A autoestima da mulher negra

Texto de Fernanda Pedroza para as Blogueiras Feministas.

Fernanda, carioca, moreninha, cabelo ruim, companheira e amorosa. Essa foi a definição simplificada do que consigo me lembrar de como me considerava quando criança, estudando em uma escola quase que exclusiva de pessoas brancas em Curitiba.

Poderia falar de mil maneiras que essa definição afetou minha autoestima. O fato de ser “moreninha de cabelo ruim” não me afetou tanto quanto em algumas crianças que se esfregam com a bucha para ficarem brancas, mas me afetou de outras maneiras… Quando adolescente não me sentia bonita ou atraente com meu cabelo natural, o que me levava a fazer escova para me sentir mais autoconfiante. E quando me elogiavam pela beleza eu não acreditava ou questionava, não por modéstia, mas porque eu não me sentia assim.

As revistas de beleza, de moda ou até catálogo de produtos tinham várias mulheres, mas não tinha mulher negra. Como eu podia me sentir bonita ou gostar de mim se não me via representada em lugar nenhum? Acho que se eu apenas não visse não seria tão ruim… Acontece que, não só eu não via mulheres negras em lugares de destaque, como quando aparecia era sempre no papel de empregada ou sendo humilhada e rebaixada. Durante a infância e adolescência absorvemos muitas coisas que vemos no mundo. Que tipo de coisa você acha que eu pude absorver sobre “ser mulher negra”?

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A autoestima e a coletividade

Texto de Patricia Guedes para as Blogueiras Feministas.

Ame seu corpo. Abrace suas curvas. Liberte seus cachos.

Isso agora tá escrito em vários lugares por aí. Tá na moda dizer que você é responsável pelo seu bem estar, pela sua saúde e pela sua autoestima, como se a coletividade que nos rodeia não tivesse nenhuma relação. Só tem um pequeno detalhe: a relação com o corpo é dialética. O que significa isso?

Imagem do Coletivo Além. Parte do ensaio 'Nus que aqui estamos por vós esperamos'.
Imagem do Coletivo Além. Parte do ensaio ‘Nus que aqui estamos por vós esperamos’.

Significa que é impossível amar seu corpo se o tempo inteiro você é olhada na rua como aberração.

Significa que não dá pra amar seu corpo se em todas as revistas de moda não tem roupas nem sapatos que você possa usar — ou por causa do tamanho, ou por causa do preço.

Significa que é inviável amar seu corpo quando “tem roupas que pedem um salto alto” ou “mulher sem salto não é mulher” e, tchanan! O salto alto não é para você.

Significa que é complicado amar seu corpo se o corpo que tem manchas, rugas, gravidade, deformidades, cicatrizes e celulite é considerado anormal e abjeto.

Significa que fica bem difícil amar seu corpo se você usa cadeira de rodas, é careca, ou apresenta alguma deformidade e só recebe olhares paternalistas de volta.

Significa que é bem difícil abraçar suas curvas quando a gordura é demonizada, odiada e ossos são idolatrados, mesmo que você precise de um transtorno alimentar para atingir este corpo.

Significa que não há como amar suas curvas se no seu trabalho você é xingada, discriminada, excluída por ter mais gordura do que o Tribunal do Whey Protein determinou.

Significa que as suas curvas só serão aceitas se elas não forem masculinizadas, como se mulheres trans* não fossem mulheres.

Significa que não tem como amar suas curvas se lá fora dizem que quem gosta de osso é cachorro.

Significa que não é possível libertar seus cachos se eles são considerados ruins(?) e analogamente comparados a instrumentos de limpeza.

Significa que não dá para se livrar da química nos cachos quando eles são constantemente relacionados a desleixo na aparência e sujeira — e você ainda pode perder o seu emprego por causa disso.

Em suma, é fácil jogar nos ombros de cada pessoa a responsabilidade por se livrar dos quilos e quilos de absurdos que temos acesso todos os dias.

