Desculpe por estragar o seu céu: machismo no grafitti

Por Panmela Castro.

Eu recebi meus “amigos” em minha casa. Além das tintas, churrasco e cerveja de graça para todos, eu dei uma coisa muito mais importante: meu carinho. Eu, que sempre sou desqualificada como “a exibida” e “a que gosta de chamar atenção”, doei a minha energia para que seu painel ficasse bastante bacana com seus desenhos individuais. Eu pintei todo o fundo enquanto eles pintavam seus personagens e letras. Achei importante esta decisão porque mais do que fazer meu próprio graffiti, eu queria fazer algo pelo coletivo para que meus “amigos” ficassem felizes com os seus próprios desenhos e com o resultado final.

Uma parte desses meus “amigos” resolveu cobrir o céu criado com minhas estrelas com suas próprias, deixando o painel com dois estilos diferentes. Já antes, um deles me dizia como deveria pintar este céu. Veja bem, por estar doando o meu trabalho e tempo para complementar seus trabalhos, o mínimo que esperava ter era a confiança de que acreditariam que eu teria capacidade de criar um fundo bonito ali, e, caso não agradasse, eles deveriam, por respeito, deixá-lo como eu criei. Apagá-lo na situação onde eu dou tudo, e eles nada, é uma forma de impor sua superioridade e demonstrar que em nenhum momento eu teria qualquer tipo de direito, e que, enquanto mulher, eu estaria sempre ali com eles como uma serviçal para cumprir e respeitar os desejos e ordens dos rapazes e não como parte do coletivo com direitos iguais.

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Não medir, nem mendigar liberdade

Texto de Priscilla Duarte.

O texto se baseia no trabalho da artista Panmela Castro após a abertura da exposição Eva, na galeria Scenaruim, onde ela realizou uma performance. A reflexão recupera as razões que levaram à criação desta exposição. A “criação” de nós mesmas nos leva a discutir os processos retrógrados que ainda sustentam a lógica da nossa sociedade radicalmente patriarcal, o conceito de ser mulher e como esta deve existir, se portar, se mostrar a sociedade, se vestir e por aí vai. A sociedade se organiza com base na lógica da machocracia, o homem detém, ou quer deter, o poder tanto no poder público quanto no mando do espaço doméstico. O interesse é, por meio da reflexão engendrada, buscar elucidar de forma mais ampla e aprofundada possível, as condições desfavoráveis impostas às mulheres, por conta da hegemonia masculina desde a suposta criação do mundo com Adão e Eva.

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Vídeo – Ruptura por Panmela Castro

Não pretendo e nem quero aqui interpretar a ação da artista neste dia, o que compartilharei aqui é o meu sentimento, que foi de um desejo de mudança, de transformação e crescimento. Só o tempo que virá vai nos dizer que transformação será essa. Mas a metamorfose representada na performance da artista me passou este sentimento de mudança e transformação. A lógica da mulher mutante que se metamorfoseia pra não se deixar enquadrar.

No Japão, raspar o cabelo representa autopunição. Em algumas favelas do Rio já houve punições assim, traficantes raspavam cabeça de meninas, mas não só, estas também apanhavam, e muito. No candomblé raspar a cabeça faz parte de um ritual de iniciação, um renascimento. Panmela rompe com a aparência da menina princesa, da boa moça pra casar e filhinha exemplar para se transformar numa outra imagem que já não podemos definir tanto, mas que interpreto como Renascimento. Depois de se olhar no espelho (da moldura vermelha com espelho escrito, Eva), ser tatuada, ter o cabelo cortado pelo público, cabeça raspada por mim, tirou maquiagens e brincos, tirou o vestido e colocou uma calça e blusa pretos e tênis preto, ali mesmo, estavam tudo dentro de uma mochilinha de maloqueira grafiteira maravilha mutante, calmamente acende um cigarro (que estava o tempo todo entre seus seios quando ainda usava o longo vestido rosa shock) sob flashes, aplausos, choros, risos, e gritos de “Anarkia” (o simbolo do “A” de anarquia é usado pela artista como uma de suas assinaturas/Tag que utilizada quando boladona) finaliza seu ato. O ato+corpo, neste contexto, a meu ver, não é apenas acessório, é instrumento de ação e proposta de intervenção. Os gestos desdobram para a discussão das circunstancias históricas ao questionamento das verdades hegemônicas, bem como a interpretação e questionamento das aparências, efetivadas inclusive por meio das artes visuais, mas principalmente da publicidade que cisma empurrar para a gente modelos padronizados e classificadamente sexistas.

