Minas Programam: uma ofensiva contra o assédio, agressões e o sexismo

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

Nos últimos dias, sites e perfis feministas vêm sofrendo vários ataques e vendo suas páginas no Facebook derrubadas, numa contra-ofensiva machista e misógina que parece muito bem organizada e elaborada.

Uma página fake foi criada em nome da feminista Lola Aronovich, atribuindo a ela declarações mentirosas e falaciosas, invadindo, inclusive, sua vida pessoal e profissional. O perfil da ativista Stephanie Ribeiro foi derrubado e continua sendo atacado após ela denunciar racismo e machismo no Facebook. A jornalista Maria Júlia Coutinho e a atriz Taís Araújo foram vítimas de violentos ataques racistas. A página da youtuber Jout Jout ficou fora do ar por alguns dias por causa de denúncias que surgiram depois da viralização de seu vídeo “Vamos fazer um escândalo”, falando de assédio sexual. E a página “Feminismo Sem Demagogia” continua fora do ar.

Aliás, quando a página de Jout Jout foi reestabelecida, a administração do Facebook emitiu uma nota se desculpando e reconhecendo que houve um “erro de avaliação” da denúncia. Espero que esses ataques possam confrontar a própria política do Facebook, que tem adotado práticas aparentemente misóginas na avaliação de conteúdos, páginas e perfis feministas.

Além de representar uma orquestrada contra-ofensiva frente à relevância que o feminismo andou recebendo ultimamente, esses ataques demonstram o quando a web pode ser hostil para as mulheres. Hostilidade e violência que parecem ter atingido seus mais altos decibéis nos últimos dias, aliás.

Provavelmente, porque em resposta ao assédio brutal sofrido pela jovem participante de apenas 12 anos do MasterChef Júnior, a hashtag #PrimeiroAssedio teve mais de 80 mil tuites com relatos que escancaram o quanto o assedio sexual é violento e precisa ser combatido no Brasil. Ou porque questões de forte viés feminista foram parar no ENEM 2015. Ou mesmo porque milhares de mulheres saíram às ruas pela garantia de seus direitos reprodutivos e pedindo “Fora,Cunha!”.

O caso é que, constatando o quanto a web é animosa com a gente e o quanto nos vimos alijadas na construção dos progressos tecnológicos, mais cursos, oficinas e ações estão sendo desenvolvidos para estimular a participação de mulheres nas áreas de tecnologia e exatas. O Fundo Social Ellas, por exemplo, acabou de encerrar as inscrições para um edital de financiamento de projetos que estimulam alunas do ensino médio a se interessar justamente por essas áreas.

Em meio a diversas ações, as ativistas Bárbara Paes, Ariane Cor e Fernanda Balbino criaram o projeto “Minas Programam”, para ensinar a meninas e mulheres conhecimentos básicos de programação, envolvendo também questões de segurança, privacidade e ativismo.

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O curso, com custo baixo, começou em outubro na ONG feminista Casa de Lua (SP) e conta com 30 alunas, que passaram por um processo de seleção que privilegiou, por exemplo, menor condição financeira para pagar pelo curso, residência (moradoras de bairros periféricos foram priorizadas), maior número de filhos, deficiência física e envolvimento com ativismo.

Durante todos os dias de aula, a Casa de Lua também está aberta para estudos livres e reuniões para qualquer mulher que queira aprender a programar. O valor da inscrição foi de R$30,00 para a turma iniciante e de R$50 a R$100,00 para a turma de tutoria. Foram selecionadas também seis garotas para participarem com isenção de taxa de inscrição. Toda a verba arrecadada foi destinada à Casa de Lua.

Em recente entrevista sobre o projeto, Bárbara afirma: “muita gente que pensa igualdade de gênero em tecnologia, por exemplo, já apontou que se as redes sociais tivessem sido pensadas com e por mulheres, problemas de segurança e de assédio teriam sido previstos”. Bárbara destaca, ainda, que pensar no setor de tecnologia é lembrar que a programação é importante na forma como o mundo se estrutura e de como criamos soluções para os problemas da sociedade: “Isso significa que enquanto as mulheres não estiverem mais presentes no setor de tecnologia, nossas ideias, nossas preocupações e nossas soluções estarão menos representadas”.

