito óleo de coco para não ouvir que seus cabelos eram secos, para que as outras garotas da escola e do bairro não dissessem que seu cabelo era “duro”. Tinha vergonha e se sentia mal porque ouvia das outras pessoas que de nada adiantava ser tão bonita e ter o cabelo “duro e ruim”.

Cresci ouvindo minha mãe falando que quando chegava alguém de fora em sua casa ela tinha que se esconder das visitas e ficar o tempo todo na cozinha para que os homens não olhassem para ela, pois seus irmãos não deixavam ela aparecer, alegando serem cuidadosos. Mais tarde, com a ilusão de que o casamento lhe daria liberdade, novamente foi cerceada, tendo que escolher entre o trabalho e o casamento.

A repressão dos sentimentos — de quem somos e como somos — está para nossa vida como a navalha está para a carne. A partir das diversas experiências que temos na vida, nós mulheres, sobretudo as de classes econômicas baixas que vivenciam o recorte racial e são marcadas pelo sexismo, trazemos como herança uma carga de opressão histórica que se acumula em nossas percepções de vida e faz com que seja difícil e doloroso algo que deveria ser tão simples e primário: se conhecer e se amar antes de tudo!

Marcha das Vadias de João Pessoa/PB, 2014. Foto de Felipe Ramos/G1.
Marcha das Vadias de João Pessoa/PB, 2014. Foto de Felipe Ramos/G1.

Nesse texto, bell hooks fala que: “Para nos amarmos interiormente, precisamos antes de tudo prestar atenção, reconhecer e aceitar essa necessidade. Se acreditarmos que não seremos punidas por reconhecermos quem somos ou o que sentimos, poderemos entender melhor nossas dificuldades”. No entanto, temos tanto o que fazer, que reparar, que cuidar, que esconder, que reprimir e ocultar para sobreviver, que as necessidades do cuidado com nossa saúde emocional fica esquecido. Hooks também fala que esse cuidado é tão importante quanto o movimento de lutar contra o racismo e o sexismo e que na verdade essas duas experiências são interligadas.

Penso que o fortalecimento da nossa autoestima e amor interior, em meio a esse contexto tão repressivo e contraditório, pode ser menos doloroso quando compartilhamos a experiência com o coletivo. Ouvir, falar e refletir com outras mulheres que possuem trajetórias tão diversas, e que se entrecruzam com as nossas, fortalece aos poucos nossa capacidade de resistência e de amar, a nós mesmas e as outras pessoas.

A experiência da coletividade nos permite compartilhar nossas histórias, sentimentos, angústias, dores ou sucessos, que muitas vezes ficam guardados, escondidos. Como não somos preparadas, nem acostumadas a cuidar de nossa saúde emocional, vamos acumulando tanto que um dia nos tornamos vulcões em erupção. A erupção da depressão, da angústia, do silenciamento, da invisibilidade, do corpo físico doente, patologizado.

Quando experiências como essas podem nos brindar com histórias inspiradoras, o choro compartilhado, os sorrisos de alívio e abraços altruístas nos fortalecem e provam que a experiência do amor é possível, que as heranças acumuladas por nossas histórias familiare e de vida podem ser menos dolorosas.

O resultado de quem somos e do que nos tornamos, a partir das nossas experiências, faz a vida menos árdua quando compartilhamos boas trocas e quando a fala, sobretudo no caso de mulheres, é menos cerceada. A expressão “falar pelos cotovelos” parece uma brincadeira despretensiosa, no entanto, para uma mulher que traz consigo o peso da fala reprimida de tantas gerações de silenciamento, mostra-se repressiva.

Falar de nós mulheres, entre nós, para nós sobre nossas experiências e sentimentos, como bem ressalta bell hooks, é um dos caminhos mais importantes para vencermos o racismo, o machismo e o sexismo. E, ela nos alerta que em nosso processo de descolonização precisamos definir nossas experiências de forma que outros entendam a importância de nossa vida interior: “se passarmos a explorar nossa vida interior, encontraremos um mundo de emoções e sentimentos. E se nos permitirmos sentir, afirmaremos nosso direito de amar interiormente. A partir do momento em que conheço meus sentimentos, posso também conhecer e definir aquelas necessidades que só serão preenchidas em comunhão ou contato com outras pessoas”.

Então, vamos falar, cantar, sussurrar, gritar… A experiência de pensar, refletir e trocar a partir coletividade pode ser o melhor caminho: “Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura”, já dizia bell hooks.

Quem tem o poder de dar poder?

Texto de Ana Nery para as Blogueiras Feministas.

Outro dia, passando a vista pelo Facebook topei com um texto chamado: “Como se tornar uma mulher irresistível, as dicas dos homens”. Fiquei interessada porque a mulher que compartilhou dizia que o texto era maravilhoso, que no início pensou se tratar de um texto machista, mas depois viu que era ótimo. Fiquei curiosa.

