O machismo que você finge não ver. Por que um assovio para uma mulher na rua não é encarado como machismo?

Texto de Jessica Tomé para as Blogueiras Feministas.

Bom, primeiramente é necessário entender que o machismo é um sistema opressor de mulheres, não tem nada a ver com virilidade e masculinidade, mas sim com violência e abuso através de atitudes ou opiniões que menosprezam o sexo feminino de alguma forma. Entendido isso vem a resposta da pergunta.

Muitos homens e algumas mulheres (infelizmente) não veem o ato do assovio, do “elogio” para desconhecidas como um ato machista. Homens até mesmo comparam a realidade de mulheres com a realidade deles para descaracterizar o ato machista e apenas citar falta de respeito com ser humano. Bom, vamos lá então comparar realidades:

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“Sorria, Princesa”: palavras que nenhuma mulher que ouvir

Pedir às mulheres que sorriam pode parecer bobagem — até você considerar que isso acontece com frequência quando elas não querem.

Texto de Soraya Chemaly. Tradução de Thayz Athayde com colaboração de Iara Paiva.

Publicado originalmente com o título: “Smile, baby”: The words no woman wants to hear no site Salon.com em 13/09/2013.

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Ontem, eu perdi o trem e fiquei frustrada, com calor e cansada. Um homem que estava na estação decidiu que essa era uma ótima hora para passar a mão dele no meu braço enquanto eu corria e sussurrou: “você ficaria mais bonita se sorrisse”. Vou falar algo sobre “sorria, baby”, a váriável mais pronunciada da mesma opinião. Nenhuma mulher gosta de ouvir isso. E toda mulher se pergunta, ainda que por um instante, o que pode acontecer se ela não sorrir. Eu estava em um lugar lotado e perfeitamente seguro, mas isso era, no final, irrelevante. No passado, já fui seguida por um homem como ele.

Sem exceção, essa frase significa que um homem está totalmente confortável dizendo a uma mulher, que ele provavelmente não conhece, o que deve fazer com o corpo dela para agradá-lo. Isso sugere uma falta de respeito com o corpo de outras pessoas, sua integridade e autonomia. A frase, e outras mais sexualmente explícitas, são expressões verbais dos direitos masculinos. O toque só reforça essa sugestão. Duas palavras inconsequentes. Pouca coisa, até você considerar o assédio na rua como uma normalização do domínio de homens. Homens assediadores são árbitros dos espaços públicos e suas regulações diárias de mulheres nesses lugares resulta que, em 1993, Cynthia Grant Bowman chamou de “segregação informal das mulheres”. Isso não é pouca coisa.

O assédio nas ruas é muito generificado, ligado a violência e esmagadoramente heteronormativo. As mulheres geralmente não assediam homens, agarrando seus corpos ou ameaçando-os em público de qualquer outra forma. Já fui chamada por todos os insultos sexistas que você possa imaginar por não cumprir as exigências sexuais de homens, completamente estranhos, em público. Estou falando de garotos e homens falando obscenidades, fazendo sugestões pornográficas, tocando pessoas que eles não conhecem de uma forma intimidante, à espreita nas entradas de apartamentos, olhando nas calçadas, e seguindo garotas em carros. Quando você vai caminhar e alguém grita que você é “uma vadia” porque não respondeu a um pedido de parar e conversar com ele, isso acaba com seu dia.

De acordo com Holly Kearl, autora de “Always On Guard: Women and Street Harassment“ (“Sempre em alerta: Mulheres e o assédio nas ruas”) e fundadora do site ‘Stop Street Harassment’ (“Chega de Assédio nas ruas”), algo entre 80% e 98% das mulheres entrevistadas reportaram assédio persistente e agressivo nas ruas. Uma variedade de assédio nas ruas é uma constante universal para mulheres, e isso sutilmente transmite o entendimento de que meninas e mulheres não devem se sentir seguras ou confiantes em público. Começa quando as meninas são bem novas, por volta dos nove, e nunca acaba. Mesmo cobrir-se toda não faz nenhum efeito. Quanto mais nova a menina, mais negativos os resultados, os quais estão bem documentados e podem incluir depressão, vergonha, dores de cabeça, ansiedade, distanciamento emocional, medo, auto-objetificação, entre outras coisas. Depois que a fina camada de lisonja desaparece, o que resta é uma consciência quase diária de vulnerabilidade, objetificação sexual e vergonha por ter sido o alvo e não revidar. Algumas mulheres confrontam assediadores, mas a ideia do revide ou de dizer “Pare!” tem implicações de classe e de raça. Como Jamie Nesbitt Golden apontou a pouco tempo: “Apenas dizer ‘não’ para os homens não necessariamente funciona para todo mundo – e pode até ser perigoso”.

