Ou a igualdade é para todas, ou não é igualdade

Texto de Tica Moreno.

Esse post é parte da blogagem coletiva pelo fim da impunidade, organizada como uma reação a esse caso: A procuradora e a empregada.

A procuradora do Trabalho Ana Luiza Fabero fechou um ônibus, entrou na contramão numa rua de Ipanema, no Rio de Janeiro, atropelou e imprensou numa árvore a empregada doméstica Lucimar Andrade Ribeiro, de 27 anos. Não socorreu a vítima, não soprou no bafômetro. Apesar da clara embriaguez, não foi indiciada nem multada. Riu para as câmeras. Ilesa, ela está em licença médica. A empregada, com costelas quebradas e dentes afundados, voltou a fazer faxina.

A que atropelou ainda foi parar na delegacia mas não se pode fazer nada contra ela, porque está previsto na lei que uma procuradora não pode ser indiciada em inquérito policial.

Classe. Taí um conceito que a gente não pode nunca esquecer. Ainda mais nós, que estamos o tempo todo falando sobre um outro conceito, o de gênero. Foi nisso que fiquei pensando quando vi o caso que e, talvez por isso eu saia um pouco do assunto proposto pela blogagem coletiva.

É importante para nós, feministas, nos vermos frente a situações que expõe um tipo de relação social que não é a de gênero. Uma mulher atropela outra e sai impune. A impunidade é legitimada pela profissão da que atropelou. A atropelada tem que voltar a trabalhar ainda com dores e nem tem motivação para processar a que a atropelou. Porque tem medo, sabe que vai dar um trabalhão e pode não dar em nada. É fácil, as vezes, pensarmos o que uma pessoa tem que fazer nessa situação. Mas não fui eu que tive que ir fazer uma faxina ainda cheia de dores no corpo.

Fico aqui pensando no que uma e outra tem em comum, como mulheres. Devem ser mães, com certeza já sofreram alguma discriminação por serem mulheres, podem ter sido vítimas de violência doméstica, podem ter feito um aborto — uma pagando caro em uma clinica da zona sul do rio, outra de outra forma mais barata. Uma deve ter empregada doméstica. Outra é empregada doméstica.

Sem dúvida as nossas lutas como mulheres pelo fim da violência, pelo direito ao aborto legal e seguro, pelo direito a viver livremente nossa sexualidade, pelo fim das discriminações e contra a mercantilização do nosso corpo são comuns a todas. Porém, não é possível pra apagar isso que é gritante na sociedade brasileira, que marca as relações sociais e o Estado: a desigualdade.

Entre homens e mulheres, brancos/as e negros/as, rico/as e pobres. A Daniele Kergoat e a Helena Hirata chamam a combinação desses elementos de coextensividade ou consubstancialidade das relações de gênero, classe e raça. Não é que um ou outro elemento define o que é a relação, mas explica um sistema em que tudo está imbricado.

[+] Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais por Daniele Kergoat.

Não conseguimos alterar um aspecto da desigualdade se não muda os outros. Não dá para gente falar em igualdade pras mulheres em um mundo com pobreza e exploração, porque enquanto uma pequena parcela de mulheres está entre as camadas exploradoras, a imensa maioria tá sendo explorada para garantir o bem estar dos ricos. Não dá pra falar em igualdade para as mulheres se as brancas tem privilégios sobre as negras, por sua cor.

E as mudanças não são automáticas, que nem tem gente na esquerda que ainda não aprendeu com a história e insiste em dizer: “a gente acaba com o capitalismo e depois vê o que faz com o patriarcado”. Não dá para ser ingênua do ponto de vista do feminismo, achando que dá para ter igualdade e liberdade para todas as mulheres nos marcos de um mundo capitalista e racista. Tem que pensar as estratégias para combater todos os elementos que compõem a dominação, opressão e desigualdade.

Se a gente não olha para esse aspecto central das relações sociais do nosso presente, vamos fazer um feminismo distorcido, para pouquíssimas, que não é um projeto diferente de futuro.

“Ou a igualdade é para todas, ou não é igualdade” . Essa frase é das feministas espanholas e diz tudo.

Este post faz parte da blogagem coletiva pelo fim da impunidade proposta pela Renata Correa.

[+] Inimputáveis. Texto de Renata Correa.

[+] Das Promessas. Textos de Camilla Magalhães.

[+] Lucimar, mais uma vítima da impunidade. Texto da Srta. Bia.

Mercado de trabalho: o que pode mudar?

Este é um post coletivo, feito a partir de reflexões dentro do nosso grupo, principalmente com idéias e falas da Iara e da Cecília, colocado em texto por Bia Cardoso e pela Barbara Lopes. A Thayz já fez um post bem bacana sobre A Mulher e o Mercado de Trabalho. Porém, sempre há o que falar.

