Cadê o nosso direito de ir e vir?

Texto de Karolyne Leandra Melo para as Blogueiras Feministas.

Bom, quero compartilhar uma experiência que sem querer tive essa semana. Estava eu olhando umas fotos antigas e percebi que mudei muito o meu modo de vestir, principalmente os tipos blusas. Durante os anos realmente não sabia o porque de ter mudado, pois gostava tanto das minhas roupas. Hoje compreendi que mudei meu vestuário de modo inconsciente para minha segurança. Irei explicar.

Atualmente, visto blusas largas, quase 3 vezes maior quando comparadas as que eu usava a 4 anos atrás, pois tenho seios grandes que infelizmente chamam muita atenção. No inicio dessa semana, voltando do curso de jaleco e calça a caminho do meu ponto de ônibus, avisto um bar próximo com dois homens bebendo sua cerva. Passei por ali, comprei algumas balas nem notaram minha presença.

Dois dias depois, passei no mesmo local usando uma regata e calça, acompanhada de um amigo. Vi os mesmos caras e percebi que eles me olhavam, quando eu olhava de relance os mesmos fingiam voltar a conversar. No dia seguinte, me vesti da mesma maneira que no inicio da semana, passando em paz despercebida a caminho do meu ponto.

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O machismo que você finge não ver. Por que um assovio para uma mulher na rua não é encarado como machismo?

Texto de Jessica Tomé para as Blogueiras Feministas.

Bom, primeiramente é necessário entender que o machismo é um sistema opressor de mulheres, não tem nada a ver com virilidade e masculinidade, mas sim com violência e abuso através de atitudes ou opiniões que menosprezam o sexo feminino de alguma forma. Entendido isso vem a resposta da pergunta.

Muitos homens e algumas mulheres (infelizmente) não veem o ato do assovio, do “elogio” para desconhecidas como um ato machista. Homens até mesmo comparam a realidade de mulheres com a realidade deles para descaracterizar o ato machista e apenas citar falta de respeito com ser humano. Bom, vamos lá então comparar realidades:

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Assédio continua sendo ignorado como violência

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Nas últimas semanas, a mídia noticiou alguns casos de assédio envolvendo o uso de dados privados de mulheres, clientes de serviços de táxi e operadoras de tv a cabo. No primeiro caso, várias mulheres reclamaram do assédio que sofrem de alguns taxistas depois que usam aplicativos pelo celular. No segundo, a jornalista Ana Prado atendeu uma ligação da NET pela manhã oferecendo uma promoção. Mais tarde, recebeu mensagens privadas via Whatsapp de uma pessoa que se identificava como o mesmo atendente que havia telefonado mais cedo.

Em ambos os casos há o uso de dados privados por parte de funcionários das prestadoras de serviço. As matérias veiculadas na mídia, como a exibida pelo SP TV: Clientes de operadora de TV e aplicativo de taxi denunciam assédio; reprovam o assédio, mas o caracterizam como um “susto” ou “mais um dos problemas relacionados a falta de segurança desses dados” e focam no quanto os clientes dessas empresas correm risco de serem roubados ou sofrerem algum golpe.

Com certeza, como diz Ana Prado na reportagem, é preciso transparência em relação ao uso e o acesso aos dados pessoais de clientes, assim como fiscalização e responsabilidade. O funcionário que assediou Ana foi demitido. A empresa do aplicativo de táxi anunciou mudanças no produto para barrar o acesso ao número dos clientes. Porém, o assédio continua sendo algo socialmente aceito. Porque esses homens nem mesmo tem receio de enviar uma mensagem de texto, não pensam que estão gerando uma prova contra eles mesmos.

Movimento social "Mulheres em Luta" fez "grafitaço" para apagar nomes de meninas expostos na lista das "mais vadias" que circula em escolas de São Paulo. As ativistas sofreram represálias após o grafitaço. E moradores pintaram algumas artes. Cerca de 30% dos trabalhos já foram apagados. Foto de Daia Oliver/R7.
Movimento social Mulheres em Luta fez “grafitaço” para apagar nomes de meninas expostos na lista das “mais vadias” que circula em escolas de São Paulo. As ativistas sofreram represálias após o grafitaço. E moradores pintaram algumas artes. Cerca de 30% dos trabalhos já foram apagados. Foto de Daia Oliver/R7.

Muitas pessoas acham que o assédio dessa maneira é apenas uma coisa boba, que pode ser ignorada, mas ele faz parte da estrutura de pequenos abusos de poder que temos na sociedade e recai especialmente sobre as mulheres. A ideia de que o assédio deveria ser encarado como um “elogio”, já que a pessoa está sendo assediada porque outra acha que ela tem boas qualidades (beleza, voz, etc.) mostra o quanto as mulheres estão vulneráveis a violência tanto nos espaços públicos como nos meios virtuais.

