Um brinde à sua saúde: 5 dicas para mulheres bissexuais melhorarem sua saúde e bem estar

Texto de Audrey Faye. Publicado originalmente com o título: “Here’s To Your Health: 5 Ways Bisexual Women Can Pursue Better Health & Wellness”, no site Autostraddle em 31/03/2015. Tradução de Jéssica Alves e revisão de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Os números são evidentes: mulheres bissexuais correm maior risco de terem a saúde mental e física prejudicadas, estão mais propensas à pobreza, vício, violência e, com frequência, estão sujeitas à discriminação dentro do sistema de saúde. Porém, não somos obrigadas a aceitar assistência médica de baixa qualidade ou negligência. Felizmente, a Comunidade Bi está se unindo para propor melhorias na conscientização e no acesso ao sistema de saúde.

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SENALE/SENALESBI: 20 anos de luta e desconstrução do machismo, do racismo e da LBfobia

Texto de Marinalva Santana para as Blogueiras Feministas.

Entre os dias 09 e 12 de junho de 2016, Teresina, capital do Piauí, sediou o 9° Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais – SENALESBI. Esta edição do Seminário foi a primeira a garantir o co-protagonismo das mulheres bissexuais, inclusive no nome e na sigla.

Como sabemos, da primeira à 7° edição do evento usava-se o nome: Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE. No 8° Seminário, realizado em 2014, na cidade de Porto Alegre, usou-se o nome: Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais, mas a sigla SENALE foi mantida. Na plenária final de Porto Alegre, reconhecendo que as mulheres bissexuais estiveram presentes desde a primeira edição do evento, mas eram invisibilizadas, inclusive no nome do Seminário, deliberou-se pela mudança do nome, que passaria a ser chamado, a partir desta edição do Piauí: SEMINÁRIO NACIONAL DE LÉSBICAS E MULHERES BISSEXUAIS – SENALESBI.

Em duas décadas de existência, o Seminário se consolidou como o maior e mais importante evento do segmento de lésbicas e mulheres bissexuais no Brasil. Além de favorecer o encontro de idéias e proposições, oportuniza a elaboração de estratégias de atuação conjunta que visam garantir e ampliar direitos de lésbicas e mulheres bissexuais.

O 9° SENALESBI aconteceu em uma conjuntura adversa, posto que o avanço das pautas conservadoras tem contribuído para a ameaça de muitas conquistas alcançadas ao longo de nossa organização. Com o tema “20 anos de luta e desconstrução: desafios e perspectivas”, o Seminário mobilizou mais de 170 mulheres de todas as unidades Federação, exceto Amapá e Rondônia.

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O B, o T e outras letrinhas no mundo nefasto da LGBTfobia

Texto de Bárbara Araújo para as Blogueiras Feministas.

Da sigla LGBT, o B e o T têm algumas coisas em comum. Uma delas é a capa de invisibilidade. O T tem sido sistematicamente abandonado pela letrinha dominante no movimento e pela sociedade como um todo. O desconhecimento e a falta de compreensão social em relação a esse grupo resulta na intolerância, no desprezo e na violência intensa: pessoas transgêneras são proporcionalmente as mais expostas a violência física e assassinatos dentre os grupos representados na sigla.

O B vive essa invisibilidade de outra forma. É simplesmente como se não existisse. Uma pessoa trans pode ser identificada visualmente algumas vezes. Uma pessoa bissexual, não. Não existe nada no jeito, na cara de uma pessoa que a identifique para a sociedade como bissexual. Nem mesmo quando a pessoa se assume verbalmente como bissexual a sociedade a identifica como bissexual. Renato Russo disse naquela música: “eu gosto de meninos e meninas”. Mas a sociedade continuou classificando-o como gay.

Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.
Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.