Foto de CareyHope via iStock.
Foto de CareyHope via iStock.

Ir para escola, deslocar-se para o trabalho, ou encontrar amigos não deveria envolver avaliar se você está se colocando em uma situação de risco ou não. Num país em que uma em cada cinco mulheres é estuprada (número que pode ser mais alto em alguns grupos, por exemplo se a menina ou a mulher é indígena, está na faculdade, é militar ou tem entre 16 e 24 anos) [nota da tradutora: números referentes aos EUA], nós não podemos nos dar ao luxo de fingir que assédio nas ruas é algo “inofensivo” ou existe no vácuo. Não importa o lugar que o assédio ocorra, ou a sua violência, o assédio nas ruas reflete uma aceitação geral de que o corpo da mulher é um recurso público e que os homens tem direito a ele. Ele deriva de seu poder da ameaça de violência que está latente em cada interação, mesmo as “lisonjeiras”.

Ano passado, em São Francisco, um homem esfaqueou uma mulher no rosto e no braço quando ela não respondeu de forma positiva ao seu assédio sexual na rua. Em Bradenton, Flórida, um homem atirou e matou uma garota que estava no último ano do ensino médio, depois que ela e suas amigas se recusaram a fazer sexo oral nele. Em Chicago, uma garota de 15 anos foi atropelada por um carro depois que ela tentou escapar de assediadores dentro de um ônibus. Apenas procure no Google, “Homem passando a mão em mulher”. O problema com o assédio nas ruas não é a demanda da mulher sorrir ou fazer sexo oral, o problema é responder essa pergunta: “E se a mulher não quiser?”

Em mais de 40.000 respostas enviadas ao site ‘Eveyday Sexism’ (Sexismo Diário), uma porcentagem significativa envolve assédio nas ruas. Algumas postagem típicas são mais ou menos assim: “Um cara veio por trás e colocou a camiseta na minha cabeça e ao mesmo tempo agarrava meus seios, fortemente”, “Assediada por um grupo de garotos de 20 anos de idade… gritando ‘que peitões!”, (para uma garota de 13 anos)” e Uma mão me agarrou por trás e me empurrou entre as pernas. As respostas de meninas e mulheres variam entre serem intimidadas, constrangidas e humilhadas a se enfurecerem e revidarem. A maioria dos homens se mostra surpresa por nós vivermos essa realidade.

Estamos, no entanto, no começo de uma ação global anti-assédio. Organizações como ‘Hollaback! ‘(que encoraja pessoas a compartilharem suas histórias e localizarem os assediadores em mapas de bairro), ‘Stop Street Harassment e o ‘Safe Cities Global Initiative conduzem e compilam pesquisas, trabalham para aumentar a conscientização do público, educam crianças e adultos, dão as pessoas as armas para lidar e confrontar o assédio.

Os testemunhos mais convincentes para a difusão e os efeitos nocivos do assédio, no entanto, vêm de ativistas e artistas. Ano passado, um vídeo sobre assédio nas ruas da Bélgica foi um catalizador importante para a conscientização do público na Europa, quando a cineasta filmou um grupo “normal” de garotos que diziam coisas como “bunda gostosa” e “vadia safada” para mulheres que eles seguiam e com quem falavam. O documentário “Black Woman Walking” (“Mulher Negra Andando”) fez um nítido retrato sobre a face racial do assédio nos Estados Unidos. As gravações do comediante Kamau Bell de conversas com mulheres e assediadores eram muito engraçadas, elucidativas e revelavam muito sobre o que homens pensam quando eles se comportam assim. O mais provocativo, no entanto, talvez seja o trabalho da artista Tatyana Fazlalizadeh. No início desse ano, ela começou a colar grafites de retratos de mulheres acompanhados de textos, como por exemplo: “Meu nome não é gatinha, sexy, princesa, gostosa, delícia, gata, amor” e “Mulheres não estão nas ruas para o seu entretenimento”. Ela acaba de lançar uma iniciativa de financiamento coletivo para expandir seu projeto de arte pública, chamado “Stop Telling Women to Smile” (“Pare de dizer as mulheres para sorrir”), para mais cidades.

