Trans não-binário e bissexual, presente

Texto de Klaus para as Blogueiras Feministas. 

Sabemos que basta uma pessoa se reconhecer bissexual, para que ela sofra toda sorte de apagamentos e discriminações possíveis. Principalmente dentro do próprio movimento LGBT. E não adianta virem com o discurso de que o inimigo é outro, porque militância e transformações sociais começam com autocrítica. Com arrumar a própria casa primeiro. Quando se é uma pessoa trans, o reconhecimento de sua própria bissexualidade se configura como um passe livre para que os outros se sintam no direito de inferir sobre a legitimidade da sua identidade. E para outros tantos, a letra T da sigla nem sexualidade tem… Somos duplamente apagados. Pela medicina, somos duplamente patologizados. E se você é trans não-binário, você sequer existe. Ainda mais se for bissexual.

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Sapatão Bissexual, prazer!

Texto de Jussara Cardoso para as Blogueiras Feministas. 

Sapatão, sapata, sapatona, caminhoneira, bofinha, fancha, masculina, entendida e outras palavras, são termos que ouço direcionados a mim desde criança. Fui uma criança sapata/sapatinha, sou hoje uma adulta sapatão. Boa parte da minha infância e adolescência, sempre preferia roupas consideradas masculinas. Gostava de brincar, correr, pular e quando estava de vestido não podia brincar com tanta liberdade. Então, odiava usar vestidos e saias. Mas o fato de eu odiar saias porque não me deixavam brincar usando elas, acredito não ter sido considerado por muitas pessoas. A conclusão óbvia era “essa menina vai ser sapatão”, afinal ela se veste “como um menino”. “Veste outra coisa, tá parecendo homem”, deve ter sido a frase que mais ouvi em toda a minha vida.

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A visibilidade trans em 2016

Texto de Sophia Starosta para as Blogueiras Feministas. 

A visibilidade trans está em situação emergencial. A visibilidade política da comunidade trans pode ser recente, mas esta ameaçada assim como a vida de mulheres trans e travestis está acentuadamente mais em risco em 2016. Com apenas 19 dias de 2016, mais de 50 mulheres trans e travestis foram assassinadas. Pense nesse número: quase três mulheres trans por dia, apesar da população relativamente pequena. Ao que parece, enquanto a sociedade por um lado se volta para as questões de gênero, tornar visível esta população também torna visível o número absurdo de mortes. E também incomoda, até dentro do feminismo, e põe em risco quem está em situação de maior fragilidade.

Os riscos não são só para travestis e mulheres trans: a violência contra a mulher negra aumentou assustadoramente em 2015 (embora a contra a mulher branca tenha diminuído). Estupros corretivos em mulheres lésbicas tem crescido também. Por que estes corpos são alvos? E o que eles tem em comum? Dentro da violência contra toda e qualquer mulher, o corpo marcado como feminino que ainda soma mais fatores de diferença recebe um nível maior de desprezo. A transfobia, por exemplo, mata quase que exclusivamente mulheres trans e travestis: os homens trans sofrem transfobia, mas não sofrem a violência que as mulheres trans e travestis sofrem. Talvez seja pelo desprezo social ao feminino, mesmo marginal: a idéia de “uma mulher” virar “homem” pode ser vista como “rídicula” mas natural, afinal quem não quer ser o “ser superior”? Merece quiçá pena, nunca terá o “sagrado falo” como um “homem de verdade”. Mas “um homem” que “vira mulher” é abominável pois como entender alguém que abdica da “superioridade” para ser “inferior”? Só pode ser doença. E como um cachorro doente, resta apenas “sacrificar o animal”.

Bandeira do orgulho trans.
Bandeira do orgulho trans.

As mulheres trans e travestis morrem por significar mais que só uma transgressão de gênero, mas um corpo representando o tão odiado feminino. E um feminino que não “nasce inferior” como a mulher cis (ou amapoa), mas “torna-se inferior” por “vontade própria” (na cabeça das pessoas). É claro que nenhuma dessas descrições representa a verdade da experiência trans: pessoas trans tem tanta escolha no seu gênero quanto pessoas cis. Apenas mostra visões sobre pessoas trans que são as bases para os níveis de violência. Pessoas trans as vezes são usadas como símbolos, além de objeto. São mortas como símbolos também: corpos expostos em lugares públicos, nuas, mutiladas quase que ritualisticamente, torturadas como quase que para mandar uma mensagem: “Que ninguém ouse abdicar do ser masculino e sua superioridade”.

Juntamente com as mulheres trans e travestis, existem outros femininos não hegemônicos, marginalizados, que são pesadamente afetados. Não são só as pautas trans que sempre foram pouco visíveis: a saúde e a sexualidade da mulher lésbica por exemplo, tem sido largamente ignorada. Será que uma sexualidade que não seja para o olho masculino incomoda? Incomoda e merece o desprezo numa sociedade androcêntrica. Precisamos entender que qualquer corpo marcado pelo feminino, até o do homossexual masculino afeminado, sofre algumas punições. E os corpos de mulheres trans, mulheres negras e  mulheres lésbicas tem sido sistematicamente invisibilizados e punidos. Estamos em um momento de extrema cautela dentro da comunidade trans, que por sinal, comporta mulheres trabalhadoras, mães solteiras, negras, lésbicas, além de claro, homens trans de todas as cores e sexualidades. Mas lembremos que existe um perfil: a maioria das mulheres trans e travestis mortas é negra, de classe baixa, e praticamente todas são prostitutas (o que não deveria surpreender visto quase 95% de toda a população de travestis e mulheres trans é profissional do sexo). No caixão não cabem caixinhas separando as pessoas como nas pautas políticas: o movimento social fala separadamente em direitos da mulher, direitos LGBT, direitos do trabalhador, direitos da população negra, etc. As mulheres e travestis mortas em 2016 não eram só trans: eram trabalhadoras, prostitutas, negras, periféricas. Suas mortes não são “só mortes trans”. E nos informam que sim, estamos vivendo no país mais transfóbico do mundo, e devemos lembrar disso, mas também que este é um país do feminícidio, do genocídio da juventude negra e racismo, da putafobia, etc. Estes números devem interessar mais que somente nós, pessoas trans, pois ele reflete ataques a diversos grupos e acima de tudo à dignidade humana, especialmente das diversas mulheridades. E deveriam importar sobretudo a todxs nós que nos dizemos feministas. Porque não pense que as mortes de jovens negros, mulheres trans e o projeto de lei de Eduardo Cunha não são relacionados: a autonomia corporal e identitária, segura e justa, para os corpos que estão “abaixo” na suprema hierarquia patriarcal, é a base de todas essas violências. É a mesma dominação que quer mandar em nossos corpos: alguns pra cozinha, outros pra senzala e outros pras esquinas. Infelizmente muitos para o cemitério.

Autora

Sophia Starosta é parte da Redtrans (Rede Nacional de Pessoas Trans), do NUPSEX da UFRGS e do Centro de referência em Direitos Humanos da UFRGS. Trabalhou como voluntária em organizações feministas e pelos direitos das pessoas trans em Montréal, Canadá. Também é atriz, escritora, ciborgue, batuqueira e sereia.