Quando uma pessoa diz que é bissexual, a sociedade lhe responde que ela está confusa. Mesmo o mais progressista dos grupos, mesmo muitos dos militantes pró-LGBT têm grande dificuldade de aceitar – de enxergar – a bissexualidade. Ou você é hétero ou é gay ou é lésbica. Se a sua vida inteira você é uma mulher que se relacionou com homens e passa a se relacionar com uma mulher, entende-se que você “virou lésbica”. Se você é um homem e a vida inteira se interessou por mulheres, mas percebe que sente desejo por um homem, você certamente “virou viado”. Não é costumeiro considerar que você pode não ter “virado” nada, mas que seja bi. Essa possibilidade é simplesmente invisível. No cotidiano, na mídia, dentro da nossa cabecinha. Quantas pessoas bissexuais você conhece? Quantos personagens de filmes e séries são bi? Quantas vezes a bissexualidade é abordada na mídia?

Isso porque, além de heteronormativa, na nossa sociedade a monossexualidade também é compulsória. Ou seja: só pode gostar de um gênero. Ser bissexual é gostar de mais de um gênero. E isso não pode. Aliás, isso não existe. A proposta de que se pode gostar de vários gêneros – não só dois, mas vários – deixa nossa mentalidade binarista perdidinha.

Recentemente, me reuni com uma amiga que é professora de sociologia para organizarmos nossa fala num debate que ocorreu na escola em que trabalhamos sobre a cultura do estupro. Ela me disse que pensava em falar sobre a importância de nomear as coisas: identificar uma situação de assédio ou abuso sexual e nomeá-la devidamente, não ficar em dúvida ou incerto. Identificar e nomear as coisas é poderoso.

Também recentemente, a escola em que trabalhamos esteve na mídia mais uma vez. Dessa vez, estudantes e professoras/es foram ao programa Encontro com Fátima Bernardes para falar (muito rapidinho, infelizmente) sobre a garantia do uso do nome social por estudantes transgeneres. A fala do Rai, pessoa querida e brilhante com quem tenho o prazer de conviver desde que comecei a trabalhar nessa escola, me fez pensar muito. Ele disse que você nunca imagina que você é trans porque você nunca ouviu falar disso na sua vida. Isso ficou ressoando na minha cabeça e me levou a pensar que é justamente isso que o B e o T têm em comum na sigla, como disse na historinha que abriu esse texto.

Eu nunca tinha imaginado que eu era bissexual durante toda a minha adolescência… porque nunca tinha ouvido falar disso. Não conhecia ninguém que fosse, na escola ninguém falava nisso, minha família nunca mencionou isso; enfim, ninguém nunca tinha me dito que isso era uma possibilidade.

Há pessoas que acham que falar de gênero e sexualidade na escola vai fazer as crianças “virarem” gays ou bi ou trans. Mas pelo contrário. Falar de gênero e sexualidade na escola é apresentar as possibilidades de ser, é mostrar um caminho pra quem sabe que é diferente, pra quem se sente diferente, mas não sabe porquê, não conhece sua própria identidade. E isso traz muito, muito sofrimento. Enquanto entender, conhecer e saber nomear é poderoso, empoderador, é um alívio.

Minha vida teria sido outra se minha escola tivesse discutido sexualidade. Hoje sou professora nessa mesma escola e vejo esse debate acontecendo, como resultado da luta de estudantes e professoras/es. Isso precisa acontecer em todo espaço educativo. Projetos de lei como os da Escola sem Partido e aqueles que denunciam uma “ideologia de gênero” são ameaças graves àqueles grupos que já se encontram minoritários em termos de direitos no espaço escolar e na sociedade como um todo. A educação para a diversidade é urgente num contexto onde um assassinato em massa por homofobia tem sido tratado como um caso de “terrorismo islâmico”. A capa de invisibilidade que cobre a transgeneridade e a bissexualidade é a mesma que cobre a própria homofobia e o sexismo em um caso como o massacre de Orlando.

É por isso que precisamos, urgentemente, falar sobre gênero. Precisamos urgentemente afirmar nossa identidade LGBT. Afirmar nossa existência frente à capa de invisibilidade fornecida pela bifobia e pela transfobia. Para nós existir, sobreviver já são formas de resistência. Nos posicionar publicamente sobre quem somos é um ato de coragem.