Sobre o limbo entre a invisibilidade e o ridículo

Texto de Gabriela de Jesus.

“Capoeira que é bom sabe cair.”

Há uns anos atrás frequentei um projeto de capoeira em Guarulhos e a princípio entrei no grupo para aprender a tocar os instrumentos, mas a professora e o mestre primavam que todos tinham que saber fazer tudo, então comecei a treinar. Logo no primeiro treino, levei um golpe e cai, óbvio. FOI HORRÍVEL!

Nossa, não queria nunca mais entrar na roda, não queria ter que passar por aquilo de novo e constatei uma coisa muito interessante: EU TENHO PAVOR DE CAIR. Ninguém é afeito a cair infinitamente, mas enquanto os outros caiam e riam de si, se animavam em continuar, eu ficava eternamente envergonhada, sem saber como lidar e passei a refletir sobre essa diferença. Percebi que por ser gorda, cair é quase que um pavor constante por ser justamente a hora que as pessoas mais usam para nos ridicularizar.

Quer ver um exemplo? Quando uma pessoa magra entra num bar/ restaurante/sala de aula ela olha a cadeira e analisa se vai aguentá-la ou não? Toda vez, toda vez? Pois bem, se um magro sentar na cadeira e ela quebrar é porque a cadeira estava quebrada, agora se uma pessoa gorda sentar na cadeira e cair ela deixa de ser um “corpo invisível” para o “corpo ridículo”: Também olha o tamanho dela, não se enxerga. Come feito um boi, quer o quê? (Mesmo que nem tenha ideia do quanto a pessoa coma e isso realmente não tem a ver com ela). Também pra essa pessoa a cadeira tem que ser de ferro!!! RISOS RISOS RISOS INFINITOS RISOS nunca a alternativa da cadeira estava quebrada aparece.

Tenho refletido muito sobre como ser gorda desde sempre afetou a construção da minha subjetividade e como tenho como situações desagradáveis algo que para as pessoas é comum e até banal.

Continue lendo “Sobre o limbo entre a invisibilidade e o ridículo”

A autoestima da mulher negra

Texto de Fernanda Pedroza para as Blogueiras Feministas.

Fernanda, carioca, moreninha, cabelo ruim, companheira e amorosa. Essa foi a definição simplificada do que consigo me lembrar de como me considerava quando criança, estudando em uma escola quase que exclusiva de pessoas brancas em Curitiba.

Poderia falar de mil maneiras que essa definição afetou minha autoestima. O fato de ser “moreninha de cabelo ruim” não me afetou tanto quanto em algumas crianças que se esfregam com a bucha para ficarem brancas, mas me afetou de outras maneiras… Quando adolescente não me sentia bonita ou atraente com meu cabelo natural, o que me levava a fazer escova para me sentir mais autoconfiante. E quando me elogiavam pela beleza eu não acreditava ou questionava, não por modéstia, mas porque eu não me sentia assim.

As revistas de beleza, de moda ou até catálogo de produtos tinham várias mulheres, mas não tinha mulher negra. Como eu podia me sentir bonita ou gostar de mim se não me via representada em lugar nenhum? Acho que se eu apenas não visse não seria tão ruim… Acontece que, não só eu não via mulheres negras em lugares de destaque, como quando aparecia era sempre no papel de empregada ou sendo humilhada e rebaixada. Durante a infância e adolescência absorvemos muitas coisas que vemos no mundo. Que tipo de coisa você acha que eu pude absorver sobre “ser mulher negra”?

Continue lendo “A autoestima da mulher negra”

A autoestima e a coletividade

Texto de Patricia Guedes para as Blogueiras Feministas.

Ame seu corpo. Abrace suas curvas. Liberte seus cachos.

Isso agora tá escrito em vários lugares por aí. Tá na moda dizer que você é responsável pelo seu bem estar, pela sua saúde e pela sua autoestima, como se a coletividade que nos rodeia não tivesse nenhuma relação. Só tem um pequeno detalhe: a relação com o corpo é dialética. O que significa isso?

Imagem do Coletivo Além. Parte do ensaio 'Nus que aqui estamos por vós esperamos'.
Imagem do Coletivo Além. Parte do ensaio ‘Nus que aqui estamos por vós esperamos’.

Significa que é impossível amar seu corpo se o tempo inteiro você é olhada na rua como aberração.

Significa que não dá pra amar seu corpo se em todas as revistas de moda não tem roupas nem sapatos que você possa usar — ou por causa do tamanho, ou por causa do preço.

Significa que é inviável amar seu corpo quando “tem roupas que pedem um salto alto” ou “mulher sem salto não é mulher” e, tchanan! O salto alto não é para você.

Significa que é complicado amar seu corpo se o corpo que tem manchas, rugas, gravidade, deformidades, cicatrizes e celulite é considerado anormal e abjeto.

Significa que fica bem difícil amar seu corpo se você usa cadeira de rodas, é careca, ou apresenta alguma deformidade e só recebe olhares paternalistas de volta.

Significa que é bem difícil abraçar suas curvas quando a gordura é demonizada, odiada e ossos são idolatrados, mesmo que você precise de um transtorno alimentar para atingir este corpo.

Significa que não há como amar suas curvas se no seu trabalho você é xingada, discriminada, excluída por ter mais gordura do que o Tribunal do Whey Protein determinou.

Significa que as suas curvas só serão aceitas se elas não forem masculinizadas, como se mulheres trans* não fossem mulheres.

Significa que não tem como amar suas curvas se lá fora dizem que quem gosta de osso é cachorro.

Significa que não é possível libertar seus cachos se eles são considerados ruins(?) e analogamente comparados a instrumentos de limpeza.

Significa que não dá para se livrar da química nos cachos quando eles são constantemente relacionados a desleixo na aparência e sujeira — e você ainda pode perder o seu emprego por causa disso.

Em suma, é fácil jogar nos ombros de cada pessoa a responsabilidade por se livrar dos quilos e quilos de absurdos que temos acesso todos os dias.

A coletividade é responsável sim pela relação que temos com o nosso corpo — seja ela de amor ou de ódio. Não dá para sermos as únicas responsáveis pelo amor que se direciona a nós mesmas e aos nossos corpos, quando ódio é tudo que recebemos como resposta.

Não dá para exigirmos que todas nos vejamos como “lindas” enquanto os corpos não tiverem o mesmo valor, inclusive estético. Gracyanne Barbosa, Beth Ditto, Lizzy Velázquez, Chantelle Winnie e Laverne Cox precisam, todas elas, nos representar de alguma forma. Essa contrapartida precisa partir do coletivo, ainda que façamos, individualmente, a nossa parte.

Amem os corpos. Abracem as curvas. Libertem os cachos. No coletivo mesmo.