Cadê o nosso direito de ir e vir?

Texto de Karolyne Leandra Melo para as Blogueiras Feministas.

Bom, quero compartilhar uma experiência que sem querer tive essa semana. Estava eu olhando umas fotos antigas e percebi que mudei muito o meu modo de vestir, principalmente os tipos blusas. Durante os anos realmente não sabia o porque de ter mudado, pois gostava tanto das minhas roupas. Hoje compreendi que mudei meu vestuário de modo inconsciente para minha segurança. Irei explicar.

Atualmente, visto blusas largas, quase 3 vezes maior quando comparadas as que eu usava a 4 anos atrás, pois tenho seios grandes que infelizmente chamam muita atenção. No inicio dessa semana, voltando do curso de jaleco e calça a caminho do meu ponto de ônibus, avisto um bar próximo com dois homens bebendo sua cerva. Passei por ali, comprei algumas balas nem notaram minha presença.

Dois dias depois, passei no mesmo local usando uma regata e calça, acompanhada de um amigo. Vi os mesmos caras e percebi que eles me olhavam, quando eu olhava de relance os mesmos fingiam voltar a conversar. No dia seguinte, me vesti da mesma maneira que no inicio da semana, passando em paz despercebida a caminho do meu ponto.

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Ninguém assovia para a mulher na cadeira de rodas

Texto de Kayla Whaley. Publicado originalmente com o título: “Nobody Catcalls The Woman In The Wheelchair“, no site The Establishment em 26/01/2016. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Dentro dos espaços feministas, é assumido que #TodasAsMulheres experimentam assédio em locais públicos. As maneiras pelas quais esse assédio se manifesta — a idade em que começa, sua intensidade ou forma, as conseqüências de denunciar — podem variar dependendo das diferentes características da pessoa. Mas todas as mulheres, segundo nos dizem, conhecem o medo, a vergonha e/ou a raiva que vem junto com a atenção sexual indesejada.

É compreensível a existência dessa presunção. Quando trabalhamos a partir de um fato da realidade sendo uma verdade coletiva é mais fácil discutir as nuances, as diferenças e as complexidades envolvidas nesse miolo. É mais fácil construir discussões dinâmicas internas a partir da sólida base de uma experiência em comum.

Esta é uma suposição útil — mas também é prejudicial.

Eu sou uma mulher de 26 anos de idade que nunca foi assediada na rua. Eu nunca recebi assovios em meu caminho para a escola, ninguém buzinou para mim num estacionamento, ninguém me olhou de forma maliciosa num trem, não me apalparam na fila da Starbucks, ou qualquer outro tipo de assédio sexual que ocorrem em locais públicos. Eu não tenho medo de sair de casa porque terei que evitar homens agressivos ou insistentes. Eu não preciso mapear mentalmente várias rotas para casa, procurando locais onde eu possa ser menos abordada.

Eu não sei o que são o medo, a vergonha e/ou a raiva que vêm junto com a atenção sexual não desejada. Entretanto, uma parte de mim, que não é insignificante, deseja sentir isso.

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Duas mulheres viajando sozinhas… Como assim? Como uma mulher quer viajar sem companhia?

Texto de Lara Ramos para as Blogueiras Feministas.

Fiz uma viagem de 50 dias nas férias, passando cerca de 20 dias pela Bolívia e quase um mês no norte do Brasil (Acre, Rondônia, Amazonas e Pará). Ainda estou processando mais da metade das coisas que vi e vivi. Mas, pensei em escrever um pouco sobre como foi. Escrever sobre como foi viajar sendo mulher.

Começamos nos planejando uns quatro meses antes. Nas aulas, nas festas, conversando em casa. Eu queria conhecer o norte do Brasil, a Amazônia, viajar de barco descendo o maior rio do mundo. A Thais queria o deserto de sal na Bolívia, as paisagens do Peru e o norte da Argentina. O Willy queria ir sem direção. E assim fomos juntando mais pessoas interessadas.  No final, entraram no grupo o Edi, a Ana e o Fellipe. A Ana comprou a mochila um dia antes, o Fellipe tomou a vacina (obrigatória) no dia da viagem e o Edi chegou de skate no aeroporto. Quase perdemos o vôo (ainda bem que a Thais estava atenta), mas conseguimos embarcar.

Chegando na Bolívia, estava tranquila. Primeiro mochilão, com pessoas que eu confiava, eram zoeiras e gostavam de dormir. Já na primeira parada encontramos o Michel, mestre em medicina chinesa de Belo Horizonte, que se identificou com o grupo e continuou a viagem com a gente. Virada do ano, comidas tradicionais, cultura, ônibus infinito, van lotada, bebês bolivianos. O tempo passava rápido e devagar ao mesmo tempo. Íamos seguindo com o roteiro “planejado”, mas era muito mais interessante deixar as coisas acontecerem.

O plano era ir pro Acre depois, tentar chegar a Rio Branco antes do vôo já marcado do Fellipe. O Edi e a Ana acabaram indo pro Peru com o Willy e a Sté (que encontramos no meio do caminho, em La Paz). Eu e Thais queríamos aproveitar mais os lugares no Brasil.

Se você ainda está lendo o texto deve estar se perguntando porque não estou fazendo as reflexões acerca do fato de ser mulher. É que até o momento, antes do Fellipe ir embora, não tinha me questionado sobre o fato de ser um problema ser mulher e querer viajar. Por que pensaria nisso antes? Estávamos em cinco pessoas, grupo grande, com dois homens. Dois homens. Seguro. Podíamos andar na rua, chegar tarde, pegar carona, conversar com todo mundo. “Podíamos”, olha o verbo que tive que usar.

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