Na mesma entrevista, Fernanda cita dados que exemplificam bastante essa realidade: dos 1.683 engenheiros da computação formados em 2010, apenas 161 eram mulheres, segundo o Inep (9,5%). Dos 7.339 formados em Ciências da Computação no mesmo ano, 1.091 eram programadoras (14.8%). Em 2015, de um total de 330 ingressantes dos cursos de Computação da USP, apenas 38 eram mulheres (11.5%). Dos 300 mil profissionais registrados no CREA-SP (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia de SP), apenas 49 mil são mulheres (16.3%). A participação das mulheres na Ciência da Computação caiu de quase 37%, em meados dos anos 80, para 17% atualmente (20%).

E, mesmo com fortes evidências de sexismo nas áreas de exatas, há homens que ainda não acreditam que o problema é real. No artigo ‘Mesmo com fortes evidências de sexismo nas áreas de exatas, homens ainda não acreditam que o problema é real’, a pesquisadora americana Laurel Raymond conta que ao serem confrontados com evidências empíricas que apontam tendências sexistas contra mulheres nas áreas de exatas, os homens dificilmente acham que os estudos são convincentes ou importantes.

O projeto “Minas Programam”, que já vinha sendo gestado nas redes socais, se concretizou mesmo em agosto desse ano, quando Bárbara, Ariane e Fernanda realizaram na Casa de Lua uma roda de conversa com várias mulheres de tecnologia. O evento contou com referências como as especialistas: Camila Achutti, Bárbara Castro, Haydeé Svab, Carolina Stary, destacando também o quanto a representatividade é importante. É preciso visibilizar as mulheres que trabalham na área para que sirvam de inspiração para outras.

Nesse encontro, Haydeé chamou atenção para o fato de que no começo dos cursos de tecnologia no Brasil, a procura era paritária, havendo equilíbrio entre homens e mulheres nas salas de aula: “Foi quando o mercado começou a crescer, movimentando mais e mais dinheiro, que o ambiente foi ficando cada vez mais agressivo pra gente, até que fomos escasseando e até sumindo dos cursos. Porque, claro, tudo aquilo que pode gerar independência financeira para mulheres, não interessa ao patriarcado”.

Para quem quiser conhecer o projeto, durante os dias 6, 7 e 8 de novembro, o “Minas Programam” e a Casa de Lua se juntam a Olabi, organização que tem como foco a apropriação de novas tecnologias, e várias outras instituições para a realização das RodAdas Hacker, em diferentes pontos da cidade, durante a São Paulo Tech Week. As oficinas desta RodAda são gratuitas e para participar em uma delas é necessário se inscrever em: http://rodadahacker.org/participe.

A RodAda Hacker é uma rede que se baseia em oficinas de programação especialmente desenhadas para meninas e mulheres e surgiu em 2012, quando a ciberativista Daniela Silva (também uma das fundadoras da Casa de Lua) constatou que existem poucas mulheres atuando nas atividades técnicas ligadas à internet, como engenharia ou programação. O nome do evento é uma homenagem a Ada Lovelace, matemática e escritora, conhecida como a primeira programadora da história.

Segue a programação:

Dias, locais e horários das RodAdas Hacker:

● Dia 06/11 – CEU Parelheiros – 9h às 12h – endereço: Rua José Pedro de Borba, 20 – Jardim Novo Parelheiros.

● Dia 07/11 – Casa de Lua – 9h às 17h – endereço: Rua Engenheiro Francisco Azevedo, 216 – próximo ao metrô Vila Madalena.

● Dia 07/11 – LabHacker – 9h às 17h – endereço: Rua Alfredo Maia, 506 – Luz – próximo ao metrô Armênia.