Voltar o olhar para a história, revelando o contexto em que cada imagem ou discurso foi produzido e assim desnaturalizar e desaprender determinados valores meio à prática e o exercício do diálogo sobre representações visuais, corpos, vivências e afins. Por meio destas imagens de questionamento na obra de Panmela, podemos destacar como as ações machistas são disseminadas e naturalizadas ao longo de nossas existências.

O familiar, ou seja, o ‘lugar da mulher’ e os valores religiosos, no caso, e também o mito do pecado de Eva, origem das justificativas de violência contra nós, torna-se pertubador, pois fica visível o sistema de valores que nos aprisiona e o que/quem o sustenta e o reproduz.

As questões de gênero e sexualidade, as raciais e de classe são partes indispensáveis do cruzamento e intersecção com o feminismo. Desvelar a dinâmica estrutural de poder existente na sociedade que segrega e privilegia uns em detrimento de outros, é entender que a luta é de todas nós. O que nós, feministas, temos a ver com o genocídio de jovens negros? O que nós, feministas, temos a ver com a perseguição à comunidade gay? Compreender as razões que levam a sociedade a ser palco de reprodução destes valores morais e ainda privilegiar valores conservadores e discriminatórios, exige refletir vários aspectos dos atores destas histórias, dos seus valores morais, principalmente os valores burgueses cristão, branco, escravocrata, ou seja, patriarcais.

No sistema de mercado da arte, por exemplo, desde a década de 70 vem sendo denunciada a ausência de mulheres artistas tanto história quanto no mercado de artes. O que demonstra que os cânones da arte são tão conservadores e coloniais quanto a igreja. Daí entra a importância das teorias e práticas queer no debate feminista: perceber expressões não ocidentais na tentativa de descolonização das imagens, dos corpos e das vivências. O termo “queer” veio a ser incorporado muito recentemente na década de 90, na necessidade de fugir das varias categorias de classificação convencionais que se esforçavam e se esforçam, ainda, em normatizar, estabilizar, estatizar, padronizar, uniformizar, dicotomizar e institucionalizar os corpos e suas existências expressivas. Então, fugir de Uma Única história (“O perigo da historia única”, Chimamanda), que, por se querer “única”, sempre será opressiva, para movermos olhares às visualidades e produções do cotidiano e da diversidade, não fazendo distinção entre macho e fêmea, isso ou aquilo, a vida é muito mais que binarismos, podemos conceber a igualdade no entendimento da diversidade cultural e, através de lugares e não-lugares de produção e circulação de sentidos, deslocar epistemologicamente o desenvolvimento da lógica patriarcal para um universo infinito de possibilidades.

A lógica patriarcal é, inclusive, heteronormativa e isso pode, talvez, responder a pergunta sobre o que nós, feministas, temos a ver com isso (?).  A lógica patriarcal é escravocrata, colonial, e isso talvez nos responda sobre o que temos a ver com o genocídio de povos negros. A lógica patriarcal, inclusive, é cristã, e isso talvez nos responda por que nós, mulheres, somos estupradas, violadas, mortas, espancadas, tolhidas, etc. Oprimidas de tudo, ou quase tudo, pois para nós, mulheres, sobraram os lugares do interior da casa, atrás do esposo, a grande mulher que muito exaltada quando muito bem enquadrada nesse padrão de vida criado somente para ela, esse lugar sagrado da família tradicional cristã. Nosso corpo celebrado apenas quando disposto a servir a ele. O homem macho recorre à violência sempre que necessitar para manter e reafirmar sua autoridade, assim é a machocracia que vai sendo reproduzida ao longo da vida, inclusive por nós mulheres, também acusadas de machistas, reproduzimos os próprios valores que nos oprimem, por que assim nos ensinaram. Temos que desaprender muitas coisas. Não medir, nem mendigar liberdade.

Passando a maquina em sua cabeça, Panmela, me senti rasgando véus, implodindo templos; firmando um compromisso existencial que não sucumbe ao vazio das origens do celeiro. Da descolonização do (in)consciente ao abismo de significados.

Autora

Priscilla Duarte é Feminista, Diretora Consultora da Rede Nami. Mestre em Arte, Cognição e Cultura Contemporânea pelo PPGArtes/Uerj; Historiadora da Arte; Educadora; Pesquisadora; Cineclubista. Alguém que vive em trânsito e nas variações dos ritmos da vida.

Frida Kahlo: imagem, corpo e feminismo

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Hoje, 06 de julho, Magdalena Carmen Frida Kahlo completaria 108 anos. Atualmente, é uma das imagens femininas mais populares. Assim como Che Guevara, Frida Kahlo está estampada em diversos produtos, é possível ver sua imagem em camisetas, editoriais de moda, festas à fantasia ou na bolsa de uma jovem grega na televisão que espera para sacar dinheiro num caixa eletrônico.