No Parlamento Europeu, deputadas levam seus bebês para o local de trabalho. À esquerda, a deputada italiana Licia Ronzulli. À direita, a deputada dinamarquesa Hanne Dahl. Fotos de Vincent Kessler/Reuters.

O feminismo é um movimento que não se limita a lutar por melhores salários para as mulheres, mas também quer influenciar e modificar a realidade do mercado de trabalho que temos atualmente. Um mercado que foca nos indivíduos e não apóia mães e pais que precisam dedicar tempo a seus filhos.

Para a mulher sempre existiu a questão: “filhos ou carreira?” Como se as duas coisas não pudessem caminhar juntas. Como se fosse necessário fazer uma escolha entre ser uma boa mãe ou não. E quando vemos mulheres-mães saindo de um emprego formal para montar um negócio próprio com o objetivo de ter mais tempo para ficar com seus filhos, notamos como as coisas estão erradas. Pois, nem todo mundo pode sair de um trabalho, nem todo mundo pode abrir um negócio próprio e fazer seus próprios horários. E ninguém no mercado de trabalho parece pensar com quem fica a filha ou filho dessa pessoa, como irá crescer e se desenvolver.

Qualquer mudança, tanto no mercado de trabalho, como na sociedade, vai ser difícil enquanto pais e mães não forem implicados. Porque se a licença-paternidade for curta como é atualmente, passando a clara mensagem que o papel do pai é buscar mãe e bebê na maternidade, registrar a criança e voltar ao seu papel de provedor, fica muito fácil para as empresas justificarem sua discriminação com motivações da lógica capitalista.

Porém, se os homens tivessem uma licença obrigatória tão impactante pro mercado quanto a das mulheres, ninguém discriminaria mulheres por conta disso. Seria um custo alto paras empresas e a previdência? Claro que sim. Mas a sociedade precisa entender que, se querem prosperar, se querem dali a 25 anos ter gente preparada no mercado, o investimento em educação começa agora.

Imaginem se no Brasil o período de licença fosse de 3 meses para cada um? Os 3 meses iniciais para as mulheres, por conta do parto, depois 3 meses para os homens. Sabemos que muitos homens não iriam cuidar de seus filhos, iriam terceirizar o trabalho deixando com uma babá ou com a mãe/sogra. Muitas mulheres parariam de trabalhar por não confiarem na capacidade de seus companheiros, mas seria revolucionário. Porque as empresas seriam obrigadas a dar licença, então, não teriam porque não contratarem mulheres. E alguns pais que hoje se acomodam no papel social de provedor se dedicariam mais a trocar fraldas sim, porque não? Sabemos que ninguém vira pai presente por decreto, mas muitas mudanças de mentalidade dependem mesmo de estímulos externos.

Sabemos que licença maternidade, creche na “firma”, e outros benefícios são vistos como “benefícios para as mulheres”. E acabam sendo, mas é porque a mentalidade está errada. Fica parecendo que mulheres inventam de ter filho, que a criança é só um capricho. Que somos nós mulheres que demandamos políticas especiais, benefícios extras. Crianças são feitas pelo casal e são futuros cidadãos. Então, qualquer política, seja pública ou privada, que beneficie o cuidado com as crianças é para a sociedade, não apenas para as mulheres.

A mudança de mentalidade vai demorar. Com a precarização dos contratos de trabalho, muitas empresas sequer reconhecem os direitos já estabelecidos. Propostas de pagamento de apenas metade do salário durante o período da licença-maternidade não são raridade. Mesmo assim, é preciso lançar as idéias. As famílias já não são mais as mesmas. Atualmente possuem diferentes configurações que não são necessariamente as tradicionais, tipo pai e mãe, filhinho, filhinha e cachorro golden retriever.

A existência de uma rede social de proteção à mulher que é mãe e trabalha também é importante para muitas mulheres poderem se libertar de um relacionamento opressor. Porém, nada impede um homem de se afastar do trabalho pra cuidar do filho que ele teve com uma namorada. Ou com a ex-mulher. Não precisa morar na mesma casa para ser pai. A rede social de benefícios existente atualmente ajuda a mulher, mas ajuda porque socialmente aceitamos que é a mãe a principal responsável pela criança, logo ela precisa desse apoio pra poder dar conta de outras coisas.

Não fosse assim, o modelo, fosse a cobrança social sobre ambos, pai e mãe, igual, íamos dizer que são benefícios para a família, não para a mulher. Então, lutemos para que a mulher não tenha que escolher entre “filhos ou carreira?” mas sim: “quando devo voltar ao trabalho?” “quais tarefas posso dividir com o pai do meu filho?” “o que a sociedade pode fazer para que as crianças tenham acesso a educação?”

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Este post faz parte da Blogagem Coletiva “Mulher no Mercado de Trabalho”, organizada pela Carolina Pombo do What Mommy Needs.

Pelo fim da violência contra a mulher