● Dia 07/11 – RedBull Station – 10h às 18h – Praça da Bandeira, 137 – Centro.

● Dia 08/11 – Preto Café – 9h às 17h – endereço: Rua Simão Álvares, 781 – Pinheiros.

● Dia 08/11 – Fábricas de Cultura – 9h às 17h – endereço: Rua Antônio Ramos Rosa, 651 – Jardim São Luís.

Informações atualizadas na página do evento no Facebook.

+Sobre o assunto:

[+] A internet odeia as mulheres e ninguém vê problema nisso. Por Juliana de Faria e Luise Bello.

[+] Jovem usa dinheiro de viagem de formatura para lançar app antiassédio.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista e co-fundadora da Casa de Lua. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

É possível fazer denúncia e política sem cair na misoginia

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

Esses dias saíram na mídia diversas denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro contra o presidente da Câmara Federal, o deputado Eduardo Cunha. Enquanto o caso ganhava repercussão, o nome de sua esposa, a ex-jornalista da Globo Claudia Cruz, passou a ganhar destaque nas manchetes. Com isso, o machismo e a misoginia começaram a aparecer em piadas e textos, especialmente de militantes da esquerda. Porque, como sabemos, não há nada mais parecido com o machismo da direita do que o machismo da esquerda, daqueles que dizem defender as minorias.

Claudia Cruz virou meme porque aparece com os olhos arregalados em várias fotos. Dificilmente veremos Eduardo Cunha sendo questionado sobre as roupas que comprou com dinheiro desviado ou sobre suas expressões faciais em fotos. Mesmo tendo comentários capacitistas que focam no fato de ser estrábico, dificilmente sua aparência será colocada como uma questão principal na crítica.

É proibido criticar Claudia Cruz? Claro que não. Porém, essa crítica precisa ter foco no caso de corrupção e lavagem de dinheiro, não na vida pessoal do casal. Se uma mulher casa por interesse ou não, isso é problema dela. A vida sexual de uma mulher também é problema dela. Porém, o que vemos mais uma vez é o machismo escancarado de grande parte da esquerda que afirma estar apenas “fazendo denúncias” ou agindo em “legítima defesa”, seja lá o que isso significa.

Foto: postagem de Cláudia Cruz em seu perfil pessoal no Instagram.
Foto: postagem de Cláudia Cruz em seu perfil pessoal no Instagram.

Publiquei e vi circulando nas redes sociais críticas fortes e contundentes por parte de companheiras feministas. Especialmente a dois textos escritos por homens em grandes portais de esquerda, cujos títulos são: ‘A figura realmente fascinante do casal Cunha é Claudia’ e ‘Quando uma mulher é cúmplice num processo de corrupção, é machismo denunciá-la?’. O personagem “fascinante” é a mulher dele e não quem comete o crime? Usar o machismo para criticar uma mulher significa denunciá-la por corrupção?

Os textos e comentários sugerem que Claudia Cruz é alpinista social e associam essa sugestão às razões pelas quais ela teria se casado com Eduardo Cunha – supostamente tão desprovido de atrativos que pudessem lhe garantir um relacionamento com uma mulher como ela, bonita e famosa, que somente o dinheiro amealhado de forma desonesta poderia explicar essa união. Precisamos “denunciar” e fazer hipóteses sobre a vida privada dos corruptos e suas famílias para provar que eles não têm ética? Que cometem crimes? Precisamos colocar nosso moralismo a favor do machismo para tornar o caso pior do que já é?

Obviamente, tecer críticas à parceria e cumplicidade da jornalista às falcatruas do marido, cada vez mais evidentes, é até obrigação de quem milita nas redes sociais. Ninguém tem que ser condescendente com criminoso e/ou seu cúmplice em esquemas de corrupção, seja de qual gênero for. No entanto, usar argumentos machistas e moralistas para atacar a jornalista, fazer menção a sua aparência física, usar sua imagem para sugerir consumo de drogas ou publicar ilações sobre sua vida sexual — colocando tudo isso inclusive como motivação para os roubos do marido — não dá! Isso não pode! Porque não se trata disso.