A chamada “Fridamania” está por toda parte, especialmente em sites, páginas e coletivos feministas. Há muito poder em sua imagem, mas até que ponto transformamos Frida Kahlo numa estética idealizada? Até que ponto essa imagem icônica e pop corresponde aos ideais e propostas da pintora politizada que fez de seu corpo uma ferramenta de resistência para pintar sua realidade?

Frida Kahlo. Foto de Nickolas Muray. Publicada como capa da revista Vogue México em 2012.
Frida Kahlo. Foto de Nickolas Muray. Publicada como capa da revista Vogue México em 2012.

Frida Kahlo: a mãe da selfie.

A pesquisadora Cátia Inês Schuh, que elaborou a tese: A prospecção pós-moderna da comunicação visual no imaginário de Frida Kahlo (.pdf), sobre a apropriação da imagem da pintora mexicana pela indústria cultural e do consumo, disse em entrevista que Frida é a mãe da selfie, já que grande parte de seu trabalho é composta por autorretratos. Essa afirmação parece explicar em parte a admiração instantânea que sentimos ao ver uma imagem de Frida. Autêntica, subversiva, intensa, provocadora. Nada em suas fotos ou em suas obras parece banal e esse me parece ser um desejo das pessoas atualmente, não parecerem comuns.

Frida Kahlo já se expunha nas redes sociais antes de isso ser modinha e, provavelmente, seria uma famosa blogueira de moda nos dias de hoje, já que desenhava e customizava suas roupas e sapatos. Cheia de dualidades, ao mesmo tempo que seu estilo presta homenagem a um vestuário feminino indígena, o que poderia ser visto como algo arcaico, sua forma de se apresentar ao mundo evidencia uma mulher contemporânea, a frente de seu tempo.

Sua individualidade e sua sexualidade estão constantemente presentes em suas representações. Frida tem como um tema central de sua obra a potência do corpo. O simples fato de seu corpo existir é uma resistência a tantas intervenções decorrentes dos acidentes que sofreu e das cirurgias que fez. E, que esse corpo seja também a ferramenta pela qual ela transforma a própria trajetória em processo de criação torna tudo mais fascinante. Então, me pergunto: por que não vemos imagens que retratam as deficiências físicas de Frida Kahlo? Por que sua feiúra é tida como algo irrelevante, quando na verdade esse aspecto parece conter toda a subversão de sua imagem?

A única aprendizagem possível: a de si mesma.

Pelos relatos(1), Frida Kahlo desde criança escondia suas deficiências. Aos 6 anos, um ataque de poliomielite a prende a cama por nove meses, o resultado é uma perna mais fina que a outra. Usa meia superpostas e botas altas para disfarçar. Seu pai, o alemão Guilhermo Kahlo, elabora um programa esportivo para ajudá-la a recuperar força e músculos: patins, bicicleta, remo, jogos com bola e lutas. Atividades pouco comuns para as meninas da época. A aproximação entre Frida e o pai fotógrafo também revela as posteriores influências em seu trabalho: luz, enquadramentos, retratos. O pai sofre de epilepsia e a solidão das doenças acaba por ser mais um ponto em comum.

Em 17 de setembro de 1925, aos 18 anos, ela sofre o grave acidente de trânsito, o ônibus em que estava bate num bonde. Segundo Frida em seu diário(2), o ônibus foi esmagado e o corrimão a transpassou como a espada transpassa o touro. Inúmeras fraturas, um mês no hospital. Quem a acompanha nesse período é Matita, a irmã mais velha que fugiu de casa aos 15 anos, com a cumplicidade de Frida, para viver com o namorado e a quem a mãe só abrirá a porta de casa após 12 anos de silêncio. Ela sai do hospital para um longo período de imobilização, em que não há como continuar os estudos e a partir daí começa a emergir sua criação:

Única aprendizagem possível: a de si mesma, captada pelo pequeno espelho das dimensões de um retrato. Único material humano: o seu, pois não pode ir ao encontro dos outros, mas sempre cercada pela expressão que os grandes retratistas alemães e italianos dão a figura humana. Desse confronto com a própria identidade nascem as problemáticas que tocam a própria essência da arte: a ilusão, o desdobramento, a relação com a morte. Bem mais que uma autobiografia, seus autorretratos se revelam como “imagens do interior” de uma mulher que se lançou em uma busca tanto existencial quanto estética, de um ser em processo de vir a ser, de uma consciência que nasce. (1 – pg. 29).