A maioria dos homens não são assediadores ofensivos que gritam ameaças vulgares para garotas e mulheres, e o que uma mulher veste, sua idade e seu comportamento tem muito pouco a ver com o assédio. É importante que esses homens desafiem os assediadores. Abusadores tem licença, até recentemente amplamente incontestada, para atuarem autorizados pela nossa cultura. Realmente é uma boa hora para mudar isso.

Assédio verbal e a pesquisa “Chega de fiu-fiu”

Texto de Iara Paiva.

A divulgação na semana passada do resultado da pesquisa promovida pelo site Think Olga gerou bastante repercussão nas redes sociais (nosso clipping semanal traz alguns links sobre este debate). Oito mil mulheres responderam a pesquisa sobre o que escutam dos homens em espaços públicos. Oitenta e três por cento delas declararam se incomodar com as abordagens, mas a maioria disse que não reage a elas por medo. Boa parte das que reagem, xingam os homens que as abordaram.

Ilustração de Gabriela Shigihara divulgada pela campanha “Chega de fiu-fiu” do site Think Olga.
Ilustração de Gabriela Shigihara divulgada pela campanha “Chega de fiu-fiu” do site Think Olga.

Dados estes números, acho possível afirmar que há um incômodo generalizado, para dizer o mínimo. Mas o fato de tratar de um problema legítimo não poupou a iniciativa de críticas duras. Não pretendo colocar o link para elas porque não quero personalizar o debate, até porque tive o contato com algumas delas pelo twitter, que não é exatamente um canal adequado pra elaborações mais aprofundadas, mas gostaria de comentar alguns destes argumentos, que me pareceram bastante equivocados.

O primeiro deles foi que, dado o recorte muito específico da amostragem – só tiveram conhecimento da pesquisa mulheres que têm acesso à internet e, provavelmente, algum contato com o feminismo – a pesquisa apresentaria um falha estatística. Mas o rigor científico não me parece necessário para este tipo de debate. Sim, podemos imaginar que se o recorte das entrevistadas fosse mais diverso, os números seriam diferentes.

A pergunta é: se apenas 30% das mulheres se declarassem incomodadas, esta seria uma questão sem importância? A aprovação (ou a resignação) das outras 70% tornariam o problema irrelevante? Não acredito que seja o caso. Este post comenta um pouco sobre a parte estatística e diz o que me parece fundamental ao falarmos de números: a possibilidade de agradar a um grupo, seja maioria ou minoria, não deveria justificar o constragimento de todas as outras. Obrigar todas as mulheres a ouvirem gracejos porque eventualmente algumas podem gostar não faz sentido.

Depois, houve quem dissesse que “chega de fiu-fiu” soa a “censura”, e que as mulheres deveriam reagir quando se sentissem incomodadas. Que a palavra “censura” seja evocada em um caso desses me faz lembrar a queixa de humoristas que se ressentem quando suas piadas ofensivas são criticadas e se queixam de uma suposta “ditadura do politicamente correto”. Ninguém está dizendo que as pessoas devem ser obrigadas a se calar. A reflexão é outra, sobre quando e porque falar. Sobre conscientizar-se sobre o que se fala. Sobre o constrangimento, nos casos mais leves, e a violência, nos mais graves, que a palavra pode significar.