Trata-se, repito, de uma mulher que pode ser cúmplice do marido em práticas de corrupção. O assunto é este. E o foco deve estar nele, que foi eleito e é representante da população na Câmara Federal. Não podemos perder de vista que o agente dessa corrupção é ele, Eduardo Cunha. É ele quem teve cargos públicos e hoje tem imunidade parlamentar. Em que momento isso deixou de ser sobre Cunha e passou a ser sobre Claudia Cruz?

É esse ponto que as mulheres, entre elas muitas feministas, têm criticado. Francamente, não vi nenhuma feminista pedindo leniência com Claudia Cruz por ela ser mulher. Não vi nenhuma feminista dizendo que é machista apontar a corrupção que ela teria perpetrado. É desonesto quem sugere que nossa crítica foi de silenciamento e vitimização de Claudia Cruz. O que vi, sim, foram ataques pessoais a ela e insinuações pingando misoginia que, tenho certeza, não seriam feitas se ela fosse homem. Isso entendi muito bem.

Todas as vezes que machistas, sejam eles de esquerda ou de direita, se valerem de argumentos sexistas e misóginos para sustentar suas argumentações, nós vamos criticar. Estaremos atentas. E vamos falar. Seremos chatas. E esta crítica irá para qualquer um que se valha desse tipo de colocação, seja para atacar a presidenta Dilma Rousseff, a jornalista Claudia Cruz ou qualquer outra mulher.

Acredito que esse episódio só reitera a urgência de se incluir gênero e raça no ativismo político-partidário. Caso contrário, não vamos sair da fala estereotipada, machista (e racista) para “fortalecer” argumentos. Fora ataques pessoais! Fora misoginia! Não é assim que se faz denúncia. Não é assim que se faz política.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

Visibilidade? (In)visibilidade?

Texto de Andreia Lais Cantelli para as Blogueiras Feministas.

Parabenizo todas as companheiras e companheiros que hoje 29 de janeiro de 2015 estão se mobilizando em suas bases com ações afirmativas com vistas a reduzir a violência e o preconceito que diariamente agride as pessoas Trans, e que também lutam durante o ano todo por uma sociedade plural, sem transfobia, justa e de respeito e paz.

O Dia Nacional de Visibilidade Trans surgiu em 2004 de uma campanha de prevenção para travestis com o tema “Travesti e Respeito”. Onde o objetivo é praticar no cotidiano social o Respeito que para a população de travestis e transexuais na mentalidade social brasileira é invisível. Nesse contexto travestis e transexuais acabam sendo alvo de violência, estigmatização, exclusão, vulnerabilidade e a não participação nas práticas cotidianas sociais, pelo fato de não correspondem a um constructo social heteronormativo e patriarcal. Assim, a partir desse histórico, o dia 29 de janeiro foi instituído como data nacional.

A Sociedade Brasileira tem em sua mentalidade a existência da população de Travestis e Transexuais como fato. Porém, julgam- se no direito de excluir e colocar para bem longe do cotidiano social as pessoas trans, ou seja, à margem social contribuindo assim para a violência que as pessoas trans sofrem cotidianamente. Enquanto as pessoas Travestis e Transexuais buscam construir suas identidades de gênero de maneira autônoma e fora dos padrões pré-determinados por um coletivo dominante heteronormativo. Isso pode ser observado ao longo da História recente e por conta do fundamentalismo e da predominância de que o alheio é o detentor do poder, da razão e da palavra.

Ato da Visibilidade Trans/ Curitiba 2013. Foto de Lari Schip no facebook.
Ato da Visibilidade Trans/ Curitiba 2013. Foto de Lari Schip no Facebook.

 

A aceitação social da violência contra as pessoas Travestis e Transexuais é a própria negação dos direitos fundamentais de toda uma parcela populacional e contribui para o agravamento das injustiças sociais e o afastamento da democracia.