Aos 20 anos, livre do corpete de gesso, amadurecida e consciente do que precisa para lhe dar sentido, reencontra amigos e a política. Mergulha na luta comunista, onde conhece a fotógrafa-repórter, Tina Modotti. Com origem italiana e revolucionária, Tina apresenta a Frida uma representação de mulher livre que coloca sua arte a serviço da causa do povo. É também nesse período que conhece Diego Rivera, 42 anos, companheiro e colaborador, com que viveu uma relação tão intensa que nem mesmo as cartas escritas conseguem explicar toda a complexidade.

Frida Kahlo e o médico Juan Farill fotografados em sua casa por Gisele Freund. Imagem: Museu Frida Kahlo.
Frida Kahlo e o médico Juan Farill fotografados em sua casa por Gisele Freund. Imagem: Museu Frida Kahlo.

Beleza, deficiência e capacitismo

Uma mulher manca, com uma monocelha, que usa roupas extremamente coloridas e um fenótipo com fortes traços indígenas. Como pode ter virado ícone de referência estética sem que quase ninguém questione esses aspectos tão criticados nas mulheres comuns? Em seus autorretratos, Frida está sempre nos mirando. Talvez procurando uma verdade em nosso olhar ou talvez apenas indicando que ela existe, tanto quanto nós, mas que ali há uma resistência diária em viver.

É fato que a intensidade das ações de Frida Kahlo fazem com que suas deficiências físicas e limitações não sejam o que a definem. Porém, seu corpo é objeto e realização, num elo intrínseco entre vida e obra. Por três vezes, Frida desafiará a proibição dos médicos de engravidar depois do acidente, mas terá que se curvar e realizar abortos por determinação médica. Em inúmeros momentos de sua trajetória e de suas obras, o corpo é apresentado como a expressão concreta de sua consciência e militância.

O capacitismo de nossa sociedade cultua o corpo útil e aparentemente saudável. Esconder suas deficiências por meio das roupas podem indicar a maneira que Frida escolheu para enfrentar o preconceito. Vaidosa e certa de como queria ser representada, acaba por criar uma emancipação em sua forma de representação, escolhendo como gostaria de ser vista no imaginário social. Sua fragilidade, medos e receios estavam expostos em suas obras. Portanto, temos essa Frida que emerge com força, feminilidade e autenticidade nas fotografias e a Frida dos autorretratos, em que o olhar sempre marcado e o corpo exposto evidenciam suas dores.

Provavelmente, nosso capacitismo e nosso desejo de enrijecer a força desse ícone nos façam invisibilizar seu corpo físico ou vê-lo apenas como uma alegoria pictórica. Ou talvez, Frida consiga expressar tanta autonomia que cria o desejo de nos identificarmos com ela, algo que geralmente não ocorre com pessoas com deficiências, pois as vemos como incapazes, a princípio.

Pessoas que possuem deficiências nos lembram a fragilidade que queremos negar do ser humano. O pior do preconceito se dá porque não queremos que essas pessoas sejam visíveis, que sejam como nós, pois assim nos igualaríamos. Tê-los em nosso convívio funcionaria como um espelho que nos lembra que também poderíamos ser como eles. Por isso temos tanta dificuldade em tornar o mundo mais inclusivo fisicamente para quem tem limitações. A exclusão é sempre a primeira resposta para o que desafia a ideia de perfeição humana.

Exotismo, ambiguidade e excentricidade também são adjetivos usados para descrever os sentimentos que temos em relação a Frida Kahlo. Definitivamente sua imagem não nos permite ser indiferentes. Sua personalidade mostra-se em cada acessório, em cada nó da trança, na estampa dos vestidos, no detalhe dos bordados, no rosto maquiado. Há alívio em não ver a beleza perfeita? Há admiração por uma mulher ser tão autêntica e autônoma? Há o desejo de assumir essa individualidade enérgica e rejeitar qualquer forma de submissão social?

Penso que Frida Kahlo construiu esse feminismo provocativo da imagem justamente para questionarmos nossas ações e nossa forma de se ver no mundo. O que é possível criar e construir com limitações físicas num mundo tão capacitista? A arte foi sua resposta. Uma arte altamente egóica, mas que se comunica diretamente com as lutas políticas do México e com o íntimo das mulheres. Não me parece à toa que ela tenha se tornado uma figura tão popular entre as feministas, mas acho que podemos ir além da simples impressão de sua imagem em camisetas e bolsas, precisamos resgatar e amplificar sua voz e ideais que apontam para um feminismo mais inclusivo.

Referências

(1) BURRUS, Christina. Frida Kahlo: pinto a minha realidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

(2) KAHLO, Frida. O diário de Frida Kahlo: Um autorretrato íntimo. Tradução de Mário Pontes. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2012.

+Sobre o assunto: Frida Kahlo e a intensidade do sentir. Por Bia Cardoso no Biscate Social Club.