Sobre o limbo entre a invisibilidade e o ridículo

Texto de Gabriela de Jesus.

“Capoeira que é bom sabe cair.”

Há uns anos atrás frequentei um projeto de capoeira em Guarulhos e a princípio entrei no grupo para aprender a tocar os instrumentos, mas a professora e o mestre primavam que todos tinham que saber fazer tudo, então comecei a treinar. Logo no primeiro treino, levei um golpe e cai, óbvio. FOI HORRÍVEL!

Nossa, não queria nunca mais entrar na roda, não queria ter que passar por aquilo de novo e constatei uma coisa muito interessante: EU TENHO PAVOR DE CAIR. Ninguém é afeito a cair infinitamente, mas enquanto os outros caiam e riam de si, se animavam em continuar, eu ficava eternamente envergonhada, sem saber como lidar e passei a refletir sobre essa diferença. Percebi que por ser gorda, cair é quase que um pavor constante por ser justamente a hora que as pessoas mais usam para nos ridicularizar.

Quer ver um exemplo? Quando uma pessoa magra entra num bar/ restaurante/sala de aula ela olha a cadeira e analisa se vai aguentá-la ou não? Toda vez, toda vez? Pois bem, se um magro sentar na cadeira e ela quebrar é porque a cadeira estava quebrada, agora se uma pessoa gorda sentar na cadeira e cair ela deixa de ser um “corpo invisível” para o “corpo ridículo”: Também olha o tamanho dela, não se enxerga. Come feito um boi, quer o quê? (Mesmo que nem tenha ideia do quanto a pessoa coma e isso realmente não tem a ver com ela). Também pra essa pessoa a cadeira tem que ser de ferro!!! RISOS RISOS RISOS INFINITOS RISOS nunca a alternativa da cadeira estava quebrada aparece.

Tenho refletido muito sobre como ser gorda desde sempre afetou a construção da minha subjetividade e como tenho como situações desagradáveis algo que para as pessoas é comum e até banal.

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A experiência do amor compartilhado e o autocuidado na luta contra as opressões

Texto de Ana Nery para as Blogueiras Feministas.

“A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar”. Essa frase é da ativista norte-americana bell hooks no texto “Vivendo de amor”, em que atravessa os sentidos e aguça muitas reflexões sobre nossas formas de amar. Às vezes me pergunto: como nos conhecer bem e nos afirmar numa sociedade erguida com pilares tão machistas, racistas e classistas?

Cresci com minha mãe falando que muitas vezes teve que reprimir o seu sotaque nordestino para que as pessoas não fossem tão hostis em determinados espaços e para que ela conseguisse arrumar um trabalho nas cidades que moramos. Minha mãe é do interior do Ceará.

Cresci com minha mãe falando que ser pobre não significa ser uma pessoa suja, mal educada e burra. Porque em sua trajetória e experiência de vida, não ter dinheiro e posses significava não “ser gente”. Morar em casa de taipa, ser da roça, era ser invisível. Passar fome era vergonhoso.

Cresci ouvindo minha mãe falando que durante toda sua infância e adolescência andava com o cabelo preso ou feito trança para que as pessoas não falassem que era “ruim”. E depois na juventude, passava muito óleo de coco para não ouvir que seus cabelos eram secos, para que as outras garotas da escola e do bairro não dissessem que seu cabelo era “duro”. Tinha vergonha e se sentia mal porque ouvia das outras pessoas que de nada adiantava ser tão bonita e ter o cabelo “duro e ruim”.

Cresci ouvindo minha mãe falando que quando chegava alguém de fora em sua casa ela tinha que se esconder das visitas e ficar o tempo todo na cozinha para que os homens não olhassem para ela, pois seus irmãos não deixavam ela aparecer, alegando serem cuidadosos. Mais tarde, com a ilusão de que o casamento lhe daria liberdade, novamente foi cerceada, tendo que escolher entre o trabalho e o casamento.

A repressão dos sentimentos — de quem somos e como somos — está para nossa vida como a navalha está para a carne. A partir das diversas experiências que temos na vida, nós mulheres, sobretudo as de classes econômicas baixas que vivenciam o recorte racial e são marcadas pelo sexismo, trazemos como herança uma carga de opressão histórica que se acumula em nossas percepções de vida e faz com que seja difícil e doloroso algo que deveria ser tão simples e primário: se conhecer e se amar antes de tudo!