Ao clicar, logo vi na apresentação a maravilha ruir. O autor afirma que quer revelar para as mulheres os segredos da mente masculina e que tem como missão dar ao maior número de mulheres o poder de definir o rumo da sua vida amorosa. Sério isso? Dar poder para as mulheres? Achei até engraçado…

Mulher musculosa. Foto de Rikard Elofsson no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Mulher musculosa. Foto de Rikard Elofsson no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Aí o texto segue com algumas dicas do que nós mulheres devemos fazer para entrar no subconsciente dos homens e conquistá-los. As frases do texto me fizeram pensar várias coisas. Uma delas de forma bem marcante é esse papo de dar poder… Como se o outro fosse te entregar um pacote de poder para você utilizar no dia-a-dia. Como se alguém pudesse entregar poder, deixar que outra pessoa faça uso disso. Embora pareça uma frase despretensiosa de início representa bem algumas nuances estabelecidas na nossa sociedade que coloca as mulheres como não-protagonistas.

Obviamente, não pretendo estabelecer apenas dois pólos aqui, onde homens são opressores maus e mulheres oprimidas boas, já que entendo que todas as relações de poder comportam múltiplas posições dos sujeitos e permeiam mecanismos bem mais complexos do que costumamos enxergar. Mas, gostaria de chamar a atenção para essas sutilezas que nos passam, às vezes, despercebidas.

Durante o curso da história da humanidade, nós mulheres tivemos que derrubar muralhas para nos fazer ouvir, enxergar e respeitar. Não vejo que isso aconteceu porque “alguéns” nos empoderou. Entendo que em algumas situações é preciso dar condições para que determinados segmentos da sociedade possam exercer seu poder/empoderamento, por serem marginalizados/as ou invisibilizados/as, por isso algumas políticas públicas são construídas com esse intento. Mas, daí a entender que o poder é, ou pode ser dado é muito complicado.

Dificilmente quem ocupa um lugar de conforto na estrutura social consegue perceber quando as opressões se processam a partir de suas falas e/ou atitudes. E, mesmo quando se propõe rejeitar esse lugar, ainda assim é difícil lidar com as contradições e equívocos que permeiam essas nuances. Textos como esse que citei acima, parecem estar cheios de boas intenções ao querer nos ensinar como podemos ser mais poderosas, donas de nós mesmas e capazes de conquistar um homem. Porém, a cobrança e a responsabilidade de manter a “magia” e convencer o homem a se relacionar está sempre sob nossas costas.

Repare que nesses manuais para conquistar homens, na maioria das vezes somos nós, mulheres, que temos que ter muitos bons atributos. Além de sermos uma espécie de Indiana Jones de subconscientes. E, para essa conquista ser efetiva, temos que demonstrar sucesso em várias etapas. Temos que ser “boas de cama”, atraentes, sedutoras, companheiras, apoiadoras, compreensivas, sempre com um sorriso no rosto. Com tudo que cabe dentro do estereótipo de mulher ideal.

Nossa… já estou cansada de pensar em tantos esforços que precisamos empreender para conquistar um homem. Se não estamos no lugar de conforto/privilégio, então somos nós que temos ir à luta e procurar moldar as qualidades, reparar os desajustes e tudo mais que for preciso para ter um homem ao nosso lado.

Se fizermos uma pesquisa em revistas, blogs, sites e outras fontes que falam de relacionamentos, a maioria dos famosos conselhos amorosos são direcionados às mulheres: “Como conquistar seu homem na cama”, “Do que os homens gostam”, “10 Passos para segurar o relacionamento”. Uma infinidade de passos, conselhos, dicas e tudo mais para que nós mulheres consigamos finalmente ter um relacionamento.

Pensar sobre as relações heteronormativas ainda perpassa compreender que lugares possuem mais privilégios, são mais legitimados e quais relações de poder estão imbricadas nesse contexto. Em certa medida, nós mulheres acabamos por legitimar essas ações que se apresentam como reprodução de um machismo arraigado da nossa sociedade. No entanto, podemos e devemos estar atentas às armadilhas dessas práticas no dia-a-dia.

Mesmo que muitas de nós não se identifiquem com essas reflexões, considero importante pensar sobre como somos vistas pela sociedade que corrobora esses estereótipos de como as mulheres devem ser e agir. É preciso romper com construções equivocadas. Precisamos que nos deem poder? Espaço? Liberdade?

No fim, o texto define que a “Mulher Poderosa” é aquela que consegue ter sucesso com praticamente qualquer homem, porque tem a mentalidade correta na hora de conquistar e se relacionar. Acionando minhas marcações de antropóloga, poderia escrever outro texto de muitas páginas somente comentando a falta de relativização e a generalização desse pensamento, mas vou me deter ao fato de que pensar numa “mulher poderosa” como sendo àquela que pode ter qualquer homem é tão reducionista que chega dar dó.

De tantas formas que eu posso ser, tantos lugares que posso ocupar, tantas identidades que posso acionar, de tantas possibilidades de sujeito que eu sou e posso ser, por que ressaltar que ser poderosa é poder ter capacidade para “conquistar qualquer homem”.

Autora

Ana Nery é andarilha, militante, antropóloga… Escrevendo para aliar as tensões, angústias ou aflorá-las ainda mais…