Tanto na mídia como entre as pessoas, o assédio ainda é visto como “cantada”, como algo inofensivo. E, há muitas mulheres que defendem esse tipo de abordagem, alegando que ela faz bem para a autoestima. Porém, desde que a Campanha Chega de Fiu-Fiu do Think Olga publicou seus resultados, percebe-se que há um incômodo grande entre as mulheres e isso não pode ser ignorado.

Questionar o assédio não significa estabelecer o fim das interações sociais entre as pessoas, significa repensar práticas machistas que muitas vezes causam constrangimento e abrem precedentes para outras formas de violência contra as mulheres. Afinal, dificilmente conhecemos um lindo caso de amor que começou com um homem dizendo para uma mulher: “quero te chupar todinha”. Como diz Iara Paiva no texto Assédio verbal e a pesquisa “Chega de fiu-fiu”:

“a possibilidade de agradar a um grupo, seja maioria ou minoria, não deveria justificar o constragimento de todas as outras. Obrigar todas as mulheres a ouvirem gracejos porque eventualmente algumas podem gostar não faz sentido.” (…)

“Qualquer aproximação deve considerar que as mulheres são sujeitos de sua sexualidade e livres pra corresponder ou não às investidas. E caso não correspondam, não devem ser constrangidas por isso. Insinuações sexuais gratuitas são constrangedoras para imensa maioria das pessoas. Aproximações aparentemente bem educadas podem se tornar muito invasivas e desconfortáveis quando o suposto moço bem intencionado é insistente. E elogios não deveriam ser impostos. Ser chamada de “linda” por um estranho quando estamos andando em uma rua escura soa mais ameaçador do que lisonjeiro”.

Um recente texto no Buzzfeed Brasil mostra que em dois anos os comentários em notícias sobre estupro publicados nos grandes portais continuam os mesmos, culpabilizando as mulheres pela violência que sofreram: Comentários em notícias sobre estupro mostram como o problema é grave no Brasil.

Essa ideia de que a mulher provoca e o homem é um ser irracional quando o assunto é sexo, colabora para que a violência contra a mulher continue sendo um dos maiores problemas que temos. Em pleno 2015, ser chamada de “vadia” ainda é uma marca social muito negativa, as mulheres não tem liberdade para vivenciar sua sexualidade e, quanto mais jovens mais a violência as afeta, como mostra o caso da listas “TOP 10 Mais Vadias” que tem circulado entre alunos das escolas de São Paulo e provocado o abandono de estudos e até tentativas de suicídio de meninas com 12 anos.

Num momento em que temos órgãos legislativos conservadores que barram a questão de gênero nos planos de educação propostos pelos governos, vemos os casos de violência sexual acontecerem em espaços considerados seguros, como no recente estupro de uma menina de 12 anos por três colegas em uma escola de São Paulo, e do aumento do compartilhamento sem permissão de imagens íntimas em redes sociais, especialmente entre os jovens.

Vemos ainda cristalizada na sociedade a ideia atrasada e sem sentido de que não falar sobre sexo e violência com crianças e adolescentes nas escolas irá afastá-los disso. Porém, a falta de debate e reflexão só tem provocado mais violência. Questões de gênero e educação sexual não podem ser excluídas da vivência de crianças e adolescentes. Portanto, quanto mais falarmos sobre o assunto melhor.

Para muitas pessoas pode soar absurdo dizer que um assobio na rua pode estar relacionado a um estupro coletivo. Porém, a violência sexual e o assédio contra as mulheres não são elementos isolados, fazem parte de uma estrutura que enxerga as mulheres sem autonomia sobre seus corpos e sua sexualidade.

Violência sempre é uma demonstração de poder. De quem pode abordar outra pessoa sem permissão, ignorando seu consentimento, sua situação no momento, em prol de um desejo que não quer ser correspondido, quer apenas ser exercido. Então, a mesma violência social aceita e corroborada no assédio as mulheres também se reflete em casos extremos como no recente estupro coletivo de três adolescentes numa cidade do Piauí. Assédio é violência e isso não pode continuar sendo ignorado.

Campanha para ajudar as vítimas de estupro do Piauí

Amigos e familiares das quatro meninas violentadas encabeçam uma campanha para arrecadar dinheiro para o tratamento das garotas que permanecem internadas nos hospitais. Intitulada “Flores para Elas”, a iniciativa já está sendo divulgada nas redes sociais. A intenção é ajudá-las financeiramente e psicologicamente.

+ Sobre o assunto:

Eu, mulher negra e o assédio de rua. Por Stephanie Ribeiro na Imprensa Feminista

Listadas como vadias, punidas por serem mulheres. Por Jarid Arraes no Questão de Gênero.

O peso da palavra “vadia” ainda mata mulheres. Por Bia Cardoso no Biscate Social Club.