Marcha das Vadias de João Pessoa/PB, 2014. Foto de Felipe Ramos/G1.
Marcha das Vadias de João Pessoa/PB, 2014. Foto de Felipe Ramos/G1.

Nesse texto, bell hooks fala que: “Para nos amarmos interiormente, precisamos antes de tudo prestar atenção, reconhecer e aceitar essa necessidade. Se acreditarmos que não seremos punidas por reconhecermos quem somos ou o que sentimos, poderemos entender melhor nossas dificuldades”. No entanto, temos tanto o que fazer, que reparar, que cuidar, que esconder, que reprimir e ocultar para sobreviver, que as necessidades do cuidado com nossa saúde emocional fica esquecido. Hooks também fala que esse cuidado é tão importante quanto o movimento de lutar contra o racismo e o sexismo e que na verdade essas duas experiências são interligadas.

Penso que o fortalecimento da nossa autoestima e amor interior, em meio a esse contexto tão repressivo e contraditório, pode ser menos doloroso quando compartilhamos a experiência com o coletivo. Ouvir, falar e refletir com outras mulheres que possuem trajetórias tão diversas, e que se entrecruzam com as nossas, fortalece aos poucos nossa capacidade de resistência e de amar, a nós mesmas e as outras pessoas.

A experiência da coletividade nos permite compartilhar nossas histórias, sentimentos, angústias, dores ou sucessos, que muitas vezes ficam guardados, escondidos. Como não somos preparadas, nem acostumadas a cuidar de nossa saúde emocional, vamos acumulando tanto que um dia nos tornamos vulcões em erupção. A erupção da depressão, da angústia, do silenciamento, da invisibilidade, do corpo físico doente, patologizado.

Quando experiências como essas podem nos brindar com histórias inspiradoras, o choro compartilhado, os sorrisos de alívio e abraços altruístas nos fortalecem e provam que a experiência do amor é possível, que as heranças acumuladas por nossas histórias familiare e de vida podem ser menos dolorosas.

O resultado de quem somos e do que nos tornamos, a partir das nossas experiências, faz a vida menos árdua quando compartilhamos boas trocas e quando a fala, sobretudo no caso de mulheres, é menos cerceada. A expressão “falar pelos cotovelos” parece uma brincadeira despretensiosa, no entanto, para uma mulher que traz consigo o peso da fala reprimida de tantas gerações de silenciamento, mostra-se repressiva.

Falar de nós mulheres, entre nós, para nós sobre nossas experiências e sentimentos, como bem ressalta bell hooks, é um dos caminhos mais importantes para vencermos o racismo, o machismo e o sexismo. E, ela nos alerta que em nosso processo de descolonização precisamos definir nossas experiências de forma que outros entendam a importância de nossa vida interior: “se passarmos a explorar nossa vida interior, encontraremos um mundo de emoções e sentimentos. E se nos permitirmos sentir, afirmaremos nosso direito de amar interiormente. A partir do momento em que conheço meus sentimentos, posso também conhecer e definir aquelas necessidades que só serão preenchidas em comunhão ou contato com outras pessoas”.

Então, vamos falar, cantar, sussurrar, gritar… A experiência de pensar, refletir e trocar a partir coletividade pode ser o melhor caminho: “Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura”, já dizia bell hooks.

Feminismo, Militância e Autocuidado

Texto de Manuela Melo para as Blogueiras Feministas.

A nós mulheres foi delegado o cuidado. O cuidado da casa, dos filhos e filhas, dos irmãos e irmãs, do marido, dos animais domésticos. O cuidado na profissão: somos maioria na enfermagem, no serviço social, na pedagogia. O cuidado (dos outros) perpassa nossa realidade desde muito cedo.

Quando as mulheres brancas de classe média alta saíram de casa para “trabalhar” (como dizem, né, porque sabemos que em casa o que se faz é trabalho também), passaram a pagar (muito pouco) outras mulheres (muitas vezes negras e sempre pobres) para fazer o cuidado. Com a casa, com filhos/as, animais. O cuidado pode ser menos rotina na vida de algumas mulheres que de outras, mas segue sendo uma atividade implacavelmente feminina, por conta do patriarcado e da divisão sexual do trabalho.

Foto de Eduardo Fonseca Arraes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Eduardo Fonseca Arraes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

As mulheres reivindicam há muitas décadas o espaço público. O espaço político, institucional, a participação e reconhecimento nos movimentos sociais, no trabalho, na mídia. Queremos, com razão, ocupar a rua, espaço historicamente masculino. A rua era deles, a casa, nossa — e digamos, nem isso, porque por séculos nos foi negado inclusive o direito de propriedade. Queremos o espaço público e por isso ainda hoje saímos às ruas para dizer: O corpo é meu, a cidade é nossa!