O fato é que aos homens é ensinado que podem dizer tudo, e as mulheres que devem ter muito cuidado com o que dizem. Não por acaso, entre os comentários no post de divulgação da pesquisa, há homens ultrajados com a sugestão de que seus gracejos não sejam bem-vindos. Mas as mulheres aprendem, desde a puberdade, que essas manifestações masculinas são parte de sua experiência. Logo, algumas se resignam ainda que estejam desconfortáveis. E algumas não reagem por medo, porque sua experiência é marcada pela violência de gênero. Por mais que, como feministas, nosso objetivo seja fortalecer todas as mulheres, sabemos que parte considerável delas se sente muito acuada. Colocar em seus ombros a responsabilidade de lidar com um problema que não causaram nos parece muito injusto. A reação é bem vinda, mas ela não resolve a questão – e em alguns casos pode colocar a mulher em risco.

Por fim, houve quem bradasse sobre moralismo ou um excesso de burocratização nas relações, uma perda de espontaneidade. Que muitos deliciosos flertes duram apenas pouco segundos entre uma intensa troca de olhares e uma troca de beijos entusiasmada. É realmente muito difícil definir regras absolutas sobre o que seria válido ou não em uma aproximação, concordo. Há um tempo atrás traduzi um texto sobre isso escrito nos Estados Unidos e reconheci ali mesmo que algumas daquelas situações não pareciam tão aplicáveis à nossa cultura.

O flerte como construção cultural, sofre mudanças no tempo e no espaço. Mas acho que há uma regra de ouro que pode ser aplicada em qualquer situação: a reciprocidade. Qualquer aproximação deve considerar que as mulheres são sujeitos de sua sexualidade e livres pra corresponder ou não às investidas. E caso não correspondam, não devem ser constrangidas por isso. Insinuações sexuais gratuitas são constrangedoras para imensa maioria das pessoas. Aproximações aparentemente bem educadas podem se tornar muito invasivas e desconfortáveis quando o suposto moço bem intencionado é insistente. E elogios não deveriam ser impostos. Ser chamada de “linda” por um estranho quando estamos andando em uma rua escura soa mais ameaçador do que lisonjeiro.

Cabe ainda lembrar que o debate sobre o tipo de reações e sobre a espontaneidade ou não do desejo parece ignorar que o assédio verbal nos espaços públicos começa muito cedo. Em alguns casos quando a menina mal saiu da infância, e geralmente tem menos recursos tanto para reagir às manifestações, quanto para elaborar que não são responsáveis por serem assediadas. Pode parecer fácil distinguir o sujeito que chama uma menina de 11 anos de “gostosa” na rua do “cara boa praça” que constrange a mulher adulta na balada pela sua insistência (“afinal, as pessoas não estão ali pra isso?”), especialmente quando boa parte dos homens não se identifica com o primeiro, mas pode já ter estado na situação do segundo. Enquanto o primeiro é visto como praticamente um criminoso, um pedófilo, e o segundo é “só um chato”. Não pretendo aqui dizer que uma coisa é tão grave quanto a outra, mas ambas fazem parte de uma cultura que queremos combater: a de que mulheres podem ser constrangidas por serem mulheres.

Não acredito que todos os homens que abordem desconhecidas sejam estupradores em potencial. Mas uma parte significativa deles se comporta como se sua vontade de se manifestar fosse mais importante do que o bem estar de quem desejam. Não estamos em guerra contra o desejo. Os homens podem continuar desejando quem quiserem. Nós mulheres desejamos também, inclusive pessoas desconhecidas que passam pelo nosso caminho. Mas o limite da expressão do desejo deve ser, sempre, o respeito por quem é desejada. Não se trata de cristalizar as mulheres na condição de vítimas porque são objeto de desejo, porque não é o desejo de outrem que nos ameaça, mas a ideia de que somos passivas no jogo da sedução, que a nossa aprovação é desnecessária. Atitudes que desconsideram nossa agência, seja a imposição de grosserias de cunho sexual, seja a insistência inconveniente em aproximações à primeira vista bem educada, seja deslegitimação de nossa opinião quando externamos nosso desconforto, são extremamente desrespeitosas. Também não me parece o caso de colocar no mesmo balaio todas as críticas e rotulá-las como machistas, mas de insistir que se a pesquisa divulgada tem suas limitações, ela é uma tentativa de desnaturalizar uma condição imposta às mulheres desde a infância como parte de seu cotidiano. Uma iniciativa que nos parece muito bem-vinda e digna de um olhar que não subestime a gravidade do problema abordado.