Em um passado recente, uma série de conquistas foram adquiridas como por exemplo o Nome Social. Porém se trata de um direito simbólico, pois toda cidadã ou cidadão brasileiro/a tem direito a um nome civil, que é  tão primordial quanto o direito à vida. Nesse sentido a população trans brasileira não tem garantido o uso do próprio nome enquanto pessoa humana, detentora de direitos e deveres, não podemos nos basear no respeito às diferenças. Sendo que na sociedade contemporânea a vida das pessoas Travestis e Transexuais é um marco de luta e enfrentamento de violência no dia-a-dia.

A Primeira Violência que podemos destacar é no seio familiar. Onde pai e mãe traçam destinos para seus filhos/as, e no decorrer desta trajetória nem sempre o destino traçado é correspondido, principalmente no caso de filhos/as Trans. Inicia-se aí o primeiro ato de violência contra a pessoa Travesti/Transexual. O segundo e talvez o maior trauma na vida das pessoas Travestis e Transexuais encontra-se no ambiente escolar regular, onde na quase totalidade as pessoas trans, por não corresponderem aos constructos sociais pré-estabelecidos acabam evadindo do processo de ensino aprendizagem e, assim, na continuação de suas trajetórias.

A consciência entre a modificação das circunstâncias e a (auto)modificação só pode ser entendida racionalmente como práxis revolucionária, isto quer dizer que não se trata de esperar milagrosamente que um indivíduo transforme circunstâncias, mas sim um coletivo que “supostamente” encontra-se fora da sociedade.

Assim as ações do dia 29 de janeiro da Visibilidade Travesti/Transexual que ocorrem em todo o Brasil são ações legítimas, pois são idealizadas por coletivos institucionais e pessoais que tem o mesmo objetivo: que é lutar para fortalecer a cidadania da população Trans do Brasil, que foi negada durante a história da nação à qual pertencemos. Quando falamos em (in)visibilidade podemos perceber que no decorrer de todas as outras épocas do ano a população de Travestis e Transexuais do Brasil continua na luta para o reconhecimento da visibilidade e da ocupação de espaços e de práticas cotidianas sociais. Luta  que na maioria das vezes é barrada por um Estado fundamentalista e uma sociedade cis-normativa e conservadora.

As pessoas Travestis e Transexuais não possuem um “botão: tornar visível – tornar invisível”. As pessoas trans tem por direito constitucional experimentar todas as ofertas propostas pelos mais diversos seguimentos sociais, sejam públicos das três esferas governamentais, ou ainda organismos da sociedade privada. Travestis e Transexuais são pessoas humanas, e sim devem ter visibilidade em todos os espaços e em todas as práticas sociais como família, educação, mercado de trabalho, saúde, segurança […].

A Violência que invade a vida das pessoas Travestis e Transexuais para a mídia é apenas um fantasma, colocado à sombra. Isso pode ser justificado pelo opressor como uma legitimidade e uma não prioridade na pauta de discussões, como se isso fosse parte do processo civilizador, onde Travestis e Transexuais não se enquadram nesse processo. Para finalizar esse momento/texto de discussão sobre a violência sofrida pelas pessoas Travestis e Transexuais, notamos ainda que na hora do óbito, o empoderamento do corpo, a autenticidade e a construção da identidade de gênero é deslegitimada. Muitas pessoas trans são descontruídas e desempoderadas, sendo enterradas como o alheio conservador e heteronormativo/cis-normativo determina, desrespeitando toda uma trajetória histórica pessoal.

Assim a pessoa trans é referencial de empoderamento do próprio corpo e da própria identidade, marcando visibilidade não apenas no dia 29 de janeiro, mas sim em toda a sua trajetória de vida.

Autora

Andreia Lais Cantelli é professora de história, mestranda em Educação na UFPR e desestabilizadora da cis-normatividade.

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Trans, organizada pelo site Transfeminismo.