Reivindicar o espaço público não é negar o privado. É negar, em verdade, a dicotomia público-privado, que só serve à desvalorização do chamado espaço privado, espaço destinado a nós historicamente. Faz tempo que se diz que o pessoal é político, isto é, o que se faz no “privado” tem conotações políticas, de opressão e dominação. E que o político é pessoal: as relações políticas precisam considerar as dimensões dos sentimentos, da emoção, da vivência subjetiva das pessoas.

Não devemos negar o cuidado. O cuidado é essencial, e é por isso que o patriarcado o mantém tão intacto. Não há como viver sem cuidado. Não há porque viver sem cuidado. O cuidado nos fortalece para a luta. O cuidado faz parte da luta.

Nesse sentido, se cuidar é uma tarefa militante. Vivemos em um mundo capitalista de fluxo de informações e pressão pela produtividade que nos oprime na dimensão subjetiva e objetiva e nos ameaça a saúde física e mental.

As mulheres militantes, em geral, são responsáveis pelas atividades de cuidado da casa, dos/as filhos/as, do seu trabalho fora de casa, da sua capacitação e educação (mais mulheres têm educação formal que homens, mas isso não se reflete na oferta de empregos para nós, então em geral nos capacitamos cada vez mais para tentar, sem sucesso, compensar essa diferença), e também das atividades militantes. Para além da tal dupla jornada de trabalho. Para muito além.

As atividades militantes também envolvem cuidados. Cuidados com os companheiros e companheiras, com as populações oprimidas: com as mulheres vítimas de violência doméstica, com os drogadictos, com as mulheres que abortam; e o cuidado com o próprio funcionamento da atividade desenvolvida.

Nessa tripla ou quádrupla jornada de trabalho e de cuidado, em que momento cuidamos de nós? Esquecemos de nossa saúde física e mental. De nosso lazer, de nosso crescimento pessoal, de nossa conexão com as pessoas. Acabamos, muitas, vezes, adoecendo fisicamente, ou em depressão, por dedicarmos nosso tempo ao externo e negarmos a nós mesmas o cuidado que também merecemos.

Foucault dizia que não é preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. Mas as coisas que combatemos são mesmo abomináveis. As pessoas morrem de fome, são estupradas, assassinadas por homofobia, não têm onde morar, são assassinadas pela polícia, são internadas contra a sua vontade — e a lista é infinita. Militar é se confrontar com o que há de pior no mundo, porque na práxis militante nós vamos aos poucos entendendo melhor como o mundo funciona e ele funciona abominavelmente. Militar é uma tarefa de resistência, porque somos reprimidos pelo estado, pela ideologia dominante, pela mídia, ….e a lista segue. Para resistir é preciso força. Para termos força é preciso cuidado. Já dizia a Gal Costa: é preciso estar atenta e forte.

Como fazer para manter as esperanças, a vontade de viver e de mudar o mundo, quando todos os dias nos reprimem e machucam? É preciso cuidado. Cuidado individual e coletivo. O cuidado deve ser uma tarefa comunitária. Não há relação que seja meramente política. sua(seu) companheira(o) de militância deve te cuidar e você deve cuidar dele também, para que sigamos nos fortalecendo, resistindo e crescendo. Então, repito, cuidar é uma tarefa militante.

E não achemos que o cuidado é egoísmo, perda de tempo, coisa de pequena burguesia; isso só faz reproduzir as estruturas patriarcais capitalistas de cuidado (as mulheres vão seguir cuidando dos outros e não de si) e nos enfraquece perante nossos adversários na luta social, que estão todos muito bem cuidados pelas mulheres que eles pagam para isso.

Emma Goldman uma vez disse que “Se eu não posso dançar, não é a minha revolução”. E é essa a verdade. Não podemos reproduzir a lógica de trabalho capitalista que nos impõe modelos de produtividade e meritocracia em nossa atividade militante. Se não podemos ter lazer, amor, se não podemos nos cuidar, não é a nossa revolução.

Mulheres, cuidem-se. O auto-cuidado é uma tarefa revolucionária!

Autora

Manuela Melo é estudante de Direito da UnB. Mulher negra, nordestina, militante feminista intersecional e que tem coragem de sonhar e lutar com um mundo sem opressões.