A coletividade é responsável sim pela relação que temos com o nosso corpo — seja ela de amor ou de ódio. Não dá para sermos as únicas responsáveis pelo amor que se direciona a nós mesmas e aos nossos corpos, quando ódio é tudo que recebemos como resposta.

Não dá para exigirmos que todas nos vejamos como “lindas” enquanto os corpos não tiverem o mesmo valor, inclusive estético. Gracyanne Barbosa, Beth Ditto, Lizzy Velázquez, Chantelle Winnie e Laverne Cox precisam, todas elas, nos representar de alguma forma. Essa contrapartida precisa partir do coletivo, ainda que façamos, individualmente, a nossa parte.

Amem os corpos. Abracem as curvas. Libertem os cachos. No coletivo mesmo.

Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho que hoje eu passei batom vermelho

Texto de Nina Spim.

Não sou super vaidosa. Acho que ser vaidosa demais dá trabalho e demanda tempo e eu gosto da praticidade, da economia de minutos, porque sou do tipo que vive atrasada. Mas, quando vivo períodos de estresse extremo e me sinto com a autoestima baixa, recorro de bom humor à maquiagem. Às vezes, um vestido novo quebra um galho na hora de se sentir para cima, mas, no meu caso, nada como melhorar pelo menos um pouquinho o aspecto do meu rosto, que oscila entre o “cansada” e o “cara de panda”. E, para tanto, recorro a um batom.

Foto de Silvana 7 no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Silvana 7 no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Não, não sou maníaca por batons. Tenho o suficiente para não ser a-menina-de-um-só-batom, por exemplo. Mas, ah, eles tingem a nossa alma por fora! Revelam demais como nos sentimos por dentro, acredito. Para as românticas, nada como um tom suave de rosa. Para as “alternativas”, uma cor de vinho manda a sua mensagem. E, para aquelas que precisam de um up no humor, um vermelho.

Vermelho, sim! E não tem nada a ver com chamar a atenção de um homem – acredite, é o que as pessoas pensam. Que as mulheres resolvem passar batom vermelho com o intuito puramente sexual. Afinal, pra que a gente se arrumaria, não é mesmo? Certamente, não é para nos sentirmos melhores depois de uma super semana de provas na faculdade. Mulher vive para o homem. É assim desde que o mundo é mundo.

Eu uso batom vermelho para devolver um tapa na cara da vida, e só. É porque, para mim, nada mais importante do que eu me sentir bem comigo mesma. O efeito de estar em paz consigo mesma é purificador. E não tem nada de errado em querer se sentir um pouco mais bonita. Usar qualquer tipo de maquiagem deveria ser uma escolha, antes de tudo. Porém, há pessoas que são obrigadas, seja pela profissão, seja por pressão social. Conheço pessoas que não usam e muita gente que só quer tomar conta da vida alheia se espanta. Afinal, para uma mulher deveria ser natural se simpatizar com esses artifícios, certo? Toda mulher tem que ser vaidosa e feminina, ponto final. Tem que responder às expectativas das outras mulheres, dos homens e da sociedade. E, num mundo onde sair sem maquiagem a faz parecer “com cara de sono”, aquelas que o fazem tomaram uma escolha, assim como eu, ao usar o meu batom vermelho.

Mulheres continuam sendo mulheres com ou sem a ajuda maquiagens. E não tem nada a ver com um batom vermelho. Mulheres continuam sendo mulheres com ou sem a ajuda maquiagens. E não tem nada a ver com a cor do batom. Nem mesmo quando ele é vermelho.

Autora

Nina Spim tem 22 anos. Cursa Jornalismo na PUC/RS, adora as palavras, mora nos livros, gosta de cinema como um esporte, é seriadora aos fins de semana e escritora compulsiva. Autora dos contos “Heart and Love” e “Coisas, definitivamente, de Amélia” das Antologias: Amor nas Entrelinhas e Aquarela, respectivamente, pela Adross Editora. Dona do blog: Nina é uma.